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É famosa a cantiga da Condessa de Die (sec. XII-XIII) onde a supremacia da vontade da mulher no seio do casal se afirma sem ambiguidades:

Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Ao longo do poema, sem falsos pudores, a Condessa fala-nos do amor, físico, evidentemente, em termos que poucas mais vezes uma mulher ousou em poesia:

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!

Este poema é parte do glorioso corpus da poesia Provençal, berço da poesia europeia pós-latina, e raiz do entendimento do poeta como cantor do amor na devoção da amada, que foi o seu entendimento social até ao século XIX. Nele apenas os sexos entre evocador e evocado se trocam.

A versão de Jorge de Sena que transcrevo procura em português moderno conservar o sabor peculiar desta forma de dizer amor em poesia.

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu recusava.
E doida eu’stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Cá lh’estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
É todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Aí meu amigo velido!
S’em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Acrescento o original da canção em langue d’oc

Estat ai en greu cossirier

per un cavallier qu’ai agut,

e vuoil sia totz temps saubut

cum ieu l’ai amat a sobrier.

Ara vei qu’ieu sui trahida

car ieu non li donei m’amor

don ai estat en gran error

en lieig e quand sui vestida.

Ben volria mon cavallier

tener un ser en mos bratz nut,

qu’el s’en tengra per ereubut

sol qu’a lui fezes cosseillier.

Car plus m’en sui abellida

no fetz Floris de Blanchaflor,

lui eu l’austrei mon cor e m’amor

mon sen, mos huoillis e ma vida.

Bel amics avinens e bos,

cora.us tenrai en mon poder?

E que jagues ab vos un ser

e qu.us des un bais amoros?

Sapchatz, gran talen n’auria

qu.us tengues en luoc del marit

ab so que m’aguessetz plevit

de far tot so qu’eu volria.

Por fim uma versão da canção em francês moderno para aqueles que dominam a língua poderem apreciar melhor o trabalho de virtuose da palavra levado a cabo por Jorge de Sena.

J’ai été en cruelle douleur

pour un chevalier que j’ai eu,

je veux qu’il soit pour toujours su

que je l’aimais par-dessus tout.

Mais je vois que je suis trahie

car je ne lui donnai pas tout l’amour,

j’ai fait une terrible erreur

au lit ou encore vêtue.

Je voudrais tant mon chevalier

tenir un soir entre mes bras nu

et qu’il se trouve comblé,

que je lui serve de coussin.

Je suis plus amoureuse de lui

que jamais Floris de Blanchefleur,

je lui donne mon coeur, mon amour,

mon sens, mes yeux et ma vie.

Bel ami élégant et bon,

quand vous tiendrai-je en mon pouvoir ?

Quand coucherai-je avec vous un soir,

vous donnant un baiser amoureux ?

Sachez que j’ai grand désir

de vous à la place du mari,

pourvu que vous m’ayez promis

de faire tout ce que je voudrais.

A versão para francês moderno é de Jacques Roubaud.

A identidade da Condessa de Die (sec. XII-XIII) permanece misteriosa sendo umas vezes considerada esposa de Guilherme I de Valentinois, de nome próprio Beatrice, outras tida como filha de Guigne V, delfim de Viennois. A sua obra conhecida compõe-se quatro cansos e uma tenso com Raimbaut d’Orange, e datam do virar dos sec. XII e XIII. E é o máximo que com segurança hoje se pode afirmar.

Noticia bibliográfica

A tradução de Jorge de Sena consta da sua antologia Poesia de 26 séculos, Fora do texto, Coimbra, 1993.

A transcrição do poema original, da moderna tradução francesa e da noticia biográfica, foram feitas a partir do livro Le Moyen Âge flamboyant, Poesie et peinture, 2006, deslumbrante edição de Diane de Selliers onde poesia medieval e iluminuras raras se confrontam.

O livro propõe-se, e consegue, revelar uma idade média insuspeitada, impressionante de vivacidade e expressão, duma humanidade transbordante de ternura, de espírito, de humor, em estreita comunhão com a natureza.

Em português apenas podemos ter uma pálida ideia deste universo poético com as parcas, mas belas, traduções de Augusto de Campos e mais recentemente da obra de Guilherme IX de Aquitânia por Arnaldo Saraiva, sendo que as traduções de Segismundo Spina, no seu clássico A Lírica Trovadoresca, porque em prosa, apenas tenuemente aproximam esta poesia.

Condessa de Die

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