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Category Archives: Poesia Portuguesa do sec. XX

Jornal de domingo — um poema de Luiza Neto Jorge

09 Sábado Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Heinrich Maria Davringhausen, Luiza Neto Jorge

Usando as palavras com uma precisão cirúrgica, a poesia de Luiza Neto Jorge (1939-1989) corta o inócuo das aparências como lâmina de bisturi, expondo o complexo biológico e social humano:

 

Viver, entretanto, é ver, e ir vendo
e também ver inclui dormir
sem que nada se desfaça se exclua
no interior dos sonhos.
…
do poema Recanto 2

 

 

Transcrevo a seguir, desta poesia de dilaceração, o poema Jornal de domingo:

…
Na casa não há domingo
há um fio de amor partido
que sangra pingo por pingo

 

 

Poema dentro do poema, simultaneamente lemos o que do mundo faz o recreio nas notícias do jornal de domingo:

 

Na página aberta
do jornal de hoje
um anúncio traz
a mulher bela
com poros de pele
um cabelo que são
letras soltas
…
Todos nós esperamos
que ao dobrar a página
se leia isto aquilo
a emoção de ler

e se leia tudo

do pensar na fêmea
a fêmea esgotada
desde o púbis à cor
do riso
…
se leiam as coisas
nas conversas
que entre si não têm
nos obstáculos
que entre si não saltam
…
Com letras maiores
aparece o nome
de um amante morto
com o crânio calvo
de ave sonhadora
…

 

e lemos depois um quadro doméstico onde o lido se reflecte:

…
Acontece então
um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem

nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou
…

 

 

A violência doméstica hoje vivida concentra-se de forma alegórica e lapidar neste poema, a lembrar a realidade terrível vivida no presente pelas vítimas mortais, e candidatas a sê-lo, de um quadro social que desculpabiliza e consente o ciúme e a sua corte de valores, como legítima justificação de opressão até ao assassínio.

 

 

 

Jornal de domingo

Na página aberta
do jornal de hoje
um anúncio traz
a mulher bela
com poros de pele
um cabelo que são
letras soltas

sua boca é um selo

na resposta à carta
que lhe pede a mão
e o seu sexo louro
e o rosto liso
na fotografia
como um peixe rindo

Todos nós esperamos

que ao dobrar a página
se leia isto aquilo
a emoção de ler

e se leia tudo

do pensar na fêmea
a fêmea esgotada
desde o púbis à cor
do riso
quando se ergue
e o vento recua
quando se deita
e se esquece nisso

se leiam as coisas

nas conversas
que entre si não têm
nos obstáculos
que entre si não saltam
homens objetos
anões fadas peixes
gulodices

Com letras maiores

aparece o nome
de um amante morto
com o crânio calvo
de ave sonhadora
que outrora poisou
de amor em amor
dentro dos domingos

*


Domingo é o espaço

onde todos cabem
sem lhes ser preciso
fazer vénia ao sol

Acontece então

um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem

nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou

e se lhe afeiçoa

o fato depois da vingança
e o faz igual
a alguém que dança

Aranha ao de leve

arranha no corpo
e o homem não lê
porque está esquecido
— a pensar em quê?

— Mais um domingo —

é o que dirá
se não o matarem
por qualquer razão
mil punhais salobros
saídos do chão

se voltar a casa

é o que dirá

Na casa não há domingo

há um fio de amor partido
que sangra pingo por pingo

 

in Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Heinrich Maria Davringhausen (1894-1970), der lustmörder, o prazer assassino.

 

À esquerda uma mulher jaz numa cama, degolada e nua. Ao centro, sentado à mesa, navalha pousada, garrafa e copo, e algo na mão, o assassino olha, reflexivo, inexpressivo quanto à tragédia que provocou, transmitindo de forma eloquente quanto já perdeu do que um dia o aproximou de um ser humano digno.

 

Quadro banhado a vermelho, alegoria simultânea do sangue derramado e do inferno de uma vida, pelas janelas entra a luz do mundo exterior, dia e noite, no seu caminhar indiferente a esta tragédia humana entre quatro paredes.

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Devolvo à tarde triste a luz que me entristece — Coimbra em poemas de Miguel Torga

07 Quinta-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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James Holland, Miguel Torga

Para o indizível encanto das cidades que nos prendem busca a poesia resposta. Vã tentativa ou problemático sucesso. O mundo de cheiros, vistas, sabores e memórias não cabe por inteiro nas palavras. Apenas uma aproximação se consegue, às vezes em belos e comoventes poemas.

Coimbra como cidade universitária, lugar de experiências e memórias juvenis de tantos poetas, foi frequentemente o alvo da expressão desse encanto que às palavras foge.

Hoje deixo de fora delíquios e amores estudantis, ora contados em tom sério, ora risonhos ou irónicos, e transcrevo alguns poemas de Miguel Torga (1907-1995), quase uma espécie de poeta da cidade, pois aí exerceu profissionalmente, longos anos, como médico. São poemas onde o pitoresco se transcende para uma meditação do eu no quadro do lugar que o envolve:

 

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
…

 

 

Comecemos com uma espécie de epifania numa tarde de Abril quando  … uma alegria incontida / Sorri no rosto de tudo.

 

 

Boletim

Tarde limpa,
De pureza comungada.
No rio, corre, parada,
A paisagem reflectida;
Há não sei que voz traída
No silêncio do que é mudo;
A luz parece despida;
E uma alegria incontida
Sorri no rosto de tudo.

Coimbra, 17 de Abril de 1969.
in Diário XI, 1973.

 

 

Abril, mês de Primavera, quando o tempo afecta os sentidos, tanto a alegria pode ser esfuziante como o desalento pode chegar, e num registo melancólico aí o temos ao crepúsculo: E uma sombra de mudo / Desalento / Começa a desfazer as rugas animadas / Do próprio sofrimento / Cada vez mais informe nas calçadas.

 

Crepúsculo

Caiu a tarde, e nem sequer ficou
A colorir a talha de alguns versos
Uma réstia do sol que o dia inteiro
Iluminou a praça.
Foi-se a graça
De tudo.
E uma sombra de mudo
Desalento
Começa a desfazer as rugas animadas
Do próprio sofrimento
Cada vez mais informe nas calçadas.

Coimbra, 8 de Abril de 1975.
in Diário XII, 1977.

 

 

E, contudo, é bonito / O entardecer. / A luz poente cai do céu vazio / Sobre o tecto macio / Da ramagem / E fica derramada em cada folha. São as palavras do poeta para estes diferentes findar dos dias em Abril, na cidade, quando …  o rumor citadino / Ondula nos ouvidos / Distraídos / Dos que vão pelas ruas caminhando / Devagar / E como que sonhando / Sem sonhar…

 

 

Vesperal

E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando
Sem sonhar…

Coimbra, 28 de Abril de 1984.
in Diário XIV, 1987.

 

 

Terminada esta curta viagem por Coimbra em Abril na poesia de Miguel Torga, concluo com o poema que citei a abrir, Expectação. Desejo de poeta que anseia A luz de um novo dia./ Um dia alegre, / Limpo, / Singular, / … / Miraculosamente amanhecido / Nas sílabas de um verso enfeitiçado, / A ressoar, medido e desmedido, / Na concha do ouvido / Deslumbrado.

 

 

Expectação

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.

Coimbra, 9 de Julho de 1975.
in Diário XII, 1977.

 

Poemas transcritos de Poesia Completa, 2 volumes, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2007.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de James Holland (1799-1870), imagem de Coimbra ao tempo em que moços estudantes/poetas aí pululavam, do desabrochar do romantismo ao seu estertor, ou seja, entre António Feliciano de Castilho e Antero de Quental, e foram uma plêiade. Não já a cidade pintada nos poemas que transcrevi acima.

 

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Teresa Rita Lopes — O Mar da Memória

05 Terça-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Mário Botas, Teresa Rita Lopes

Do trabalho notável de Teresa Rita Lopes (1937) de desvendar a poesia de Fernando Pessoa temos nós todos beneficiado: os portugueses e o mundo. Presença frequente no blog por via da obra de Fernando Pessoa, hoje é à sua poesia que vou.
No livro cicatriz respigo:

…
                  Hoje sei que só se é feliz
quando não se dá por isso

do  ciclo de 3 poemas Retratos de Família

 

 

e ainda dois poemas:

 

 

O primeiro de
Mais dois sonetos breves

I
Há dias em que
toda a maré negra
dos medos da infância
dá à costa

Então é fechar os olhos
e deixar
que a onda alta rebente

e passe
e se canse
de nos fustigar

e nos arremesse
à praia
Exaustos

10/12/1995

 

 

Retratos de Família

 I

Olha
aqui a avó!
Com o avô
Ao lado a tia o tio a outra
tia
E a mãe    a minha

Morreram todos já

Seguro na mão
esse raminho
de rosas-chá

Cheiro-as:
a cada uma
o seu perfume

Apenas isso são
agora
na lembrança

 

 

Ressuma nos poemas dos livros que hoje leio: cicatriz e Afectos, de Teresa Rita Lopes, uma memória de lugares, cheiros e coisas que me é cara porque familiar, a par da sensibilidade tocante com que evoca a mãe, a meninice e o intangível que nos envolve, e ao crescermos nos faz.

 

 

O Mar da Memória

Acarinho cada vez mais essas palavras
que se dizem ou diziam na minha terra
e as pessoas da minha cidade nem conhecem de nome
Fecho os olhos
abandono-me
deixo-as vir
ao de cima de mim
como uma onda
Dão à costa do fundo do mar da memória
Oiço-as na voz da minha Mãe

 

 

Vão-se Esfumando

Vão-se esfumando como retratos velhos
alguns desses amores
que foram parte de mim
e me deixaram decepada
mutilada
quando um dia partiram

Depois o corpo foi-se custosamente habituando
refazendo a sua unidade

Pouco a pouco foram ficando ausentes
inócuos
estrangeiros

Agora já lhes sorrio de leve
Nem já preciso de lhes perdoar

Só tu
Mãe
desde que te foste
és cada vez mais presente
Mais precisa
Mais preciosa

 

Meu Corpo Teu

Não me ensinaste a envelhecer
Mãe
Nem reparei sequer que envelhecias
Uma vez impacientei-me por não me ouvires bem
e tu disseste simplesmente: “Não vez que a tua Mãe
está a ficar velha?!”
Não via nunca tinha reparado protestei
não aceitei
Só agora compreendo
Agora que envelheces com meu corpo teu
ou que envelheço com teu corpo meu
Habituei-me a ver-te correr ligeira
à frente dos automóveis
a atravessar as ruas fora do risco dos peões
E de repente
sem avisar
a velhice caiu-me em cima

Envelhecias sem reparar
ou não querias pensar nisso
ou não consentias ao corpo esse vagar?

Agora aprendo à minha custa
sem a tua companhia
o que é envelhecer
Se calhar só através desta escrita
me vais ensinando
o que nunca aprendeste

 

 

Apascentando os Caracóis da Inês

A Inês chegou feliz ao quintal de Cacela
com dois caracóis que apanhou na horta:
pousou-os na mesa e ficou-se a contemplar.
Eu também.
                     Mas a primavera lá fora à solta
desencaminhava-a para jogos mais árduos.
Então pediu-me: “Vou ali já volto. Se eles
fugirem chama-me, sim?”
                                             Enquanto apascento
os dois caracóis da minha neta não toco flauta
mas vou escrevinhando estes versos:

         Que bom reencontrar a minha velha amiga
         mesa
                   seu velho tampo de madeira
         nem sequer polido
                                          acariciar seu áspero
         piso
               companheiro de tão calados júbilos
               em sua madeira nua sem pintura sem
               vernizes têm envelhecido os meus versos
               que vou guardando nem sei para que brinde
               especial
                               a um futuro dia incógnito

 

 

Termino a curta viagem pela singularidade desta poesia com quatro poemas da sequência Adagiário incluídos no livro A Fímbria da Fala:

 

Adagiando

  4

Cortar rente
a planta
e o amor doente

Se seiva houver
hão-de brotar
outros e os mesmos

 

 

Adagiando

5

Sofrer
o prazer
como se fosse
eterno

                        viver
                        o sofrer
                        como se fosse
                         breve

 

 

Adagiando

  23

A cada dor seu grito
a cada amor sua ferida
a cada nossa idade
um jeito de sofrer
e de amar

A cada fome seu fruto
a cada fruto seu grumo
e seu sumo
a cada desejo
seu fundo
e fino gume

 

Adagiando

24

Tudo o que
existe
rima
com triste

Tudo o que
é vida
rima
com ferida

Tudo o que
foi
rima
com dói

 

 

Chegado ao fim destes três livros de poesia saio deles com uma sensação de alma lavada pela sinceridade da escrita, como depois de um filme de John Ford, daqueles onde pressentimos ter captado a vida no seu mosaico de alegrias, desgostos, e coisas simples que lhe dão sentido:

Crepúsculo de Setembro em Cacela

Um ar tão doce como se
estivesse dizendo o último
adeus a alguém

 

 

E para coda uma reflexão essencial sobre como amar alguém:

 

 

Perder alguém

Cuidado!
Parar
escutar
olhar
             longamente
             o ser
              amado
Tão fácil
perder
alguém
             pela algibeira
             rota
             da nossa
             desatenção
in A Fímbria da Fala

 

 

Nota bibliográfica

 

Teresa Rita Lopes, cicatriz, Editorial Presença, Lisboa, 1996.
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000.
Teresa Rita Lopes, A Fímbria da Fala, Prefácio de António Ramos Rosa, Desenhos de Mário Botas, Editora Ausência, Porto, 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Mário Botas (1952-1983), a qual ilustra a capa do livro  Fímbria da Fala na edição acima registada.

 

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António de Sousa — alguns poemas e um retrato por Natália Correia

03 Domingo Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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António de Sousa, Natália Correia

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)
…

 

 

António de Sousa (1898-1981), o poeta que se fez esquecer, nas certeiras palavras de Natália Correia (1923-1993) numa evocação biográfica do homem (1), não fora por outros poemas, pelo menos pelo soneto que citei a abrir merece lugar na nossa memória.

 

Da pessoa do poeta aproveito a saborosa evocação de Natália Correia na obra referida na nota (1), para dele dar um retrato a quem do homem nada sabe:

…
Descrevo-o tal como o conheci entre a [Livraria] Sá da Costa e a [Livraria] Bertrand (2) no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios (3) embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça; e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio de mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um arcaboiço de matulão basquetebolista desmazelado por uma alma famélica de estrelas.
…
O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt (4) tinham-se-lhe pegado ao peito. Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como secretário-geral da Young Men’s Christian Association fundado por evangélicos americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito que me espicaçava o duende dos versos. António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando a beleza com saias lhe passava ao pé.
…

 

Apresentado o poeta com a opulência da prosa de Natália Correia, tendo de passagem deixado esquiço de um tempo e personagens desaparecidos, e também um pouco de retrato pessoal da poetisa, eis o soneto, absolutamente surpreendente na sua perfeição formal para transmitir um complexo de imagens e sentimentos a espreitar dum panteísmo não enunciado:

 

 

Sem título

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

— Que distância, meu Deus! — Como te deve
doer ver-nos olhar-te desta praia,
sobre o Outro Mar onde este mar desmaia,
escuro à prece e escuro à vida breve!

(Pensar em Deus à hora do sol-posto…
— Quanta saudade, à voz de portugueses,
se deu, assim, com lágrimas no rosto?!)

Tarde do Mundo, eis-me de terra ao mar,
última luz num rumo de reveses:
um sonho que se morre, devagar.

Poema de abertura do livro Terra ao Mar, 1954.

 

 

Acrescento alguns outros poemas, talvez auto-retratos do poeta, tendo em conta o perfil traçado acima por Natália Correia.

 

Historieta

Macia, a mão do Destino
foi de flores, até um dia.
Eu, sempre moço-e-menino,
sem saber que me bebia
aquela doce loucura
de quem de si não procura
senão ser.

Depois,
a vida e eu fomos dois …

E, sem querer,
morro de ter que a viver!

 

 

Nuvem

Lá longe, aonde a vida me começa
— sorria por engano o sol de inverno —,
não sei que deus me fez sua promessa
e fui outro menino, ávido e terno.

Mas a infância passou, nua e depressa
— subira o sol como um clarão de inferno —,
e fiquei-me neste ar de quem ingressa:
grotesco, trivial, falso e moderno.

— Número sete, um passo em frente! — Pronto!
(A voz que me chamava, certa e calma,
não viu que eu avançava cego e tonto.)

Achou-me assim o tal que me perdeu.
— Ó nuvem! — tarde triste da minh’alma —
quem por seus sonhos sofre como eu?

 

 

Encontro

Marinheiro dum céu que me perdera,
com sete luas ao luar de Outono,
dos meus sonhos nenhum te concebera,
nem te cantava a minha voz sem dono.

Adormeci. As tuas mãos de cera
desfolharam carícias no meu sono.
E Deus, que da minh’alma se esquecera,
de teus beijos floriu este abandono.

Adormeci. À hora da partida,
à luz que os fortes bebem como vinho,
adormeci, para fugir à vida.

Vieste. Sei agora porque sou:
era sonhar — não ser — o meu caminho.
Fugi à vida — a vida começou.

 

 

Bancarrota

Esperei por mim em vão. Suando rezas,
pragas, versos subtis, ruivas saudades,
arrastei minhas horas indefesas
entre chusmas e fundas soledades.

Tive palácios de imortais certezas,
com seus jardins de passear vaidades;
virtudes compassadas e burguesas
e dor sem nome, como o preso às grades.

Fui o fiel-conviva-de-banquetes,
o-pálido-com-alma-pra-vender
nos mercados dos filhos de seus pais.

Subi-me ao céu nas canas dos foguetes;
fiz-me ladrão de sonhos pra vencer,
e sei apenas que não posso mais!

Poemas transcritos de Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Notas minhas:

(1) A Ilha de Sam Nunca, Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa, Secretaria Regional dos Assuntos Culturais, Angra do Heroísmo, 1982.

Com a morte da mulher em 1963, e posteriormente de um filho, recolhe o poeta definitivamente a casa de outro filho, onde, alheio ao mundo, cai numa apatia invulnerável a afectos, até que gravemente doente vem a falecer no hospital em 1981 após agonia prolongada.

(2) Livrarias antigas ao Chiado, em Lisboa, vizinhas do mítico café Brasileira.

(3) Aquilino Ribeiro (1885-1963) e António Sérgio (1883-1969), aqui retratados como  expoentes da oposição intelectual ao salazarismo que também foram.

(4) Cantores famosos de fado de Coimbra, tendo Edmundo de Bettencourt sido também poeta notável.
Aproveito para registar que o poema Cravos de Papel, cantado por Amália com ligeiras adaptações naquele álbum que é a sua mais perfeita realização, Com Que Voz, Amália canta poetas da língua portuguesa na música de Alain Oulman, é de António de Sousa. O poema original é de uma mestria absoluta a captar a brejeirice malandra das quadras populares:

 

 

Cravos de Papel

1
Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.
                 2
Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?
                 3
Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões… )
                 4
Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!
                 5
Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?

in Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia minha feita há anos na Ericeira.

 

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Carlos de Oliveira — Infância: o teu perfume, lenha da melancolia

27 Quarta-feira Fev 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Carlos de Oliveira, Paula Rego

A poesia de Carlos de Oliveira (1921-1981), pesada palavra a palavra, dá sempre conta do essencial em cada reflexão sobre que se debruça. Virtuosística na sua contenção vocabular, é um prazer continuado e um desafio lê-la. Hoje lembro aos leitores o poema Infância, evocação daquele território de experiência primordial, e sobretudo terra de sonhos, que a memoria carrega, qual perfume, lenha da melancolia, como o poeta certeiramente escreve:

 

Infância

 

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
esse rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

 

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paula Rego (1935), Jenufa II de 1983.

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É Tarde — um poema de António Manuel Couto Viana

25 Segunda-feira Fev 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Antonio Manuel Couto Viana, Picasso

Há dias o jornal Washington Post trazia uma história comoventemente contada do reencontro, tarde na vida, de dois outrora adolescentes apaixonados, uma jovem brasileira e um jovem italiano, que as convenções sociais da época afastaram. Na história, contada pela neta, dizia-se que a avó, agora septuagenária, tendo andado os últimos anos a fugir da vida, ganhara um entusiasmo novo com este reencontro. Esta história ilustra exactamente a negação do que António Manuel Couto Viana (1923-2010) no poema É Tarde escreve a concluir:
…
Futuro, que queres de mim?
Fechei pra demolição
Escrevo fé, leio fim.
E tu não.

 

É evidentemente uma leitura restritiva das amplas implicações do poema extensivas que são, do eu às condições da circunstancia que o rodeia.
Para o Futuro nunca é tarde, qualquer que seja a idade e a vida que nos envolve, ainda que nem sempre seja fácil tê-lo presente.

 

 

É Tarde

Futuro, passei a idade
De passar a novo rumo:
Preso nesta sociedade
Me consumo.

Ainda me restam restos
De poesia e de coragem?
Não servem pra manifestos
Nem mensagens.

Irão na próxima leva,
Quando o pão for raro e ralo.
Depois, na fome da treva,
Tremo e calo.

Futuro, que queres de mim?
Fechei pra demolição
Escrevo fé, leio fim.
E tu não.
— 2 de Maio de 1970 —

 

Publicado em Pátria Exausta, 1971. Prémio da Academia das Ciências de Lisboa.
Transcrito de 60 Anos de Poesia, INCM, Lisboa, 2004.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Picasso (1881-1973) O artista e o seu modelo de 1914.

 

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Luís Pignatelli — alguns poemas

29 Terça-feira Jan 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Luis Pignatelli

É curta a obra poética (1953-1993) de Luís Pignatelli (1935-1993) tal como reunida na edição &etc publicada em 1999, preparada e anotada por Zetho Cunha Gonçalves.

Além das experiências poéticas acompanhando diferentes movimentos de vanguarda do século XX, quando o poeta recorre a formas tradicionais de expressão, a obra revela uma poesia de desolada serenidade, agarrada aos detalhes do quotidiano. É das questões da existência que nos fala: do amor, da morte e da enorme aventura de estar vivo.

Tratando-se da poesia de um artista multifacetado, cuja variada obra está por descobrir, a escolha dos poemas a seguir transcritos não é, sequer, representativa da diversidade da sua obra conhecida.
Talvez quem me lê conheça a canção cantada por José Afonso, Era de noite e levaram. O poema é de Luís Pignatelli, ainda que surja no disco Contos Velhos Rumos Novos atribuído a L. Andrade, uma das muitas assinaturas do poeta. Ou o poema Cantiga de Amigo, tornado canção famosa por Adriano Correia de Oliveira, ao tempo do marcelismo, e mais tarde cantado também por Vitorino, afinal poemas que muitos conhecem por memória, sem fazer a ligação a outros trabalhos do poeta.

Despeço-me com uma escolha de três poemas:

 

 

ars amatoria *

Pela sombra desatado
pela lua desperto
está na cama teu corpo
assim exposto:
se a minha mão o toca
um veio de água aberto
irrompe de tua boca
morre em meu rosto

Lentamente morre
à flor da carne desejada
para logo renascer
em fresco voo repetido
para logo repousar
ave ferida
na rama bem amada
de meu corpo apetecido

Um ao outro apetecendo
como neve derretida
na cintura
desta liana quebrada
onde a selva mais escura
do teu corpo vai morrendo
em meu corpo
incendiada

 

* este poema, com alterações mínimas mas significativas, repete um outro poema do livro, os amantes, cantado e gravado por Janita Salomé.

 

 

no verão a rosarosa

langue a língua fone
funil de sombra
na tua boca áspera à espera
da gota gótica levedando leve
a neve
     cúpula de cópula
      árida areia raia
      marinha morta sobre
o peito salobre da praia paina
      de vento no cristal
      de letra cintilante:

      rosaurata

      rosasáurio

      rosaurífera

      rosafera

      em letra viva

na esfera da tua boca furna de prata
onde morre o verão de língua cortada
      íngua rebentando
      na luz de agosto

      ROSAROSAROSAROSA

 

sonetilho para uma adolescente **

Que vento norte
Na manhã do mar
Sopra teus seios
De flores de morte

Que nuvem arde
Sobre o teu corpo
Teu corpo aberto
À tempestade

Que vaga lua
Virá de noite
Doce tanagra

Pôr-te mais nua
Que a nua praia
Doce e amarga

** poema cantado e gravado por Vitorino

 

Poemas transcritos de Luís Pignatelli, Obra Poética 1953-1993, organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves, &etc, Lisboa, 1999.
A edição, modelar como habitual nas edições &etc, inclui além de desenhos de outros, alguns saborosos desenhos do poeta, um dos quais abre o artigo.

 

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O desejo de ser outro num poema de Ruy Belo

28 Segunda-feira Jan 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Helena Almeida, Ruy Belo

…
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
…

Ter a vida que não temos; viver a vida que não vivemos: humaníssimo desejo que aos contentes de si não assalta. Aos outros, a fantasia da imaginação ou o estímulo da literatura são o veículo para, por momentos, nos transportarmos para outra vida, outro indivíduo:
…
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
…

É certamente desejo fugaz que acontece acontecer-nos, criaturas imperfeitas e insatisfeitas:
…
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar.

Desse desejo nos fala o poema de Ruy Belo (1933-1978), Ah poder ser tu, sendo eu!, que antes, fragmentado, citei:

Ah poder ser tu, sendo eu!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Poema publicado em Aquele Grande Rio Eufrates, 1961.
Transcrito de Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (acrílico sobre fotografia) de Helena Almeida (1934-2018).
São poema e pintura duas formas complementares de mostrar o irreprimível desejo de ser outro que por vezes nos atravessa. Na pintura, procurar esconder-se no profundo azul, metáfora de paraíso, no poema, partir com quem passa rumo a destino desconhecido: afinal em ambos a insaciável busca de si.

 

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No informe labirinto da poesia com Fernando Pessoa

18 Sexta-feira Jan 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Fernando Pessoa, Roy Liechtenstein

Escrever poesia tem como pontos de partida e chegada uma utilização virtuosa da língua, facto que hoje ilustro com dois poemas de Fernando Pessoa (1888-1935) num fascinante exercício de criatividade poética.
Partindo de um verso com as mesmas palavras — Dormi. Sonhei. No informe labirinto — e — Dormi, sonhei. No informe labirinto — Pessoa constrói dois poemas de diferente análise emocional. Desde logo, na pontuação destes versos: num, a pausa do ponto final em Dormi. seguido de Sonhei., identificando duas realidades específicas: dormir e sonhar; no outro verso Dormi, sonhei. separados por vírgula, mostrando um sonhar dormindo. E isso mesmo revelam os segundos versos de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
…

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
…

 

 

Se no primeiro poema citado, de 7/7/1930, é para o tempo de uma vida que o poeta remete, sendo este o informe labirinto que a percorre, no segundo poema, sem data, é o impalpável do sonho e o seu desnorte que envolve o narrador, aspectos que surgem clarificado nos restantes versos das primeiras quadras de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
…

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.
…

 

 

O primeiro poema termina com a consciência do engano das palavras na possibilidade de ganhar com elas o conhecimento de si:

…
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
…

 

No segundo poema, um soneto, há uma leitura menos taxativa do eu, remetendo o desenrolar do poema para a sua complexidade.

E assim, pela criatividade poética, o símil de um verso se desdobra numa multiplicidade de sentidos.

 

Eis os poemas na totalidade:

*
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
7-7-1930

 

 

**
Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

Estagno incorpóreo. No infiel recinto
Leio o transtorno do que nunca li,
E o labirinto nunca está em si,
Nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

Minha alma é um ser que a verdade engana,
Memória da partida dos navios
Na praia que de espuma se engalana.

Não voltaram dos longes os sombrios
Barcos, e o luar mole deixa ver
A praia com a espuma a escurecer.
s/d

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Ática, Lisboa, 1973.

Abre o artigo a imagem de uma obra de Roy Liechtenstein (1923-1997).

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Dois poemas de Henrique Risques Pereira

17 Domingo Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Henrique Risques Pereira, Salvador Dalí

Dali_Salvador-Illumined_PleasuresA curiosidade traz-me frequentemente gratas surpresas. É o caso hoje de um livro de poemas, provavelmente o único, de Henrique Risques Pereira (1930), protagonista no movimento surrealista e até agora, para mim, poeta de um só poema, que percorre as antologias do surrealismo português: Um Gato Partiu à Aventura.

Ao que leio, amigo e cúmplice de António Maria Lisboa, com a morte deste, o movimento surrealista deixou de lhe mostrar sentido. Ter-se-á ocupado com uma carreira de engenheiro.

Há sempre um comboio que parte / de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente / ansiosa da viagem para parte incerta

Há sempre um futuro com destino / que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco / vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera / de um comboio que já partiu

Mas o poeta sobreviveu ao engenheiro, e graças a Perfecto E. Quadrado, temos esta edição de uma poesia solar, como certeiramente a qualifica o editor, em pouco mais de uma centena de poemas. Escolho mais dois poemas por onde passam, num, o sentimento do corpo, no outro, a paisagem onde a vida cabe, e assim levar aos leitores do blog um poeta que talvez desconheçam, em poemas que me emocionaram.

Primeiro

Sinto os desertos ondulados

e a tua carne,

desejo o céu cristalino

e os teus olhos.

Admiro o crepúsculo acre

e os teus lábios

e vivo em noite na magia

do desespero de quem sabe

que o amor se conta em anos de morte

e sabe que há um sinal

que marca a ruína infalível para a qual escorregamos

a sonhar o enigma das torres que emigram

presas a fios de aço

e que partem com o pensamento

em todas as direcções.

Para sempre e sem memórias.

**

O vale abre-se à solidão e ao silêncio

e os desfiladeiros descem vertiginosamente para o invisível

e do fundo sobe a bruma leve irreal

 

A luz coloca sombras que se movem suavemente

e o pássaro negro fende o ar cristalino

e a memória das coisas esvaece com a noite

 

Calma majestosa erguida a toda a altura

a montanha projecta-se na imensidão do horizonte

 

Para trás o frenesim da vida dos homens

e o ranger de dentes dos esquecidos da sorte

e o caminhar de braços pendentes esgotados

 

Uma criança algures acaba de nascer

e a mãe protege-a de presságios que lhe gelam a alma

 

Levanta-se a luz de um novo dia

e nós

esquecidos do que sabemos

sorrimos para a vida

Noticia bibliográfica

Henrique Risques Pereira, Transparência do Tempo (poesia), edição de Perfecto E. Quadrado, Quasi Edições, 2003.

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