Feliz Natal
24 Terça-feira Dez 2013
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24 Terça-feira Dez 2013
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23 Segunda-feira Dez 2013
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Aproxima-se o Natal, e variando as abordagens poéticas ao acontecimento, escolhi hoje quatro poemas de Antonio Manuel Couto Viana (1923-2010) onde de Natal se fala.
Com os dois poemas iniciais lemos quanto à aproximação do Natal o peso da idade se faz sentir na lucidez de saber a vida perto do fim:
Na solidão que o apavora, / O velho corre o coração de lado a lado.
Recorda um deus: um deus criança,
…
Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?
ou ainda
Eu, para aqui ajoelhado, / A memória da infância a pedir-me alegria,
Depois, a dificuldade de todos os dias ser e fazer a vida no espírito do Natal para um homem religioso:
Mas, ai! a adoração dura-me instantes! / Em breve irei negá-lo / Três vezes, antes
De cantar o galo!
Finalmente a assimilação de Natal a cada novo nascimento.
Quando na mais sublime dor, / A mulher dá à luz, / Há sempre um Anjo Anunciador / A murmurar-lhe ao coração — Jesus!
Na aparente simplicidade do verso, a mestria de uma arte versificatória para saborear.
Que longa espera, noite fora!
Virá o anjo? Trará recado?
Na solidão que o apavora,
O velho corre o coração de lado a lado.
Recorda um deus: um deus criança,
Sem a ciência entre os doutores.
E sem espada. E sem balança.
Coroado de inocência e flores.
A bela imagem diluída
De uma passada madrugada
Que lhe foi vida,
Antes de a vida não lhe ser nada.
Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?
Cenário literário dos Natais:
A manta nos joelhos,
Lareira acesa, a mesa com cristais…
A neve, sim, que a tem
No cabelo e também no coração.
— Nascerá hoje alguém
Que o leve, puro e ardente, pela mão?
In Pátria Exausta, Editorial Verbo, Lisboa 1971.
Cenário de Natal sem o Natal
Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu.
Não oiço rumor d’asa ou de vagido
É meia-noite já. E ainda não nasceu.
O que terá acontecido?
Eu, para aqui ajoelhado,
A memória da infância a pedir-me alegria,
Todo o presépio armado
… E a mangedoira vazia!
O silêncio apavora:
Nem uma loa, nem o som de um sino.
Porquê tanta demora?
Não mais irá nascer o meu menino?
Nenhum sinal de sobrenatural
No cenário onde a fé não sublima nem arde.
Por isso, o meu Natal
Vai chegar tarde.
(Para sempre tarde?)
In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.
Natal tão pouco
Nasceu em Belém, ou Nazaré
(A nova teoria),
Este que nos é
O Pai-Nosso em cada dia?
Que importa onde nasceu,
Se num presépio, se num leito?
A verdade sou eu
A aguardá-lo no peito.
Pois abro o coração
Pra o receber,
Quer venha ou não
Do céu ou ventre de mulher.
Mas, ai! a adoração dura-me instantes!
Em breve irei negá-lo
Três vezes, antes
De cantar o galo!
8.12.2005
In Disse e Repito, Averno, 2008.
Natal cada Natal
Quando na mais sublime dor,
A mulher dá à luz,
Há sempre um Anjo Anunciador
A murmurar-lhe ao coração — Jesus!
Cada criança é o Céu que vem
Pra nos remir do pecado
E as palhas d’oiro de Belém
Espalham-se no berço, como um Sol espelhado
Por sobre o lar presepial , o brilho
Da estrela abre o convite dos portais:
— Vinde adorar a floração do filho
No alvoroço da raiz dos pais.
In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.
22 Domingo Dez 2013
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Entre azáfama e melancolia foge o tempo com o Natal no horizonte. Cada ano assiste à luta da memória com a circunstância, na exigência da aprendizagem permanente que a vida obriga. Há sempre mundos perdidos para que outros sejam ganhos, ainda que um canto para a nostalgia possa ser reservado.
Canção do Mundo Perdido
Menino: o teu mundo,
Também já foi meu;
Tão belo e profundo,
Tão perto do céu!
Mas o tempo veio
E fez-me (tão cedo!)
Acordar, a meio
Do sonho mais ledo.
A chave emprestada,
Quis restituída;
Ou antes: trocada
P’la chave da vida.
Poema de Carlos Queiroz (1907-1949), transcrito de Desaparecido e Outros Poemas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1950.
22 Domingo Dez 2013
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Nascimento e maternidade associam-se na carga simbólica induzida pelo Natal. Na pintura ocidental até ao século XVII, além do registo pictórico da natividade e presépio nas variadas componentes que a tradição cristã consagra, a figuração da Virgem com o Menino foi assunto frequente e de popular devoção. E a imagem com que cada época viveu o culto Mariano reflecte-se nas opções dos pintores. No século XIV italiano são sempre jovens e belas mulheres a representar a Virgem Mãe.
Se na maior parte dos mestres a ausência de expressão procura refletir na sua impassibilidade o carácter divino dos personagens, nesta pintura de Nardo di Cione (1320-1365/6) Maria e Jesus são de uma vivacidade sem par. Interroga-nos ela querendo saber o que nós pensamos, enquanto o filho, criança traquina, mede a mãe com o olhar a ajuizar até onde poderá ir no que lhe apeteça fazer. Profundamente humanos, mãe e filho, símbolos de uma maternidade feliz, ao vosso olhar entrego.
O pintor foi contemporâneo de Boccaccio (1313-1375) em Florença e com os irmãos integrou uma geração de bem sucedidos mestres. A pintura terá sido feita na sequência da peste bubónica de 1348, a qual também foi pretexto para o refúgio campestre dos protagonistas das histórias de Decameron escritas por Bocaccio na década de 50 do século XIV.
20 Sexta-feira Dez 2013
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Ainda vão a tempo os leitores que se sintam com gosto, dotes culinários, e destreza na cozinha, para experimentar esta receita tradicional da zona de Tavira, no Algarve, e que a minha mãe, aos quase oitenta e seis anos ainda faz para nós e para oferecer ao longo do mês de Dezembro, cobiçadas que são por quem as provou.
A receita é simples, pode demorar dois ou três dias a concluir-se, mas não receeis, compensa a espera.
Tomai então a receita, pois broas, apenas virtuais vos posso oferecer, e aqui ficam na foto.
Broas da mãe
Ingredientes
1kg batata doce
1kg de açúcar
200g de miolo de amêndoa pelado e moído
200g de côco ralado
4 colheres de farinha bem cheias
Raspa de 4 tangerinas
4 gemas de ovos de galinha
Preparação inicial
Cozem-se as batatas doces em água.
Quando cozidas retira-se-lhes a pele e esmagam-se com garfo.
Nota importante: este polme de batata doce cozida deve ficar bem seco. Se necessário deixar ao ar a secar, mesmo de um dia para o outro.
Pelar o miolo de amêndoa: numa tigela de cerâmica ou barro vidrado coloca-se no fundo o miolo de amêndoa com pele. Sobre ele despeja-se água a ferver suficiente para cobrir a amêndoa. Aguarda-se que arrefeça um pouco até conseguir meter a mão sem queimar, e apertando cada miolo de amêndoa entre os dedos faz-se o miolo saltar da pele.
Retirada a pele de toda a amêndoa, passa-se está por água fria, seca-se com um pano e pode ser moída num qualquer moinho eléctrico tipo 1,2,3.
Execução da massa
Põe-se o açúcar com água (pouco mais de 1/4 litro) ao fogo até formar ponto pasta. Pode ser-lhe acrescentado a raspa da tangerina.
O ponto pasta, neste caso, atinge-se quando o açúcar começar a fazer espuma e ao retirar a colher com que se mexe uma vez por outra, permanece na colher, sem escorrer, uma fina película de açúcar.
Também pode juntar à batata doce a raspa da tangerina em vez de a acrescentar ao açúcar.
Atingido o ponto do açúcar, sem tirar do fogo acrescenta-se a batata doce esmagada e bem seca (se a batata estiver com alguma água faz o açúcar perder o ponto e já não recupera).
Sempre mexendo deixa-se ganhar um pouco de fervura.
Quando borbulhar, acrescenta-se pouco a pouco, mexendo sempre, a amêndoa pelada e ralada, o coco ralado e a farinha. Podem ser previamente misturados os três.
Quando a mistura, ao mexer, fizer rua no fundo do tacho, está pronta.
Retira-se do fogo, espera-se que a massa arrefeça um pouco e acrescentam-se as gemas, mexidas com um garfo, não batidas.
Leva-se de novo o preparado ao fogo, mexendo, para secar um pouco a mistura e cozer as gemas.
Retira-se do lume para uma vasilha baixa e larga, onde se espalha a massa e se deixa arrefecer de um dia para o outro. Pode ser no frigorifico.
Tender as broas
Com as mãos molhadas em água tendem-se pequenas broas que se dispõem num tabuleiro de ir ao forno untado com gordura e polvilhado com farinha.
Pincelam-se as broas por cima com gema de ovo.
Cozem em forno baixo até ficarem com ligeira côr. Dependendo dos fornos devem pôr-se as broas no forno ligeiramente aquecido, 160 graus centígrados ou pouco mais. Cerca de um quarto de hora deve ser suficiente para as broas ficarem cozida e moles.
Divirtam-se.
19 Quinta-feira Dez 2013
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A azáfama que se espera de nós no corropio das prendas, e a realidade social que nos envolve, mostra-a Vitorino Nemésio (1901-1978) neste poema, Natal Chique, na metáfora da compra do anjo anunciado no jornal e do príncipe pedinte.
Natal Chique
Percorro o dia que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.
Mas nem só deste embrulho de papel colorido se faz o Natal. Há uma sub-reptícia corrente mística que permanece, e nela, os anjos têm fulcral protagonismo anunciador.
Foi um anjo que anunciou a Maria a concepção divina.
Para os meninos educados na religião católica são anjos que os acompanham na forma de anjo da guarda. É talvez esse o anjo temido por Vitorino Nemésio, capaz de informar Deus das suas traquinices, e assim referido no poema Anjos:
Anjos são os terríveis / Modos de Deus connosco; / Nós, as suas possíveis / Transparências a fosco.
Lívidos, sem respiração / Ficávamos do toque / Da primeira asa vinda; / Mas eles rondam apenas a oração / Que múrmura os evoque, / E vão-se, e tornam ainda.
Enquanto exército imaginado de emissários de Deus, têm presença forte na vida dos crentes, ainda que nos nossos dias esteja um pouco fora de moda a invocação da sua companhia.
Figuras centrais da mitologia do Natal, e imagem de excelência do Paraíso como quotidiano, leia-se a visão deles por um homem religioso.
Anjos
Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as prumas.
Na leira rasa de aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
—Deus, de teu nome! —sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incenso.
Desfaleço a pensar-te,
Ó ser de Anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.
Anjos são os terríveis
Modos de Deus connosco;
Nós, as suas possíveis
Transparências a fosco.
Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que múrmura os evoque,
E vão-se, e tornam ainda.
Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem à memória
Como uma bolha de ar na água do olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo…
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!
É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.
Que o anjo, de si, é àvido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo, hora a hora:
É ele que não entende
A nossa estupidez.
Poemas de O Pão e a Culpa, Lisboa 1955.
18 Quarta-feira Dez 2013
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A poesia de Manoel de Barros (1916) é um mundo novo e um mundo à parte. Partindo de palavras que todos conhecemos, organiza um discurso que estilhaça a lógica do seu significado corrente tão só pela relação criada entre elas.
Não é um inventor de palavras mas um observador das coisas do mundo que identifica o subtil absurdo em que mergulhamos com a certeza de viver uma normalidade.
Conhecedor do peso e possibilidades de cada palavra, na organização do verso introduz-nos num universo que surpreende e encanta:
Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.
Ao percorrer esta poesia continuamos no num meio conhecido, mas saímos da viagem a olhar à volta, para o que fazemos e pensamos, de outra maneira.
Comecemos por conhecer o que para o poeta é susceptível de ser assunto poético:
I. Matéria de Poesia
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
Terreno de 10×20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas que os líquenes comem
— sapatos, adjetivos —
têm muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom para o lixo é bom para poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisa sem importância são bens de poesia
pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho
Pela vastidão enunciada imagina-se qual a dificuldade na escolha dos poemas para o espaço reduzido do blog, daí que tenha optado por duas reflexões em torno do amor, que a si, leitor(a), convido a meditar.
O Amor
Fazer pessoas no frasco não é fácil.
Mas se eu estudar ciências eu faço.
Sendo que não é melhor do que fazer
pessoas na cama
Nem na rede
Nem mesmo no jirau como os índios fazem.
(No jirau é coisa primitiva, eu sei,
mas é bastante proveitosa)
Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor.
Deus ajeitou isso para nós de presente.
De forma que não é aconselhável trocar
o amor por vidro.
*
Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.
Depois de sabermos que não é aconselhável trocar o amor por vidro, o poeta explica-nos porque e como se abre o pêssego de Deus.
PÊSSEGO
Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.
Transcrevi os poemas de Manoel de Barros, Poesia completa, 6ª reimpressão, 2010, Texto Editores, Ltda, São Paulo, Brasil.
17 Terça-feira Dez 2013
Posted in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga
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Poucas vezes a pintura cristalizou em gesto a ternura, o desejo, o encanto do outro, o amor, como L.J. F. Lagrenée (1724-1805) neste par amoroso adolescente. Este enlevo só foge com a idade se o deixarmos. A rotina, a certeza do outro dando por adquirido um patamar de paixão, são inimigas constantes da continuidade de uma relação no tempo. Se factores externos, que muitas vezes não controlamos, contribuem para o fim de uma ligação amorosa, componentes há que estão ao alcance de ambos: é seguir os concelhos de Ovídio que, no fragmento de Arte de Amar a seguir transcrito, mostra já saber da existência do ponto G, expectativa e angústia do seu fruir nos nossos dias.
Livro II, versos 717-728
Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
como tantas vezes o sol reflete a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,
quando par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.
Aqui está a provável origem do mito da indispensabilidade do orgasmo simultâneo para um prazer pleno, coisa que numa tarde de amor se revela bem secundária, quando o ir e vir nos permite permanecer no que sexólogo chamam estado de plateaux ou parecido.
Mas continuemos que há mais conselhos, desta vez sobre carpe diem, gozar o dia que passa. Consta do Livro III, agora dedicado às mulheres, neste precioso Arte de Amar, e transcrevo os versos 59-66.
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade. Com passo rápido se escapa a idade,
e não é tão boa a que vem depois, quão boa foi a que veio antes.
Felizmente no tempo que nos é dado viver a Primavera é longeva, mas a certa altura vai dando sinais de querer partir.
Transcrevi da tradução de Carlos Ascenso André, Arte de Amar, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.
A pintura de Louis-Jean-François Lagrenée pertence à colecção do Museu Nacional da Suécia, e aqui a deixo na totalidade.
16 Segunda-feira Dez 2013
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Não sei que amores vieram e partiram: / Apenas sei que o Verão em mim cantou
Às voltas com o tempo, e o seu efeito nos homens e mulheres, têm corrido as escolhas poéticas recentes. Chega agora a bela versão de Jorge de Sena para um soneto de Edna St. Vincent Milay (1892-1951).
What Lips My Lips Have Kissed
Que lábios os meus lábios já beijaram,
Onde e porquê, esqueci, como em braços
Até pela manhã tive a cabeça;
Mas esta noite a chuva traz espectros
Que batem na vidraça, à escuta, à espera;
E uma saudade calma há no meu peito,
De jovens que não lembro e nunca mais,
Noite alta, me desejam num soluço.
Qual árvore isolada, assim, no Inverno
Não sabe de aves idas uma a uma
E só seus ramos sabe mais silentes,
Não sei que amores vieram e partiram:
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
Termino com o original do soneto, e os leitores fluentes em inglês poderão avaliar melhor a excelência da tradução.
What lips my lips have kissed, and where, and why,
I have forgotten, and what arms have lain
Under my head till morning; but the rain
Is full of ghosts to-night, that tap and sigh
Upon the glass and listen for reply,
And in my heart there stirs a quiet pain
For unremembered lads that not again
Will turn to me at midnight with a cry.
Thus in the winter stands the lonely tree,
Nor knows what birds have vanished one by one,
Yet knows its boughs more silent than before:
I cannot say what loves have come and gone,
I only know that summer sang in me
A little while, that in me sings no more.
Transcrito de American Poetry, The Twentieth Century, volume one, edição The Library of America.
A tradução de Jorge de Sena encontra-se em Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.
Acompanham o artigo imagens de pinturas do húngaro Geza Voros (1897-1957), autor de varios notaveis retratos femininos.
15 Domingo Dez 2013
Posted in Convite à arte, Poetas e Poemas
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Tanto tempo passado, regresso no blog à poesia de Vitorino Nemésio (1901-1978).
Com uma linguagem poética frequentemente desconcertante, que não desdenha as formas rígidas da quadra ou do soneto, a poesia de Vitorino Nemésio é sobretudo confessional. O poeta fala-nos de si trazendo à conversa a interrogação de um homem religioso consciente do seu livre arbítrio e sabedor da vontade soberana de Deus, e a quem o corpo por vezes impacienta.
A meia-noite deu-me as doze gotas, / O meu mal vai dormir:
…
É murcha a roupa que componho, / Com minha forma, atrás da porta:
Neste seu falar de si, mais que contemplação, lemos uma reflexão sobre o nada que somos e o que fazer com a vida que passa — a Vida é apenas tempo:
Com alma, ideias, tempo, luta / Componho um homem, sou sujeito:
Esgotado o tempo, não há retorno. Daí a decisiva importância das escolhas no exercício de um arbítrio que é nosso, caldeado pela aceitação da decisão divina:
Se é possível, desvia o fel do vaso: / Se não é, beberei. Não faças caso.
Ler esta poesia é aprender isto também:
Ninguém nos ensina a morte, / E a vida é de mais; / A vida sabemos muito bem!
Deixo-vos uma curta escolha de poemas, sem comentários inúteis. Noutros locais existirá certamente a exegese da obra. Aqui, tão só o gosto de saborear o verso na profunda originalidade da sua construção.
Retrato
Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil,
Latino na paixão,
Europeu por subtil;
Homem sou, homem só
(Pascal: “nem anjo nem bruto”):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.
Ser Levado
Tivesse eu sido o que não fui,
Hoje era o mesmo projectado
António, Pedro, Lopo, Rui,
Quatro semblantes num só estado.
Mas eu serei, ainda que a morte
Me faça amiba, verme, pó:
Agulha a Deus, íntimo norte,
Resto de tudo uma alma só.
De eterno levo o tempo em frente
Como o boi leva o feno visto:
Mas ele é rés, e em mim vai gente:
Levado embora, existo, existo!
31.7.59
A Vida é Tempo
Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.
De era se faz o meu futuro,
Será será o meu passado
Como da hera se faz muro
Mais que de pedra levantado.
Se horas a nada levam tudo,
Nada nasceu, tudo é que é,
Haja ou não haja Sartre e o mudo
Deus Tudo-Nada havido em fé.
Que ele é Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão essente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue, e me desmente.
31.7.59
Natureza-Morta
A meia-noite deu-me as doze gotas,
O meu mal vai dormir:
Olham-me, vãs, as minha botas,
Que eu a tão longe faço ir.
É murcha a roupa que componho,
Com minha forma, atrás da porta:
Espelho a que me envergonho!
Minha natureza morta!
Poema 40 do livro eu, comovido a Oeste [1940]
De quando em quando junto as recordações para morrer.
Não gosto de andar sem nada.
Qualquer dia vem aí a vida e vai-se:
A vida, que não é isto quente e rápido que eu tenho,
Mas uma mão com jeito: ela nos leva,
E esse levar é que é morrer.
Sei que é assim, e, se o não sei, oxalá!
Já levei a minha alma à beira de uma coisa ampla e sem nexo,
Uma espécie de rio, uma impressão de fosco e de profundo,
Onde ninguém sabia nada de veemente e claro
— Questões de esquerda, centro, o norte, o sexo —
E por lá me esqueci.
Mas foram só uns dias. Perdi tudo.
Talvez deixasse a pele nos canaviais concretos
Sobre a margem de cá.
E assim, não;
Assim, sem pele, nada dá presa ao homem;
Só sei que Deus era mudo
E os céus discretos.
Tenho pena.
Custa-me este rigor de Deus com os mortos em sonhos
— Voluntários do Ser, os únicos fiados.
Ninguém nos ensina a morte,
E a vida é de mais;
A vida sabemos muito bem!
Ah, se me levassem a ver o rio de Sempre ainda!
— Não levar para vir, nem ir deliberado,
Mas como a palha vai na ave vagabunda:
Esquecida nas penas,
Não no seu bico agudo e cuidadoso,
Que isso já era intenção.
A luz sem cru de cores me tocaria,
E esse toque talvez já fosse consciência,
Saber de morte e de vida,
Lá onde se unem ambas,
Como as pontas do boi rimam na paz da tarde.
Áspera Vida, poema VI
Passeio à tarde a solidão contida.
O meu vulto embrulhado e passageiro,
Debaixo de árvores, diz adeus à vida.
Não quero mais o travo de reseda
Nem o largo planar do pensamento.
Passeio a passo de seda
A avenida do vento.
Ó páginas do céu por ler ainda,
Que inocência no azul perdi sonhando?
Já o sol se fecha sobre a vida finda.
Regressai, flores abertas, às raízes!
Não posso mais com tudo o que me dizes…
Terra, que gosto a fel teus seios têm!
Prece
Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.
Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu Filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.
Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser,
Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.
Poemas transcritos dos livros:
eu, comovido a Oeste [1940]
Nem toda a noite a vida [1952]
O Pão e a Culpa [1955]
O Verbo e a Morte [1959]
As pinturas ao longo do artigo são de Vincent van Gogh (1853-1890).