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vallotton_felix-intimidade-interior-com-casal-500pxA vida e os afectos cruzam-se de forma sinuosa, umas vezes desfazendo sonhos, outras permitindo que escolhas felizes permaneçam no tempo.
Se a insatisfação desenvolve o desejo de variedade, a felicidade faz aspirar à constância. Num casal,  provavelmente a maior prova de amor será o desejo de envelhecer juntos, vendo-se felizes quando as limitações da idade chegam e a vida é mais memória que futuro. Desse desejo de velhice acompanhada pelo amor fala o poema de Décimo Magno Ausónio (c. 310-c. 395) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

 

A sua mulher

Amor, vivamos como sempre, não esqueçamos
os doces nomes ditos na primeira noite,
e nunca venha o dia que nos veja velhos:
eu sempre o jovem teu, e tu a minha noiva.
Que mais do que Nestor provecto eu seja em anos.
e tu na idade venças a senil Sibila.
De tão extrema velhice ignoraremos tudo:
menos as ciências dela no escapar do tempo.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Felix Vallotton (1865-1925).

 

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