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Category Archives: Poetas e Poemas

Elogio da sombra — poema de Jorge Luis Borges

30 Sexta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge Luís Borges

Thomson_Ann-Windlass 1983São emocionante poesia e comovedora lição os poemas em que Jorge Luís Borges (1899-1986) nos fala da sua cegueira, e como com ele vemos o mundo sem luz.

Dos poemas  publicados em 1975 no livro La Rosa Profunda, quais 1972, Al Espejo, Mis Libros, e sobretudo os pungentes El Ciego e Un Ciego, à serena aceitação em On His Blindness, publicado em Los Conjurados, 1985, apreendemos novos significados para a luz e para o ver.

Mais de um olhar o mundo que olhar-se a si trata, no entanto, este Elogio da sombra, publicado em 1969 a fechar o livro do mesmo nome, que a seguir transcrevo, e onde da progressiva cegueira diz:  “Esta penumbra é lenta e não dói; / flui por um manso declive / e é parecida com a eternidade.“.

Mas há mais, há a infinita sabedoria dos versos que abrem o poema:

“A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) / pode ser o tempo de nossa felicidade. / O animal está morto  ou quase morto. / Restam o homem e sua alma.“.

E continua com o relato factual: “Vivo entre formas luminosas e vagas / que ainda não são a treva.“, dando conta da sua eximia arte de dizer as profundas verdades com ar de conversa trivial.

As pistas de reflexão saltam em cada nova leitura, qual palimpsesto, e poderia por aqui continuar, mas entrego-vos ao prazer da leitura do poema em tradução e no original espanhol.

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal está morto  ou quase morto.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que ainda não são a treva.

Buenos Aires,

que dantes se espraiava em arrabaldes

rumo à planície sem fim,

voltou a ser a Recoleta, o Retiro,

as confusas ruas do bairro Once

e as vacilantes casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;

o tempo foi o meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;

flui por um manso declive

e é parecida com a eternidade.

Os meus amigos não têm rosto,

as mulheres são o que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isto deveria amedrontar-me,

mas é uma doçura e um regresso.

Das gerações de textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que ainda hoje leio na memória,

lendo-os e transformando-os.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

ao meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições,

dias e noites,

devaneios e sonhos,

cada ínfimo instante de outrora

e dos outroras do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os actos dos mortos,

o partilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,

à minha álgebra e à minha chave,

ao meu espelho.

Em breve saberei quem sou.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Elogio de la Sombra

La vejez (tal es el nombre que los otros le dan)

puede ser el tiempo de nuestra dicha.

El animal ha muerto o casi ha muerto.

Quedan el hombre y su alma.

Vivo entre formas luminosas y vagas

que no son aún la tiniebla.

Buenos Aires,

que antes se desgarraba en arrabales

hacia la llanura incesante,

ha vuelto a ser la Recoleta, el Retiro,

las borrosas calles del Once

y las precarias casas viejas

que aún llamamos el Sur.

Siempre en mi vida fueron demasiadas las cosas;

Demócrito de Abdera se arrancó los ojos para pensar;

el tiempo ha sido mi Demócrito.

Esta penumbra es lenta y no duele;

fluye por un manso declive

y se parece a la eternidad.

Mis amigos no tienen cara,

las mujeres son lo que fueron hace ya tantos años,

las esquinas pueden ser otras,

no hay letras en las páginas de los libros.

Todo esto debería atemorizarme,

pero es una dulzura, un regreso.

De las generaciones de los textos que hay en la tierra

sólo habré leído unos pocos,

los que sigo leyendo en la memoria,

leyendo y transformando.

Del Sur, del Este, del Oeste, del Norte,

convergen los caminos que me han traído

a mi secreto centro.

Esos caminos fueron ecos y pasos,

mujeres, hombres, agonías, resurrecciones,

días y noches,

entresueños y sueños,

cada ínfimo instante del ayer

y de los ayeres del mundo,

la firme espada del danés y la luna del persa,

los actos de los muertos,

el compartido amor, las palabras,

Emerson y la nieve y tantas cosas.

Ahora puedo olvidarlas. Llego a mi centro,

a mi álgebra y mi clave,

a mi espejo.

Pronto sabré quién soy.

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Retratos femininos por Modigliani com poema de Amalia Bautista no final

23 Sexta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Amalia Bautista, Modigliani

82Na minha paixão pela pintura de retrato ocupam um lugar especial as obras de Modigliani (1884-1920).

45Com um vocabulário mínimo no desenho, e que se repete de retrato para retrato (o alongado de cabeças e pescoço, o desenho do contorno de olhos, nariz e boca) vemos pessoas com quem poderíamos conversar, e até olhando com algum detalhe, como a vida lhes correu e que esperam dela. Isto se a imaginação para aí caminhar.

61Não sendo o caso, fica a suavidade da paleta cromática na predominância das cores de terra, a infinita tristeza e o magoado olhar que quase todas estas mulheres transportam.

29

84

221

118

124Nesta pintura da essência do rosto que dá uma vida, encontro contraponto num poema de Amalia Bautista (1962), Al Cabo, que vos deixo em tradução de Joaquim Manuel Magalhães.

Ao Fim

Ao fim são muito poucas as palavras

que nos doem a sério e muito poucas

as que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

que tocam nosso coração e menos

ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

que em nossa vida a sério nos importam:

poder amar alguém, sermos amados

e não morrer depois dos nossos filhos.

O poema foi publicado pela primeira vez em 1999 no livro Cuentamelo Otra Vez, do qual há dias aqui deixei um outro com o mesmo nome do livro.

Termino com o original em castelhano.

Al Cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras

que de verdad nos duelen, y muy pocas

las que consiguen alegrar el alma.

Y son también muy pocas las personas

que mueven nuestro corazon, y menos

aún las que lo mueven mucho tiempo.

Al cabo, son poquíssimas las cosas

que de verdad importan en la vida:

poder querer a alguien, que nos quieran

y no morri después que nuestros hijos.

224Nota bibliográfica

A tradução de Joaquim Manuel Magalhães foi publicada na antologia de poetas espanhóis contemporâneos, em edição bilingue, Trípticos Espanhóis, 3º, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

O original foi transcrito da obra poética reunida de Amalia Bautista, Tres Deseos, Renacimiento, Sevilha, 2006.

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A Vaidade, pintura de Hans Memling com Mallarmé e Cecília Meireles pelo caminho

20 Terça-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Cecilia Meireles, Hans Memling, Stéphane Mallarmé

Memling - A vaidadeVá lá saber-se porque motivo esta graciosa rapariga nua a olhar-se ao espelho e pintada pelo flamengo Hans Memling (1430-1494) representa A Vaidade no dizer de especialistas.

Consultadas as autoridades que em livro escrevem e tenho em casa, pouco adianto.

A rapariga (modelo) faz de Virgem com o Menino em diversas pinturas do mestre e aqui mostra os seus argumentos.

Nada na sua atitude faz lembrar a rainha má da história a Branca de Neve: diz-me espelho meu, há alguma mais bela que eu? Pelo contrario, a menina parece até surpreendida com o que vê.

Pertence a pintura ao tríptico Da Vaidade Terrestre e da Redenção Celeste. Olhai!

Hans Memling - Tríptico Da vaidade Terrena e da redenção CelesteNão sei a quem cabe a responsabilidade do nome: se ao pintor, se a algum dos proprietários através dos séculos, ou se ao Museu de Belas Artes de Estrasburgo onde agora a pintura se guarda. Aparentemente representará a vaidade e a luxuria porque a rapariga se contempla, nua, ao espelho, sem vergonha ou restea de pudor. Ele há cada uma! Num tempo em que não havia revistas para homens, chamadas, nem net, os pretextos de que eles se serviam para olhar imagens de mulheres nuas!

A simbólica do espelho é rica em todas as culturas antigas, da Europa ao Japão, e até a ciência esclarecer a formação da imagem por reflexo, o sortilégio de se ver foi fonte de encantadoras crenças.

A poesia, que em tudo acompanha o mundo, também reflecte o que o espelho numa alma feminina escreve.

É um fragmento do poemeto Hérodiade, de Stéphane Mallarmé (1842-1898) que escolho para disso dar conta.

…

O miroir !

                   Eau froide par l’ennui dans ton cadre gelée

Que de fois et pendant des heures, désolée

Des songes et cherchant mes souvenirs qui sont

Comme des feuilles sous ta glace au trou profond,

Je m’apparus en toi comme une ombre lointaine,

Mais, horreur ! des soirs, dans ta sévère fontaine,

J’ai de mon rêve épars connu la nudité !

…

Deixo a tradução directa dos versos apesar de a perda inevitável da rima lhes retirar toda a música  original. E era Mallarmé quem defendia: “A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras“.

…

Ó espelho!

              Água fria pelo tédio na tua moldura gelada

Quantas vezes e durante horas, desolada

Dos sonhos e procurando as minhas recordações que são

Como folhas sob o teu vidro em poço profundo.

Apareci-me em ti como sombra longínqua

Mas, horror! certas noites, na tua severa fonte.

No meu sonho disperso conheci a nudez!

…

No detalhe do poema de Cecília Meireles (1901-1964) com que encerro esta divagação, encontramos uma mulher reflectindo sobre si e o mundo ao olhar a imagem que o espelho lhe devolve. Saberão as mulheres que me lêem quanto de verdade hoje ainda existe nesta imagem de mulher em meados do século XX.

Mulher ao espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

 

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis.

 

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta: o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

 

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

 

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados,

falará com Deus.

 

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros buscando-se no espelho.

Publicado pela primeira vez em Mar Absoluto e outros poemas, em 1945.

 

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Noche de Ronda – o poema de Luís Alberto de Cuenca

15 Quinta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Luís Alberto de Cuenca, Tamara de Lempicka

Lempicka_Tamara_de-Girl_with_GlovesNão temos em português uma expressão para a castelhana noche de ronda, que transmita aquele andar à deriva a ver o que dá. É de noite de engate que se trata, mas dito assim perde a elegância do castelhano. Tudo isto a propósito de um poema de Luís Alberto de Cuenca (1950), Noche de Ronda chamado e que me ocorreu depois de uma conversa recente.

Algo mais velho que eu, encontro frequentemente na poesia de Luís Alberto de Cuenca afinidades onde uma experiência de vida geracional se cruza com o gosto pela erudição do especialista na antiguidade clássica, e o todo perfumado de uma ironia irresistível e tantas vezes amarga.

Este Noche de Ronda dá então conta de um desses encontros de ocasião em que o desejo de sexo faz deitar para trás as veleidades intelectuais que o convivo aprecia.

Aí o têm, o poema. Primeiro em tradução minha, depois o original castelhano.

Noite de Ronda

Noutro tempo terias gasto a noite
a falar-lhe de livros e de velhos filmes.
Mas já estás velho. Agora sabes que a elas
as aborrece os tipos cheios de nomes próprios,
que o teu bacharelato as deixa indiferentes.
De modo que as deixas tomar a iniciativa,
desligas e finges que escutas as suas historias,
que invariavelmente—recordas de outras vezes—
versam sobre o amor, as viagens, a dietética,
a sua família, o verão, a boa forma física,
o outro mundo, as drogas e a arte pós-moderna.
De quando em quando concordas, procurando os seus olhos
com os teus, roçando levemente os seus músculos,
e elevas aos céus uma angustiada súplica
para que aquela farsa termine quanto antes.
Passarão, mesmo assim, umas horas
até que, ébria e afónica, se abandone nos teus braços
e obtenhas a vitória pírrica do seu corpo,
que, pese às afirmações de três ou quatro amigos,
será muito pouco. E, quando estiver adormecida,
sairás roto para a rua em busca de uma chávena
de café gigantesca, maldizendo os copos
que te arruinaram o fígado na estúpida noite
e pensando que no final, mais vale
não as papar e falar-lhes dos teus livros,
amargar-lhes a vida com Shakespeare e com Griffith.
Ou procurar uma surda para que nada falte.

Tradução do espanhol por Carlos Mendonça Lopes

 

Noche de Ronda

En otro tiempo hubieras empleado la noche
en hablarle de libros y de viejas películas.
Pero ya eres mayor. Ahora sabes que a ellas
les aburren los tipos llenos de nombres propios,
que tu bachillerato les tiene sin cuidado.
De modo que le dejas tomar la iniciativa,
desconectas y finges que escuchas sus historias,
que invariablemente —recuerdas de otras veces—
versan sobre el amor, los viajes, la dietética,
su familia, el verano, la buena forma física,
el más allá, las drogas y el arte postmoderno.
De cuando en cuando asientes, recorriendo sus ojos
con los tuyos, rozando levemente sus muslos,
y elevas a los cielos una angustiosa súplica
para que aquella farsa termine cuanto antes.
Pasarán, sin embargo, todavía unas horas
hasta que, ebria y afónica, se abandone en tus brazos
y obtengas la victoria pírrica de su cuerpo,
que, pese a los asertos de tres o cuatro amigos,
será muy poca cosa. Y, cuando esté dormida,
saldrás roto a la calle en busca de una taza
de café gigantesca, maldiciendo las copas
que arruinaron tu hígado en la estúpida noche
y pensando que, al cabo, merece más la pena
no comerse una rosca y hablarles de tus libros,
amargarles la vida con Shakespeare y con Griffith.
O buscarse una sorda para que nada falte.

Transcrito de Los mundos y los días, Poesia 1970-2005, Visor, Madrid, 2012.

 

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Uma obra de Hiroshige, pretexto para a ironia poética de Wislawa Szymborska

13 Terça-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Hiroshige, Wislawa Szymborska

Hiroshige (1797-1858) - 100 vistas de Edo - 52 - Chuvada súbita em Atake originalAs pessoas na ponte

Estranho planeta e estranhas as pessoas que aí vivem.
Sucumbem ao tempo, mas não querem reconhecê-lo.
Têm maneiras de exprimir o seu protesto,
fazendo pinturas como, por exemplo, esta.

Nada de singular à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma piroga navegando penosa contra a corrente.
Vê-se a ponte sobre a água e vêem-se as pessoas na ponte.
As pessoas visivelmente apressam o passo,
porque de uma nuvem negra
desatou a chover torrencialmente.

A questão é que nada mais se passa.
A nuvem não muda de cor nem de forma.
A chuva não aumenta nem cessa.
A piroga navega sem se mexer.
As pessoas na ponte correm
no mesmíssimo lugar de ainda há pouco.

É difícil não fazer aqui um comentário:
Isto não é uma pintura inocente.
O tempo aqui foi suspenso.
Deixaram de contar com as suas leis.
Negaram-lhe a influencia que tem
no desenrolar dos acontecimentos.
Menosprezaram-no e ultrajaram-no.

Por obra de um rebelde.
Um tal Hiroshige Utagawa,
(uma criatura que, aliás, há muito
e como deve ser, morreu),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma travessura sem significado,
uma brincadeira à escala de umas galáxias,
em todo o caso, porém,
acrescentemos o seguinte:

Há gerações que é de bom tom
ter esta pintura em grande apreço,
deleitar-se com ela, emocionar-se.

Mas há aqueles, a quem isto não basta.
Ouvem até o murmúrio da chuva,
sentem frio das gotas na nuca e nas costas,
olham para a ponte e para as pessoas,
como se ali se vissem retratados
naquela corrida que nunca mais chega ao fim,
naquele caminho que fim não tem,
eternamente por palmilhar,
e acreditam na sua desfaçatez
que assim é na realidade.

Tradução de Teresa Fernandes Swiatkewicz, in Wislawa Szymborska, Um Passo da Arte Eterna, Esfera do Caos Editores, Lisboa 2013.

O fluir do tempo em nós e a representação visual que o cristaliza são, numa primeira leitura, a matéria da reflexão poética de Wislawa Szymborska (1923-2013) neste poema, a propósito de uma gravura famosa de Hiroshige (1797-1858).

Se na segunda estrofe a gravura de Hiroshige é descrita, e trata-se da gravura 52 — Chuvada súbita em Atake — do ciclo Cem vistas de Edo, e com isso poder-se considerar estarmos perante um poema ecfrástico, na medida em que descreve uma obra de arte, todo o resto do poema vai noutras direcções.

Como sempre na poesia desta mulher genial, na simplicidade da linguagem moram as mais profundas reflexões sobre o existir: leia-se de novo toda a última estrofe do poema.

Nele temos o pretexto para nos questionarmos como olhamos as obras de artes visuais no seu significado intrínseco e na sua relação connosco. Depois, o tempo, o que nos acontece, e o que do seu fluir aproveitamos. Há na vida o tempo de a viver e o seu percurso, o caminho por onde a vivemos, seguindo.

A ponte, ligação entre dois pontos, origem e destino, é um não lugar para parar ou cristalizar, e os passos de quem vive aprisionado nesta ponte simbólica, onde o tempo parou, levam-no a caminhar sem sair do mesmo sitio. A ironia nesta poesia revela-se no afirmar o contrário do que escreve.

Embora se possa fazer uma leitura política dos versos

O tempo aqui foi suspenso.
Deixaram de contar com as suas leis.
Negaram-lhe a influencia que tem
no desenrolar dos acontecimentos.
Menosprezaram-no e ultrajaram-no.

na circunstancia da sua criação ( o poema foi publicado em 1986 no livro As Pessoas na Ponte, antes, portanto da queda do Muro de Berlim), o poema no seu todo transcende-a. Ele convida-nos a reflectir em como há um eu e o cosmos que, se estiver sempre presente em nós, nos permite saber com segurança onde pertencemos e para onde vamos, sabendo sempre também, que as coisas não continuarão a ser como são (Brecht) diferentes nós, portanto, dos que

naquele caminho que fim não tem,
eternamente por palmilhar,
e acreditam na sua desfaçatez
que assim é na realidade.

Hiroshige pertence àquela pouco mais de meia-dúzia de artistas geniais que em Edo, hoje Tóquio, entre o meados do século XVIII e meados do século XIX, praticaram a gravura.

Género popular de grande consumo, a gravura sobre papel é no seu conjunto um vasto acervo de obras-primas de arte visual, desenvolvidas num quadro de codificação estrita e numa estética de profunda originalidade.

Tecnicamente cada gravura é obra de três artistas: o criador do desenho, a quem posteriormente a obra é atribuída, o gravador do desenho na madeira e o impressor encarregado de aplicar a cor sobre o papel. A sofisticação técnica do produto final no período áureo do inicio do século XIX, sobretudo no retrato, com a aplicação de mica em pó em algumas zonas da gravura e as nuances de brilho nas vestes dos personagens, acrescenta um requinte esquis a muitas destas gravuras.

Nesta gravura japonesa do período Edo, Ukiyo-e chamada, se o impacto estético é inescapável, a sua leitura emocional é bastante problemática para um ocidental. Repartindo-se por uma enorme variedade de assuntos, encontramos no entanto cinco grandes grupos de representação: retrato, cenas de quotidiano, paisagem, seres vivos (animais e plantas) e erótica, conhecida no ocidente por Shunga.

Na pintura de paisagem ou cenas de quotidiano, a que esta gravura de Hiroshige pertence, a ausência de perspectiva na composição e de escala entre os motivos, garante, para o nosso olhar, a novidade da representação. Depois chega-nos a incompreensão do representado, se forem para nós desconhecidos com algum detalhe tanto a história como a cultura japonesas.

Nota
Encontra o visitante curioso algumas gravuras japonesas da minha colecção no blog-arquivo Gravura Japonesa, cuja ligação pode ser encontrada na coluna da esquerda. Na página do bolg no Facebook pode ver-se um álbum com o conjunto das gravuras de Hokusai, outro mestre do mesmo período, 36 vistas do Monte Fuji.

Outros conjuntos temáticos destes mestres podem ser facilmente encontrados na net.

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O sonho e o tempo em dois poemas de Ana Hatherly

04 Domingo Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Ana Hatherly

Eyck_Jan_van-St_JeromeSabem os leitores do blog como me encanta muita da poesia de Ana Hatherly (1929). Hoje, é ao segundo livro de poesia da artista, As Aparências, publicado em 1959, que vou buscar duas exemplares reflexões: uma sobre o sonho — É a medida sem comparação, — , outra sobre o tempo — O tempo é um passo / Que em seu próprio espaço / Cabe.

Neste livro lemos uma intensa reflexão sobre a necessidade do sonho nas nossas vidas a pretexto das aventuras do personagem Alice no País das Maravilhas — Depressa, depressa, / As minhas asas, o meu fato de sonhar, —.

III
O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

E nesta espécie de viagem ao País da Alice onde o tempo sonhado — Era o tempo do amor — acontece surgirem-nos estes dois poemas:

Oh, que curioso sonho eu tive

I

Íamos todos alegres e tranquilos
Pelo caminho que era o rórido bem.
Os pares de olhos dados
Sorrindo encantamentos,
Elevavam a verdade
A cor dos sentimentos.
Nem ânsia nem receios
Havia como enleios
— Da desunião a dor
Nem presença nem memória —

Era o tempo do amor
Era a vitória

III

Propus ao meu destino
Um jogo com aposta.
Os dados que ele usasse
A mim pertenceriam,
As regras que impusesse
A ambos dirigiam.
A partida era leal
E a vitoria a ambos conviria:
— Aquele que ganhasse
Ao outro mais servia…

A parada que se oferecia,
Era a realidade
Da minha fantasia.

Sonhar é possível mas o tempo — É a flecha / Desferida do arco de toda a invenção. — se encarrega de lhe pôr o fim. E neste sonhopoema com que o livro acaba, o tempo conta-se assim.

FIM

O tempo é um passo
Que em seu próprio espaço
Cabe.

Com ele partimos
E nele regressamos
Cumprindo o indirecto plano
Da reintegração:

É a flecha
Desferida do arco de toda a invenção.

Nota

No livro Poesia 1958-1978, onde reuniu a sua poesia publicada até então, a autora aproveitou de As Aparências apenas 8 dos 36 poemas que compõem o livro. É uma pena pois o livro é hoje uma raridade bibliográfica e na sua unidade ganha um valor acrescido que justificava não o abandonar.

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Conta-mo outra vez – poema de Amalia Bautista

31 Quarta-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Amalia Bautista

Picabia_Francis-Tetes-paysageNum casal que se ama os filhos nascem, os filhos crescem, os filhos vão à vida deles, e se o amor permanece, o mais belo sonho é o de envelhecer juntos. É do que nos fala, enquanto desejo, o poema de Amalia Bautista  (1962) que hoje transcrevo:

Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.

Cuéntamelo otra vez

Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta lá muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil vezes, por favor:
es la historia más bella que conozco.

A poesia de Amalia Bautista que conheço é quase toda ela um apelo à continuidade do amor reflectindo sobre os seus desconcertos e vicissitudes.

Feita do relato condensado de situações em curso, quando o fim se pressente próximo, cada poema remete para o sobressalto permanente que a possibilidade do amor contém.

Por detrás deste sentir feminino, é a presença do homem de hoje, na sua tateante busca de afirmação, quem se desenha, e nisso cada poema é uma contínua aprendizagem para todos nós.

Usando a lição da famosa fábula de Esopo, lemos no poema seguinte dizer exactamente o contrario do que se sente, de alguma forma erro recorrente entre os que se amam, quando amuados.

A raposa e as uvas

Não me interessa já querer-te tanto,
há muito tempo deixaram de agradar-me
os teus beijos, as tuas caricias, a tua voz,
já não tem sentido a nossa história.
Outros homens me cortejam como loucos
e é bom momento para loucura.
As tuas mãos nunca foram, tu o sabes,
suaves como as uvas, e já é hora
que uma raposa possa desprezar-te.

La zorra y las uvas

No me interessa ya quererte tanto,
han dejado hace tiempo de gustarme
tus besos, tus caricias y tu voz,
ya no tiene sentido nuestra historia.
Otros hombres me rondam como locos
y es buen momento para locura.
Tus manos nunca han sido, tú lo sabes,
suaves como las uvas, y ya es hora
de que una zorra pueda despreciarte.

Os poemas foram publicados no livro Cuéntamelo otra vez em 1999. A transcrição dos originais foi feita a partir da edição da poesia reunida da autora, TRES DESEOS, Editorial Renacimiento, Sevilha 2006. A tradução é de minha responsabilidade.

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Despedida, o poema de Jorge Luis Borges

29 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge Luís Borges

Bearden_Romare-Spring_WayHá poemas que se bastam, não aceitam o supérfluo de comentários, qual este Despedida de Jorge Luís Borges (1899-1986), que hoje transcrevo.

Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo…
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

À belíssima tradução de Fernando Pinto do Amaral incluída na edição portuguesa das Obras Completas de Borges, acrescento o original em castelhano.

Despedida

Entre mi amor y yo han de levantarse

trescientas noches como trescientas paredes 

y el mar será una magia entre nosotros. 



No habrá sino recuerdos. 

Oh tardes merecidas por la pena, 

noches esperanzadas de mirarte, 

campos de mi camino, firmamento 

que estoy viendo y perdiendo… 

Definitiva como un mármol 

entristecerá tu ausencia otras tardes.

O poema foi publicado originalmente em Fervor de Buenos Aires (1923), primeiro livro de Borges.

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Os trabalhos de Eros na poesia de Tomás Segovia

20 Sábado Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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Tomás Segovia

Waldeck 1A poesia erótica em castelhano é um jardim onde, depois de entrar, não apetece sair.

Hoje venho com a poesia erótica de Tomás Segovia (1927-2011), poeta espanhol de nascimento e mexicano por adopção, que mereceu a atenção de tradução de dois poetas maiores de Portugal: David Mourão-Ferreira e António Ramos Rosa.

Senhor de uma poderosa linguagem poética onde as imagens escorrem desejo e prazer, usou frequentemente formas clássicas de expressão, com o soneto em destaque pela mestria do seu desenvolvimento e musicalidade.

Escolhi para hoje o canto poético do êxtase sexual onde apenas o desejo conta — … quando jazes toda nua, quando / ávida as pernas abres palpitando, … e se entro / com a língua nas entranhas que me estendes, / posso beijar teu coração por dentro. —.
Deixo para outro dia Os beijos em tradução de António Ramos Rosa e entrego-vos ao “… coração felpudo que me incita, ” com o soneto traduzido por David Mourão-Ferreira.

Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:

um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.

E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,

um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.

Passemos agora ao poema na língua de origem e apreciai a beleza da tradução.

Entre los tibios muslos te palpita

un negro corazón febril y hendido

de remoto y sonámbulo latido

que entre oscuras raíces se suscita;



un corazón velludo que me invita,

más que el otro cordial y estremecido,

a entrar como en mi casa o en mi nido
l
hasta tocar el grito que te habita.



Cuando yaces desnuda toda, cuando

te abres de piernas ávida y temblando

y hasta tu fondo frente a mí te hiendes,



un corazón puedes abrir, y si entro

con la lengua en la entrada que me tiendes,

puedo besar tu corazón por dentro.

Termino com dois outros sonetos onde o prazer sem tabus se conta. Transcrevo tão só os originais pois de traduções em português não sei.

*
Un momento estoy solo: tú allá abajo

te ajetreas en torno de mi cosa,

delicada y voraz, dulce y fogosa,

embebida en tu trémulo trabajo.



Toda fervor y beso y agasajo

toda salivas suaves y jugosa

calentura carnal, abres la rosa

de los vientos de vértigo en que viajo.



Mas la brecha entre el goce y la demencia,

a medida que apuras la cadencia,

intolerablemente me disloca,

y

al fin me rompe, y soy ya puro embate,

y un yo sin mí ya tuyo a ciegas late

gestándose la noche de tu boca.

**

Otra vez en tu fondo empezó eso…

Abre sus ojos ciegos el gemido,

se agita en ti, exigente y sumergido,

emprende su agonía sin regreso.



Yo te siento luchar bajo mi peso

contra un dios gutural y sordo, y mido

la hondura en que tu cuerpo sacudido

se convulsiona ajeno hasta en su hueso.



Me derrumbo cruzando tu derrumbe,

torrente en un torrente y agonía

de otra agonía; y doblemente loco,



me derramo en un golfo que sucumbe,

y entregando a otra pérdida la mía,

el fondo humano en las tinieblas toco.

Noticia bibliográfica

Os sonetos constam do livro Poesia (1943-1997), edição F.C.E., Madrid, 1998.

A tradução de David Mourão-Ferreira encontra-se em Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, ed FCG, Lisboa.

 

 

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Amor e mais poemas de Gueorgui Gospodinov

16 Terça-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Grant Wood, Gueorgui Gospodinov

Wood, Grant-American Gothic 1930Amor

Todas as noites
sonhar com a mulher
deitada ao teu lado.

Nem sempre aforística, como nesta definição de Amor, a poesia de Gueorgui Gospodinov (1968), poeta búlgaro, surge-nos com o peso preciso de cada palavra, dando ao verso e aos poemas a extraordinária capacidade de nos fazer voar a imaginação.

Acrescento mais alguns poemas retirados da recolha poética O Coelho do Amor, onde a lemos em tradução portuguesa de Zlatka Timenova-Valtcheva e Petar Petrov.

Wood, Grant-Haying 1939

O Coelho do amor

Volto já, disse
e deixou a porta aberta.
A noite era especial para nós,
no fogão cozia coelho,
com cebola, rodelas de cenoura
e dentes de alho.
Nem casaco levou,
nem pôs batom, não perguntei
para onde ia.
Assim é ela.
Nunca teve noção
do tempo, chegava tarde para os encontros
e naquela noite
disse simplesmente
Volto já,
e nem a porta fechou.

Seis anos após aquela noite
encontro-a numa outra rua,
pareceu-me assustada,
como alguém que se lembra
de ter deixado o ferro de engomar ligado
ou algo assim…

O fogão? Desligaste-o?
Ainda não, disse eu,

esses coelhos são muito rijos.

Wood, Grant-The Good Influence 1936

Um sonho em Dianopolis

Não o procurei foi uma coincidência
do olhar e da janela
numa tarde quando
a entrevi nua
só depois soube o seu nome
uma das muitas Dianas
no polis sonolento

agora estou a esconder-me nos campos
os meus cornos ficam rígidos
os meus pés transformam-se em cascos
crescem os meus caninos
e começam a perseguir-me ladrando
para dentro
galgos em mim
veado e cão veado e cão veado
e cão eu sou

(Nota minha: Diana, deusa itálica que se comprazia apenas na caça)

Depois da pungente ironia destes poemas sobre paixão e abandono alguns cruzamentos com a perplexidade de Deus.

Deus
talvez seja feliz
porque não tem o seu
Deus

Wood, Grant-Appraisal 1931

Ensino supremo

Deus tem o seu saber.
No fim dos nossos discursos
coloca cruzinhas em vez de pontos,
coloca cruzinhas em vez de assinatura.
Deus, digo-te ao ouvido,
tem a sua sabedoria.

Wood, Grant-New Road 1939

As notícias

Ela fecha o jornal e diz:
leste, em Ayova
caiu granizo — pedaços
como bolas de golfe,
perderam muitas bolas
e agora elas voltam.
Ele devolve-lhes as bolas,
percebes? Aquele Brincalhão!
Mas ela não ri
e diz horrorizada:

Ele tem sempre boa pontaria.

Wood, Grant-Young Corn 1931

Regresso à concisão poética do inicio, para terminar esta curta viagem:

A minha mãe está a chorar
As suas lagrimas caem no céu
e fermentam a Via Láctea

Wood, Grant-Daughters of Revolution 1932Acompanham os poemas pinturas do norte-americano Grant Wood (1891-1942).

Noticia bibliográfica

O Coelho do Amor, recolha poética com poemas de Gueorgui Gospodinov, provenientes dos livros Lapidarium (1992), A cerejeira e o povo (1996), prémio para o melhor livro do ano, Cartas a Gaustin (2003), e Os domingos no mundo, foi publicada por Roma Editora, Lisboa 2010.

 

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