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Category Archives: Poetas e Poemas

Não sei que amores vieram e partiram — soneto de Edna St. Vincent Milay

16 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Edna St. Vincent Milay, Geza Voros, Jorge de Sena

Geza Voros - Nu no estúdio 1930

Não sei que amores vieram e partiram: / Apenas sei que o Verão em mim cantou

Às voltas com o tempo, e o seu efeito nos homens e mulheres, têm corrido as escolhas poéticas recentes. Chega agora a bela versão de Jorge de Sena para um soneto de Edna St. Vincent Milay (1892-1951).

 

 

What Lips My Lips Have Kissed

 

Que lábios os meus lábios já beijaram,

Onde e porquê, esqueci, como em braços

Até pela manhã tive a cabeça;

Mas esta noite a chuva traz espectros

 

Que batem na vidraça, à escuta, à espera;

E uma saudade calma há no meu peito,

De jovens que não lembro e nunca mais,

Noite alta, me desejam num soluço.

 

Qual árvore isolada, assim, no Inverno

Não sabe de aves idas uma a uma

E só seus ramos sabe mais silentes,

 

Não sei que amores vieram e partiram:

Apenas sei que o Verão em mim cantou

Um breve tempo, e já não canta mais.

 

Geza Voros - Mulher sentada

Termino com o original do soneto, e os leitores fluentes em inglês poderão avaliar melhor a excelência da tradução.

 

 

What lips my lips have kissed, and where, and why,

I have forgotten, and what arms have lain

Under my head till morning; but the rain

Is full of ghosts to-night, that tap and sigh

Upon the glass and listen for reply,

And in my heart there stirs a quiet pain

For unremembered lads that not again

Will turn to me at midnight with a cry.

Thus in the winter stands the lonely tree,

Nor knows what birds have vanished one by one,

Yet knows its boughs more silent than before:

I cannot say what loves have come and gone,

I only know that summer sang in me

A little while, that in me sings no more.

 

Transcrito de American Poetry, The Twentieth Century, volume one, edição The Library of America.

A tradução de Jorge de Sena encontra-se em Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

Acompanham o artigo imagens de pinturas do húngaro Geza Voros (1897-1957), autor de varios notaveis retratos femininos.

Geza Voros - Mulher com boina preta

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A Vida é Tempo — regresso à poesia de Vitorino Nemésio

15 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Vincent van Gogh, Vitorino Nemésio

Novelas francesas e uma rosa 1887Tanto tempo passado, regresso no blog à poesia de Vitorino Nemésio (1901-1978).

Com uma linguagem poética frequentemente desconcertante, que não desdenha as formas rígidas da quadra ou do soneto, a poesia de Vitorino Nemésio é sobretudo confessional. O poeta fala-nos de si trazendo à conversa a interrogação de um homem religioso consciente do seu livre arbítrio e sabedor da vontade soberana de Deus, e a quem o corpo por vezes impacienta.

A meia-noite deu-me as doze gotas, / O meu mal vai dormir:

…

É murcha a roupa que componho, / Com minha forma, atrás da porta:

Quarto de Van Gogh em Arles 1888

Neste seu falar de si, mais que contemplação, lemos uma reflexão sobre o nada que somos e o que fazer com a vida que passa — a Vida é apenas tempo:

Com alma, ideias, tempo, luta / Componho um homem, sou sujeito:

Esgotado o tempo, não há retorno. Daí a decisiva importância das escolhas no exercício de um arbítrio que é nosso, caldeado pela aceitação da decisão divina:

Se é possível, desvia o fel do vaso: / Se não é, beberei. Não faças caso.

Ler esta poesia é aprender isto também:

Ninguém nos ensina a morte, / E a vida é de mais; / A vida sabemos muito bem!

Deixo-vos uma curta escolha de poemas, sem comentários inúteis. Noutros locais existirá certamente a exegese da obra. Aqui, tão só o gosto de saborear o verso na profunda originalidade da sua construção.

 

Retrato

 

Cruel como os Assírios,

Lânguido como os Persas,

Entre estrelas e círios

Cristão só nas conversas.

 

Árabe no sossego,

Africano no ardor;

No corpo, Grego, Grego!

Homem, seja onde for.

 

Romano na ambição,

Oriental no ardil,

Latino na paixão,

Europeu por subtil;

 

Homem sou, homem só

(Pascal: “nem anjo nem bruto”):

Cristãmente, do pó

Me levante impoluto.

Rispal Restaurant at Asnières 1887

Ser Levado

 

Tivesse eu sido o que não fui,

Hoje era o mesmo projectado

António, Pedro, Lopo, Rui,

Quatro semblantes num só estado.

 

Mas eu serei, ainda que a morte

Me faça amiba, verme, pó:

Agulha a Deus, íntimo norte,

Resto de tudo uma alma só.

 

De eterno levo o tempo em frente

Como o boi leva o feno visto:

Mas ele é rés, e em mim vai gente:

Levado embora, existo, existo!

31.7.59

 The Night Café in the Place Lamartine in Arles

A Vida é Tempo

 

Com alma, ideias, tempo, luta

Componho um homem, sou sujeito:

Penso-me livre numa gruta

Como pretérito imperfeito.

 

De era se faz o meu futuro,

Será será o meu passado

Como da hera se faz muro

Mais que de pedra levantado.

 

Se horas a nada levam tudo,

Nada nasceu, tudo é que é,

Haja ou não haja Sartre e o mudo

Deus Tudo-Nada havido em fé.

 

Que ele é Deus mesmo no absoluto

Ser contestado, tão essente

Que se faz Deus na voz que escuto,

Mesmo que o negue, e me desmente.

31.7.59

Par de sapatos 1888

 

Natureza-Morta

 

A meia-noite deu-me as doze gotas,

O meu mal vai dormir:

Olham-me, vãs, as minha botas,

Que eu a tão longe faço ir.

 

É murcha a roupa que componho,

Com minha forma, atrás da porta:

Espelho a que me envergonho!

Minha natureza morta!

 

Montmartre 1886

Poema 40 do livro eu, comovido a Oeste [1940]

 

De quando em quando junto as recordações para morrer.

Não gosto de andar sem nada.

Qualquer dia vem aí a vida e vai-se:

A vida, que não é isto quente e rápido que eu tenho,

Mas uma mão com jeito: ela nos leva,

E esse levar é que é morrer.

Sei que é assim, e, se o não sei, oxalá!

Já levei a minha alma à beira de uma coisa ampla e sem nexo,

Uma espécie de rio, uma impressão de fosco e de profundo,

Onde ninguém sabia nada de veemente e claro

— Questões de esquerda, centro, o norte, o sexo —

E por lá me esqueci.

 

Mas foram só uns dias. Perdi tudo.

Talvez deixasse a pele nos canaviais concretos

Sobre a margem de cá.

E assim, não;

Assim, sem pele, nada dá presa ao homem;

Só sei que Deus era mudo

E os céus discretos.

 

Tenho pena.

Custa-me este rigor de Deus com os mortos em sonhos

— Voluntários do Ser, os únicos fiados.

Ninguém nos ensina a morte,

E a vida é de mais;

A vida sabemos muito bem!

 

Ah, se me levassem a ver o rio de Sempre ainda!

— Não levar para vir, nem ir deliberado,

Mas como a palha vai na ave vagabunda:

Esquecida nas penas,

Não no seu bico agudo e cuidadoso,

Que isso já era intenção.

A luz sem cru de cores me tocaria,

E esse toque talvez já fosse consciência,

Saber de morte e de vida,

Lá onde se unem ambas,

Como as pontas do boi rimam na paz da tarde.

 

Les Alyscamps, Falling Autumn Leaves 1888

Áspera Vida, poema VI

 

Passeio à tarde a solidão contida.

O meu vulto embrulhado e passageiro,

Debaixo de árvores, diz adeus à vida.

Não quero mais o travo de reseda

Nem o largo planar do pensamento.

Passeio a passo de seda

A avenida do vento.

Ó páginas do céu por ler ainda,

Que inocência no azul perdi sonhando?

Já o sol se fecha sobre a vida finda.

Regressai, flores abertas, às raízes!

Não posso mais com tudo o que me dizes…

Terra, que gosto a fel teus seios têm!

par de botas 1886

 

Prece

 

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,

Como quem deixa à porta o saco para o pão.

Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.

O que for, assim seja à tua mão.

Tua vontade se faça, a minha não.

 

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,

Do flanco de teu Filho copiado.

Corre água, tempo e pus no sangue quente:

Outro bem não me é dado.

Tudo e sempre assim seja,

E não o que a alma tíbia só deseja.

 

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,

Que com pontas de fogo o podre se adormenta.

O teu perdão de Pai ainda não pode ser,

Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:

Se é possível, desvia o fel do vaso:

Se não é, beberei. Não faças caso.

 

Poemas transcritos dos livros:

 

eu, comovido a Oeste [1940]

Nem toda a noite a vida [1952]

O Pão e a Culpa [1955]

O Verbo e a Morte [1959]

 Natureza-morta 1887

As pinturas ao longo do artigo são de Vincent van Gogh (1853-1890).

 

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Tristeza — poema de Teixeira de Pascoaes

11 Quarta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Arnold Böcklin, Teixeira de Pascoaes

Arnold Böcklin - Ulisses e CalypsoA vida raramente corre como a desejamos. Na infinita capacidade humana de adaptação ao inesperado cruzam-se os mais variados sentimentos e deles, frequentemente, a poesia dá conta. Hoje fala-nos da tristeza um poema de Teixeira de Pascoaes (1877-1952).

 

Tristeza

 

O sol do outono, as folhas a cair,

A minha voz baixinho soluçando,

Os meus olhos, em lagrimas, beijando

A mística paisagem a sorrir…

 

Assim a minha vida transitando

Vai, à tona da terra… E fico a ouvir

Silencios do outro mundo e o resurgir

De mortos que me foram sepultando…

 

E fico mudo, extático, parado

E quasi sem sentidos, mergulhado

Na minha viva e funda intimidade…

 

A mais longínqua estrela em mim actua…

Inunda-me de mágoa a luz da lua,

E sou eu mesmo o corpo da saudade.

 

 

É complexa e intelectualmente exigente a poesia de Teixeira de Pascoaes. Sob a simplicidade do verso surgem sempre ontológicas interrogações num constante diálogo entre o homem, ser de relação, e o animal sensível às mutações da natureza.

Para os mais informados permanece, talvez, como imagem de Teixeira de Pascoaes, a expressão com que Unamuno se lhe referiu — dizia adeus ao sol, falava ao vento, saudava a aurora e lia no Infinito —. Visão provavelmente certeira do homem que a sua poesia incorpora.

 

É tudo sonho e vida e comoção!

O sol é uma oração

Pelos velhos mendigos que têm frio!

E a piedade das sombras, pelo estio!

A nuvem religiosa

Mata a sede à paisagem sequiosa…

O luar perdoa à noite; e cada flor

É dádiva de amor.

(Poema II de Nova Luz, in Vida Etérea)

 

Os belos versos sucedem-se e não conseguiria parar de citar. Mas deste mesmo ciclo, Nova Luz, o poema I abre assim:

 

Emana um fumo de alma o crepitar do lume:

O incêndio duma flor dá a cinza do perfume.

 

O corpo de uma onda é o líquido braseiro,

Que exala, no infinito, o branco nevoeiro.

…

 

Para quem tenha curiosidade desta poesia e se iniba perante a sua aparente estranheza neste nosso tecnológico século XXI, atrevo-me a sugerir o livro Vida Etérea, onde em belíssima exaltação da vida os poemas se sucedem. Por hoje, cito ainda desse livro, e do poema Deslumbramento os quatro versos iniciais:

 

A vida é sonho, amor, exaltação.

Flama a irromper da eterna escuridão.

É lume a flor e a sombra amanhecente

A terra é carne, a luz é sangue ardente.

 

As transcrições dos poemas foram feitas da edição dos livros Elegias e Vida Etérea, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998.

 

 

Abre o artigo uma imagem da pintura de Arnold Böcklin (1827-1901) – Ulisses e Calypso.

 

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Quando fores velha — entre W. B. Yeats e Pierre Ronsard

09 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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James McNeill Whistler, Pierre Ronsard, W. B. Yeats

Whistler - retrato da mãe do pintorMuitos amaram os momentos de teu alegre encanto, / Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, / Mas apenas um homem amou … as mágoas do teu rosto que mudava;

É um magoado apaixonado quem assim fala, lembrando o efeito do passar do tempo no contraponto com a constância do seu amor.

São versos do poema When You Are Old de William Butler Yeats (1865-1939) em tradução do poeta José Agostinho Baptista, que a seguir transcrevo na totalidade.

 

Quando Fores Velha

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

 

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

 

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

When You Are Old

 

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,

And loved your beauty with love false or true,

But one man loved the pilgrim soul in you,

And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

Este poema de Yeats reelabora o assunto de um dos sonetos a Helena escritos por Píerre Ronsard (1524-1585).

O conjunto desta pouco mais de centena de poemas de Ronsard à amada(?) Helena (Hélène de Surgères) é um universo de grande densidade erótica, afastado do mundo poético de Yeats, onde talvez o único ponto de contacto seja este mesmo escrito para a memória de uma paixão desdenhada.O assunto pedido de empréstimo por Yeats a Ronsard consta do soneto 24 a Helena:

 

 

Soneto 24 a Helena

 

Quando fordes bem velha ao serão, à candela,

sentada ao pé do lume a dobar, e fiando,

cantando versos meus, direis maravilhando:

“celebrou-me Ronsard no tempo em que fui bela.”

 

Nem criada tereis que acaso ouvindo ela

tal nova, em seus afãs  já quase dormitando,

de o meu nome soar não esperte, abençoando

vosso nome em louvor que eterno se revela.

 

Em terra eu estarei, fantasma já sem osso,

entre mirtos e sombra a repousar num fosso;

vós sereis à lareira, idosa e encolhida,

 

chorando o meu amor e o vosso vão desdém

pois, crede-me, vivei sem ver se amanhã vem:

colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.

 

Original

 

Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,

Assise auprès du feu, dévidant et filant,

Direz chantant mes vers, en vous émerveillant :

« Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

 

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,

Déjà sous le labeur à demi sommeillant,

Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,

Bénissant votre nom de louange immortelle.

 

Je serai sous la terre, et fantôme sans os

Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;

Vous serez au foyer une vieille accroupie,

 

Regrettant mon amour et votre fier dédain.

Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:

Cueilllez dès aujourd’hui les roses de la vie.

 

A história oficial destes talvez platónicos amores de um Ronsard com mais de cinquenta anos por uma Hélène de Surgères vinte e alguns anos mais nova, deixa muito a desejar, quando pretende que a letra dos poemas .é apenas retórica, embora, diga-se, estejam escritos como presente, dando conta de um desejo, e não como passado, qual em poemas de Amores acontece, relatando o acontecido. Vamos então ao soneto à Helena amante(?):

Beija-me, minha amante, beija-me mais, estreita-

me, bafo contra bafo, e aquece-me esta vida,

dá-me assim beijos mil e mais mil de seguida,

amor quer tudo inúmero, amor leis não aceita.

 

Beija e beija outra vez, ó boca tão perfeita,

porque te hás-de guardar, sendo em livor jazida,

pra beijar (de Plutão a dama ou a válida)

sem coração, nem já imagem que deleita?

 

De teus beiços de rosa em vida me cobrindo,

balbucia a beijar-me, a boca entreabrindo,

mil sons a entrecortar, morrendo entre meus braços.

 

Eu morrerei nos teus, e, tu ressuscitada,

eu ressuscitarei, juntemos nossos passos:

o dia mesmo curto é mais do que a noitada.

 

Original

 

Maîtresse, embrasse-moi, baise-moi, serre-moi,

Haleine contre haleine, échauffe-moi la vie,

Mille et mille baisers donne-moi je te prie,

Amour veut tout sans nombre, amour n’a point de loi.

 

Baise et rebaise-moi ; belle bouche pourquoi

Te gardes-tu là-bas, quand tu seras blêmie,

A baiser (de Pluton ou la femme ou l’amie),

N’ayant plus ni couleur, ni rien semblable à toi ?

 

En vivant presse-moi de tes lèvres de roses,

Bégaie, en me baisant, à lèvres demi-closes

Mille mots tronçonnés, mourant entre mes bras.

 

Je mourrai dans les tiens, puis, toi ressuscitée,

Je ressusciterai ; allons ainsi là-bas,

Le jour, tant soit-il court, vaut mieux que la nuitée.

Ainda uma breve nota sobre as explícitas referências clássicas no soneto 24: à ode I-XI de Horácio conhecida por Carpe diem —… vivei sem ver se amanhã vem: / colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.—; e ao carme  V de Catulo —… beijos mil e mais mil…—.

As versões rimadas dos sonetos de Ronsard são do poeta Vasco Graça Moura.

 

A pintura que abre o artigo, de James McNeill Whistler (1834-1903), interessa-me não tanto por figurar a mãe do pintor, mas sobretudo pela forma com faz uma certa leitura da velhice: o vasto negrume que envolve uma imobilidade talvez doente, num físico que a vida secou. É um quadro onde alguma harmonia na forma convive com uma desolada serenidade de onde a alegria partiu, e nessa medida dá uma velhice possivel.

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Langston Hughes — I, too

08 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música, Poetas e Poemas

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Langston Hughes, Marian Anderson, Romare Bearden

Romare Bearden 02Avesso que sou a efemérides com pretexto necrófilo, passo habitualmente esses eventos mediáticos em silêncio. A morte de Mandela, no que pode significar do fim de um tempo, leva-me a recordar o belo poema de Langston Hughes (1902-1967) I, Too. Romare Bearden The Block

Eu também

Eu, também, canto América.

Sou o irmão negro.

Mandam-me comer na cozinha

Quando chega alguém,

Mas rio,

E como bem,

E cresço forte.

 

Amanhã,

Estarei à mesa

Quando alguém chegar.

Ninguém se atreverá,

Então,

A dizer-me,

“Come na cozinha”.

 

Além disso,

Verão como somos belos

E terão vergonha—

 

Eu, também, sou América.

Romare Bearden - La Primavera - 1967

Original

I, Too

I, too, sing America.

 

I am the darker brother.

They send me to eat in the kitchen

When company comes,

But I laugh,

And eat well,

And grow strong.

 

Tomorrow,

I’ll be at the table

When company comes.

Nobody’ll dare

Say to me,

“Eat in the kitchen,”

Then.

 

Besides,

They’ll see how beautiful we are

And be ashamed–

 

I, too, am America.

Romare Beardwn EVENING 1985

Pode o leitor interessado ouvir aqui o poema lido pelo  poeta.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Langston+Highes+I%2C+Too.mp3

 Romare Bearden Gospel-Morning 1987

Termino com He’s got the whole world in his hands cantado por Marian Anderson (1897-1993).

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+He%27s+Got+the+Whole+World+in+His+Hands.mp3

Romare Bearden Fish Fry

Acompanham o artigo imagens de pinturas/colagens de Romare Bearden (1911–1988).

O leitor curioso encontra nas páginas da Wikipédia informação relevante sobre Langston Hughes, Romare Bearden e Marian Anderson.

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Retratos de família por Fernando Botero — o humano por detrás do grotesco

05 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Eduardo Carranza, Fernando Botero

Botero 00La cabeza hermosissima caía / del lado de los sueños;

Abro com estes versos de um soneto do colombiano Eduardo Carranza (1913-1985) uma curta digressão pela pintura de Fernando Botero (1932).

A pintura de Fernando Botero utiliza uma linguagem tipificada na representação do corpo humano que a identifica de imediato. Trata-se de uma representação grotesca do corpo que a ternura de alguns olhares consegue mitigar. A utilização de cores puras e frequentemente contrastadas, preenchendo um desenho preciso, criam uma representação que choca ao primeiro olhar, pelo menos em grande parte da sua obra.

Grotescos, aqueles seres, mais bonecos que gente, e poderiam fazer parte de uma linha de brinquedos infantis, inspiram uma enorme ternura.

Na verdade, belos ou feios, sofisticados ou ridículos na aparência e atitudes, somos todos humanos, e é na alma que nos revemos ou encontramos.

No que imaginar possam, deixo-vos a companhia desta humanidade inventada por Botero. No final o soneto de Eduardo Carranza citado em abertura.

Botero 01

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Botero 03

Botero 04

Botero 05

Botero 06

Botero 07

Botero 08

Botero 09

Soneto Insistente

 
La cabeza hermosissima caía

del lado de los sueños; el verano

era um jazmín sin bordes y en su mano

como un pañuelo azul flotaba el día

 
Y su boca de súbito caía

del lado de los besos; el verano

la tenía en la palma de la mano,

hecha de amor: Oh, qué melancolía.

 
A orillas de este amor cruzaba un río;

sobre este amor una palmera era:

agua del tiempo y cielo de poesía.

 
Y el río se llevó todo lo mío:

la mano y el verano y mi palmera

de poesía. Oh, qué melancolía.

in Azul en ti (1944)

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Pensar no Futuro / Pensar o Futuro — O destino não é um lugar (Francisco Brines )

02 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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Albrecht Dürer, Francisco Brines, Ludwig Wittgenstein

Dürer - Retrato de homem com 95 anos 1521

Gosto de pensar que este velho de 95 anos desenhado por Albrecht Dürer (1471-1528) em 1521 pensa no futuro, mais que na vida vivida. Do que viveu terá aprendido o que mais tarde lapidarmente Wittgenstein escreveu:

6.373.       O mundo é independente da minha vontade.

6.374.        Ainda que tudo o que desejamos acontecesse, isto seria apenas, por assim dizer uma graça dada pelo destino, uma vez que não existe uma conexão lógica entre a vontade e o mundo que a garantisse, e a suposta conexão física também não a poderíamos por sua vez desejar.

5.1361.     Não podemos inferir os acontecimentos futuros dos acontecimentos presentes.

A crença no nexo causal é a superstição.

5.1362.     O livre arbítrio consiste no facto de as acções futuras não poderem ser conhecidas no presente. Só poderíamos conhecê-las se a causalidade fosse uma necessidade interior, como a da inferência lógica. — A conexão entre o saber e o que se sabe é a conexão da necessidade lógica.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) in Tratado Lógico-Filosófico com tradução de M. S. Lourenço

Aceitando que as acções futuras não podem ser conhecidas, ainda assim sobra lugar para o sonho ou desejo. E por isso, do futuro, acreditando na existência de um além vida, pensará o nosso homem, quero crer, no que deseja: e aí talvez siga a ideia de Francisco Brines  (1932) no poema Projecto de Vida Eterna.

Projecto de Vida Eterna

E depois de acabar, voltar ao mundo

após uma curta eternidade, já sereno

voltar de novo ao mundo, a este que sei,

com uma repetida juventude, e junto a mim

seu corpo como fora em sua idade de ouro

perdida, e assim admitir que a vida é infindável

como não pôde ser (agora já eterna),

porque houve um adeus, e o tempo envelhecia

não o tempo, que em si é sempre eterno,

mas o que ele tocava: o mundo,

e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.

 

E para o que lhe falta viver tentará certamente pensar o futuro tendo em conta quanto o destino não é um lugar, verdadeiro e belo título do poema com que hoje me despeço da poesia de Francisco Brines.

 

O Destino nao é um Lugar

 

O caminho foi longo e houve névoa.

Porém, houve o espaço. Mas agora

adensou-se a névoa até ao ponto

de ser o espaço o muro que já roço.

Nele me deterei e, ao voltar

os olhos para trás, a mesma névoa

far-me-á tentar de novo o mesmo muro,

e, se eu dirigir o olhar ao céu

para ali me salvar, a negra névoa

irá cegar-me os olhos, e assim será

isso a que chamaste sono eterno.

 

Traduções dos poemas por José Bento in A Ultima Ceia, edição Assírio & Alvim, Lisboa 1997.

 

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Glosa de Sophia a um poema de Pessoa

29 Sexta-feira Nov 2013

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Sophia de Mello Breyner Andressen

Torso de Dorífero de Policleto de Argos

Nos primeiros meses de vida do blog, há cerca de três anos, publiquei no artigo De vez em quando, PESSOA. Hoje, DÁ A SURPRESA DE SER, um poema menos conhecido do poeta. Venho agora com uma Glosa de Sophia de Mello Breyner Andressen (1919-2004) a esse mesmo poema, escrita em 1968(?).

Sophia segue quase estrofe a estrofe o poema de Pessoa mas desta vez o objecto da admiração é um homem e não uma mulher como em Pessoa.

O erotismo que ressoa em ambos os poemas, ainda que em Sophia de forma ténue, é pouco frequente na obra destes poetas, mas na poesia de Sophia, no seu apreço pelo belo consubstanciado na arte grega antiga, ele implicitamente surge.

 

 

GLOSA

Dá a surpresa de ser

É alto de um loiro escuro

Faz bem só pensar em ver

Seu gesto firme e seguro

 

Tem qualquer coisa de mastro

Tem qualquer coisa de sol

Saber que existe sossega

Como no mar o farol

 

Há qualquer coisa de rude

Em sua beleza extrema

Como saber a crueza

Que há no dentro do poema

 

Tem qualquer coisa de limpo

Apetece como o sal

Espanta que seja real

Sua perfeição de Olimpo

 

Há qualquer coisa de toiro

Na largura dos seus ombros

Navegam brilhos e assombros

No obscuro do seu loiro

1968(?)

 

O poema Glosa foi publicado pela primeira vez em Ilhas (1989) e transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, Lisboa, 2001.

 

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De vez em quando, PESSOA. Hoje, DÁ A SURPRESA DE SER.

29 Sexta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa

A pretexto do poema Glosa de Sophia de Mello Breyner Andressen que vem no artigo seguinte, republico este artigo onde no final se encontra o poema de Fernando Pessoa glosado por Sophia nesse seu poema.

HOJE QUE A TARDE É CALMA e o céu tranquilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Leio o poeta em mim:

Como alguém distraído na viagem, / Segui por dois caminhos par a par. / Fui com o mundo parte da paisagem; / Comigo fui sem ver nem recordar.

Retomo o poema:

Olho por todo o meu passado e vejo / Que fui quem foi aquilo em torno meu, / Salvo o que o vago e incógnito desejo / De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Chegados aqui, onde hoje estou, conheço / Que sou diverso no que informe estou. / No meu próprio caminho me atravesso. / Não conheço quem fui no que hoje sou.

De novo constato: não gosto da poesia de Fernando Pessoa. Não gosto no sentido em que me deleito com a lírica de Camões. No entanto, a poesia de Pessoa tem-me revelado mais sobre mim que provavelmente qualquer outra escrita.

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento, / Nesta quieta solidão sem fim, / Sem cuidado ou tormento / Que ocupe este momento, / Da vida e mundo volto-me p’ra mim.

 

Tão breve sombra do que pude ser / Me encontro, tão perdida semelhança / Com minha vida por acontecer, …

Interrompo o poema aqui. Esta leitura incomoda-me. Mas volto sempre lá, privilégio tão só da arte, continuar irresistível. Mas não transforma a leitura num prazer. Daí definitivamente afirmar “não gosto da poesia de Fernando Pessoa” sabendo que sem ela, eu, provavelmente, seria outra pessoa.

Nos meus vinte anos, ortónimo e heterónimos foram, durante quase um ano, minha leitura de cabeceira. Pegava-lhes, lia um pouco e largava incomodado. No dia seguinte não resistia e voltava a eles. Hoje:


CONVERSO ÀS VEZES comigo / E esse diálogo a sós / Com o impossivel amigo / Que sonha cada um de nós,

 

Vai de clareira em abrigo / Ouvido, visto, veloz / Das expressões que consigo / Das sombras a que dá voz.

 

E a perfeita consonância / De quem fala com quem ouve / Aquece a lume de infância /

A casa em que ainda chove, / E eu durmo a alada distância / Da conversa que não houve.

Mas engana-se quem suponha que tanto o poeta como eu apenas olhamos para o umbigo. De mim calo por pudor, mas ao poeta, faminto do relevo tapado,  Ó fome, quando é que eu como?, veja-se como o deixou aquela loura nos idos de Setembro de 1930:


 

DÁ A SURPRESA DE SER

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver

Seu corpo meio maduro.


Seus seios altos parecem

(Se ela estivesse deitada)

Dois montinhos que amanhecem

Sem ter que haver madrugada.


E a mão do seu braço branco

Assenta em palmo espalhado

Sobre a Saliência do flanco

Do seu relevo tapado.


Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?

Não sei se o poeta comeu, mas aquele pobre moço, de quem a seguir conto a história, não comeu, apenas sonhou, e vejam o que aconteceu:

Fodê-la era o seu sonho recorrente.

Extasiado,

pensava na maravilha

de poder ainda um dia

gozar tamanha ventura.

E assim, mal acordava

voltava a dormir sorrindo

envolto na fantasia

de sonhar a alegria

que em vida nunca teria.

Em vão a fome e a sede

o chamaram à razão.

Morreu abraçado ao sonho

num sossego de ilusão.

Despeço-me com a convicção que sonhos destes valem a morte que trazem.

Noticia bibliográfica:

Os poemas transcritos foram publicados pela 1ªvez nas edições seguintes:

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento (15-5-1923) – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001 (transcrição parcial)

CONVERSO ÀS VEZES COMIGO(25.11-1924)  – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001

DÁ A SURPRESA DE SER (10-9-1930) – Poesias, 1942

HOJE QUE A TARDE É CALMA(1-8-1931)  – Revista de Portugal nº4, 1938 (transcrição parcial)

As transcrições foram efectuadas da edição em 3 volumes da Poesia de Fernando Pessoa publicada pela Assírio & Alvim e preparada por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine.

O resto do texto, o crime, é de minha responsabilidade.

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O moderno Adão – pintura de Sandor Bortnyik e fragmento de Bernardo Soares

26 Terça-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Sandor Bortnyik

Sandor Bortnyik  - O novo Adão 1924

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Fragmentário e inapreensível, o Livro do Desasocego é obra em que por vezes mergulho. E de lá recolhi esta reflexão do heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, a pretexto do vestir.

As questões de aparência que há dias interroguei a propósito do retrato de Antonietta Gonzalez regressam hoje pela mão dos caprichos da moda.

Assunto tratado habitualmente como futilidade social, mereceria certamente uma atenção nas suas componentes psicológicas, na medida em que permite ou impede uma integração e reconhecimento de grupo.

No jogo entre a afirmação da individualidade e a necessidade de aceitação no grupo social com que nos identificamos se movem as escolhas do vestir de cada um de nós. E aí entra a moda do tempo em que vivemos.

Nos nossos dias é matéria de preocupação individual, negócio mundial, e idiossincrasia geográfica, a tal ponto que consoante os escalões etários se encontra um vestir em Berlim ou Nova Iorque que devolve uma imagem da cidade e é factor de integração entre quem a elas acorre vindo das diferentes partes do mundo.

Matéria vasta, e abordável de variados pontos de vista, aqui paro com a totalidade da reflexão pessoana na voz de Bernardo Soares, cujo fragmento citei a abrir.

 Trata-se do fragmento 119, transcrito da edição crítica de Livro do Desasocego preparada por Jerónimo Pizzaro, Tomo I, INCM, Lisboa 2010. Conservei a ortografia do texto.

                [1915?]

As coisas / modernas / são

(1) A evolução dos espelhos.

(2) Os guarda-fatos.

Passámos a ser creaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animaes vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, atravez de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.


O moderno Adão que abre o artigo foi pintado pelo húngaro Sandor Bortnyik (1893-1976), e  de quem há tempos deixei no blog a pintura de um fabuloso motociclista.

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