Uma cantiga de amigo sobre a mulher só

Etiquetas

,

16É da idade média que nos chega este canto de solidão nocturna.

Gira o mundo, aumenta a variedade na farmácia, mas o remédio continua a ser o mesmo:

Diferente é a noite quando ele aparece / meu lume e senhor e o dia me traz; / pois apenas chega logo a luz se faz.

Vamos então à cantiga com modernização de Natália Correia.

Sem o meu amigo sinto-me sózinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz de Deus
e Deus não permite que a luz seja minha.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Diferente é a noite quando ele aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Padres-nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Pode dar-se o caso de a cantiga ser uma profunda modernização  de uma poesia de Pedr’ Eanes Solaz, o que não tenho a certeza, cuja  primeira quadra canta assim:

Eu velida nom dormia / lelia doura / e meu amigo venia / ed oi lelia doura

de acordo com a transcrição proposta por Rip Cohen na edição crítica de 500 Cantigas d’Amigo.

Na erudita nota do editor, lelia doura pode ser lida como líya ddáwaraa mim a vez (= é a minha vez) em árabe andaluz. líya, um alomorfe de lia mim,’ ‘para mim’, é foneticamente /leia/, e lelia pode ser ou um erro por leiia.

Ed oi é romance ibérico arcaico < et hodie com vocalização do -t- intervocálico no interior da expressão.

Na dúvida sobre a correspondência, e porque o português arcaico é de difícil leitura, não transcrevo a totalidade da canção e aqui fica a informação onde pode ser encontrada.

500 Cantigas d’Amigo, edição critica de Rip Cohen, Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Campo de Letras Editores, 2003, pag. 287.

 

Desejo e despedida em dois poemas de Aleksandr Púchkin

Etiquetas

,

Berthe Morisot 1879Corremos o mundo lendo poesia e por todo o lado encontramos, como factor identitário de humanidade, o canto do amor e seus desacertos. Disso mesmo acabo por ir dando conta ao longo dos tempos nas escolhas que faço para o blog. Hoje vamos até à Rússia do século XIX e ao seu poeta literariamente fundador, Aleksandr Púchkin (1799-1837).

Aleksandr Púchkin (1799-1837) num primeiro poema, quando o amor é avassalador, escreve como Queima o sangue um fogo de desejo, / De desejo a alma é ferida,

*

Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa noturna.
[1825]

Tradução directa do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra

Quando acaba, e nunca é abruptamente, como se sabe, — Algumas brasas desse amor estão ainda a arder; —, nem sempre existe a grandeza de alma de que este segundo poema, Eu amei-te…, dá mostras:

Tão terna, tão sinceramente te amei, / Que peço a Deus que outro te ame assim.

Eu amei-te…

Eu amei-te; mesmo agora devo confessar,
Algumas brasas desse amor estão ainda a arder;
Mas não deixes que isso te faça sofrer,
Não quero que nada te possa inquietar.
O meu amor por ti era um amor desesperado,
Tímido, por vezes, e ciumento por fim.
Tão terna, tão sinceramente te amei,
Que peço a Deus que outro te ame assim.

Versão portuguesa de Jorge Sousa Braga

Nota iconográfica

A imagem que abre o artigo é de uma pintura de Berthe Morisot (1841-1895), primeiro, modelo de Manet, e depois sua cunhada. Vivendo de perto o movimento impressionista em França, Berthe Morisot consegue uma individualidade na sua pintura em que a paleta e a pincelada são as marcas distintivas, tanto na delicadeza com que pratica o retrato, como na composição quando pinta a paisagem, quais estas pinturas com que encerro o artigo.

Berthe Morisot 1875

Morisot_Berthe-Girl_in_a_Boat_with_Geese

Morisot_Berthe-Woman_in_a_Garden

O sonho e o tempo em dois poemas de Ana Hatherly

Etiquetas

Eyck_Jan_van-St_JeromeSabem os leitores do blog como me encanta muita da poesia de Ana Hatherly (1929). Hoje, é ao segundo livro de poesia da artista, As Aparências, publicado em 1959, que vou buscar duas exemplares reflexões: uma sobre o sonho — É a medida sem comparação, — , outra sobre o tempo — O tempo é um passo / Que em seu próprio espaço / Cabe.

Neste livro lemos uma intensa reflexão sobre a necessidade do sonho nas nossas vidas a pretexto das aventuras do personagem Alice no País das MaravilhasDepressa, depressa, / As minhas asas, o meu fato de sonhar, —.

III
O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

E nesta espécie de viagem ao País da Alice onde o tempo sonhado — Era o tempo do amor — acontece surgirem-nos estes dois poemas:

Oh, que curioso sonho eu tive

I

Íamos todos alegres e tranquilos
Pelo caminho que era o rórido bem.
Os pares de olhos dados
Sorrindo encantamentos,
Elevavam a verdade
A cor dos sentimentos.
Nem ânsia nem receios
Havia como enleios
— Da desunião a dor
Nem presença nem memória —

Era o tempo do amor
Era a vitória

III

Propus ao meu destino
Um jogo com aposta.
Os dados que ele usasse
A mim pertenceriam,
As regras que impusesse
A ambos dirigiam.
A partida era leal
E a vitoria a ambos conviria:
— Aquele que ganhasse
Ao outro mais servia…

A parada que se oferecia,
Era a realidade
Da minha fantasia.

Sonhar é possível mas o tempo — É a flecha / Desferida do arco de toda a invenção. — se encarrega de lhe pôr o fim. E neste sonhopoema com que o livro acaba, o tempo conta-se assim.

FIM

O tempo é um passo
Que em seu próprio espaço
Cabe.

Com ele partimos
E nele regressamos
Cumprindo o indirecto plano
Da reintegração:

É a flecha
Desferida do arco de toda a invenção.

Nota

No livro Poesia 1958-1978, onde reuniu a sua poesia publicada até então, a autora aproveitou de As Aparências apenas 8 dos 36 poemas que compõem o livro. É uma pena pois o livro é hoje uma raridade bibliográfica e na sua unidade ganha um valor acrescido que justificava não o abandonar.

Depois do banho, os nus de Renoir

Etiquetas

,

Renoir_Pierre-Auguste-After_the_Bath-1910-IIDizia-me há pouco tempo uma amiga: eu seria tão feliz se agora se usassem as mulheres gordas!

A pressão do ar do tempo sobre as escolhas de cada um na tentativa de continuar pertencendo ao seu meio conduz, em geral, a uma insatisfação consigo que muitas vezes desemboca na depressão com o seu caudal de infelicidade associada.

Ter o conhecimento da história ajuda, e muito, a colocar em perspectiva os valores passageiros de que o nosso meio de relação se alimenta.

No caso das mulheres magras ou gordas, ao longo do século XX tivemos que, pelos anos 20 deviam ser magras; pelos anos 30, 40 melhor recheadas de formas; nos anos 50 a gloriosa Marilyn Monroe ditou lei, e a partir dos anos 60 começou a violência sob a silhueta feminina com a famosa Twiggy, conduzindo aos fenómenos de anorexia real ou aparente, que nos nossos dias ainda reinam, mesmo que uma figura à Zetta-Jones faça qualquer homem delirar em detrimento de uma ternurenta pele e osso.

Provavelmente com razão, há quem diga que são apenas os ditadores de moda, quando não gostam de mulheres, quem, usando a poderosa maquina de propaganda dos nossos dias, condiciona o gosto a estes despautérios.

Ainda que tenha sido adolescente nos anos 60, vibrei e vibro com a visão de uma mulher em quem as curvas estão no lugar certo, desenhando o corpo no caminho da fecundação. Formas de violoncelo chamou-lhe Man Ray a pretexto da famosa foto de Kiki de Montparnasse, de costas, e que anda pelo blog, algures.

O pintor Pierre-Auguste Renoir 1841-1919), amante dos prazeres da vida, durante mais de 40 anos, entre meados da década de 70 do século XIX e a primeira década do século XX, pintou jovens mulheres gordas, nuas. Colocou-as frequentemente frescas, na saída do banho, em atitude de naturalidade e perfeita satisfação com a imensidão do corpo que possuíam. É parte desse opus que agora arquivo no blog.

Renoir_Pierre-Auguste-Bather_Admiring_Herself_in_the_WaterMas antes da pintura deixo-vos um poema da japonesa Yosano Akiko (1878-1942) “poeta da paixão” chamada:

Depois do banho

visto-me frente ao espelho

e me contemplo.

Que ficou de ontem?

Um sorriso que flutua.

Renoir_Pierre-Auguste-Bather_Arranging_Her_HairPoderia escrever laudas sobre a maravilha de contenção com que este poema fala de depois do amor e da felicidade que transporta, mas hoje já chega. Vamos, presto, à pintura de Renoir.

Renoir_Pierre-Auguste-The_Great_Bathers_The_Nymphs 1919Começo pelas pinturas do fim da vida, como esta, executada em 1919, ano da morte do pintor, e avanço até às obras do inicio da maturidade.

Renoir_Pierre-Auguste-The_Bathers-c._1918-II

Renoir_Pierre-Auguste-Seated_Bather-1914-IIRenoir_Pierre-Auguste-The_Toilet-c._1900-II

Renoir_Pierre-Auguste-A_Seating_Bather

Renoir_Pierre-Auguste-La_Baigneuse_au_Griffon_Bather

Renoir_Pierre-Auguste-The_Toilet

Conta-mo outra vez – poema de Amalia Bautista

Etiquetas

Picabia_Francis-Tetes-paysageNum casal que se ama os filhos nascem, os filhos crescem, os filhos vão à vida deles, e se o amor permanece, o mais belo sonho é o de envelhecer juntos. É do que nos fala, enquanto desejo, o poema de Amalia Bautista  (1962) que hoje transcrevo:

Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.

Cuéntamelo otra vez

Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta lá muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil vezes, por favor:
es la historia más bella que conozco.

A poesia de Amalia Bautista que conheço é quase toda ela um apelo à continuidade do amor reflectindo sobre os seus desconcertos e vicissitudes.

Feita do relato condensado de situações em curso, quando o fim se pressente próximo, cada poema remete para o sobressalto permanente que a possibilidade do amor contém.

Por detrás deste sentir feminino, é a presença do homem de hoje, na sua tateante busca de afirmação, quem se desenha, e nisso cada poema é uma contínua aprendizagem para todos nós.

Usando a lição da famosa fábula de Esopo, lemos no poema seguinte dizer exactamente o contrario do que se sente, de alguma forma erro recorrente entre os que se amam, quando amuados.

A raposa e as uvas

Não me interessa já querer-te tanto,
há muito tempo deixaram de agradar-me
os teus beijos, as tuas caricias, a tua voz,
já não tem sentido a nossa história.
Outros homens me cortejam como loucos
e é bom momento para loucura.
As tuas mãos nunca foram, tu o sabes,
suaves como as uvas, e já é hora
que uma raposa possa desprezar-te.

La zorra y las uvas

No me interessa ya quererte tanto,
han dejado hace tiempo de gustarme
tus besos, tus caricias y tu voz,
ya no tiene sentido nuestra historia.
Otros hombres me rondam como locos
y es buen momento para locura.
Tus manos nunca han sido, tú lo sabes,
suaves como las uvas, y ya es hora
de que una zorra pueda despreciarte.

Os poemas foram publicados no livro Cuéntamelo otra vez em 1999. A transcrição dos originais foi feita a partir da edição da poesia reunida da autora, TRES DESEOS, Editorial Renacimiento, Sevilha 2006. A tradução é de minha responsabilidade.

Despedida, o poema de Jorge Luis Borges

Etiquetas

Bearden_Romare-Spring_WayHá poemas que se bastam, não aceitam o supérfluo de comentários, qual este Despedida de Jorge Luís Borges (1899-1986), que hoje transcrevo.

Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo…
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

À belíssima tradução de Fernando Pinto do Amaral incluída na edição portuguesa das Obras Completas de Borges, acrescento o original em castelhano.

Despedida

Entre mi amor y yo han de levantarse

trescientas noches como trescientas paredes 

y el mar será una magia entre nosotros. 



No habrá sino recuerdos. 

Oh tardes merecidas por la pena, 

noches esperanzadas de mirarte, 

campos de mi camino, firmamento 

que estoy viendo y perdiendo… 

Definitiva como un mármol 

entristecerá tu ausencia otras tardes.

O poema foi publicado originalmente em Fervor de Buenos Aires (1923), primeiro livro de Borges.

O verão segundo Alceu de Lesbos

Etiquetas

,

Beach at La Garoupe (first version) - 1955-16Neste verão que se esconde, e a espaço nos abrasa, regresso com a poesia da antiga Grécia, terra habituada ao sol, cujos poetas nos deixaram uma leitura do mundo, cruzada com o capricho de deuses e heróis numa explicação do incompreensível, de inexcedível beleza.

É de Alceu de Lesbos (sec VII a.C.), poeta e soldado de quem nos chegou pouca da muita poesia sua de que há noticia, esta reflexão sobre o Verão É a hora / em que as mulheres se tornam / mais fogosas e mais fracos / os homens —, onde de alguma forma retoma a reflexão de Hesíodo (séc VIII a.C.) em Trabalhos e Dias (versos 582-596) que há anos, pelo Outono transcrevi no blog.

Humedece de vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.

A tradução é de Albano Martins e consta da Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

Talvez algum erudito leitor nos saiba esclarecer quanto a semelhança entre estes fragmentos de Alceu e Hesíodo reflecte os processos de transmissão da poesia antiga até nós e traduz um conceito de originalidade autoral nos antípodas do que hoje prezamos.

Iconografia

Acompanham o artigo duas visões de Picasso da praia em La Garoupe, sul de França, em 1955.

Beach at La Garoupe (second version) - 1955-15

 

Partida e ausência, poeticamente sentidas por Fernão Rodrigues Lobo Soropita

Etiquetas

,

Anguissola_Sofonisba-Portrait_of_Minerva_AnguissolaFernão Rodrigues Lobo, de alcunha o Soropita, é sobretudo conhecido como o compilador e prefaciador da primeira edição das Rhythmas de Camões, editadas após a morte do poeta, em 1595.

Foi Camilo Castelo Branco o primeiro editor da obra do Soropita a partir de um manuscrito encontrado no mosteiro de Tibães. Apenas em 2007 Maria Luísa Linhares de Deus fez uma nova edição da Obra Poética e em Prosa do poeta. É dessa edição que me sirvo para a transcrição dos poemas.

É incerta a informação sobre a vida do poeta e do que é conhecido poderá concluir-se que nasceu no inicio da segunda metade do séc. XVI e terá vivido até aos primeiros anos do séc.XVII (conhece-se uma carta sua datada de 1601).

Ganhou fama como poeta satírico, o que, como quase sempre acontece, torna a obra datada, porque associada às circunstancias do tempo. Mas foi também sonetista de expressivo sentimento à maneira petrarquista, como os melhores poetas do maneirismo português, e é a esse espolio que vou buscar os sonetos que envolvem uma despedida da mulher amada, num deles, a tristeza depois da partida da amada em outro. Termino com a reflexão usual à época sobre os desenganos do amor.

A umas lágrimas de uma despedida

Quando de ambos os céus caindo estava
O rico orvalho, em pérolas formado,
E sobre as frescas rosas derramado,
Igual beleza recebia e dava.

Amor que sempre ali presente estava,
Como competidor de meu cuidado,
Num vaso de cristal de ouro lavrado
As gotas uma a uma entesourava.

Eu, c’os olhos na luz, que aquele dia,
Entre as nuvens do novo sentimento,
Escassamente os raios descobria,

Se me matar (dizia) apartamento,
Ao menos não fará que esta alegria
Não seja paga igual de meu tormento.

Descodifico a primeira quadra para facilitar a leitura

Quando de ambos os céus caindo estava (os céus são os dois olhos da amada que chora)
O rico orvalho, em pérolas formado, (as lágrimas )
E sobre as frescas rosas derramado, ( as frescas rosas referem as faces)
Igual beleza recebia e dava, (liga ao verso da quadra seguinte)

A partir daqui o restante será claramente perceptível, suponho.

Na beleza das imagens deste soneto está todo o seu encanto. Destaco a forma como o desgosto do poeta pela partida da amada é descrito sobretudo no primeiro terceto, ao usar a luz para explicitar a felicidade que a partida do ser amado vem escurecer — Entre as nuvens do novo sentimento / Escassamente os raios descobria.

Passemos então aos outros sonetos prometidos.

A uma partida

Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.

Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.

Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.

Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.

**

Quanto mais pode amor num peito humano,
Tanto se mostra mais não ter firmeza,
Pois quando dá mor gosto e mor alteza,
Então é mais cruel e desumano;

Põe debaixo do bem um falso engano,
Promete-vos prazer, dá-vos tristeza,
Seus afagos e gostos são crueza,
O mor gosto que tem é ser tirano.

Alto me pôs a fé e o pensamento,
Por que mor queda assim fizesse dar-me
Amor, que em ser cruel é tão isento;

Foi-me desenganar por segurar-me;
Assim, quanto me deu, foi tudo vento,
Desenganou-me enfim, para enganar-me!

Noticia bibliográfica

Fernão Rodrigues Lobo Soropita, OBRA POÉTICA E EM PROSA, edição Maria Luísa Linhares de Deus, Campo das Letras, 2007.

O livro foi publicado no âmbito do projecto da DGLB, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Século XVI, entretanto lamentavelmente extinto.

Iconografia

Assumamos, para melhor enquadrar os poemas, que a menina objecto destas proezas poéticas, surgiria aos olhos do amador qual Minerva Anguissola, aqui pintada por sua irmã Sofonisba, na segunda metade do século XVI, contemporânea, portanto, do poeta.

 

Arte de Camarões — máscaras

Etiquetas

, ,

Camarões etnia Bafum 3No meu fascínio pelas possibilidades estéticas de representação do rosto humano avultam as máscaras da arte da tradição africana na sua aparentemente infinita criatividade.

Na apreciação destas esculturas não me interessam quaisquer considerações sobre a função e o quadro etnológico da peça. Apenas o seu resultado plástico me atrai.

eMuseumPlus136 etnia Bum CamarõesDeste vasto mundo escolho hoje para o blog algumas máscaras de diferentes etnias de Camarões pertencentes à colecção do museu etnológico de Berlim.

Camarões etnia Bafum 2São esculturas de enorme impacto visual que na representação do rosto impõem um jogo de volumes entre as diferentes componentes: olhos e bochechas, sobretudo, usando predominantemente formas arredondadas. O equilíbrio escultórico em cada peça é conseguido com a ornamentação da cabeça, variando como um todo a linha que acompanha o contorno do rosto.

O resultado é um conjunto estilisticamente identificável onde apenas a simetria do rosto é uma constante. A distorção facial praticada transmite a quase todas as máscaras escolhidas amicabilidade ao olhar, se não mesmo bonomia, resultando daí um enorme prazer na sua contemplação.

Camarões etnia Bamungum

Camarões etnia Kom  sec 19

Camarões etnia Bafum A

Camarões etnia Bamileke sec 19

 

Os trabalhos de Eros na poesia de Tomás Segovia

Etiquetas

Waldeck 1A poesia erótica em castelhano é um jardim onde, depois de entrar, não apetece sair.

Hoje venho com a poesia erótica de Tomás Segovia (1927-2011), poeta espanhol de nascimento e mexicano por adopção, que mereceu a atenção de tradução de dois poetas maiores de Portugal: David Mourão-Ferreira e António Ramos Rosa.

Senhor de uma poderosa linguagem poética onde as imagens escorrem desejo e prazer, usou frequentemente formas clássicas de expressão, com o soneto em destaque pela mestria do seu desenvolvimento e musicalidade.

Escolhi para hoje o canto poético do êxtase sexual onde apenas o desejo conta — … quando jazes toda nua, quando / ávida as pernas abres palpitando, … e se entro / com a língua nas entranhas que me estendes, / posso beijar teu coração por dentro. —.
Deixo para outro dia Os beijos em tradução de António Ramos Rosa e entrego-vos ao “… coração felpudo que me incita, ” com o soneto traduzido por David Mourão-Ferreira.

Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:

um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.

E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,

um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.

Passemos agora ao poema na língua de origem e apreciai a beleza da tradução.

Entre los tibios muslos te palpita

un negro corazón febril y hendido

de remoto y sonámbulo latido

que entre oscuras raíces se suscita;



un corazón velludo que me invita,

más que el otro cordial y estremecido,

a entrar como en mi casa o en mi nido
l
hasta tocar el grito que te habita.



Cuando yaces desnuda toda, cuando

te abres de piernas ávida y temblando

y hasta tu fondo frente a mí te hiendes,



un corazón puedes abrir, y si entro

con la lengua en la entrada que me tiendes,

puedo besar tu corazón por dentro.

Termino com dois outros sonetos onde o prazer sem tabus se conta. Transcrevo tão só os originais pois de traduções em português não sei.

*
Un momento estoy solo: tú allá abajo

te ajetreas en torno de mi cosa,

delicada y voraz, dulce y fogosa,

embebida en tu trémulo trabajo.



Toda fervor y beso y agasajo

toda salivas suaves y jugosa

calentura carnal, abres la rosa

de los vientos de vértigo en que viajo.



Mas la brecha entre el goce y la demencia,

a medida que apuras la cadencia,

intolerablemente me disloca,

y

al fin me rompe, y soy ya puro embate,

y un yo sin mí ya tuyo a ciegas late

gestándose la noche de tu boca.

**

Otra vez en tu fondo empezó eso…

Abre sus ojos ciegos el gemido,

se agita en ti, exigente y sumergido,

emprende su agonía sin regreso.



Yo te siento luchar bajo mi peso

contra un dios gutural y sordo, y mido

la hondura en que tu cuerpo sacudido

se convulsiona ajeno hasta en su hueso.



Me derrumbo cruzando tu derrumbe,

torrente en un torrente y agonía

de otra agonía; y doblemente loco,



me derramo en un golfo que sucumbe,

y entregando a otra pérdida la mía,

el fondo humano en las tinieblas toco.

Noticia bibliográfica

Os sonetos constam do livro Poesia (1943-1997), edição F.C.E., Madrid, 1998.

A tradução de David Mourão-Ferreira encontra-se em Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, ed FCG, Lisboa.