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Vale a pena o Amor? Viver para ele? Viver por ele?
Responde a tão momentosa questão, Antero de Quental (1842-1891) em dois poemas que mais à frente transcrevo, Os Vencidos e Solemnia Verba.
Não é ao amor sensual que Antero de Quental responde através destes poemas, nem à sua lírica expressão que frequentemente se lê aqui no blog. Os poemas falam antes num conceito abrangente do amor e de como com ele se articula a nossa vida.

 

No poema Os Vencidos, o amor é uma entidade confusa e absoluta que nos habita e conduz à acção. Ao fazer-nos agir chocamos com os valores que nos definem como pessoa e arruína-nos a vida sem apelo.
Dividindo no poema o conceito global de amor por três cavaleiros-andantes, seguimos no seu detalhe os cavaleiros que a ele dedicaram a vida, e por ele foram vencidos. A um venceu-o o amor de uma mulher, envenenando-o pelo “desejo pestilento” quando o seu ideal era um amor etéreo:

Irmãos, amei — e fui amado… / Por isso vago incerto e fugitivo, / …

 

aos outros cavaleiros, deixemos antes falar o poema:

 

Responde-lhe o segundo cavaleiro, / Com sorriso de trágica amargura: / “Amei os homens e sonhei ventura, / Pela justiça heróica, ao mundo inteiro /

Irmãos, amei os homens e contente / Por eles combati, com mente justa… / Por isso morro à míngua e a areia adusta / bebe agora meu sangue, ingloriamente.”

Diz então o terceiro cavaleiro: / “… / Irmãos, amei a Deus com fé profunda… / Por isso vago sem conforto e incerto, / Arrastando entre as urzes do deserto / Um corpo exangue e uma alma moribunda.”

E os três, unindo a voz num ai supremo, / E deixando pender as mãos cansadas / Sobre as armas inúteis e quebradas, / Num gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na selva impenetrável, / E no palor da noite silenciosa.

 

 

Lemos no poema uma total condenação do amor e da escolha de viver a vida para ele, pois apenas conduz à desolada morte emocional quem o procura, condenando a um viver nas trevas.

O poeta destruiu este poema que foi mais tarde recuperado por Oliveira Martins e publicado com a sua edição dos Sonetos Completos.

 

 

Alterado no poeta o entendimento do Amor e do seu papel na vida de cada um, escreveu mais tarde a obra-prima absoluta que é o soneto Solemnia Verba.
Agora, o Semeador de sombras e quebrantos! é o nosso coração, e a incapacidade de viver o amor está em nós. O coração é o nosso martírio e o amor o nosso prémio. Fazer o coração acreditar no amor está em nós, e consegue-se:

Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

 

Que cada um escolha para si o prémio que procura, no final, valerá a pena. O caminho que o poema aponta é fazer o coração pensar até acreditar no amor. O Amor, essa entidade sublime, permanece, e se com ela na vida nos conseguimos cruzar:

Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

E esta mensagem de esperança é toda ela contrária ao que vimos explanado no poema Os Vencidos. Agora a felicidade pelo amor está ao nosso alcance e o pensar ajuda-nos a lá chegar. Não mais irracionalidade ou condutas ditadas pela paixão.

 

 

SOLEMNIA VERBA

 

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houver flor e encantos!
E noite, onde foi luz de Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

 

Transcrevo agora a totalidade do poema Os Vencidos:

 

Os Vencidos

 

Três cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cai a noite do céu, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhes cai o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As frontes lhes curvou, com mão potente.
No horizonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz num soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esfera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu hálito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre lânguida ao raio matutino,
Mas seu profundo cálix purpurino
Só ressuma veneno e podridão.

Irmãos, amei — amei e fui amado…
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de trágica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heróica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças oprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.

Quando há de vir o dia da justiça?
Quando há de vir o dia do resgate?
Traiu-me o gládio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de púrpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa…
Por isso morro à míngua e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavaleiro:
«Amei a Deus e em Deus pus alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro.

Invoquei-o nas horas afrontosas
Em que o mal e o pecado dão assalto.
Procurei-o, com ânsia e sobressalto,
Sondando mil ciências duvidosas.

Que vento de ruína bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrossanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céu, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tédio ressuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os três, unindo a voz num ai supremo,
E deixando pender as mãos cansadas
Sobre as armas inúteis e quebradas,
Num gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidável,
Sumiram-se na selva impenetrável
E no palor da noite silenciosa.

 

 

Poemas transcritos de Antero de Quental, Sonetos Completos publicados por J. P. Oliveira Martins, Lopes & C.ª — Editores, Porto, 1890.
Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940), Marionetas de 1930: quais humanos nas mãos do amor.

 

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