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terreiro-do-paco-600pxPara portugueses em geral, e lisboetas em particular, é difícil apreender hoje a carga simbólica da Praça do Comércio em Lisboa, em tempos chamada Terreiro do Paço, como símbolo identitário de Portugal. Apreciamos a grandiosidade da Praça, e, actualmente, o prazer da fruição do seu espaço ordenado, mas o seu significado imaginário perdeu-se nas voltas do tempo. Chamou-me a atenção para esse valor imaginário, uma amiga brasileira em tempos de visita pela primeira vez a Portugal e a Lisboa: a primeira coisa que queria ver e fotografar, para recordar, era a Praça do Comércio, e com isso sentir que estava de facto em Portugal.
O carácter renovador do desenho da praça, integrado no conjunto da reconstrução da Baixa Pombalina na sequência do terramoto de 1755, foi exemplarmente estudado por José-Augusto França (1922) na sua tese sobre a Lisboa Pombalina e o Iluminismo, dando conta de um pensamento urbano e da sua radical inovação.
Sendo esta renovação urbana um inequívocos exercício de poder, o caráter simbólico da sua afirmação ficou atribuído à colocação da estátua equestre do rei D. José I no centro da praça, dominando o horizonte aberto.
A inauguração da estátua foi ocasião de festejos de arromba. E como era de uso à época, os poetas foram chamados a cantar o acontecimento, e nenhum terá escapado à oportunidade, independentemente do local onde se encontrasse: reinava de facto ao tempo o Marquês de Pombal e o seu poder ditatorial.
Reveste hoje carácter de cancioneiro do absurdo toda esta poesia produzida sobre a estátua equestre do Rei D. José I e a sua inauguração no Terreiro do Paço em Lisboa, e para o leitor de agora, é surpreendente o exercício verbal à volta de semelhante objecto e acontecimento.
Um pouco ao acaso, pois os poemas são avalanche, e fugindo aos poemas longos, escolho dois poemas de dois poetas brasileiros, também irmãos, tendo um sido justamente famoso, José Basílio da Gama (1741-1795), pelo seu poema épico O Uraguay (1769). O irmão deu pelo nome de António Caetano de Almeida Vilas Boas (1745-1805).

 

 

Ode do P. António Caetano de Almeida Vilas Boas

 

Inauguração do colosso de bronze no dia faustíssimo aniversário de Elrey Dom José I, Nosso Senhor

Ode
Aonde me arrebato?
A humana vista não se atreve a tanto,
Arqueja o coração como oprimido
Com a vasta alegria.
Já se amiúda o palpitar das veias.
São menores as forças que as ideias.

Ouço quebrar nos ares
Os roucos ecos do metal fundido:
Já o purpúreo Véu caiu por terra.
E a respeitosa Almada,
Que viu brilhar primeiro o Régio Vulto,
Como o Ganges, que adora o Sol que nasce,
Sobre as águas do Tejo inclina a face.

 

 

Soneto de José Basílio da Gama

 

Quando Alexandre entrou na tenda real de Dario com Efestião seu valido ao lado, Sysigambis, rainha mãe saudou Efestião, tomando-o por Alexandre. Advertida do engano, pediu perdão ao rei, que lhe respondeu magnanimamente: Não erraste, que este também é Alexandre.

 

 

Soneto
no dia feliz da inauguração do Colosso Real

 

 

Domador do Bucéfalo arrogante,
Alexandre, ou quem és? Por mais que estude,
Fácil não é que de conceito mude,
Vendo a teus pés o Índico Elefante.

O PAI DA PÁTRIA soa lá distante
A abóbada do Templo da Virtude:
PAI DA PÁTRIA responde com língua rude
A América emplumada, o fusco Atlante.

Reconheço a JOSÉ. POMBAL eu vejo,
Que a coroa na testa lhe sustinha.
Reverente me inclino, e o Ceptro bejo.

Na mão o Ceptro de ouro ao rei convinha:
Ou entre o Efestião, do REI do Tejo,
Quem se enganasse bem desculpa tinha.

 

 

 

Fazendo uso do glorioso prestígio da antiguidade, compara o poeta o Marquês de Pombal, cuja efígie se encontra no pedestal da estátua, a Efestião. Esta efígie foi retirada quando do furor anti-pombalino no reinado que se seguiu, da filha de D. José I, D. Maria I.
Num conjunto de poemas guardados em manuscrito, e publicados há anos por Alberto Pimenta em Musa anti-pombalina, regista-se o sentimento de rejeição pela acção do Marquês que atravessava parte da sociedade portuguesa na época, sendo que em dois desses sonetos anónimos  é exactamente esta esfinge que é visada. No primeiro, nada menos que nos seguintes termos:

 

 

Soneto 128

Senhor, para exaltar a nossa dita,
Tirai do Pedestal da Estátua Augusta
A imagem do Marquês feia e robusta
Que o vê-la ainda a seus pés o ódio excita.

Olhai que esse padrão desacredita
O conservar memória tão injusta;
Já o seu Original nos não assusta,
Mas o ver a sua copia nos irrita.

Não sofre a nossa pura lealdade
Que da Estátua a Real Magnificência
Deslustre este Retrato da Impiedade;

E atendei, ó Senhor, é indecência
Que da imagem da Pia Magestade
Seja base a figura da Insolência.

 

 

 

Mesmo anonimamente, esta virulência só foi escrita após a morte do Marquês, como se depreende do poema, pois em vida deste, tal escrito, se conhecido, faria o autor correr sérios riscos, atendendo ao que os relatos históricos referem.
No segundo soneto que transcrevo, é a operação de retirada da efígie e os sentimentos que esta operação desencadeia, raiando a obscenidade [Que me sirva de tampa ao meu Bacio.], o que se refere:

 

 

Soneto 115

 

À tirada do Busto do Marquês de Pombal em 27 de Abril de 1777

Metam, metam com jeito essa Alavanca,
Empenhe-se o poder mais o cuidado,
Tirem desse lugar tão respeitado
Esse Busto infernal, essa Carranca.

Fique a Praça liberta, limpa e franca,
Livre já desse objecto excomungado;
Não seja mais no mundo nomeado
Quem o sangue do Povo tudo estanca.

Esse Monstro infernal e Dragão fero
Perca a gloria das honras, perca o brio,
E tenha fim pior que teve Nero;

E sem que a acção padeça algum desvio,
Entreguem-me esse Busto porque quero
Que me sirva de tampa ao meu Bacio.

 

 

 

Poemas transcritos de Poetas Brasileiros do Período Colonial, I e II, Antologia, Palmira Morais Rocha de Almeida, Edições Colibri, Lisboa 2008 e 2009, e de Musa anti-pombalina, selecção e apresentação de Alberto Pimenta, A Regra do Jogo edições, Porto, 1982.

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