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 I

Fatigados de esperar o previsto,

um desejo, o outono, a morte,

passamos a aguardar o imprevisto.

 

E assim como nunca importou demasiado

que o previsto chegasse ou não chegasse,

agora também não importa demasiado

que o imprevisto venha ou não venha.

 

Muito mais que o objecto

ou a ansiedade da nossa espera,

o que importa é a mudança

do nosso sentido de esperar,

essa mudança que pouco a pouco leva a outra espera,

para além do previsto e do imprevisto,

a espera desinteressada de toda a forma de espera.

 

II

Hoje dói-me pensar,

dói-me a mão com que escrevo,

dói-me a palavra que ontem disse

e também a que não disse,

dói-me o mundo.

 

Há dias que são como espaços preparados

para que tudo doa.

 

Só deus não me dói hoje.

Será porque hoje ele não existe?

 

 

Os poemas transcritos são do poeta argentino Roberto Juarroz (1925-1995) e a tradução é de Arnaldo Saraiva.

Hoje dói-me pensar, e por isso voltarei a este artigo noutro dia para de forma circunstanciada dar conta do meu espanto e admiração por esta poesia onde encontramos “sucessivos voos rasantes ou mergulhos arriscados (a pique) sobre os enigmas, os limites e as contradições da condição e da comunicação humana”, para usar as palavras do tradutor.

Os poemas traduzidos encontram-se no livro de Roberto Juarroz, POESIA VERTICAL – Antologia, tradução e notas de Arnaldo Saraiva, edição Campo das Letras, 1998.

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