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Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive

Ter a vida que não temos; viver a vida que não vivemos: humaníssimo desejo que aos contentes de si não assalta. Aos outros, a fantasia da imaginação ou o estímulo da literatura são o veículo para, por momentos, nos transportarmos para outra vida, outro indivíduo:

Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo

É certamente desejo fugaz que acontece acontecer-nos, criaturas imperfeitas e insatisfeitas:

Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar.

Desse desejo nos fala o poema de Ruy Belo (1933-1978), Ah poder ser tu, sendo eu!, que antes, fragmentado, citei:

Ah poder ser tu, sendo eu!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Poema publicado em Aquele Grande Rio Eufrates, 1961.
Transcrito de Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (acrílico sobre fotografia) de Helena Almeida (1934-2018).
São poema e pintura duas formas complementares de mostrar o irreprimível desejo de ser outro que por vezes nos atravessa. Na pintura, procurar esconder-se no profundo azul, metáfora de paraíso, no poema, partir com quem passa rumo a destino desconhecido: afinal em ambos a insaciável busca de si.

 

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