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O poema Artemidoro de Jorge de Sena (1919-1978) leva-nos por uma densa e intensa meditação sobre a história e o devir: o homem, indivíduo na sua singularidade, e a parte de uma humanidade que culturalmente o identifica:

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

 

O sentimento do passado nos artefactos herdados permite a viagem cultural que nos faz ir ao encontro das raízes de ser quem somos, e neste poema Jorge de Sena exercita de forma fulgurante:

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

O saber quem somos e a que mundo pertencemos enquanto vivemos não altera a finitude que nos caracteriza e inevitavelmente chegará. Neste poema, no artefacto artístico de um rosto pintado que acompanha a múmia de um desconhecido agora entregue ao pó dos corredores do museu Britânico e à curiosidade de algum visitante, ou à meditação filosófico-poética que hoje transcrevo, se consubstancia esse efémero que trazemos em nós, ou parafraseando o poeta: desaparecer serenamente, enquanto quem fomos se perde depressa nas memórias humanas que habitámos.

 

 

ARTEMIDORO

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

A múmia que ficou de ti (só ressequida pele

rasgada aqui e ali, mostrando os ossos

por onde as sujas ligaduras se soltaram)

não se distingue das outras na fileira

envidraçada em que há decénios pó,

um fino pó, será de ti ou Londres.

Importa o teu caixão, ou mais, a tampa

em que, segundo os usos do teu tempo,

um pintor cujo ofício principal seria

retratar os mortos te compôs um rosto.

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

Possível é também que esse retrato fosse

menos que tua máscara um rosto

que se escolhia — por ti ou só por eles escolhido

para esse último acto: o de estar morto

de olhos abertos para o que desse e viesse.

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

Artemidoro: Escuta! No silêncio ouves

os “buses” que passam, a gralhada que

em salas mais curiosas visitantes fazem.

Que mais escutarás com esses olhos que ouvem

atentamente os breves estalidos que o eterno,

como o romper da aurora nas estátuas,

provoca em nós e em nossas coisas, fissurando

a pouco e pouco a carne, a pele, os ossos, tudo

o que de deuses palpita e ressuscita em nós,

e em que talvez, sereno mercador, nem mesmo acreditasses?

 

Publicado no livro Metamorfoses, e transcrito de Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

Abre o artigo a imagem da urna de Artemidoro pertença do museu Britânico.

 

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