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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

O Verão com um poema de Airas Nunes

27 Quinta-feira Jul 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Airas Nunes, Vincent van Gogh

Muito me eu alegro com este verão,
com estas ramagens, com estas flores,
com as aves que cantam entoando amores.
…

 

Verão e poesia, ou o relato de um sentimento de eternidade no perpétuo suceder dos dias, sensação que transparece no antiquíssimo poema do trovador Airas Nunes (sec. XIII) a seguir transcrito numa versão modernizada por Natália Correia:

 

 

Cantiga

Muito me eu alegro com este verão,
com estas ramagens, com estas flores,
com as aves que cantam entoando amores.
Ando eu tão alegre e tão descuidado
qual nesta estação todo o enamorado
se sente de amor mui ledo e loução.

Quando pelas margens dos rios passeio
debaixo das árvores, por prados viçosos,
se pássaros ouço cantar amorosos
com eles de amor me ponho a cantar;
de amor com os pássaros fico-me a trovar;
mil cantigas faço e nelas me enleio.

Muito me eu alegro, deleito e sorrio
quando as aves ouço cantar no estio.

 

 

in Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Editorial Estampa, Lisboa, 1970.

 

 

Este sentir a natureza em redor estende-se à poesia de todos os tempos, dando conta de estados de alma induzidos ou associados às mutações do tempo. Hoje surge como bizarria datada.

O sentimento da natureza será ainda dos nossos dias em sociedades urbanizadas, às voltas com a tecnologia e o sufocante do ar poluído? Provavelmente não.
Um artigo recente num jornal americano, numa daquelas secções de bem estar viradas para gente insatisfeita, à procura do melhor para si, recomendava alguns minutos entre árvores, ouvindo apenas os murmúrios da natureza, ouvidos limpos de phones e olhar disponível, como forma de recuperar tranquilidade e gosto de si. O autor do artigo não conheceria este poema, pelo que não fez suas as palavras do nosso poeta:

 

…
Quando pelas margens dos rios passeio
debaixo das árvores, por prados viçosos,
…
Muito me eu alegro, deleito e sorrio
quando as aves ouço cantar no estio.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Van Gogh.

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Adormecida — um poema de Vicente de Carvalho

24 Sábado Jun 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Jean Simon Barthelemy, Vicente de Carvalho

Um erotismo diáfano, eivado de pudor, banha o poema de Vicente de Carvalho (1866-1924), Adormecida, que no final transcrevo.
O poeta, brasileiro, virtualmente esquecido hoje em Portugal, integra o pequeno grupo de poetas parnasianos cuja obra continua a ser lembrada no Brasil.
Do poeta e da sua obra diz Jacinto do Prado Coelho no seu Dicionário de Literatura: Fiel a um ideal estético de equilíbrio e limpidez, V. de C. é ainda parnasiano pela escolha de temas objectivos, um deles épico… .
No entanto, este poema da mocidade foge à imagem parnasiana do poeta, difundida a partir do livro Poemas e Canções publicado em 1908, tinha o poeta mais de 40 anos, e sucessivamente reeditado. Nesse livro, o poema Palavras ao Mar, dá a medida do carácter épico de parte da sua poesia:

 

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que o vento do largo eriça o pelo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
…

 

Frente ao mar, e desperto para a vida, como acima refere, os olhos do jovem poeta ter-lhe-ão incendiado a imaginação ao ver a adolescente adormecida que descreve no poema a seguir transcrito.
Acrescento apenas que as asas de anjo que o poeta no final do poema acrescenta à jovem adormecida, se, por um lado decorrem do decoro que a época exigia no extravasar do desejo trazido a público, por outro, são o tributo romântico à mulher desejada associando-a a uma  imagem imaculada e angelical.

 

 

Adormecida

 

Ela dormia… Sobre o alvor do leito
Desenhava-se, esplêndida miragem,
Seu lindo corpo, escultural, perfeito.

 

Encrespado das rendas da roupagem,
Seu seio brandamente palpitava
Como a lagoa no tremor da aragem.

 

Solto, o cabelo se desenrolava
Sobre os lençóis, em plena rebeldia,
Como um revolto mar que os alagava.

 

Como no céu, quando desponta o dia,
A aurora raia, de um sorriso a aurora
Pelo seu meigo rosto se expandia.

 

E ela dormia descuidada… Fora,
O mar gemia um cântico plangente
Como uma alma perdida que erra e chora.

 

Um raio de luar, branco e tremente,
Pela janela mal cerrada veio
Entrando, surda, sorrateiramente…

 

Ia beijá-la em voluptuoso anseio;
Mas, ao vê-la dormindo entre as serenas
Ondas daquele sono sem receio,

 

Hesitou em beijar-lhe as mãos pequenas,
E humildemente, e como ajoelhando,
Beijou-lhe a fímbria do vestido apenas…

 

E o lindo quadro, estático, fitando,
Senti não sei que mística ternura
Por toda a alma se me derramando

 

Porque acima daquela formosura
Do corpo, os seus quinze anos virginais
Envolviam-lhe a angélica figura
Na sombra de umas asas ideais.

 

 

Publicado pela primeira vez no livro Ardências (1885), tinha o poeta dezanove anos, e transcrito de Versos da Mocidade, (Ardências (1885), Relicário (1888), Avulsas (1889-95), Livraria Chardon, Porto, 1912.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jean Simon Barthelemy (1743-1811) datada de 1778, de seu nome Júpiter e Antíope.
Na pintura, Júpiter surge transformado em sátiro a rondar a adormecida Antíope. Nesta ronda, o lúbrico deus engravidou-a crer nos relatos que nos chegaram, entre outros, de Ovídio em Metamorfoses, Liv III, v. 110-111.
Imagino que ao escrever o poema, Vicente de Carvalho tenha sentido a luxúria que o sátiro Júpiter na pintura evidencia.

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Perdida! — um poema de Camilo Castelo-Branco

27 Quinta-feira Abr 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Camilo Castelo-Branco, Edgar Degas

A vida faz-se muito de desencontros, momentos falhados, ou fugazes olhares de felicidade entrevista. Afinal, o sonho a escapar-se no bulício dos dias.
Uma dessas perdas conta-a Camilo Castelo-Branco (1825-1895) no poema Perdida! escrito em 1850. Nele encontramos a flor, metáfora da mulher e sua beleza, no registo caro aos poetas ultra-românticos que Camilo, nos seus inícios de escritor também foi.
Neste poema estamos nos antípodas das imagens de flores e sentimentalidade trabalhadas pela mesma época por Maria Browne (1797-1861), e que no artigo anterior mostrei.
Será contemporâneo destes poemas o encontro (com laivos de paixão?) ocorrido entre Camilo e Maria Browne que levou ao duelo do escritor com o filho desta, e que relatos da época referem com motivações obscuras, sendo esse relacionamento insinuado.
Registado o pormenor biográfico, passemos ao poema onde o poeta faz gala da sua fogosidade viril e do imparável desejo de descobrir que assalta a juventude de todas as épocas ( Camilo tinha 25 anos), aqui registado na irrefreável cavalgada para o desconhecido, mais empolgante que a permanência na envolvente que se conhece.

 

 

Perdida!

 

Veloz, qual flecha impelida
O meu cavalo corria…
Eu tinha a febre da raiva,
Abrasava-me a agonia,
E o cavalo generoso
O meu ódio concebia.

Os precipícios transpunha
Sem as rédeas sofrear!
Longe, ao longe eu ansiava
Este horizonte alargar;
Procurava mundos novos,
Faltava-me ali o ar.

E, de relance, deviso
Linda flor em ermo Val,
Mal aberta, e aljofrada
Pelo orvalho matinal,
Reacendendo solitária
Seu perfume virginal.

Nenhum homem lhe tocara,
Nem talvez a vira ali!
Tive orgulho de encontrá-la,
Que outra mais bela não vi.
Mas o ímpeto indomável
Do cavalo não venci.

E perdi-a! Não me lembro
Onde vi tão linda flor!
Sei que lá me fica a alma
Como um feudo pago à dor.
Outros lábios viral dar-lhe
Férvido beijo d’amor.

1850

 

in Ao Anoitecer da Vida, livro de poemas publicado pela primeira vez em 1873.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edgar Degas (1834-1917), O Jokey.

 

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Flores poéticas – um bouquet de Maria Browne

26 Quarta-feira Abr 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Berthe Morisot, Maria Browne

Hoje trago alguns poemas de Maria Browne (1797-1861), rara voz feminina entre os poetas do ultra-romantismo.

Nesta escolha, é o jardim, a natureza domesticada, que recolhe o olhar do poeta. Nela reflecte sentimentos, e dá conta de uma fragilidade que identifica com a condição da mulher burguesa do seu tempo. Traços de delicada sensibilidade sobressaem na aceitação do destino contra o qual não vale lutar. E é o amor, o seu desengano e sofrimento que lemos nestas reflexões associadas ao espectáculo da natureza e à sua frequentemente cruel indiferença. A excepção é o último poema, Um Sonho, onde apenas um delicado prazer se espraia, ainda que seja tão só ilusão.

 

O Lírio   

 

Alvo lírio delicado
Rociado
D’almo pranto matutino,
Namorava a sua imagem
Lá da margem
No regato cristalino.

Um raio de sol dourado
Abrasado
Vinha-lhe o seio libar,
E a lágrima pendente
Transparente
De reflexos matizar.

Borboleta cor de rosa,
Caprichosa
Que adeja de flor em flor,
Voa a ele palpitante
Delirante
Dá-lhe mil beijos de amor.

Aura que livre voara
E cantara
Embora do tempo a ira,
Enlaçada em seus verdores,
Já de amores
Em vez de cantar suspira.

Oh! como esta flor brilhava!
Deslumbrava
Sem querer todo o vergel,
Comparada à flor mais bela
Era ela
Entre os anjos Uriel.

Assim bela em seu esplendor
Sente a dor
De ousado verme a roer,
lnclina a fronte nevada
Já manchada,
Seu vegetar é sofrer!

Pura virgem — vê do lírio
O martírio!
Foge ao verme roedor
Que destrói a flor da vida:
Mais querida
Esse verme é o amor!

 

 

A Sensitiva  

Da mimosa sensitiva
Quis o mistério sondar;
Porque tremendo se esquiva
À mão que a chega a tocar.

Em dia que o sol ardente
A natureza abrasava,
E que a ressequida terra
Às plantas sucos negava;

Que os homens lassos jaziam,
Que os passarinhos choravam,
Que as folhinhas não boliam,
Que as fontes não murmuravam,

Vejo a triste sensitiva
Com sede a desfalecer…
As recortadas folhinhas
Já para a terra a pender,

Chego a ela, e compassiva
Água fresca lhe lancei,
E dum mirto os densos ramos
Para assombrá-la verguei.

Talvez conhecesse em mim
Um coração magoado,
Por se abrir tão facilmente
Às penas dum desgraçado.

Então grata ao meu cuidado
As folhas espanejou,
E como sôpro das auras
Estes sons no ar virou:

“Eu já fui da tua espécie,
E tive o teu coração,
Encontrando só na vida
Egoísmo, ingratidão.

Transformada em vegetal,
Tremo do humano contacto;
Tremo, sim, que inda me toque
Impura mão dum ingrato.”

 

 

A Rosa

Produziu a natureza
Cândida a rosa, sem cor;
Pura como a virgem bela,
Excedendo a toda a flor.

Mas neste mundo inconstante
Anda ao bem o mal aderente:
Tem Amor cruel ciúme,
A rosa espinho pungente.

Ao colher botão viçoso,
Vénus um dedo feriu:
O sangue que derramara
A branca rosa tingiu.

Desde então a rubra espécie
Começou a propagar:
Mais brilhante, e mais vistosa
Pode os gostos partilhar.

Mas a branca… a rosa branca
É de Flora a perfeição…
Não deslumbra tanto os olhos,
Fala mais ao coração.

 

 

A Jarra de Flores  

Que triste fim, belas flores,
Nesse vaso vos espera?
Embora de ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!

Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
lnda mais acelerar?

Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.

As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.

No seio de rubra rosa,
Já frouxo, já desbotado
Vejo pálido jasmim
Languidamente inclinado!

Murchas as folhas, o cravo
Sobre o seu pé agoniza;
Na cor o lírio parece,
Que o ser também finaliza!

No grande mundo a inocência
Acaba como acabais!
Nele só flores de artifício
São felizes… duram mais!

 

 

 

 

Um Sonho  

Corria o Maio entre as nuvens,
Deixando na terra as flores,
No ar a electricidade,
A poesia aos trovadores.

Já da luz, que a sombra apaga
O semi-morto clarão,
Se amor encobre na face,
Mais o revela a expressão.

Nessa hora, meiga fada
Veio meus olhos fechar,
E num sono de magia
A minha alma sepultar.

Era tudo riso, e luz,
Graça, perfume, harmonia;
Um sonho de primavera.
Um sonho de simpatia.

Era num bosque de acácias;
Um regato ali corria;
Por entre a relva mimosa
A violeta aparecia.

Borboleta chamejante,
Que áureo polmo empoeirava
Das anteras da cecém,
Em torno de mim girava.

Espanejando as leves asas,
Vinha em meus lábios pousar;
Essa aragem branda e doce
Fazia meu peito arfar.
……………………………….
……………………………….

Com as tranças me brincava;
Os meus sentidos prendia!…
Despertei… e acordada,
Inda a ilusão existia!

 

Poemas transcritos de Virações da Madrugada, 1854.
Modernizei ligeiramente a ortografia.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Berthe Morisot (1841-1895), No Jardim.

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Um poema de Hölderlin

24 Segunda-feira Abr 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Gerhard Richter, Hölderlin

Memória e história condensam-se no poema de Friedrich Hölderlin (1770-1843) que a seguir transcrevo,  A Grécia. [segundo esboço], transcendendo o contexto específico da sua escrita na obra do poeta, a Grécia clássica e a sua herança, e levando-nos a reflexão para as determinantes da existência:

…
Quando, porém, em excesso
A desmesura aspira à morte,
Adormece o divino, e a fidelidade de Deus.
A sensatez ausenta-se.
…

 

Lemos algo da pesada atmosfera política dos nossos dias nestes versos. Vivemos de novo um tempo especialmente exigente no assegurar as conquistas de civilização do nosso mundo, de que a herança da Grécia clássica é parte maior. E todos os dias constatamos que o adquirido é precário e sem garantia de ser encontrado ao acordar no dia seguinte. Vale no entanto a pena ter presente que

… quando a Terra, evocando devastações, tentações de santos,
Segue as grandes leis sagradas, a concórdia
E a ternura e o céu inteiro ressoam então
Revelando-se no
Canto das nuvens. …

 

 

 

Segue o poema integralmente, em admirável tradução de João Barrento:

 

 

A Grécia.
[segundo esboço]

 

Muitas são as lembranças.
E quando a Terra, evocando devastações, tentações de santos,
Segue as grandes leis sagradas, a concórdia
E a ternura e o céu inteiro ressoam então
Revelando-se no
Canto das nuvens. Pois viva
É sempre a natureza.
Quando, porém, em excesso
A desmesura aspira à morte,
Adormece o divino, e a fidelidade de Deus.
A sensatez ausenta-se.
Mas, tal como a dança é parte da boda,
Também ao mais humilde se pode juntar
Um grande começo.
E dia a dia, para nossa maravilha,
Deus se mostra com novas vestes.
E Seu rosto se furta ao conhecer
E ar e tempo escondem
O Terrível, quando alguém em excesso
O ama, com preces ou
A alma.

 

in Lógica Poética, Friedrich Hölderlin, organização Bruno C. Duarte, Edições Vendaval, Lisboa, 2011.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura a aguarela de Gerhard Richter ( 1932) pintada em 1988.

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Solemnia Verba de Antero de Quental

18 Sábado Mar 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Antero de Quental, Paul Klee

Vale a pena o Amor? Viver para ele? Viver por ele?
Responde a tão momentosa questão, Antero de Quental (1842-1891) em dois poemas que mais à frente transcrevo, Os Vencidos e Solemnia Verba.
Não é ao amor sensual que Antero de Quental responde através destes poemas, nem à sua lírica expressão que frequentemente se lê aqui no blog. Os poemas falam antes num conceito abrangente do amor e de como com ele se articula a nossa vida.

 

No poema Os Vencidos, o amor é uma entidade confusa e absoluta que nos habita e conduz à acção. Ao fazer-nos agir chocamos com os valores que nos definem como pessoa e arruína-nos a vida sem apelo.
Dividindo no poema o conceito global de amor por três cavaleiros-andantes, seguimos no seu detalhe os cavaleiros que a ele dedicaram a vida, e por ele foram vencidos. A um venceu-o o amor de uma mulher, envenenando-o pelo “desejo pestilento” quando o seu ideal era um amor etéreo:
…
Irmãos, amei — e fui amado… / Por isso vago incerto e fugitivo, / …

 

aos outros cavaleiros, deixemos antes falar o poema:

 

Responde-lhe o segundo cavaleiro, / Com sorriso de trágica amargura: / “Amei os homens e sonhei ventura, / Pela justiça heróica, ao mundo inteiro /
…
Irmãos, amei os homens e contente / Por eles combati, com mente justa… / Por isso morro à míngua e a areia adusta / bebe agora meu sangue, ingloriamente.”

Diz então o terceiro cavaleiro: / “… / Irmãos, amei a Deus com fé profunda… / Por isso vago sem conforto e incerto, / Arrastando entre as urzes do deserto / Um corpo exangue e uma alma moribunda.”

E os três, unindo a voz num ai supremo, / E deixando pender as mãos cansadas / Sobre as armas inúteis e quebradas, / Num gesto inerte de abandono extremo,
…
Sumiram-se na selva impenetrável, / E no palor da noite silenciosa.

 

 

Lemos no poema uma total condenação do amor e da escolha de viver a vida para ele, pois apenas conduz à desolada morte emocional quem o procura, condenando a um viver nas trevas.

O poeta destruiu este poema que foi mais tarde recuperado por Oliveira Martins e publicado com a sua edição dos Sonetos Completos.

 

 

Alterado no poeta o entendimento do Amor e do seu papel na vida de cada um, escreveu mais tarde a obra-prima absoluta que é o soneto Solemnia Verba.
Agora, o Semeador de sombras e quebrantos! é o nosso coração, e a incapacidade de viver o amor está em nós. O coração é o nosso martírio e o amor o nosso prémio. Fazer o coração acreditar no amor está em nós, e consegue-se:
…
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,
…

 

Que cada um escolha para si o prémio que procura, no final, valerá a pena. O caminho que o poema aponta é fazer o coração pensar até acreditar no amor. O Amor, essa entidade sublime, permanece, e se com ela na vida nos conseguimos cruzar:
…
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

E esta mensagem de esperança é toda ela contrária ao que vimos explanado no poema Os Vencidos. Agora a felicidade pelo amor está ao nosso alcance e o pensar ajuda-nos a lá chegar. Não mais irracionalidade ou condutas ditadas pela paixão.

 

 

SOLEMNIA VERBA

 

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houver flor e encantos!
E noite, onde foi luz de Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

 

Transcrevo agora a totalidade do poema Os Vencidos:

 

Os Vencidos

 

Três cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cai a noite do céu, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhes cai o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As frontes lhes curvou, com mão potente.
No horizonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz num soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esfera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu hálito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre lânguida ao raio matutino,
Mas seu profundo cálix purpurino
Só ressuma veneno e podridão.

Irmãos, amei — amei e fui amado…
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de trágica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heróica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças oprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.

Quando há de vir o dia da justiça?
Quando há de vir o dia do resgate?
Traiu-me o gládio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de púrpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa…
Por isso morro à míngua e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavaleiro:
«Amei a Deus e em Deus pus alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro.

Invoquei-o nas horas afrontosas
Em que o mal e o pecado dão assalto.
Procurei-o, com ânsia e sobressalto,
Sondando mil ciências duvidosas.

Que vento de ruína bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrossanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céu, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tédio ressuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os três, unindo a voz num ai supremo,
E deixando pender as mãos cansadas
Sobre as armas inúteis e quebradas,
Num gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidável,
Sumiram-se na selva impenetrável
E no palor da noite silenciosa.

 

 

Poemas transcritos de Antero de Quental, Sonetos Completos publicados por J. P. Oliveira Martins, Lopes & C.ª — Editores, Porto, 1890.
Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940), Marionetas de 1930: quais humanos nas mãos do amor.

 

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Uma fábula para os nossos dias

20 Terça-feira Dez 2016

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Esopo, Kandinsky, La Fontaine

sky-blue-1940-500pxO respeito mútuo* não parece ser uma conquista generalizada ao alcance das gerações que hoje vivem sobre a terra.

Viver sob um céu azul onde as mais surpreendentes e curiosas gentes permaneçam em harmonia, e de que a pintura de Kandinsky que abre o artigo é metáfora, continua a ser sonho longe do quotidiano que nos espreita.

Infelizmente, o mundo está mais perto da história da paz entre lobos e ovelhas que escolhi trazer aqui hoje, que da paz encantada que Kandinsky sonhou em 1940, quando o mundo se encontrava mergulhado no horror da segunda guerra mundial.

Talvez seja idiota sonhar os homens iguais, afinal a mensagem que o cristianismo trouxe ao mundo, e supor que a natureza do animal em nós, que, ou se submete ou domina, pode ser mudada pela educação e organização social, conduzindo à igualdade sonhada pelos iluministas e a sua Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Na verdade, o mundo dá voltas e continuamos sempre perto da fábula da paz entre ovelhas e lobos. A história, vinda de Esopo, foi recontada por La Fontaine e vertida ao sabor das épocas em português.

Primeiro lereis uma versão do século XVIII, a partir de Esopo, por Miguel do Couto Guerreiro, a seguir, uma versão a partir de La Fontaine, da segunda metade do século XX, por António Manuel Couto Viana.

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Os lobos e as ovelhas que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião que morressem.

 

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados:
Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos;
E ter muitos soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos;
E mais tratados velhos, carunchosos,
Firmados na palavra dos defuntos.

 

Versão de Miguel do Couto Guerreiro a partir de Esopo

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Milhares de anos após a guerra declarada
Entre o lobo e a ovelha a paz é concertada
Com vantagem, talvez, prós dois rivais partidos,
Plos motivos que são de sobejo sabidos:
Pois, se o lobo retraça a tresmalhada rês,
Da pele dele, o pastor cobre a fria nudez.
Desiste a ovelha, assim, da liberta pastagem,
Mas, para o lobo, finda a ferina carnagem.
Jamais pode gozar quem teme plos seus bens!
Firmada, enfim, a paz, trocaram-se os reféns:
A ovelha entrega os cães e o lobo entrega as crias,
Revestindo-se a troca das formais garantias.
E o tempo foi passando e as crias crescendo,
Transformando-se em lobos de apetite tremendo
Que, ao verem os pastores dos seus redis ausentes,
Nos anhos anafados cravam os duros dentes
E engolem metade e arrastam o que resta
Pra os escuros covis da frondosa floresta.
É forçoso dizer como os cães descuidados,
Cheios de boa-fé, foram estrangulado
No repouso do sono: Foram-no de tal sorte
Que mal sentiram vir a violenta morte.
E nenhum escapou! Tiremos nós, então,
De tudo o que passou esta sábia lição:
Com os maus há que ter uma contínua guerra.
Decerto é boa a paz e alegra toda a terra,
Mas não serve pra nada
Se o inimigo falta à palavra empenhada.

 

Versão de António Manuel Couto Viana a partir de La Fontaine
in 60 Anos de Poesia, vol II, INCM, Lisboa, 2004.

 

 

 

*Nota Final
Deliberadamente não escrevi tolerância, a qual pressupõe também condescendência sobre os erros dos outros e que aceitamos, e não é essa a condição do respeito mútuo. O respeito mútuo é a equivalência das verdades em que cada um acredita.

 

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O cancioneiro à volta da estátua equestre do rei D. José I

09 Domingo Out 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António Caetano de Almeida Vilas Boas, José Basílio da Gama

terreiro-do-paco-600pxPara portugueses em geral, e lisboetas em particular, é difícil apreender hoje a carga simbólica da Praça do Comércio em Lisboa, em tempos chamada Terreiro do Paço, como símbolo identitário de Portugal. Apreciamos a grandiosidade da Praça, e, actualmente, o prazer da fruição do seu espaço ordenado, mas o seu significado imaginário perdeu-se nas voltas do tempo. Chamou-me a atenção para esse valor imaginário, uma amiga brasileira em tempos de visita pela primeira vez a Portugal e a Lisboa: a primeira coisa que queria ver e fotografar, para recordar, era a Praça do Comércio, e com isso sentir que estava de facto em Portugal.
O carácter renovador do desenho da praça, integrado no conjunto da reconstrução da Baixa Pombalina na sequência do terramoto de 1755, foi exemplarmente estudado por José-Augusto França (1922) na sua tese sobre a Lisboa Pombalina e o Iluminismo, dando conta de um pensamento urbano e da sua radical inovação.
Sendo esta renovação urbana um inequívocos exercício de poder, o caráter simbólico da sua afirmação ficou atribuído à colocação da estátua equestre do rei D. José I no centro da praça, dominando o horizonte aberto.
A inauguração da estátua foi ocasião de festejos de arromba. E como era de uso à época, os poetas foram chamados a cantar o acontecimento, e nenhum terá escapado à oportunidade, independentemente do local onde se encontrasse: reinava de facto ao tempo o Marquês de Pombal e o seu poder ditatorial.
Reveste hoje carácter de cancioneiro do absurdo toda esta poesia produzida sobre a estátua equestre do Rei D. José I e a sua inauguração no Terreiro do Paço em Lisboa, e para o leitor de agora, é surpreendente o exercício verbal à volta de semelhante objecto e acontecimento.
Um pouco ao acaso, pois os poemas são avalanche, e fugindo aos poemas longos, escolho dois poemas de dois poetas brasileiros, também irmãos, tendo um sido justamente famoso, José Basílio da Gama (1741-1795), pelo seu poema épico O Uraguay (1769). O irmão deu pelo nome de António Caetano de Almeida Vilas Boas (1745-1805).

 

 

Ode do P. António Caetano de Almeida Vilas Boas

 

Inauguração do colosso de bronze no dia faustíssimo aniversário de Elrey Dom José I, Nosso Senhor

Ode
Aonde me arrebato?
A humana vista não se atreve a tanto,
Arqueja o coração como oprimido
Com a vasta alegria.
Já se amiúda o palpitar das veias.
São menores as forças que as ideias.

Ouço quebrar nos ares
Os roucos ecos do metal fundido:
Já o purpúreo Véu caiu por terra.
E a respeitosa Almada,
Que viu brilhar primeiro o Régio Vulto,
Como o Ganges, que adora o Sol que nasce,
Sobre as águas do Tejo inclina a face.

 

 

Soneto de José Basílio da Gama

 

Quando Alexandre entrou na tenda real de Dario com Efestião seu valido ao lado, Sysigambis, rainha mãe saudou Efestião, tomando-o por Alexandre. Advertida do engano, pediu perdão ao rei, que lhe respondeu magnanimamente: Não erraste, que este também é Alexandre.

 

 

Soneto
no dia feliz da inauguração do Colosso Real

 

 

Domador do Bucéfalo arrogante,
Alexandre, ou quem és? Por mais que estude,
Fácil não é que de conceito mude,
Vendo a teus pés o Índico Elefante.

O PAI DA PÁTRIA soa lá distante
A abóbada do Templo da Virtude:
PAI DA PÁTRIA responde com língua rude
A América emplumada, o fusco Atlante.

Reconheço a JOSÉ. POMBAL eu vejo,
Que a coroa na testa lhe sustinha.
Reverente me inclino, e o Ceptro bejo.

Na mão o Ceptro de ouro ao rei convinha:
Ou entre o Efestião, do REI do Tejo,
Quem se enganasse bem desculpa tinha.

 

 

 

Fazendo uso do glorioso prestígio da antiguidade, compara o poeta o Marquês de Pombal, cuja efígie se encontra no pedestal da estátua, a Efestião. Esta efígie foi retirada quando do furor anti-pombalino no reinado que se seguiu, da filha de D. José I, D. Maria I.
Num conjunto de poemas guardados em manuscrito, e publicados há anos por Alberto Pimenta em Musa anti-pombalina, regista-se o sentimento de rejeição pela acção do Marquês que atravessava parte da sociedade portuguesa na época, sendo que em dois desses sonetos anónimos  é exactamente esta esfinge que é visada. No primeiro, nada menos que nos seguintes termos:

 

 

Soneto 128

Senhor, para exaltar a nossa dita,
Tirai do Pedestal da Estátua Augusta
A imagem do Marquês feia e robusta
Que o vê-la ainda a seus pés o ódio excita.

Olhai que esse padrão desacredita
O conservar memória tão injusta;
Já o seu Original nos não assusta,
Mas o ver a sua copia nos irrita.

Não sofre a nossa pura lealdade
Que da Estátua a Real Magnificência
Deslustre este Retrato da Impiedade;

E atendei, ó Senhor, é indecência
Que da imagem da Pia Magestade
Seja base a figura da Insolência.

 

 

 

Mesmo anonimamente, esta virulência só foi escrita após a morte do Marquês, como se depreende do poema, pois em vida deste, tal escrito, se conhecido, faria o autor correr sérios riscos, atendendo ao que os relatos históricos referem.
No segundo soneto que transcrevo, é a operação de retirada da efígie e os sentimentos que esta operação desencadeia, raiando a obscenidade [Que me sirva de tampa ao meu Bacio.], o que se refere:

 

 

Soneto 115

 

À tirada do Busto do Marquês de Pombal em 27 de Abril de 1777

Metam, metam com jeito essa Alavanca,
Empenhe-se o poder mais o cuidado,
Tirem desse lugar tão respeitado
Esse Busto infernal, essa Carranca.

Fique a Praça liberta, limpa e franca,
Livre já desse objecto excomungado;
Não seja mais no mundo nomeado
Quem o sangue do Povo tudo estanca.

Esse Monstro infernal e Dragão fero
Perca a gloria das honras, perca o brio,
E tenha fim pior que teve Nero;

E sem que a acção padeça algum desvio,
Entreguem-me esse Busto porque quero
Que me sirva de tampa ao meu Bacio.

 

 

 

Poemas transcritos de Poetas Brasileiros do Período Colonial, I e II, Antologia, Palmira Morais Rocha de Almeida, Edições Colibri, Lisboa 2008 e 2009, e de Musa anti-pombalina, selecção e apresentação de Alberto Pimenta, A Regra do Jogo edições, Porto, 1982.

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A difícil arte de expressão em soneto segundo Baltazar del Alcázar

30 Sexta-feira Set 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Baltazar del Alcáza


sala-com-rapariga-sorrindo-1657a-detalhe-500pxVolto à difícil arte do soneto com uma das primeiras brincadeiras sobre a dificuldade de expressar em soneto uma ideia, sentimento, ou acontecimento, na rigidez da sua forma rimada (em quatorze versos de dez sílabas), com a exigência adicional de exposição, desenvolvimento, e conclusão do assunto.

Já antes aqui no blog, e no artigo A difícil arte do soneto, dei conta de alguns exemplos e considerações a este propósito, com o destaque especial do soneto Quatorze versos, de Alexandre O’Neill. Regresso agora com um soneto de Baltazar del Alcázar (1530-1606) no qual o poeta tenta, sem o conseguir antes que o soneto acabe, expressar um segredo à sua bela inimiga Inês.

Bela inimiga seria, no contexto poético do tempo, uma mulher desejada que não respondia ao assédio desse desejo. Sendo o soneto à época uma privilegiada forma de expressar o desejo amoroso, tal está subentendido no segredo que o poeta quer contar e não consegue. Temos pois com este exercício poético a ironia de escrever um soneto sem assunto, continuando em silêncio o desejo que o poeta pretendia expressar.

A Inês, e com Inês, tem o poeta alguns deliciosos poemas burlescos que certamente trarei ao blog noutra ocasião. Por agora a brincadeira poética à volta de expressar o desejo amoroso escrevendo um soneto:

 

Soneto

Decidi revelar-vos em soneto
O meu segredo, Inês, bela inimiga;
Mas, por mais ordem que ao fazê-lo eu siga,
Não pode já caber neste quarteto.

Chegados ao segundo, vos prometo
Que não se há-de el’ passar sem que eu o diga;
Mas estou feito, Inês, uma formiga
Que tonta gasta os versos do soneto.

Vêde, ó minha Inês, quão duro é o fado,
Se tendo eu o soneto em minha boca
E a ordem de dizê-lo já estudado,

Lhe conto os versos todos, e hei notado
Que, pela conta que a um soneto toca,
Já este meu, Inês, vai acabado.

Tradução de Jorge de Sena

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

 

 

Termino com o original do soneto:

 

Yo acuerdo revelaros un secreto

en un soneto, Inés, bella enemiga;

mas, por buen orden que yo en éste siga,

no podrá ser en el primer cuarteto.

 

Venidos al segundo, yo os prometo

que no se ha de pasar sin que os lo diga;

mas estoy hecho, Inés, una hormiga,

que van fuera ocho versos del soneto.

 

Pues ved, Inés, qué ordena el duro hado,

que teniendo el soneto ya en la boca

y el orden de decillo ya estudiado,

 

conté los versos todos y he hallado

que, por la cuenta que a un soneto toca,

ya este soneto, Inés, es acabado.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Johannes Vermeer (1632-1675).

 

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Décimo Magno Ausónio a sua mulher

18 Domingo Set 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Décimo Magno Ausónio

vallotton_felix-intimidade-interior-com-casal-500pxA vida e os afectos cruzam-se de forma sinuosa, umas vezes desfazendo sonhos, outras permitindo que escolhas felizes permaneçam no tempo.
Se a insatisfação desenvolve o desejo de variedade, a felicidade faz aspirar à constância. Num casal,  provavelmente a maior prova de amor será o desejo de envelhecer juntos, vendo-se felizes quando as limitações da idade chegam e a vida é mais memória que futuro. Desse desejo de velhice acompanhada pelo amor fala o poema de Décimo Magno Ausónio (c. 310-c. 395) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

 

A sua mulher

Amor, vivamos como sempre, não esqueçamos
os doces nomes ditos na primeira noite,
e nunca venha o dia que nos veja velhos:
eu sempre o jovem teu, e tu a minha noiva.
Que mais do que Nestor provecto eu seja em anos.
e tu na idade venças a senil Sibila.
De tão extrema velhice ignoraremos tudo:
menos as ciências dela no escapar do tempo.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Felix Vallotton (1865-1925).

 

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