picabia-1879-1953-rapariga-no-paraiso-505pxPor mais de uma vez me tenho interrogado sobre o destino editorial, e consequente conhecimento público, de poemas que tendo sido atribuídos a Camões e integrado a sua obra, foram posteriormente considerados apócrifos por sucessivos estudiosos desta, e algumas vezes excluídos da sua edição.

Hoje sigo o percurso de um desses poemas, um soneto, cujo primeiro verso — Horas breves de meu contentamento, — nos cativa de imediato.

O poema contrasta o efémero da felicidade com o prolongado do sofrimento trazido pelo amor quando intransponíveis obstáculos se opõem à sua vivência continuada.

O soneto foi muito popular à época e variadas versões polulam pelos cancioneiros de mão do tempo.

O soneto foi atribuído por Álvares da Cunha a Camões em 1668 e publicado na sua edição das Terceira Parte das Rimas do poeta (pág 105).

Antes, tinha sido publicado por Diogo Bernardes em Flores do Lima (1598), e foi, como outros, incluído nas Rymas de Camões por Manuel de Faria e Sousa publicadas em 1685(Tomos I y II) e 1689(Tomos III. IV. y V) com o argumento de que seria seguramente de Camões, e estando a sua poesia inédita, Diogo Bernardes se teria apropriado da sua autoria. Nada prova que tivesse razão, daí ser recusada a autoria a Camões.

As variadas versões que nos chegaram divergem entre si nalguns versos dando conta de uma dinâmica de apropriação particular da poesia, que se perdeu: os diversos autores historicamente identificados aproveitaram o que lhes apeteceu e do que gostaram menos alteraram a seu prazer.

Seguem seis versões do soneto. Por vezes muda apenas uma ou outra palavra num verso enquanto noutras versões o último terceto é integralmente substituído. Registo as diferenças para as duas versões atribuídas a Camões.

Existem ainda outras versões do soneto, objecto de glosa integral ou parcial (como foi o poema de A Primavera de Francisco Rodrigues Lobo há meses publicado aqui no blog), mas essas ficam para outra ocasião.

 

 

 

I
Versão em Lírica de Camões, ed. Maria de Lurdes Saraiva, edição INCM, Lisboa, 1980.
Igual à versão da edição Álvares da Cunha (1668).
 

Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão asinha (*)
em uns tão longos dias de tormento.

As altas torres, que fundei no vento,
o vento as levou logo, que as sustinha;
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
e logo, no melhor, desaparece.

Eu o quis, pois o quis minha Ventura,
que gemendo e chorando, conhecesse
quão fugitivo ele é, quão pouco dura.
 

 

II
Versão em Rymas de Camões, Edição de Manuel de Faria e Sousa, Soneto LXXX da Centúria II (Tomo II da edição das Rymas).
Versão retomada pelo Padre Tomás José de Aquino na sua edição das Rimas de Camões (1783), Soneto CLXXX.
(Em relação a I mudam os versos 4, 6, 9, 11, 12-14).
 

Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão asinha (*)
em tão compridos anos de tormento.

As altas torres que fundei no vento,
levou, enfim, o vento que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com brandas mostras aparece,
tudo possível faz, tudo assegura;
mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem que desfalece,
um bem aventurar que sempre dura!

 

 

 

III
Versão atribuída ao Infante D. Luis no Índice do Cancioneiro do Padre Ribeiro, ed Carolina Michaëlis de Vasconcelos, (I O Cancioneiro Fernandes Tomás, II O Cancioneiro  do Padre Pedro Ribeiro, reedição INCM, Lisboa 1980).
 

Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão azinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

Os meus castelos que fundei no vento,
o vento mos levou que mos sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
e logo no melhor desaparece.

Ó dano grande e grande desventura
por um pequeno bem que desfalece,
aventurar um bem que sempre dura.

 

 

 

IV
Versão identificada como “Outro soneto alheio” (nº27) em Obras de André Falcão de Resende.
Ed. crítica de Bárbara Spaggiari, Edições Colibri, Lisboa, 2009.
 

Outro soneto alheio
Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tam assinha (*)
em tam compridos dias de tormento.

Aquelas torres, que fundei no vento,
o vento as levou, que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
mas logo no melhor, desaparece.

Ó grande mal, ó gran desventura!
por um pequeno bem, que logo esquece,
aventurar um bem, que sempre dura.

 

 

 

V
Versão em Rimas Várias — Flores do Lima de Diogo Bernardes
ed. Marque Braga, Sá da Costa editora, Lisboa, 1945.
 

Soneto LXXV
Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse tornadas tão asinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

Aquelas torres, que fundei no vento,
o vento as levou, já que as sustinha;
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
que sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com rosto ledo(**), e vista branda
promete quanto dele se deseja,
tudo possível faz, tudo assegura:

Mas des que n’alma reina, e manda,
como na minha fez, quer que se veja,
quão fugitivo é, quão pouco dura.

 

 

 

VI
Versão no Cancioneiro Fernandes Tomás atribuída a Diogo Bernardes, 22v.***, e diferente da publicada em Rimas Várias — Flores do Lima.
 

Soneto
Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão azinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

As minhas torres, que fundei no vento,
o vento mas levou que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
mas sempre no melhor, desaparece.

Ah triste fado, ah desventura
por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura.

(*) depressa

(**) alegre, satisfeito
***Transcrição minha a partir do fac-símile do manuscrito.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Francis Picabia (1879-1953), Rapariga no Paraíso, aguarela e lápis sobre papel pertencente a colecção particular.

 

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