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Klimt_Gustav-Hope_II

Já tinha alguns anos de publicação em livro a obra poética de Irene Lisboa (1892-1958) quando este exultante poema de entrega ao amor surgiu numa revista em 1944.

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

Desenvolve-se o poema, e mais à frente, na ênfase do verso repetido, regressa a força da entrega à paixão:


Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Na emoção do encontro e do afastamento seguimos pelos versos decantados onde o amor escorre em palavras de desejo e resignação.


Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?

É, sem duvida, um belo poema de amor, e dorme nas páginas esquecidas de uma revista literária hoje rara.

Podemos procurar com lupa até encontrar tão eloquente evocação poética de um beijo ardente quanto esta:


Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.

A este poema aplicam-se como luva as palavras de José Gomes Ferreira escritas num prefácio a umas “Poesias completas de Irene Lisboa” que nunca se publicaram: …tema do Amor que é um dos mais difíceis de analisar na poesia de Irene Lisboa porque, no fim de contas, reflecte o que existe no espírito e no corpo de todas as mulheres e a grande poetisa dos Pequenos Poemas Mentais tentava dia a dia, desencantar e exprimir sem o reduzir à resignação biológica feminina mais ou menos alindada com palavras de galanteio suficientes.

Sendo a obra poética de Irene Lisboa hoje praticamente desconhecida, e encontrar os seus livros tarefa beneditina de pesquisa em alfarrabistas, vale talvez a pena transcrever o que sobre a obra diz Jorge de Sena em Líricas Portuguesas III, onde republicou os Pequenos Poemas Mentais acima referidos:

É hoje considerada um dos grandes escritores portugueses, pela originalidade incomparável do seu estilo e da sua personalidade, tendo criado uma vasta obra que se destaca pela delicadeza e subtileza de tom e por uma ironia discretamente desapegada e lúcida, mas no fundo aberta a uma ternura selvagem, uma humanidade áspera, uma ácida doçura.
Os seus poemas pouco publicados em livro e dispersos, porém— e toda a sua prosa possui um timbre da mais límpida poesia, uma poesia ao mesmo tempo finamente civilizada e acremente campestre —, através do requinte de uma consumada arte do ocasional e do momentâneo, igualmente constituem, no seu aspecto aparentemente descosido, e vagamente meditativo, a afirmação de uma das mais notáveis figuras líricas contemporâneas: lirismo feminino que é plácida desenvoltura de um espírito implacável, indomitamente livre e liberto.

Deixo-vos com o poema.

CANTO

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

*

Cinco vidas, nada menos,
cinco vidas querias ter.
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
É primavera! saíu-me da boca.
E tu sorriste.
Sorriste, creio.
Primavera e todas as estações…
Chuva e sol, tempo sem idade.

*

Aqueles suaves, langues verdes, tão cariciosos;
os redondos troncos
e os musgos fofos;
os melros agrestes
e as campainhas roxas daquelas flores da minha infância,
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho…
E as loucas nuvens corredias
e as pedras hieráticas
e as veredas amáveis,
como se os ofereciam!
Amavam-nos,
Não o viste?
No passo certo em que ambos íamos
tudo, tudo nos prendia
e nós tudo deixávamos.
Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…

*

E assim continuámos.

*

Aquela hora não esquece.
Não pode esquecer,
nem se repete.

*

Mudarás tu ou mudarei eu.
O mundo acena-te.
E não se é nada…
Mas a hora, a hora, a hora tão cobiçada,
a hora que chegou,
passando, não passa…
morrendo, ficou…
Nos ramos,
nas heras luzentes,
na chuvinha suspensa,
nas voltas do caminho,
na frescura aspirada,
na solidão alegríssima e confidente,
em ti e em mim.
Ficou.
Está.
Mas a ninguém o confesses
nem disso te convenças.

*

Permanece,
está naquelas flores rosadas,
quasi sem cor, dos lindos arbustos…
Tornaremos jamais a vê-los sem nos lembrarmos?
Eles… somos nós passando,
Tu, silencioso;
eu, aconchegada.
Na tua mão quente,
a minha, presa e enraizada,
tão segura e tão confiante,
era uma dádiva.
Naquele breve momento
tu a recebias e guardavas.

*

Assim, inteira, a mim me guardasses!

*

Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.
Se eu pudesse voar,
soltar-me dos teus braços,
iria como um pássaro, receoso e deslumbrado,
de árvore em árvore, de ramo em ramo,
sem nada ver, tonto, tonto,
até que de novo o chamasses.

*

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Publicado no nº4 da revista Litoral em 1944.

Breve comentário bibliográfico.

A mais recente edição das obras de Irene Lisboa, de meu conhecimento, data da década de 90 e foi publicada pela Editorial Presença sob direcção de Paula Morão. Nesta edição, a poesia de Irene Lisboa, publicada originalmente em livro com o pseudónimo de João Falco, foi reunida no volume I, poesia I, com o título: um dia e outro dia… outono havias de vir. E por aqui ficou, que eu saiba. Houve um prometido volume de poesia inédita que não viu a luz do dia, suponho, e a poesia dispersa por publicações periódicas não foi objecto de qualquer recolha.

A organizadora da edição mencionada defendeu uma peregrina tese de doutoramento que publicou em livro, IRENE LISBOA vida e escrita, Editorial Presença, Lisboa, 1989, onde tratando da relação vida/escrita da mulher, consegue passar completamente ao lado da poesia de Irene Lisboa, quase como se esta fosse marginal à obra e não criação paralela à prosa ao longo da vida literária.

Na verdade a obra poética, dispersa (a partir de 1940 Irene Lisboa nunca mais publicou poesia em livro) exige primeiro a sua recolha para depois sobre ela reflectir. Mas numa obra literária onde a poesia conhecida surge a cada passo como voz interior que se liberta, pretender dissecar vida e escrita passando-lhe ao lado, interroga-nos sobre o sentido da tarefa e conclusões, para dizer o mínimo.

Pesquisar esta poesia perdida dá trabalho. Que maçada! É tão mais fácil perorar sobre edições acessíveis. Enfim!

Venha o investigador sério e probo que meta mãos à tarefa e nos dê estes poemas que, pelo conhecido, se adivinham de enorme valor. Eu, leitor, agradeço.

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