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Passados que estão os prazeres de Setembro, de que aqui dei conta, restam recordações avivadas com este poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o Sábio.

 

Era manhã de setembro

e

 ela me beijava o membro

 

Aviões e nuvens passavam

coros negros rebramiam

ela me beijava o membro

 

O meu tempo de menino

o meu tempo ainda futuro

cruzados floriam junto

 

Ela me beijava o membro

 

Um passarinho cantava,

bem dentro da árvore, dentro

da terra, de mim, da morte

 

Morte e primavera em rama

disputavam-se a água clara

água que dobrava a sede

 

Ela me beijando o membro

 

Tudo o que eu tivera sido

quanto me fora defeso

já não formava sentido

 

Somente rosa crispada

o talo ardente, uma flama

aquele êxtase na grama

 

Ela a me beijar o membro

 

Dos beijos era o mais casto

na pureza despojada

que é própria das coisas dadas

 

Nem era preito de escrava

enrodilhada na sombra

mas presente de rainha

 

tornando-se coisa minha

circulando-me no sangue

e doce e lento e erradio

 

como beijara uma santa

no mais divino transporte

e num solene arrepio

 

beijava beijava o membro

 

Pensando nos outros homens

eu tinha pena de todos

aprisionados no mundo

 

Meu império se estendia

por toda a praia deserta

e a cada sentido alerta

 

Ela me beijava o membro

 

O capítulo do ser

o mistério de existir

o desencontro de amar

 

eram tudo ondas caladas

morrendo num cais longínquo

e uma cidade se erguia

 

radiante de pedrarias

e de ódios apaziguados

e o espasmo vinha na brisa

 

para consigo furtar-me

se antes não me desfolhava

como um cabelo se alisa

 

e me tornava disperso

todo em circulos concêntricos

na fumaça do universo

 

Beijava o membro

beijava

e se morria beijando

a renascer em setembro

 

 

 

Nota final

O poema foi publicado em O amor natural, recolha de poesia erótica, editada postumamente por indicação do poeta, em 1992 no Brasil e em 1993 em Portugal em edição Europa-América com ilustrações de Clementina Cabral. Terá existido em vida do poeta uma edição particular em 1981. No Brasil o livro vai, ao que suponho, em 18ª edição.

Nada de semelhante terá alguma vez um grande poeta português aceitado publicar – 40 poemas eróticos onde a obscenidade está ausente, e as práticas do amor são exaltadas sem véus de falso pudor. Não serão capazes de os escrever?

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