Eugénio de Andrade — nunca o amor foi fácil, nunca

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É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá o nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. …

 

Do anúncio da paixão à sua consumação, escolho quatro poemas de Eugénio de Andrade (1923-2005) para ilustrar o erotismo velado que percorre a poesia portuguesa do século XX e em tempos referi a pretexto do poema Metafísica de Adolfo Casais Monteiro.

Nestes poemas Eugénio de Andrade fala da paixão com uma tocante arte da palavra escrita. Na obsessiva limitação do léxico faz maravilhas:

 

Talvez nem tenha nome.

Anunciado só pelo frémito

da folhagem.

O riso invisível, o grito

de um pássaro, o escuro

da voz. …

 

Anunciada a chegada do amor, a sua consumação é contada com a economia, elegância, e emoção constantes na sua poesia:

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme, …

 

 

Eis os poemas antes citados:

 

Talvez

 

Talvez nem tenha nome.

Anunciado só pelo frémito

da folhagem.

O riso invisível, o grito

de um pássaro, o escuro

da voz. Certa doçura,

certa violência.

O espesso, volúvel

tecido da noite agora a roçar

o corpo da água. E por fim

a muito lenta paixão

do fogo, sufocada.

Era o verão.

 

in O Sal da Língua, 1995

 

 

Da Maneira Mais Simples

 

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá o nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples:

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 

in Os Sulcos da Sede, 2001.

 

 

Poema 25

 

Cala-te, a luz arde entre os lábios

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

esta perna é tua?, é teu este braço?

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.

 

in Matéria Solar, 1980.

 

 

Poemas sem que o género dos protagonistas se explicite, ganham uma capacidade universal de falar ao coração das gentes, aflorando um erotismo de que Vaguíssimo retrato, com que termino esta volta, é um paradigma:

 

Vaguíssimo retrato

 

Levar-te à boca:

beber a água

mais funda do teu ser…

Se a luz é tanta

— como se pode morrer?

 

in Obscuro Domínio, 1971.

 

Poemas transcritos de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto Editora, lda, V.N.Gaia, 2011.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Heinrich Hoerle (1895-1936), Rapariga melancólica, de 1930.

É fácil imaginar esta rapariga leitora de poesia, sonhadora com os frémitos da paixão, e melancólica na expectativa da sua espera.

Alguns poemas de Yosa Buson

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Na infinita variedade poética do haiku japonês, apesar da recorrência dos assuntos, lê-los é sempre um convite à tranquilidade de alma e serenidade do viver:

*

Passeando

cheguei ao fim

do último dia de primavera

 

Encontramos quase sempre em cada poema sentidos múltiplos de leitura. No poema anterior, por exemplo, à tranquilidade com que a vida decorreu associada ao passeando, podemos também ler, tomando primavera como metáfora de juventude, com esta já chegou ao fim e vivê-la foi um tempo agradável.

 

A constância na repetição cíclica de que a natureza dá mostras, e a forma como os homens com ela convivem, salpicados aqui e ali pela realidade social, são a matéria primeira da mão-cheia de haikai de Yosa Buson (1716-1784) que em tempo transpus para português a partir de traduções inglesas, e hoje trago ao blog.

 

Poemas

 

*

Passeando

cheguei ao fim

do último dia de primavera

217

 

*

Os dias vão aumentando

e o passado

cada vez mais longe

116/983

 

*

Ah, que prazer

atravessar um ribeiro no verão

sandálias na mão

318/960

 

*

Trouxe a melancolia do meu coração

ao cimo da colina

para as rosas silvestres em flor

327

 

*

Enquanto contemplo as flores o sol põe-se

estou longe de casa

o caminho continua pelo campo

177

 

*

Ainda há pouco

o vento sussurrava no arroz selvagem

agora está numa fúria invernal

762

 

*

Pereiras em flor

uma mulher lê uma carta

ao luar

205

 

*

Jovem chorão 

devo chamar-te árvore ou erva

deixemos o Imperador dizer

13

 

*

Três tigelas de guisado

e afinal

sentes-te rico

3

 

*

Camponeses lavram os campos

sob os cartazes

anunciadores de novas leis

111

 

Versões de Carlos Mendonça Lopes a partir de traduções inglesas nas edições seguintes:

(1) W. S. Merwin e Takako Lento, Collected Haiku of Yosa Buson, Copper Canyon Press, Washington, 2013.

(2) Traditional Japanese Poetry, translated, with ao introduction, by Steven D. Carter, Stanford University Press, 1991.

A numeração que segue os poemas identifica-os nas edições referidas.

Abre o artigo a imagem de uma gravura de Hokusai (1760-1849), uma das 36 vistas do Monte Fuji, a vista 21.

 

Bem me cuidei eu, Maria Garcia — um poema de Afonso Eanes do Cotom

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Surpreender hábitos e mentalidades são um dos atractivos dos cancioneiros antigos. E estes são cheios de revelações inesperadas. O título do artigo, primeiro verso do poema transcrito abaixo, e nome do poeta a seguir, não dá conta da surpresa que espera o leitor que continuar a leitura. É ele um singular poema do cancioneiro galaico-português onde o poeta reclama de não ter recebido paga depois de ter fodido uma Maria Garcia:

 

Bem acreditei, Maria Garcia

no outro dia, quando vos fodi,

que de vós não partiria

como parti, com a mão vazia,

apesar do serviço que vos fiz;

 

Ao ler estes versos poderíamos pensar tratar o poema de prostituição masculina ao referir o acto sexual como um serviço. É assim mas com nuances. Ganhamos uma ideia mais precisa destes comportamentos, digamos comerciais, à volta do sexo na idade média, ao ler o fabliaux Le Fouteur (O Fodedor) que outro dia aqui trarei. Este fodedor francês não se sentiu enganado, contrariamente ao protagonista do poema de hoje, porque exigiu o pagamento antecipado dos seus serviços, o que o nosso homem diz que em próxima ocasião também fará. 

Embora a prostituição seja antiga como a humanidade, e dela a poesia dê conta pelos tempos fora, quando masculina é invulgar o seu tratamento poético. E é certamente abusivo qualificar para esta época, e com a carga moral de hoje, prostituto um indivíduo cujo comportamento sexual, lendo só a estrofe citada, assim se poderia chamar nos nossos dias. Acontece que à época este comportamento não tinha associada a carga moral negativa dos nossos dias ainda que os seus praticantes pudessem incluir-se entre extractos mais baixos da sociedade. Ele integrava, e era parte, da imutável ordem natural do mundo, criado por Deus na sua infinita e inquestionável perfeição, e caberia num quadro de costumes aceite, como o poema refere a terminar:

E, dona minha, quem pergunta não erra

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

 

No entanto, e mais à frente, se verá quanto de comum há entre o resto desta reflexão em torno do relato factual, e tanta experiência pessoal hoje.

Entretanto, continuando a leitura do poema, ficamos a saber que o valor esperado pelo serviço não seria sequer significativo:

pois não me destes, segundo se diz, / nem um soldo para jantar um dia. / …, o que leva o nosso homem a dizer o que afinal é uma experiência intemporal:

… não mais foder uma mulher

se antes algo na mão me não puser

pois não tenho porque foder de graça;

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

 

Entra aqui o que insinuei antes, e é um dos aspectos perenes da relação sexual entre indivíduos: a contabilidade do dar e receber e, por vezes, a dependência económica que mantém uma ligação quando qualquer afecto ou estima desapareceu, o que de forma lapidar o poema específica, como vimos acima,

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

e prossegue:

Como não me vestiste nem calçaste 

nem eu habito no vosso casal;

nem tendes por mim poder tal

pra que vos foda, sem que me pagueis

antes muito bem; e mais vos eu direi:

nenhum medo, graças a Deus e el-Rei,

tenho da força que sobre mim façais.

 

Chegamos agora ao fim do poema com a lição que a vida todos os dias dá, a saber, as razões para as relações sexuaispor dinheiro ou por amor

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

 

 

O poeta, Afonso Eanes do Cotom, autor de 19 poemas conhecidos, terá nascido na Galiza, e vivido no século XIII. O poema transcrito consta dos Cancioneiros da Biblioteca Nacional, (B 1588) e Biblioteca Vaticana (V1120).

Encontra o leitor a seguir uma minha versão do poema em português moderno, a qual entretanto citei no corpo do texto, procurando explicitar o sentido escondido de algumas expressões em desuso, para facilitar a sua inteligibilidade. Adoptei na tradução modernizada o que é uma prática comum na abundante edição francesa de poesia medieval, nomeadamente na colecção Lettres Gothiques da editora Le Livre de Poche.

Segue-se o texto do poema na língua original. A transcrição a partir dos manuscritos suscita dúvidas entre os especialista na expressão final — Rei en’a terra. ou renda na terra. — e escolhi a primeira.

 

 

Afonso Eanes do Cotom — [Bem acreditei, Maria Garcia]

 

Tradução modernizada em português 

 

Bem acreditei, Maria Garcia

no outro dia, quando vos fodi,

que de vós não partiria

como parti, com a mão vazia,

apesar do serviço que vos fiz;

pois não me destes, segundo se diz,

nem um soldo para jantar um dia.

 

Pois desta ficarei escarmentado (*)

para não mais foder uma mulher

se antes algo na mão me não puser

pois não tenho porque foder de graça;

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

 

Como não me vestiste nem calçaste 

nem eu habito no vosso casal;

nem tendes por mim poder tal

pra que vos foda, sem que me pagueis

antes muito bem; e mais vos eu direi:

nenhum medo, graças a Deus e el-Rei,

tenho da força que sobre mim façais.

 

E, dona minha, quem pergunta não erra

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

Ide tratar da vossa vida, senhor, (**)

que ainda há, graças a Deus, justiça na terra,

 

(*) Pois desta aprendi a lição.

(**) invariante antiga para senhor e senhora. Conservei a forma antiga para preservar a rima.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

 

 

Afonso Eanes do Cotom — [Bem me cuidei eu, Maria Garcia]

 

Original do poema

 

Bem me cuidei eu, Maria Garcia,

no outro dia, quando vos fodi,

que me nom partiss’eu de vós assi

como me parti já, mão vazia,

vel por serviço muito que vos fiz;

que me nom destes, como x’homem diz,

sequer um soldo que ceass’um dia.

 

Mais desta serei eu escarmentado:

de nunca foder já outra tal mulher

se m’ant’algo na mão não poser,

ca nom hei porque foda endoado;

e vós, se assi queredes foder,

sabedes como: ide-o fazer

com quem teverdes visti’e calçado.

 

Cá me nom vistides nem calçades

nem ar sej’eu en’o vosso casal;

nem havedes sobre mim poder tal

por que vos foda, se me nom pagades 

ante mui bem; e mais vos eu direi:

nulho medo, grado a Deus e a el-Rei,

nom hei de força que me vós façades.

 

E, mia dona, quem pergunta nom erra

— e vós, por Deus, mandade perguntar

polos naturaes deste lugar

se foderam nunca em paz nem em guerra,

ergo se foi por alg’ou por amor,

Id’adubar vossa prol, aí, senhor,

c’havedes, grad’a Deus, Rei en’a terra.

 

Cancioneiro da Biblioteca Nacional, 1588; Cancioneiro da Vaticana 1120.

 

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da iluminura para o mês de Fevereiro do manuscrito iluminado Les Tres Riches Heures du Duc du Berry pelos irmãos Limbourg.

Neste pormenor o artista mostra-nos um grupo de jovens camponeses, um rapaz e duas raparigas. Forçados a uma pausa nos trabalhos do campo pelo inverno, aproveitam-na ao que parece, para dar satisfação aos desejos imperiosos do corpo. Pelo menos é o que pode deduzir-se do cenário e dos gestos dos personagens. À esquerda, com uma cama em fundo, um casal, genitais à vista, apresta-se à função. Com gestos de mãos parecem querer acalmar na sua pressa a rapariga que no exterior faz o gesto de levantar as saias. 

Imagino que aqui não se tratará de dinheiro ou de amor a justificar a actividade adivinhada, como o poeta pretende que sempre acontece, mas apenas do irreprimível impulso da espécie.

Um poema de Lev Loseff

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É de um mundo desolado e sem vida que fala o poema sem título de Lev Loseff (1937-2009) de que à frente dou uma minha versão em português a partir da sua edição em inglês.

Lev Loseff, conhecido sobretudo pela publicação de um ensaio sobre vida e a obra do poeta e prémio Nobel Josef Brodsky (1940-1996), de quem foi amigo de uma vida, é autor de uma poesia complexa, dando conta da sua Rússia natal tanto em alusões literárias, como em quadros de paisagem e atmosfera social. Tudo isso encontramos no poema de hoje.

Do mundo soviético e pós-soviético, no que à poesia respeita, é escasso o conhecimento em Portugal. E, no entanto, a poesia abunda original e variada, tanto quanto consigo aperceber em edições inglesas ou francesas. Se entre as gerações criadas no mundo pós-1989 a aproximação poética aos valores, experiências, e modos de sentir e pensar no ocidente euro-americano, são uma constante, para as gerações anteriores, cuja poesia foi tantas vezes clandestina, é o mundo da sociedade sem horizontes, envolto no nevoeiro que a amortalha, como escreve o poeta a pretexto da sua cidade natal, o que recorrentemente se encontra. Neste poema sem título, lemos esse mundo fantasmal, de vida ausente, e esperança nula, onde … a neve permanece solidamente gelada.

Poema

 

Sem Título

 

A minha cidade natal não tem nome;

o nevoeiro que a amortalha permanece o mesmo —

o seu branco de leite desnatado por todo lado.

Os lábios hesitam em falar alto abertamente

daquele que três vezes negou o Senhor,

ainda que se conte entre o sagrado.

 

E como é chamado o meu país, dizeis.

Porquê a obsessão com estes nomes?

— A terra de onde venho, camarada,

é onde nenhuma estrada conduz a Roma,

e onde o céu é fumo e vapor

e a neve permanece solidamente gelada.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir do poema em inglês publicado no livro As I Said, Arc Publications, 2012.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Des Herbstes Runengespinst, 2006, inspirada pela poesia de Paul Celan, e aqui iluminando a desolada matéria do poema.

 

Artemidoro — poema de Jorge de Sena

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O poema Artemidoro de Jorge de Sena (1919-1978) leva-nos por uma densa e intensa meditação sobre a história e o devir: o homem, indivíduo na sua singularidade, e a parte de uma humanidade que culturalmente o identifica:

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

 

O sentimento do passado nos artefactos herdados permite a viagem cultural que nos faz ir ao encontro das raízes de ser quem somos, e neste poema Jorge de Sena exercita de forma fulgurante:

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

O saber quem somos e a que mundo pertencemos enquanto vivemos não altera a finitude que nos caracteriza e inevitavelmente chegará. Neste poema, no artefacto artístico de um rosto pintado que acompanha a múmia de um desconhecido agora entregue ao pó dos corredores do museu Britânico e à curiosidade de algum visitante, ou à meditação filosófico-poética que hoje transcrevo, se consubstancia esse efémero que trazemos em nós, ou parafraseando o poeta: desaparecer serenamente, enquanto quem fomos se perde depressa nas memórias humanas que habitámos.

 

 

ARTEMIDORO

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

A múmia que ficou de ti (só ressequida pele

rasgada aqui e ali, mostrando os ossos

por onde as sujas ligaduras se soltaram)

não se distingue das outras na fileira

envidraçada em que há decénios pó,

um fino pó, será de ti ou Londres.

Importa o teu caixão, ou mais, a tampa

em que, segundo os usos do teu tempo,

um pintor cujo ofício principal seria

retratar os mortos te compôs um rosto.

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

Possível é também que esse retrato fosse

menos que tua máscara um rosto

que se escolhia — por ti ou só por eles escolhido

para esse último acto: o de estar morto

de olhos abertos para o que desse e viesse.

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

Artemidoro: Escuta! No silêncio ouves

os “buses” que passam, a gralhada que

em salas mais curiosas visitantes fazem.

Que mais escutarás com esses olhos que ouvem

atentamente os breves estalidos que o eterno,

como o romper da aurora nas estátuas,

provoca em nós e em nossas coisas, fissurando

a pouco e pouco a carne, a pele, os ossos, tudo

o que de deuses palpita e ressuscita em nós,

e em que talvez, sereno mercador, nem mesmo acreditasses?

 

Publicado no livro Metamorfoses, e transcrito de Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

Abre o artigo a imagem da urna de Artemidoro pertença do museu Britânico.

 

A vaselina, um epigrama de Apollinaire

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Surpreendi-me um destes dias com um anúncio de televisão a publicitar um lubrificante íntimo dando voz ao que a experiência mostra e tantas vezes é causa de insucesso: a conveniência ocasional de lubrificação quando do acto sexual, e a sua necessidade obvia a partir de certa idade. 

Lubrificantes e o rodar dos tempos levam-me a um epigrama de Apollinaire (1880-1918), A vaselina, que hoje transcrevo em versão de José Paulo Paes.

Retrata o poema uma situação de solicitude frequente de farmacêutico para cliente. O cliente no poema tentou prevenir-se e evitar a eventualidade do recurso à margarina, socorro dos protagonistas no filme O Último Tango em Paris, como talvez algum leitor relembre.

O diálogo captado no poema transporta-me a memória para uma experiência sobre o embaraço farmacêutico perante compras associadas à actividade sexual.

Os tempos nem sempre foram de tanta franqueza pública no que a estas matérias respeita, e se a venda de preservativos está espalhada por todo o lado, na minha juventude era exclusiva de farmácias. E a sua compra motivo de embaraço por vezes. Tendo sentido desconforto com uns preservativos certa vez comprados, fui à farmácia procurar o que me pudesse servir melhor. Chegada a minha vez, fui atendido pela farmacêutica, senhora de alguma idade. Eu, um jovem, e não exactamente embaraçado, perguntei que outros preservativos havia, pois os últimos que ali comprara não me serviam. Corou, pigarreou, abriu uma gaveta, fechou, voltou costas e foi para o interior da farmácia. Voltou o empregado e solicito perguntou-me qual era o problema. Expliquei-lhe com detalhe, Procurou outro fabricante e vendeu-me. Não fiquei muito melhor servido, mas, aparentemente, era o que havia. Felizmente mais tarde a oferta variou e há algum tempo, deparei com uma promoção no supermercado de um tipo que me é especialmente confortável. Peguei nalgumas embalagens e, chegado à caixa, a funcionária, jovem desembaraçada e prazenteira, ao ver as embalagens virou-se para mim e perguntou:

— Onde é a festa? Também posso ir?

— Está desde já convidada, respondi-lhe.

E com o relato deste desembaraço de hoje regresso à farmácia. Desta vez à do poema, com a solicitude do farmacêutico e a impaciência do cliente.

 

A Vaselina

 

Praça da Ópera: por uma farmácia a dentro

Entra um senhor bem-posto feito um pé-de-vento:

“ Estou com pressa”, diz. “Eu quero vaselina.”

Gentil, o boticário indaga o cliente

             Impaciente

          A que uso se destina

          O graxo ingrediente:

“Se for para o rosto, é melhor levar fina…

              Qual?

               Que tal

                     Este artigo

           Que o senhor, sem perigo,

                 Pode usar no rosto?

Eu por mim recomendo sempre a boricada.”

E o cliente, a bufar: “Mas que papagaiada!

Pouco me importa qual, pois é para enrabar!”

 

 

Poema original

 

La vaseline

 

Chez un pharmacien, place de l’Opéra,

Un monsieur fort bien mis en coup de vent entra:

“Vite, dit-il, donnez-moi de la vaseline!”

Le potard, empressé, demande à ce client

           Impatient

        A quel us il destine

        Le gras ingrédient:

“Est-ce pour le visage? Il en faut de la fine…

          En voici

       De ci

       Pure

    Que sur votre figure

  Sans danger vous pouvez l’étaler…

J’en ai de boriquée… et je la recommande…”

Le client, trépignant, répond: “Belle demande!

Je m’en fous bougrement, car c’est pour enculer!”

 

in Poesia Erótica em tradução, Selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, Companhia das Letras, São Paulo, 1993.

 

 

Abre o artigo a imagem de um velho anúncio à vaselina. A cada leitor deixo a associação entre a metalinguagem no anúncio, o texto do artigo, e o assunto do poema.

 

Fernando Pessoa — O peso de haver o mundo

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Aqueles imprecisos nadas que vez por outra nos assaltam, e no seu inesperado criam uma insatisfação do existir, capta Fernando Pessoa (1888-1935) no poema  O peso de haver o mundo. É a sensação de um vago desejo de mudança, de que algo não bate certo na nossa vida, e também não sabemos como ultrapassar…

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Se persiste, torna-se problema, se pontual é tão só um saudável questionar do estável e adquirido, fazendo-nos perguntar: não há mais mundos?

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

No poema, a conhecida incapacidade para a acção que percorre a poesia de Pessoa, dá a dimensão que torna grave a insatisfação continuada:

 

… / Não sei, mas subitamente / Sinto a tristeza de estar / O sonho triste que há rente / Entre sonhar e sonhar.

 

Ao concluir com o verso : Entre sonhar e sonhar temos a medida dessa incapacidade para a acção, quando uma atitude saudável seria: Entre sonhar e agir. Mas aí não seria o poeta a falar, mas filosofia de vida explicitada.

 

 

O peso de haver o mundo

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

Não sei, mas subitamente

Sinto a tristeza de estar

O sonho triste que há rente

Entre sonhar e sonhar.

 

19.05.1932

 

Transcrito de Quadras e Outros Cantares, Editora literária Teresa Sobral Cunha, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Alex Katz (1927), Passing, óleo s/tela de 1962. Pertence à colecção do MOMA de New York.

Este auto-retrato de Alex Katz, lembrando vagamente a figura conhecida de Fernando Pessoa, é em si a imagem mesma desse peso de haver o mundo de que fala o poema.

Pablo Neruda — Ode ao Tempo

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Dei-me folga, e aos leitores, destas conversas com poesia em fundo. Regresso hoje para, o que espero, uma maior assiduidade, lendo Uma Ode ao Tempo por Pablo Neruda (1904-1973).

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

 

Sentir isto é prova de enorme sabedoria. A vida, feita de alegrias e desgostos é o único quadro onde podemos ser felizes. Procurá-la sempre, a felicidade, sem descanso, é o que temos ao nosso alcance. Neste caminho, percorrê-lo quanto possível na companhia de um grande amor é parte imperdível da existência, sabendo quanto 

Nos teus cabelos / enreda o tempo / os seus fios, / mas no meu coração / como uma madressilva / está a tua fragrância, / incandescente como o fogo. / …

 

Quando se ama, o sonho de envelhecer juntos, já antes o escrevi aqui, é o desejo mais belo que pode coroar um grande amor, ou como escreveu Pablo Neruda

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

E se o inexorável avanço do tempo mostra no físico os seus sinais, a fragrância, / incandescente como o fogo. / … que o alimenta está lá para o fazer durar. É esse amor sem idade e para além do efémero da beleza física, A tua idade dentro de ti

crescendo, / a minha idade dentro de mim / andando. / … que surge cantado na Ode ao Tempo de Pablo Neruda que antes citei, e a seguir transcrevo:

 

 

Ode ao Tempo

 

A tua idade dentro de ti

crescendo,

a minha idade dentro de mim

andando.

O tempo é resoluto,

não faz soar o sino,

cresce e caminha

por dentro de nós,

aparece

como um lago profundo

no olhar

e junto às castanhas

queimadas dos teus olhos

um filamento, a pegada

de um minúsculo rio,

uma estrelinha seca

subindo para a tua boca.

Nos teus cabelos

enreda o tempo

os seus fios,

mas no meu coração

como uma madressilva

está a tua fragrância,

incandescente como o fogo.

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

Cada dia

para nós

foi uma pedra transparente,

cada noite uma rosa negra,

e este sulco no meu ou no teu rosto

é uma pedra ou uma flor,

recordação de um relâmpago.

Gastaram-se-me os olhos na tua formosura

mas tu és os meus olhos.

Sob os meus beijos talvez tenha fatigado

os teus seios,

mas todos viram na minha alegria

o teu resplendor secreto.

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

Tradução de Luis Pignatelli

in Odes Elementares, Publicações Om Quixote, Lisboa, 1977.

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de família e que me é especialmente querida. Mostra ela os meus pais durante o namoro, e, como era de regra à época, à janela. Se vivo, o meu pai faria hoje 100 anos. E com a publicação da foto assinalo a efeméride. A minha mãe, lúcida, e moderadamente activa, já passados os noventa anos é o elo da cadeia com quem aprendo o que é envelhecer: os medos, a serena aceitação da progressiva perda de capacidades, e a infinita generosidade; afinal o que justifica estarmos vivos.

 

Marotices num poeta anónimo da Antologia Grega

Como não sou alvo, nem pratico, não faço ideia se os piropos de passagem ainda são de uso numa forma agressiva de alardear masculinidade. Prática antiga tomada como técnica de sedução, as mulheres foram dela o alvo nas circunstâncias mais variadas.

Ao sabor das leituras variadas que me ocupam, encontro numa elegante e galanteadora forma, uma manifestação ancestral dos piropos que não há muitos anos também se praticavam.

Um poeta anónimo incluído na Antologia Grega transmite a uma certamente bela mulher, como os seus seios o desafiam e atraem. Para isso, manifesta o desejo de se mimetizar primeiro no vento, depois em rosa, e finalmente em cítara. Na elegância da forma e conteúdo estamos nos antípodas dos piropos de esquina de rua, frequentemente grosseiros, que a abrir referi. Por isso, para sublinhar a malícia dos epigramas que transcrevo a seguir, no título do artigo escolhi marotices.

 

 

O vento

 

Fosse eu o vento e pudesses tu, chegando a tua casa

de campo, desnudar o peito e receber meu sopro.

 

 

A rosa

 

Fosse eu uma rosa púrpura e que tu, tomando-me nas mãos,

me concedesses a graça dos teus seios de neve!

 

 

A cítara

 

Quando estou ao pé de ti, ó tocadora de cítara, eu queria

ser como tu: tocar de leve ao alto e percutir no meio.

 

Anónimo

Tradução de Albano Martins

in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

 

Nota talvez desnecessária

 

No Brasil não sei se piropo é usado com o significado de galanteio que tem em Portugal. Consultado o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa não o vi referido.

Por outro lado, marotice usa-se no Brasil com o significado de brejeirice que mantém em Portugal. Acresce que após a independência do Brasil, nos estados do Norte, maroto era alcunha de português, a qual não sei se ainda é de uso.

Abre o artigo a imagem de uma criação digital minha a partir de um desenho original que fiz por volta de 2005.

Carlos Mendonça Lopes

Alguns poemas de Célia Moura

Etiquetas

Há um explícito/implícito erotismo em muita da poesia de Célia Moura (1971) que faz mover a imaginação nos territórios onde a palavra cruza o frémito do corpo:

*

Entrego meu corpo

à rebeldia do vento.

Nele me dispo, danço

e descanso.

 

Escolhi para trazer ao blog alguns poemas onde o caminho para a evidência da ideia global se percorre no sinuoso da palavra poética, explosiva e iridiscente, virando faiscante incêndio, quais sejam o poema Promessa transcrito à frente, ou este:

*

Que tuas mãos sejam

o lume que me invade as coxas

e os sentidos.

 

Que eu seja a pele e a loucura

brincando entre os cabelos

dessa tua lucidez

amado!

 

Que para sempre nos percamos

no fluído dos corpos

embriagados de paixão

baloiçando risos e mostos

num alpendre de beijos.

 

in No Hálito De Afrodite

 

 

A recusa total do inócuo pela afirmação explícita do desejo que alimente o corpo e dele vive, é marca de água desta poesia:

*

Faz-me vir de novo

orquídea,

girassol,

deserto

ou todas as palavras

que nunca ousaram

os poemas

para ti

paridos!

 

 

Em todos este poemas, mais de aspiração que de experiência feitos, e que o desejo destila e alimenta, há sempre o outro, o não nomeado ausente, destinatário desta poesia, e esta ocultação é o estímulo que alimenta a imaginação do leitor.

Além da afirmação do desejo satisfeito ou manifestado, há também uma interrogação poética sobre a sua natureza, origem e finalidade, em poemas como [Talvez amanhã alguém] ou O cérebro do mundo:

 

Busco incessantemente o cérebro do mundo,

essa lava que me dói o corpo inteiro

esse caos, essa ordem desordenada

cuja vertigem

se apodera das fêmeas

e da volúpia que trilha caminhos novos.

 

ou ainda no poema que encerra o artigo, No Corpo:

— Porque tudo é tão belo assim Pai e tão triste?!

E não cesso de O questionar, e me zango com Ele

Ainda que O ame ou respeite, nem eu sei…

 

 

Seguem os poemas citados, agora na totalidade. Os poemas sem título abrem com o primeiro verso destacado entre [ ].

 

Promessa

 

E quando finalmente meu corpo

Em Primavera florescer

Para ti

Sequioso de vida

E minhas pernas queimarem o feitiço

Dormente dos teus flancos

Como uma tenaz em brasa

Saboreando odores

Doando néctares como licores,

Numa embriaguez prometida

Rebolando o êxtase da poesia

Nos teus braços

E aí me fizeres morrer

Te fizer morrer

E nos fizermos renascer…

Saberás amor que permanecerei.

 

Serei qualquer estação do ano

E antes que pronuncies meu nome

Te beijarei.

 

in No Hálito de Afrodite

 

 

No teu sémen

 

Faz-me vir de novo

orquídea,

girassol,

deserto

ou todas as palavras

que nunca ousaram

os poemas

para ti

paridos!

 

Sonho que sou barro

em teu sopro,

candeia de azeite

no sobrado

acariciando esses cabelos

anunciados de neve

enquanto me decifras

os mamilos

e sussurras lentamente

— era uma vez…

 

Era uma vez,

um sémen novo

a escorregar pelas virgens

do Jardim

incensando pelo meu corpo

uma fogueira de rubras rosas

no meu ventre,

champanhe estremecendo-me

o sangue nas artérias

e tango em Buenos Aires

mordendo-me ânsias

beliscando a alma

desassossegando

alvoradas,

enquanto adormeces

nesse teu silabar sereno

— era uma vez…

 

E saio para a cidade

inaugurada de nós,

sou semente primeira

de um girassol.

 

in No Hálito De Afrodite

 

 

[Entrego meu corpo]

 

Entrego meu corpo

à rebeldia do vento.

Nele me dispo, danço

e descanso.

 

Cruel tem sido este desassossego

asfixiando borboletas dentro do peito

enquanto me morrem entre os dedos

suculentos beijos.

 

Entrego meu corpo

ao sarcasmo do tempo

mas é ao vento que pertenço.

 

Mais tarde me vestirei de chuva

 

a publicar

 

 

[Talvez amanhã alguém]

 

Talvez amanhã alguém

venha fechar meus olhos.

Hoje não!

 

Talvez amanhã alguém

me recorde com saudade

quando na enseada das ausências

eu já tiver partido nas asas de uma gaivota.

 

Sim,

amanhã eu voarei

hoje não!

 

Amanhã serei finalmente o grito amarfanhado

por décadas poetizado,

gargalhado

absurdamente sentenciado!

 

Deixarei decerto tantas bocas por beijar

tantos corpos por amar

tantos órfãos por acarinhar…

 

Amanhã, hoje não!

Preciso libertar-me de quem julgo ser

e ajoelhar-me indigna, imunda aos pés

do Criador.

08 de Março de 2019 — a publicar

 

 

O cérebro do mundo

 

Busco incessantemente o cérebro do mundo,

essa lava que me dói o corpo inteiro

esse caos, essa ordem desordenada

cuja vertigem

se apodera das fêmeas

e da volúpia que trilha caminhos novos.

 

Ah ser inteira e tão despedaçada

ó venusta peregrina!

 

Busco as palavras perfeitas

mas todas já foram celebradas

no fogo do meu e do teu baptismo

meu Irmão,

que desolação

não haver palavras mais

despertas

nem tão pouco o cérebro do mundo

esse que algures possa existir

e me escorra dos dedos

deixando-me gritos, tantos

dentro da cabeça.

 

Ah não parar o pensamento,

estancá-lo com um garrote,

cicatrizá-lo.

 

Vai peregrina, leva a loucura

morde o silêncio,

o cérebro do mundo é nada

busca somente o voo das andorinhas.

 

A publicar em Terra De Lavra

 

 

No Corpo

 

Eu me puxo

Repuxo

Envolvo

Deito

Deleito

Revolvo

Embriago

Não ressaco…

 

Eu me viro, reviro

Choro, gargalho, sorrio

Rascunho a vida,

Deito fora

Busco outra mais bonita,

Troco de caneta

Para sair bem a letra

Nunca me sinto só

Mas olho à minha volta

E não tem ninguém do meu lado.

E quando tem,

Não me sinto eu…

Eu me revolvo no caminho

E falo com Deus

 

— Porque tudo é tão belo assim Pai e tão triste?!

E não cesso de O questionar, e me zango com Ele

Ainda que O ame ou respeite, nem eu sei…

 

Eu caio prostrada bem no meio das pedras

E silencio o grito inútil da dor

Me amordaço no corpo

Para me libertar no espírito

E uma vez mais resmungo com o Criador

Mas é cambaleando que renasço

É mutilada,

Jorrando sangue pela caneta

Que eu quisera bonita da vida.

 

Uma criança me pega pela mão,

Ela que eu nem sei quem é,

Confusão se instala neste cérebro louco

De tanta lucidez,

E como uma brisa fresca de Outono

Me beija.

 

O céu tem agora odor de alfazema e risos de andorinhas.

 

A publicar em Terra De Lavra

 

 

Os poemas foram transcritos do blog celiamoura.wordpress.com/ com pequenas alterações pela autora.

Nota sobre a iconografia

A imagem de abertura mostra uma obra de Niki de Saint Phalle (1930-2002), São Sebastião ou Retrato do meu amor.

Hesitei em associar ao artigo uma imagem de explícita carga erótica, sublinhando a superfície dos poemas. Decidi-me por destacar o que lá não é nomeado mas cuja existência é a causa e fundamento desta poesia: o inominado parceiro para o prazer.

No incógnito do rosto, de onde pende a gravata de conotação fálica, e no acidentado da vida que atinge o corpo vestido, se consubstancia o ausente parceiro da paixão nesta escaldante poesia.

Adenda talvez desnecessária

A referência a São Sebastião no título da obra de arte prende-se com a tórrida carga erótica que a representação plástica de São Sebastião e seu martírio têm tido ao longo da história de arte.