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sigmar-polke-1941-2010-par-amoroso-ii-1965-450pxDe um poeta raro, Karmelo C. Iribarren (1959), traduzo hoje alguns poemas.
Poesia em que as palavras cheiram e sabem ao gosto tantas vezes amargo da vida, possa eu ao traduzir ter dado uma aproximação em português.

 

 

 

Que estranha  [Qué rara]

Que estranha
soa
a estas idades
a palavra
amor.
Dize-la,
e não sabes
se te enganas
a ti mesmo,
ou a ela,
ou ele
aos dois.

 

 

 

Ultimamente  [Últimamente]

Os dias vêm
e vão
e isso é tudo o que fazem

como páginas de uma novela
que esqueces
ao passar
à seguinte

ou como quando vás
no comboio
olhando pela janela
e apenas te interessa
a paisagem.

 

 

 

Amor  [Amor]

Apenas
quatro letras.

E cabe tanto dentro.

E dói tanto
quando te deixam
fora.

 

 

 

O verão aos 40  [El verano a los 40]

É como estar
a dieta
num bom restaurante;
uma tortura.

      Chega
e de repente
de todo o lado
surgem
coisas
e mais coisas apetitosas
que nunca
irás comer.

 

 

 

Vencido  [Vencido]

Vencido, uma vez mais. Pelo amor,
o ódio, ou pela vida
que não faz concessões
nem dá tréguas. Aqui,
na esquina de um século
tão inútil como o foram
todos. E também
tão sanguinário. Fumando
um cigarro. Indiferente. Vendo
como a gente se destroça,
e sem sentir nada especial.

 

 

 

O que perdura  [Lo que perdura]

Das cidades que visito
sempre trago comigo
alguma coisa:
    praças ao cair da tarde, o pulsar
de uma avenida à hora de ponta,
um bar diferente,
uma livraria
                  e
(isto nunca me esquece)
                                      os olhos,
os olhares fugazes
de uma mulher
desconhecida:
                      misteriosos
rescaldos que perduram
entre as cinzas
de tudo o resto.

 

 

 

Os poemas foram traduzidos do livro Seguro que esta historia te suena, Poesía completa (1985-2012), publicado pela editora Renascimento de Sevilha na sua colecção Calle del Aire.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintur de Sigmar Polke (1941-2010), Par amoroso II de 1965.

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