Canto – um poema de amor de Irene Lisboa (talvez esquecido)

Etiquetas

Klimt_Gustav-Hope_II

Já tinha alguns anos de publicação em livro a obra poética de Irene Lisboa (1892-1958) quando este exultante poema de entrega ao amor surgiu numa revista em 1944.

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

Desenvolve-se o poema, e mais à frente, na ênfase do verso repetido, regressa a força da entrega à paixão:


Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Na emoção do encontro e do afastamento seguimos pelos versos decantados onde o amor escorre em palavras de desejo e resignação.


Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?

É, sem duvida, um belo poema de amor, e dorme nas páginas esquecidas de uma revista literária hoje rara.

Podemos procurar com lupa até encontrar tão eloquente evocação poética de um beijo ardente quanto esta:


Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.

A este poema aplicam-se como luva as palavras de José Gomes Ferreira escritas num prefácio a umas “Poesias completas de Irene Lisboa” que nunca se publicaram: …tema do Amor que é um dos mais difíceis de analisar na poesia de Irene Lisboa porque, no fim de contas, reflecte o que existe no espírito e no corpo de todas as mulheres e a grande poetisa dos Pequenos Poemas Mentais tentava dia a dia, desencantar e exprimir sem o reduzir à resignação biológica feminina mais ou menos alindada com palavras de galanteio suficientes.

Sendo a obra poética de Irene Lisboa hoje praticamente desconhecida, e encontrar os seus livros tarefa beneditina de pesquisa em alfarrabistas, vale talvez a pena transcrever o que sobre a obra diz Jorge de Sena em Líricas Portuguesas III, onde republicou os Pequenos Poemas Mentais acima referidos:

É hoje considerada um dos grandes escritores portugueses, pela originalidade incomparável do seu estilo e da sua personalidade, tendo criado uma vasta obra que se destaca pela delicadeza e subtileza de tom e por uma ironia discretamente desapegada e lúcida, mas no fundo aberta a uma ternura selvagem, uma humanidade áspera, uma ácida doçura.
Os seus poemas pouco publicados em livro e dispersos, porém— e toda a sua prosa possui um timbre da mais límpida poesia, uma poesia ao mesmo tempo finamente civilizada e acremente campestre —, através do requinte de uma consumada arte do ocasional e do momentâneo, igualmente constituem, no seu aspecto aparentemente descosido, e vagamente meditativo, a afirmação de uma das mais notáveis figuras líricas contemporâneas: lirismo feminino que é plácida desenvoltura de um espírito implacável, indomitamente livre e liberto.

Deixo-vos com o poema.

CANTO

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

*

Cinco vidas, nada menos,
cinco vidas querias ter.
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
É primavera! saíu-me da boca.
E tu sorriste.
Sorriste, creio.
Primavera e todas as estações…
Chuva e sol, tempo sem idade.

*

Aqueles suaves, langues verdes, tão cariciosos;
os redondos troncos
e os musgos fofos;
os melros agrestes
e as campainhas roxas daquelas flores da minha infância,
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho…
E as loucas nuvens corredias
e as pedras hieráticas
e as veredas amáveis,
como se os ofereciam!
Amavam-nos,
Não o viste?
No passo certo em que ambos íamos
tudo, tudo nos prendia
e nós tudo deixávamos.
Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…

*

E assim continuámos.

*

Aquela hora não esquece.
Não pode esquecer,
nem se repete.

*

Mudarás tu ou mudarei eu.
O mundo acena-te.
E não se é nada…
Mas a hora, a hora, a hora tão cobiçada,
a hora que chegou,
passando, não passa…
morrendo, ficou…
Nos ramos,
nas heras luzentes,
na chuvinha suspensa,
nas voltas do caminho,
na frescura aspirada,
na solidão alegríssima e confidente,
em ti e em mim.
Ficou.
Está.
Mas a ninguém o confesses
nem disso te convenças.

*

Permanece,
está naquelas flores rosadas,
quasi sem cor, dos lindos arbustos…
Tornaremos jamais a vê-los sem nos lembrarmos?
Eles… somos nós passando,
Tu, silencioso;
eu, aconchegada.
Na tua mão quente,
a minha, presa e enraizada,
tão segura e tão confiante,
era uma dádiva.
Naquele breve momento
tu a recebias e guardavas.

*

Assim, inteira, a mim me guardasses!

*

Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.
Se eu pudesse voar,
soltar-me dos teus braços,
iria como um pássaro, receoso e deslumbrado,
de árvore em árvore, de ramo em ramo,
sem nada ver, tonto, tonto,
até que de novo o chamasses.

*

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Publicado no nº4 da revista Litoral em 1944.

Breve comentário bibliográfico.

A mais recente edição das obras de Irene Lisboa, de meu conhecimento, data da década de 90 e foi publicada pela Editorial Presença sob direcção de Paula Morão. Nesta edição, a poesia de Irene Lisboa, publicada originalmente em livro com o pseudónimo de João Falco, foi reunida no volume I, poesia I, com o título: um dia e outro dia… outono havias de vir. E por aqui ficou, que eu saiba. Houve um prometido volume de poesia inédita que não viu a luz do dia, suponho, e a poesia dispersa por publicações periódicas não foi objecto de qualquer recolha.

A organizadora da edição mencionada defendeu uma peregrina tese de doutoramento que publicou em livro, IRENE LISBOA vida e escrita, Editorial Presença, Lisboa, 1989, onde tratando da relação vida/escrita da mulher, consegue passar completamente ao lado da poesia de Irene Lisboa, quase como se esta fosse marginal à obra e não criação paralela à prosa ao longo da vida literária.

Na verdade a obra poética, dispersa (a partir de 1940 Irene Lisboa nunca mais publicou poesia em livro) exige primeiro a sua recolha para depois sobre ela reflectir. Mas numa obra literária onde a poesia conhecida surge a cada passo como voz interior que se liberta, pretender dissecar vida e escrita passando-lhe ao lado, interroga-nos sobre o sentido da tarefa e conclusões, para dizer o mínimo.

Pesquisar esta poesia perdida dá trabalho. Que maçada! É tão mais fácil perorar sobre edições acessíveis. Enfim!

Venha o investigador sério e probo que meta mãos à tarefa e nos dê estes poemas que, pelo conhecido, se adivinham de enorme valor. Eu, leitor, agradeço.

Antonio Machado – Parábolas I

Etiquetas

,

Magritte_Rene-Beautiful_World

Regresso à poesia de António Machado (1875-1939) com a primeira das parábolas publicadas em Campos de Castilla (1907-1917).

Poema sobre a realidade e o sonho, nele, uma vez mais, António Machado  e o seu filosofar poético tocam-nos no mais fundo da alma.

Era un niño que soñaba / un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño / y el caballito no vio.

Fazendo uso da sua simplicidade enganosa, que não é senão mestria de génio, somos levados da infância à velhice embalados na música dos versos, tentando encontrar a fronteira entre sonho e realidade, sem sucesso.

Deixo-vos a tradução de José Bento, primeiro, seguida do original em castelhano.

Tentai a leitura do poema original em voz alta e sentir-se-á melhor o prodígio de musicalidade que este poema é.

Era um menino a sonhar

com um cavalo de cartão.

O menino abriu os olhos

e não viu o cavalinho.

Com um cavalinho branco

ele voltou a sonhar;

pelas crinas o prendia…

Assim não te escaparás!

Mal o conseguiu prender,

logo o menino acordou.

Tinha a sua mão fechada.

O cavalinho voou!

O menino ficou sério,

pensando não ser verdade

um cavalinho sonhado.

Já não voltou a sonhar.

E o menino se fez moço

e o moço teve um amor,

e dizia à sua amada:

Tu és de verdade ou não?

Quando o moço se fez velho

pensava: Tudo é sonhar,

o cavalinho sonhado

e o cavalo de verdade.

E quando chegou a morte,

o velho ao seu coração

perguntava: Tu és sonho?

Quem saberá se acordou!

Era un niño que soñaba

un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño

y el caballito no vio.

Con un caballito blanco

el niño volvió a soñar;

y por la crin lo cogía…

¡Ahora no te escaparás!

Apenas lo hubo cogido,

el niño se despertó.

Tenía el puño cerrado.

¡El caballito voló!

Quedóse el niño muy serio

pensando que no es verdad

un caballito soñado.

Y ya no volvió a soñar.

Pero el niño se hizo mozo

y el mozo tuvo un amor,

y a su amada le decía:

¿Tú eres de verdad o no?

Cuando el mozo se hizo viejo

pensaba: Todo es soñar,

el caballito soñado

y el caballo de verdad.

Y cuando le vino la muerte,

el viejo a su corazón

preguntaba: ¿Tú eres sueño?

¡Quién sabe si despertó!

Diadapoesia comemorado com Alvaro de Campos e iluminado por Baselitz

Etiquetas

, ,

Baselitz_Georg-Rebel

Confesso que me passou completamente ao lado a existência de um Dia Mundial da Poesia. De resto, encontrava-me em estado de felicidade absoluta, fazendo da vida pura poesia. Mas como estes eventos esperam comemoração, entrego ao engenheiro Campos a responsabilidade da coisa.

Vai com um dia de atraso, pois o homem, ontem, talvez se encontrasse entre eflúvios alcoólicos.

Tenho escripto mais versos que verdade.
Tenho escripto principalmente
Porque outros teem escripto.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um individuo perfeitamente consentivel,
Teria casa propria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas idéas de aqui!

O poema foi atribuído a Alvaro de Campos por Teresa Rita Lopes, e publicado pela primeira vez no volume II da sua obra, PESSOA POR CONHECER, Editorial Estampa, Lisboa, 1990.

As pinturas que acompanham o artigo a abrir e a fechar são do pintor alemão Georg Baselitz (1938).

Baselitz_Georg-Male_Nude

Floralia de Klimt à entrada da Primavera

Etiquetas

Klimt_Gustav-Country_Garden_with_Sunflowers

Assinalemos a chegada da Primavera ao hemisfério norte com algumas pinturas de Gustav Klimt (1862-1918) onde a presença de flores, fascínio e ornamento da natureza, domina.

Foi com uma surpresa deslumbrada que em certa visita a Viena descobri esta outra pintura de Klimt, até aí, para mim, pintor de figuras longilineas envoltas em mantos feéricos, surgindo como estereótipo de uma certa ideia de Arte Nova de que o quadro O Beijo será, talvez, o mais famoso ícone.

Contrariamente às pinturas alegóricas, carregadas de uma presença simbólica, as pinturas de paisagens são obras em que apenas uma atmosfera se sente, e convidam-nos tão só a uma atitude contemplativa, desligada de reflexões estéticas ou filosóficas.

Os temas de paisagem são parte importante da obra do artista, cerca de um quarto do que deixou, e são, de certa forma, o contraponto de oficio à reflexão do significado da arte na vida, que a sua restante pintura convida a meditar.

Captando a natureza no seu indiferente renascer e fluir, ao olhar estas pinturas somos levados a fruir tão só essa continuidade temporal, que de alguma maneira sabemos, acontecerá nos dias que se avizinham.

Feito o intróito, é tempo de a anunciada viagem pictórica acontecer.

Klimt_Gustav-Farmhouse_in_Upper_Austria

Klimt_Gustav-Water_Castle

Klimt_Gustav-Poppy_Field

Klimt_Gustav-Park

Klimt_Gustav-Unterach_am_Attersee

Klimt_Gustav-Houses_at_Unterach_on_the_Attersee

Klimt_Gustav-Flowering_Field

Klimt_Gustav-Beech_Grove_I

Klimt_Gustav-Schloss_Kammer_on_the_Attersee

Alberto Caeiro – Poema VIII de O Guardador de Rebanhos no Dia do Pai

Etiquetas

, ,

louis Gallait 1848

Somos filhos antes de sermos pais. Em cada idade sentimos o Dia do Pai de forma adaptada ao percurso por onde a vida nos levou.

Depois que somos pais, somos também filhos de maneira diferente. Mas por mais adultos e suficientes que sejamos, só a perda do Pai nos faz sentir como a partir daí estamos na vida por nossa conta. É essa referência que nos moldou ao crescer, que nos acompanha pela vida e nos faz desejar assinalar de forma especial a passagem do Dia do Pai, diferente do seu ou do nosso aniversário.

Uma vez pais, cada filho é sempre uma espécie do nosso Menino Jesus. Foi sentindo isso que escolhi assinalar este Dia do Pai com a transcrição do poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa, que termina precisamente com esta identificação:

Esta é a história do meu Menino Jesus. / Por que razão que se perceba /Não há de ser ela mais verdadeira / Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?

O poeta diz num verso lapidar como cada filho vive em nós e nos integra:

Ele dorme dentro da minha alma

A irreverência, por vezes chocante para católicos, que numa leitura superficial do poema a espaços surge, como por exemplo neste fragmento:

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

ganha a dimensão da liberdade de pensar e faz sentir a complexidade dos sentimentos que nos atravessam perante a força avassaladora da fé, na sua negação do irracional. Irracional que está sempre presente no amor com que banhamos os nossos filhos desde o dia em que nascem até que deles nos despedimos, talvez com o desejo secreto que o poeta desvela:

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Deixo-o, leitor, com o poema.

Para quem o conhece, fica o prazer do reencontro. Para quem o lê pela primeira vez, no final será, eventualmente, outra pessoa.

VIII

Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.            

Vi Jesus Cristo descer à terra.

           

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

           

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacôrdo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma côroa tôda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dêle;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que êle, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

           

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas pôças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que tôda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

           

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me tôdas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

           

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito-Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou –

«Se é êle que as criou, do que duvido» -.

«Êle diz, por exemplo, que os sêres cantam a sua glória,

Mas os sêres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam sêres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao cólo para casa.

           

…………………………………………………………

           

Êle mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Êle é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Êle é o humano que é natural,

Êle é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com tôda a certeza

Que êle é o Menino Jesus verdadeiro.

           

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque êle anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que fôr,

Parece falar comigo.

           

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segrêdo comum

Que é o de saber por tôda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

           

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que êle me faz, brincando, nas orelhas.

           

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acôrdo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

           

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fôsse todo um universo

E fôsse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

           

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque êle sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

           

Depois êle adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até êle estar nu.

           

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sòzinho

Sorrindo para o meu sono.

           

……………………………………………..

       

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

           

……………………………………………………

           

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

A transcrição ortográfica segue o texto fixado por Teresa Sobral Cunha na sua edição dos Poemas Completos de Alberto Careiro, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

A pintura que abre o artigo é do belga Louis Gallait pintada presumivelmente em 1848.

Belas do cinema

Anna Magnani4Anna MagnaniMamma Roma para Pier Paolo Pasolini

Entretive-me há dias percorrendo um vasto arquivo de fotos de e sobre cinema. Foi uma espécie de regresso à infância.

Por volta dos dez, onze anos, como suponho que acontece com os miúdos ainda hoje, coleccionei cromos. Uma das colecções que me encantava e mesmo depois de concluída folheei vezes sem conta, foi uma série dedicada a estrelas de cinema. Nomes e rostos que nada me diziam em concreto mas que me embalavam a imaginação. Muitos deles encontrei-os já adulto quando o gosto pelo cinema clássico europeu e de Hollywood em mim explodiu.

Deste folhear de memórias, vendo fotos de estrelas de cinema, escolho umas quantas para aqui vos deixar.

Têm a dupla característica de serem belas fotos do ponto de vista técnico e artístico, e mostrarem ícones que nos povoaram, e a alguns povoam, a imaginação.

Katharine-Hepburn-katharine-hepburnKatharine Hepburn

Monica VittiMonica Vitti – a diva de Michelangelo Antonioni

Ava Gardner 01Ava Gardner – A inesquecível Condessa Descalça.

O mais belo animal do mundo, chamaram-lhe alguns.

Louise Brooks in  (Photo by Otto Dyer)Louise Brooks – A Lulu de todos os sonhos

Termino com as pernas do Anjo Azul – Marlene Dietrich

DIETRICH+B

E em epílogo, a cores, a deslumbrante, ainda hoje, Brigitte Bardot

Brigitte Bardot36

As paisagens corporais de Allan Teger

Etiquetas

Allan-Teger-Bodyscapes 05

A fotografia digital enquanto ferramenta criativa, libertou a imaginação permitindo o aparecimento de obras gráficas a partir da fotografia, que alargam as fronteiras do conceito conservador de imagem fotográfica.

As paisagens corporais de Allan Teger derivando directamente da fotomontagem, transmitem-nos uma nova percepção da escala no universo em redor.

Servindo-se do corpo nu de mulher, sobre ele pousa variados objectos, criando cenários em que à surpresa do insinuado se sobrepõe a realidade do fotografado, numa desconcertante imagem de real/fantasia, de feliz efeito plástico.

Aqui fica uma pequena escolha pessoal.

Allan-Teger-Bodyscapes 06

Allan-Teger-Bodyscapes 19

Allan-Teger-Bodyscapes 10

Allan-Teger-Bodyscapes 14

Allan-Teger-Bodyscapes 22

Allan-Teger- Bodyscapes 02

Allan-Teger-Bodyscapes 15

Allan-Teger-Bodyscapes 09

E foram felizes para sempre!

FIM

 

Afasta de mim esses lábios – Anónimo celta do século XV/XVI

Etiquetas

ELLIOTT ERWITT California 1955

De entre as variadas perspectivas de sentir o beijo como entrega da alma, que a poesia conserva, este poema de autor anónimo da cultura celta (Irlanda), provavelmente dos séculos XV/XVI, traz uma inusual escolha:

Mais doce que o mel um beijo eu tive
De mulher casada que o deu por amor.

O poema abre com a recusa do beijo da menina virgem:

Guarda para ti esse teu beijo
Menina virgem dos dentes brancos!

e desenvolve-se explicitando os prazeres do beijo da casada.
Para que não restem duvidas a ninguém, o nosso homem remata com uma declaração de fidelidade perene:

Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.

Passemos então ao poema integral:

Afasta de mim esses lábios

Guarda para ti esse teu beijo
Menina virgem dos dentes brancos!
Nesse teu beijo eu gosto não acho
Longe de mim guarda teus lábios.

Mais doce que o mel um beijo eu tive
De mulher casada que o deu por amor.
Até que se acabem o mundo e os dias
Beijo de gosto só esse terei; esse e não outro.

Até que a veja tal como é em sua pessoa
Por obra e graça do filho de Deus
Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.

Tradução de José Domingos Morais, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

A foto que abre o artigo, California, 1955, é de ELLIOTT ERWITT (1928)

Domingo à tarde, o poema de Alfred Lichtenstein com paisagens urbanas de Egon Schiele

Etiquetas

,

Egon Schiele - suburbios

Deixemos entrar no meio das harmonias de que aqui falo um pouco da crueza do mundo que aos nossos olhos se expõe, apenas consintamos à vista circular em redor.

Egon Schiele - casas com roupas penduradas 2

Não obstante o poema de Alfred Lichtenstein (1889-1914) ser do inicio do século XX (1912), há uma realidade de miséria material e humana que perdura nas nossas sociedades e grita para que dêmos por ela.

Egon Schiele - casas amarelas

No poema, alguns detalhes são-nos hoje estranhos, mas a atmosfera em domingo de província ou de periferia urbana permanece reconhecível.

Egon Schiele - Cidade de Krumau 1915-16

Em ruas podres acampa o casario,
Sobre cuja bossa baço sol clareia.
Um cão de luxo perfumado e com cio
Atira ao mundo olhares de quem esgazeia

De fraldas cheias gritam bebés zangados.
Numa janela, a apanhar moscas, está um moço.
Um comboio no céu, sobre ventosos prados,
Vai pintando lento e longo traço grosso.

Como máquinas matraqueiam ferraduras.
Cheios de pó chegam ginastas ruidosos.
Lançam-se gritos brutais de tascas escuras.
Mas são cortados por inóspita maviosos.

Nos lupanares, onde s atletas lutam,
Difuso entardecer já tudo engole.
Um realejo uiva e criadas cantam.
Um homem esmaga mulher podre e mole.

La ciudad vieja

A pintura de paisagens urbanas de Egon Schiele (1890-1918) que acompanha o poema é grosso modo sua contemporânea. Género menos frequente na obra do pintor, no pesado do seu colorido, ela dá conta da atmosfera de pobreza e necessidade que também hoje se vive nos centros históricos semi-abandonados e em vastas zonas de arrabalde das grandes cidades.

Egon Schiele - casas com roupas penduradas

Termino com um pungente retrato de mãe e filha, também de Egon Schiele, dando conta de uma realidade que, afinal, permanece.

Egon Schiele - Mae e filha 500

A tradução portuguesa do poema é de João Barrento.

Para os eventuais conhecedores do alemão, segue o original do poema:

Sonntagnachmittag

Auf faulen Straßen lagern Häuserrudel,
Um deren Buckel graue Sonne hellt.
Ein parfümierter, halbverrückter kleiner Pudel
Wirft wüste Augen in die große Welt.

In einem Fenster fängt ein Junge Fliegen.
Ein arg beschmiertes Baby ärgert sich.
Am Himmel fährt ein Zug, wo windge Wiesen liegen;
Malt langsam einen langen dicken Strich.

Wie Schreibmaschinen klappen Droschkenhufe.
Und lärmend kommt ein staubger Turnverein.
Aus Kutscherkneipen stürzen sich brutale Rufe.
Doch feine Glocken dringen auf sie ein.

In Rummelplätzen, wo Athleten ringen,
Wird alles dunkler schon und ungenau.
Ein Leierkasten heult und Küchenmädchen singen.
Ein Mann zertrümmert eine morsche Frau.

 

Herberto Helder e O AMOR EM VISITA no Dia da Mulher

Etiquetas

,

Matisse_Henri-Zulma

Para quem anda distraído, ou ocupado nas imensas ninharias da vida, celebra o mundo neste dia 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher.
Assunto maior e recorrente no blog – A Mulher – aproveito a comemoração para, com pouca conversa, transcrever o longo poema/oração de Herberto Helder (1930) O AMOR EM VISITA, um entre aquela menos que duzia de obras-primas absolutas da poesia portuguesa do século XX, pela primeira vez publicado em 1958 e sucessivamente retocado.

Poema de exaltação do amor pela mulher, que a abrir nos diz:

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.

Com o poema caminhamos na musica encantatória do verso, e percorremos, entre o instante e o eterno, a vertigem do amor:

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.

sabendo que no final e sempre:

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas –
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
– Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo –
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável –
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água – e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Transcrevi a versão publicada em OU O POEMA CONTÍNUO, edição da obra poética de Herberto Helder, na forma definitiva de 2004, publicada por Assírio & Alvim em Setembro de 2004.