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Regresso à poesia de António Machado (1875-1939) com a primeira das parábolas publicadas em Campos de Castilla (1907-1917).

Poema sobre a realidade e o sonho, nele, uma vez mais, António Machado  e o seu filosofar poético tocam-nos no mais fundo da alma.

Era un niño que soñaba / un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño / y el caballito no vio.

Fazendo uso da sua simplicidade enganosa, que não é senão mestria de génio, somos levados da infância à velhice embalados na música dos versos, tentando encontrar a fronteira entre sonho e realidade, sem sucesso.

Deixo-vos a tradução de José Bento, primeiro, seguida do original em castelhano.

Tentai a leitura do poema original em voz alta e sentir-se-á melhor o prodígio de musicalidade que este poema é.

Era um menino a sonhar

com um cavalo de cartão.

O menino abriu os olhos

e não viu o cavalinho.

Com um cavalinho branco

ele voltou a sonhar;

pelas crinas o prendia…

Assim não te escaparás!

Mal o conseguiu prender,

logo o menino acordou.

Tinha a sua mão fechada.

O cavalinho voou!

O menino ficou sério,

pensando não ser verdade

um cavalinho sonhado.

Já não voltou a sonhar.

E o menino se fez moço

e o moço teve um amor,

e dizia à sua amada:

Tu és de verdade ou não?

Quando o moço se fez velho

pensava: Tudo é sonhar,

o cavalinho sonhado

e o cavalo de verdade.

E quando chegou a morte,

o velho ao seu coração

perguntava: Tu és sonho?

Quem saberá se acordou!

Era un niño que soñaba

un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño

y el caballito no vio.

Con un caballito blanco

el niño volvió a soñar;

y por la crin lo cogía…

¡Ahora no te escaparás!

Apenas lo hubo cogido,

el niño se despertó.

Tenía el puño cerrado.

¡El caballito voló!

Quedóse el niño muy serio

pensando que no es verdad

un caballito soñado.

Y ya no volvió a soñar.

Pero el niño se hizo mozo

y el mozo tuvo un amor,

y a su amada le decía:

¿Tú eres de verdad o no?

Cuando el mozo se hizo viejo

pensaba: Todo es soñar,

el caballito soñado

y el caballo de verdad.

Y cuando le vino la muerte,

el viejo a su corazón

preguntaba: ¿Tú eres sueño?

¡Quién sabe si despertó!

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