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sky-blue-1940-500pxO respeito mútuo* não parece ser uma conquista generalizada ao alcance das gerações que hoje vivem sobre a terra.

Viver sob um céu azul onde as mais surpreendentes e curiosas gentes permaneçam em harmonia, e de que a pintura de Kandinsky que abre o artigo é metáfora, continua a ser sonho longe do quotidiano que nos espreita.

Infelizmente, o mundo está mais perto da história da paz entre lobos e ovelhas que escolhi trazer aqui hoje, que da paz encantada que Kandinsky sonhou em 1940, quando o mundo se encontrava mergulhado no horror da segunda guerra mundial.

Talvez seja idiota sonhar os homens iguais, afinal a mensagem que o cristianismo trouxe ao mundo, e supor que a natureza do animal em nós, que, ou se submete ou domina, pode ser mudada pela educação e organização social, conduzindo à igualdade sonhada pelos iluministas e a sua Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Na verdade, o mundo dá voltas e continuamos sempre perto da fábula da paz entre ovelhas e lobos. A história, vinda de Esopo, foi recontada por La Fontaine e vertida ao sabor das épocas em português.

Primeiro lereis uma versão do século XVIII, a partir de Esopo, por Miguel do Couto Guerreiro, a seguir, uma versão a partir de La Fontaine, da segunda metade do século XX, por António Manuel Couto Viana.

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Os lobos e as ovelhas que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião que morressem.

 

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados:
Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos;
E ter muitos soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos;
E mais tratados velhos, carunchosos,
Firmados na palavra dos defuntos.

 

Versão de Miguel do Couto Guerreiro a partir de Esopo

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Milhares de anos após a guerra declarada
Entre o lobo e a ovelha a paz é concertada
Com vantagem, talvez, prós dois rivais partidos,
Plos motivos que são de sobejo sabidos:
Pois, se o lobo retraça a tresmalhada rês,
Da pele dele, o pastor cobre a fria nudez.
Desiste a ovelha, assim, da liberta pastagem,
Mas, para o lobo, finda a ferina carnagem.
Jamais pode gozar quem teme plos seus bens!
Firmada, enfim, a paz, trocaram-se os reféns:
A ovelha entrega os cães e o lobo entrega as crias,
Revestindo-se a troca das formais garantias.
E o tempo foi passando e as crias crescendo,
Transformando-se em lobos de apetite tremendo
Que, ao verem os pastores dos seus redis ausentes,
Nos anhos anafados cravam os duros dentes
E engolem metade e arrastam o que resta
Pra os escuros covis da frondosa floresta.
É forçoso dizer como os cães descuidados,
Cheios de boa-fé, foram estrangulado
No repouso do sono: Foram-no de tal sorte
Que mal sentiram vir a violenta morte.
E nenhum escapou! Tiremos nós, então,
De tudo o que passou esta sábia lição:
Com os maus há que ter uma contínua guerra.
Decerto é boa a paz e alegra toda a terra,
Mas não serve pra nada
Se o inimigo falta à palavra empenhada.

 

Versão de António Manuel Couto Viana a partir de La Fontaine
in 60 Anos de Poesia, vol II, INCM, Lisboa, 2004.

 

 

 

*Nota Final
Deliberadamente não escrevi tolerância, a qual pressupõe também condescendência sobre os erros dos outros e que aceitamos, e não é essa a condição do respeito mútuo. O respeito mútuo é a equivalência das verdades em que cada um acredita.

 

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