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(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

 

 

António de Sousa (1898-1981), o poeta que se fez esquecer, nas certeiras palavras de Natália Correia (1923-1993) numa evocação biográfica do homem (1), não fora por outros poemas, pelo menos pelo soneto que citei a abrir merece lugar na nossa memória.

 

Da pessoa do poeta aproveito a saborosa evocação de Natália Correia na obra referida na nota (1), para dele dar um retrato a quem do homem nada sabe:


Descrevo-o tal como o conheci entre a [Livraria] Sá da Costa e a [Livraria] Bertrand (2) no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios (3) embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça; e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio de mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um arcaboiço de matulão basquetebolista desmazelado por uma alma famélica de estrelas.

O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt (4) tinham-se-lhe pegado ao peito. Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como secretário-geral da Young Men’s Christian Association fundado por evangélicos americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito que me espicaçava o duende dos versos. António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando a beleza com saias lhe passava ao pé.

 

Apresentado o poeta com a opulência da prosa de Natália Correia, tendo de passagem deixado esquiço de um tempo e personagens desaparecidos, e também um pouco de retrato pessoal da poetisa, eis o soneto, absolutamente surpreendente na sua perfeição formal para transmitir um complexo de imagens e sentimentos a espreitar dum panteísmo não enunciado:

 

 

Sem título

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

— Que distância, meu Deus! — Como te deve
doer ver-nos olhar-te desta praia,
sobre o Outro Mar onde este mar desmaia,
escuro à prece e escuro à vida breve!

(Pensar em Deus à hora do sol-posto…
— Quanta saudade, à voz de portugueses,
se deu, assim, com lágrimas no rosto?!)

Tarde do Mundo, eis-me de terra ao mar,
última luz num rumo de reveses:
um sonho que se morre, devagar.

Poema de abertura do livro Terra ao Mar, 1954.

 

 

Acrescento alguns outros poemas, talvez auto-retratos do poeta, tendo em conta o perfil traçado acima por Natália Correia.

 

Historieta

Macia, a mão do Destino
foi de flores, até um dia.
Eu, sempre moço-e-menino,
sem saber que me bebia
aquela doce loucura
de quem de si não procura
senão ser.

Depois,
a vida e eu fomos dois …

E, sem querer,
morro de ter que a viver!

 

 

Nuvem

Lá longe, aonde a vida me começa
— sorria por engano o sol de inverno —,
não sei que deus me fez sua promessa
e fui outro menino, ávido e terno.

Mas a infância passou, nua e depressa
— subira o sol como um clarão de inferno —,
e fiquei-me neste ar de quem ingressa:
grotesco, trivial, falso e moderno.

— Número sete, um passo em frente! — Pronto!
(A voz que me chamava, certa e calma,
não viu que eu avançava cego e tonto.)

Achou-me assim o tal que me perdeu.
— Ó nuvem! — tarde triste da minh’alma —
quem por seus sonhos sofre como eu?

 

 

Encontro

Marinheiro dum céu que me perdera,
com sete luas ao luar de Outono,
dos meus sonhos nenhum te concebera,
nem te cantava a minha voz sem dono.

Adormeci. As tuas mãos de cera
desfolharam carícias no meu sono.
E Deus, que da minh’alma se esquecera,
de teus beijos floriu este abandono.

Adormeci. À hora da partida,
à luz que os fortes bebem como vinho,
adormeci, para fugir à vida.

Vieste. Sei agora porque sou:
era sonhar — não ser — o meu caminho.
Fugi à vida — a vida começou.

 

 

Bancarrota

Esperei por mim em vão. Suando rezas,
pragas, versos subtis, ruivas saudades,
arrastei minhas horas indefesas
entre chusmas e fundas soledades.

Tive palácios de imortais certezas,
com seus jardins de passear vaidades;
virtudes compassadas e burguesas
e dor sem nome, como o preso às grades.

Fui o fiel-conviva-de-banquetes,
o-pálido-com-alma-pra-vender
nos mercados dos filhos de seus pais.

Subi-me ao céu nas canas dos foguetes;
fiz-me ladrão de sonhos pra vencer,
e sei apenas que não posso mais!

Poemas transcritos de Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Notas minhas:

(1) A Ilha de Sam Nunca, Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa, Secretaria Regional dos Assuntos Culturais, Angra do Heroísmo, 1982.

Com a morte da mulher em 1963, e posteriormente de um filho, recolhe o poeta definitivamente a casa de outro filho, onde, alheio ao mundo, cai numa apatia invulnerável a afectos, até que gravemente doente vem a falecer no hospital em 1981 após agonia prolongada.

(2) Livrarias antigas ao Chiado, em Lisboa, vizinhas do mítico café Brasileira.

(3) Aquilino Ribeiro (1885-1963) e António Sérgio (1883-1969), aqui retratados como  expoentes da oposição intelectual ao salazarismo que também foram.

(4) Cantores famosos de fado de Coimbra, tendo Edmundo de Bettencourt sido também poeta notável.
Aproveito para registar que o poema Cravos de Papel, cantado por Amália com ligeiras adaptações naquele álbum que é a sua mais perfeita realização, Com Que Voz, Amália canta poetas da língua portuguesa na música de Alain Oulman, é de António de Sousa. O poema original é de uma mestria absoluta a captar a brejeirice malandra das quadras populares:

 

 

Cravos de Papel

1
Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.
                 2
Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?
                 3
Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões… )
                 4
Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!
                 5
Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?

in Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia minha feita há anos na Ericeira.

 

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