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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Homenagem a Miguel Angelo (1475-1564) e um seu soneto em tradução de Jorge de Sena (1919-1978)

30 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jorge de Sena, Miguel Angelo

“AL COR DI ZOLFO…”

Um coração de enxofre, a carne estopa,

e de bem seca lenha o atro seio,

alma sem qualquer norte, alma sem freio,

desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,

e quando o mundo é de ciladas cheio –

não é grã maravilha, se um anseio

a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo

se alguém as traz, a Natureza enfreia,

se a força aplica em toda a parte e logo…

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,

entregue o coração ao que o incendeia,

culpa será de quem me deu ao fogo.

O soneto, dorida meditação sobre a paixão homossexual do artista: se como tal nasci…, fala-nos a todos, para lá de opções de género, do apelo irresistível da paixão carnal quando esta nos visita: cegueira da razão tão fraca e louca,

A tradução deste soneto de Miguel Ângelo é de Jorge de Sena e foi publicada na preciosa e tantas vezes citada antologia POESIA DE 26 SÉCULOS.

A certa altura, numa pagina dos seus diários, Jorge de Sena refere a excitação com a compra de um álbum de reproduções das obras de Miguel Angelo. Sinal dos tempos, hoje, tais reproduções proliferam em qualquer banca de revistas perante a indiferença de quem olha, e dificilmente apreendemos quão difícil era a aproximação à arte em décadas não muito distantes. O turismo de massas nos nossos dias preenche essa aproximação numa  contabilização de destinos visitados.

Estive pela primeira vez em Itália no final dos anos 70. Foram três semanas de deambulação pelas maravilhas da arte da península. Jovem nos vinte anos, a maior revelação, entre tantas, foi a obra escultórica de Miguel Ângelo. Ainda tive a possibilidade de contemplar sozinho o David, com mais 3 ou 4 pessoal na sala da Galleria della Academia em Florença. Os mármores com as esculturas apenas esboçadas, naquela tentativa de mostrar a vida na pedra, foram outra revelação indelével. A Pietá do Vaticano não fora ainda mutilada, nem se escondia por detrás do vidro. Era possível sentir o veludo da pedra e de perto ser tocado pela maciez do olhar do amor, naquela mãe com o filho nos braços, morto. Mas foi o Moisés a revelação absoluta. O olhar de fogo vindo da pedra, a imponência da massa escultórica e a atitude, transmitiram-me a forca do divino. Se Deus encarnasse,  seria assim. O absoluto de julgar, distribuindo bênçãos e castigos personifica-se naquele mármore com vida.

A pintura que ilustra o artigo, deliberada homenagem ao artista,  fi-la, anos vai, depois de ter visto o desenho de Miguel Ângelo que a inspirou, na Galeria Albertina, de Viena.

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A carestia da vida num soneto do Abade de Jazente e algum filosofar poético

30 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Abade de Jazente, Paulino Cabral de Vasconcelos

Há longo tempo ausente do blog, a poesia do século XVIII, ei-lá que regressa pela voz de Paulino Cabral de Vasconcelos (1719-1789), Abade de Jazente, numa moderada sátira em forma de soneto, à carestia da vida

A trinta e cinco reis custa a pescada:

O triste bacalhau a quatro e meio:

A dezasseis vinténs corre o centeio:

Do verde a trinta reis custa a canada.

 

A sete, e oito tostões custa a carrada

Da torta lenha, que do monte veio:

Vende as sardinhas o galego feio

Cinco ao vintém; e seis pela calada.

 

O cujo regatão vai com excesso,

Revendendo as pequenas iguarias,

Que da pobreza são todo o regresso.

 

Tudo está caro: só em nossos dias,

Graças ao Céu! Temos em bom preço

Os tramoços, o arroz e as Senhorias.

Não só a carestia da vida é objecto de meditação do poeta.

Expandindo a reflexão à interrogação sobre o sentido da vida temos a pergunta:

De que serve o viver, se tanto custa?

desenvolvida neste soneto:

De que serve o viver, se tanto custa?

É toda uma tormenta a nossa idade;

Louca na infância, vâ na mocidade,

E cheia de aflições na mais robusta.

 

Um chora, outro lamenta, outro se assusta

Da fortuna à mais leve tempestade;

E se chega a velhice, é sem piedade

Submetida ao rigor da sorte injusta.

 

Parece que por seu divertimento

O Céu nos faz penar, inda que santo,

Sem nos deixar de alívio um só momento.

 

Valha-nos Deus! Se toda a vida é pranto,

Se acaba só na morte o seu tormento,

De que serve viver, se custa tanto?

Não fica por aqui a meditação do poeta consubstanciada naquele Valha-nos Deus! Se toda a vida é pranto,

e vamos agora ao encontro dos motivos porque Tormento é toda a vida, é toda enganos:

Sem causa a infância ri, sem causa chora:

Incauta se despenha a mocidade;

Sacode o jugo, e nela a liberdade,

A caça, o jogo, o amor, tudo a namora.

 

Das honras o varão se condecora;

Tudo é nele ilusão, tudo vaidade:

Junta tesouros a avarenta idade;

Diz mal do nosso, e ao tempo andado adora.

 

Tormento é toda a vida, é toda enganos:

Quando uns afectos vence a novos corre,

E tarde reconhece os próprios danos:

 

Porque enfim se a prudência nos socorre,

Ditada na lição dos longos anos,

Quando se sabe, então é que se morre.

Mas eis que uma pulga põe fim a tanta filosofia:

Às vezes se não durmo, o pensamento

Deixando o corpo sobre a cama quente,

Me leva mais ousado, que prudente,

Dos astros a medir o movimento.

 

Peso, calculo, meço, e observo atento,

Quantos globos encerra o Céu luzente:

Contemplo os turbilhões, e finalmente

Me transporto até sobre o firmamento.

 

Descartes lá descubro: e nesse espaço,

Que existência só tem na fantasia,

Também meus orbes risco, e mundos faço.

 

E eis que vem com mais certa geometria

Uma pulga, e me morde no cachaço;

Vou-me arranhar; e adeus filosofia.

Nota e noticia bibliográfica:

Nesta pequena visita à obra de Paulino Cabral de Vasconcelos, aproveito para transcrever o PROLOGO que acompanha o 1º volume das Poesias na sua 1ªedição, volume onde todas as poesias aqui transcritas se encontram, e que o moderno editor da obra, em 1983, para a INCM, achou por bem não transcrever.  Por outro lado, melhor teria andado esse editor se tivesse poupado à posteridade o comentário que antepôs á referida edição e que titulou: A INSIGNIFICÂNCIA DO ABADE DE JAZENTE.

Quando li este título pensei tratar-se de uma ironia a acompanhar alguma poesia do Abade. Mas não, leva-se a sério e expende das páginas 9 a 27 da referida edição INCM as considerações que melhor fizera guardar para si. Para terdes uma ideia sobre que fala o organizador, depois de circundar vastas matérias, remata a sua conversa com o seguinte parágrafo:

A insignificância do Abade de Jazente pressente-se na monotonia com que uma perspectiva de fim de discurso é entrevista: ele mostra-nos, como algumas décadas depois a gramática histórica iria mostrar, que as palavras também morrem. Mas porque no-lo mostra quando escreve, contenta-nos com o espectáculo das palavras antes de morrer.

Valha-nos a poesia!

Vamos então ao prometido PROLOGO do editor da obra em 1786, Bernardo Antonio Farropo.

PROLOGO

O Merecimentp, que se encontra nos excellentes versos do Paulino Cabral de Vasconcellos, Abbade de Jazente, e a controversia exquisita com Theodoro de Sá Coutinho, me picou a curiosidade de ajuntar as suas obras. Truncadas, e dispersas eu mendiguei com indizivel trabalho tão bellas composições: e com igual difficuldade persuadi a seu Author a que as reconhecesse, e em partes retocasse as informes, e erradas copias, que as desfiguravaõ.

Appeteci ultimamente adornar a minha estante com a estampa deste genio raro: e bem que alguns Sonetos admiraveis se excluiraõ da collecçaõ; em a fazer pública eu me persuado, que lisongearei aos curiosos de bom gosto, e darei gloria á nossa Patria neste seu Alumno.

Conservei a ortografia original.

Os sonetos foram retirados do primeiro volume das Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos, Abbade de Jazente, publicadas no Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro no anno de 1786, com licença da Real Mesa Censória.

Modernizei a ortografia, retirei a maiúscula a alguns substantivos, e conservei a pontuação embora esta pareça um pouco anacrónica hoje, mas não dificulta a leitura.

As poesias do Abade de Jazente foram publicadas em 1ªedição em 2 volumes, tendo o 2º volume sido publicado um ano mais tarde, em 1787, e é hoje raríssimo.

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In Taberna quando sumus – poema de Carmina Burana

26 Segunda-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poesia Antiga

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Carmina Burana, Omar Jayyam, Robaiyyat

Há dias, numa prenda de anos antecipada, bebemos um vinho tinto reserva de 2007 da Quinta do Noval,  uma daquelas pérolas que fazem alguns vinhos do Douro sem paralelo.

Embora goste de beber, não gosto de me embriagar, o que na minha vida poderá ter acontecido duas ou três vezes. Ao começar da cabeça à roda, paro.

O vinho, presença e invenção das culturas mediterrânicas, que se estendem até à Pérsia, na definição de região mediterrânica de Orlando Ribeiro, mestre geógrafo nunca demais lembrado, o vinho, dizia eu, de invenção dos países onde as manifestações de cultura mais antigas se mostram, foi aqui, sempre, artigo de luxo e bebê-lo sinal de privilégio. É Orlando Ribeiro quem no-lo ensina:

O vinho é, tradicionalmente, um produto de qualidade, fino, variado e diverso como tudo o que é bom. Precisamente por não ser indispensável entre os artigos de consumo é que o vinho constitui produto requintado de uma grande civilização. (in Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, pág. 97, ed.FCG, 1987).

A poesia, refinado eco cultural e social do homem, tem alguns tesouros em torno do vinho, sendo entre os mais divulgados, talvez, os que surgem nos Robaiyyat(*) de Omar Jayyam, poeta persa que terá vivido nos séc XI-XII:

Agora que a juventude vivo

beberei vinho, pois bebê-lo me compraz;

não mo deiteis em cara; apesar de amargo, é bom

amargo ele deve ser, pois amarga  me é a vida.

ou este:


Um antigo mestre encontrei na taberna

pedi-lhe notícias dos que já se foram;

disse-me: bebe vinho; muitos como nós

se foram e nenhum jamais regressou.


Outros há, e um cancioneiro exaustivo do vinho está por fazer.

É a propósito de beber vinho que trago um poema medieval, arqui-conhecido na forma cantada, evidenciando outra poesia medieval que não a de Francisco de Assis aqui deixada antes.

Dá ele conta de variados sem-pretexto necessários para beber. De caminho fala-nos da variegada paisagem humana que povoa aquele universo.

O poema, In Taberna quando sumus, escrito em latim medieval, integra uma colecção de canções descobertas na abadia beneditina de Beuren, no coração dos Alpes bávaros, no inicio do século XIX, das quais Carl Orff (1895-1982) retirou algumas e re-musicou de forma original, em 1953, criando uma das peças do repertório clássico mais conhecidas e populares: Carmina Burana.

A colecção terá sido redigida no final do século XIII, dando forma escrita a um património que circulava de boca em boca desde o século XII. Os estudos recentes do manuscrito terão permitido a atribuição de autoria em alguns poemas.

Trata-se da mais importante fonte da poesia em latim do século XII. Colecção heterogénea onde coexistem dramas litúrgicos, poemas morais, poemas de amor, canções de beber e convites ao jogo, enfim toda a panóplia da vida da época.

Esta In Taberna quando sumus pertencerá ao grupo das canções de goliardos e de clérigos vagantes, gente que deambulava de terra em terra fazendo pela vida e por gozar dela. É um pouco a vida de que Francisco de Assis desistiu para se entregar aos votos de pobreza e propagação da fé.

Deixo-vos com uma interpretação da peça e o texto da versão latina cantada. Acrescento a preciosa versão que do poema fez Jorge de Sena e publicou em Poesia de 26 Séculos.

 CARMINA BURANA – In Taberna quando sumus
https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/In+taberna+quando+sumus.mp3

In taberna quando sumus

In taberna quando sumus,
Non curamus quid sit humus,
Sed ad ludum properamus,
Cui semper insudamus.
Quid agatur in taberna,
Ubi nummus est pincerna,
Hoc est opus ut queratur,
Sic quid loquar, audiatur.

Quidam ludunt, quidam bibunt,
Quidam indiscrete vivunt,
Sed in ludo qui morantur,
Ex his quidam denudantur,
Quidam ibi vestiuntur,
Quidam saccis induuntur.
Ibi nullus timet mortem,
Sed pro Baccho mittunt sortem:


Primo pro nummata vini,
Ex hac bibunt libertini;
Semel bibunt pro captivis,
Post hec bibunt ter pro vivis,
Quater pro Christianis cunctis,
Quinquies pro fidelibus defunctis,
Sexies pro sororibus vanis,
Septies pro militibus silvanis.


Octies pro fratribus perversis,
Nonies pro monachis dispersis,
Decis pro navigantibus,
Undecies pro discordantibus,
Duodecies pro penitentibus,
Tredecies pro iter agentibus.
Tam pro papa quam pro rege
Bibunt omnes sine lege.


Bibit hera, bibit herus,
Bibit miles, bibit clerus,

bibit ille, bibit illa,
Bibit servus cum ancilla,
Bibit velox, bibit piger,
Bibit albus, bibit niger,
Bibit constans, bibit vagus,
Bibit rudis, bibit magus.


Bibit pauper et egrotus,
Bibit exul et ignotus,
Bibit puer, bibit canus,
Bibit presul et decanus,
Bibit soror, bibit frater,
Bibit anus, bibit mater,
Bibit ista, bibit ille,
Bibunt centum, bibunt mille.


Parum sexcente nummate
Durant, cum immoderate
Bidunt omnes sine meta,
Quamvis bibant mente leta;
Sic nos rodunt omnes gentes,
Et sic erimus egentes.
Qui nos rodunt confundantur
Et cum iustis non scribantur, Io!

E agora a versão de Jorge de Sena em português

Dos Carmina Burana,  In Taberna…

Na taberna quando estamos,
De mais nada nós curamos,
Que do jogo que jogamos,
Mais do vinho que bebemos,
Quando juntos na taberna,
Numa confusão superna
Que fazemos nós por lá?
Não sabeis? Pois ouvi cá.


Nós jogamos, nós bebemos,
A tudo nos atrevemos.
O que ao jogo mais se esbalda
Perde as bragas, perde a fralda,
E num saco esconde o couro,
Pois que um outro conta o ouro.
E a morte não val’um caco
Pra quem só joga por Baco.


Nossa primeira jogada
É por quem paga a rodada.
Depois se bebe aos cativos,
E a seguir aos que estão vivos,
Quarta roda, aos cristãos juntos.
Quinta roda, aos fieis defuntos.
Sexta, às putas nossas manas,
E sete às bruxas silvanas.


Oito, aos manos invertidos.
Nove, aos frades foragidos,
Dez, se bebe aos navegantes,
Onze, é para os litigantes,
E doze, dos suplicantes,
E treze, pelos viandantes.
Pelo Papa e pelo Rei
Bebemos então sem lei.


Bebem patroa e patrão,
Bebem padre e capitão,
Bebe o amado e bebe a amada,
Bebem criado e criada,
Bebe o quente e o piça fria,
Bebe o da noite e o do dia,
Bebe o firme, bebe o vago,
Bebe o burro e bebe o mago.


Bebe o pobre e bebei rico,
Bebe o pico-serenico,
Bebe o infante, bebe o cão,
Bebem cónego e deão,
Bebe a freira e bebe o frade,
Bebe a besta, bebe a madre,
Bebem todos do barril,
Bebem cento, bebem mil.


Nenhuma pipa se aguenta
Com esta gente sedenta,
Quando bebe sem medida
Quem de beber faz a vida.
E quem de nós se fiou,
Sem cheta s’arrebentou.
E quem de nós prejulgava,
Se quiser, que vá à fava.

Bebamos, pois, bebamos, à felicidade dos dias por vir.

Por esta época, e ainda era mesquita a igreja de Santa Maria em Tavira, nasceu na  cidade ABÛ ‘UTHMÂN sobre cuja poesia já escrevi, e para onde vos remeto, dando de novo conta deste círculo infindável que a poesia é:

ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

Notas e referências

(*) Robaiyyat é o plural de Robai, estrofe de quatro versos dodecassilabos em que rimam o primeiro e o segundo e o quarto, ficando livre o terceiro. Significa canto ou copla.

As traduções de Robaiyyat incluídas foram feitas a partir de versões castelhanas traduzidas directamente do farsi. Em Poesia de 26 Séculos tem Jorge de Sena algumas belas versões de Robaiyyat de Omar Jayyam.

As gravações de Carmina Burana de Carl Orff são às dezenas. Embora conheça algumas, a minha preferência vai para a que aqui deixei em fragmento, provavelmente por razões sentimentais. Foi a primeira que conheci e trouxe-a da Polónia nos idos de 70, daquela viagem que já aqui contei em Uma Aventura Polaca. A gravação Supraphon com solistas, coro e a orquetra de Praga, tem direcção do maestro Václav Smetácek, e contem as três cantatas cénicas de Carl Orff, TRIONFI,  onde se inclui CARMINA BURANA juntamente com CATULLI CARMINA e TRIONFO DI AFRODITE.

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Silêncio de água parada e o Cântico ao irmão sol de Francisco de Assis

25 Domingo Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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O título do artigo necessita uma explicação prévia. Silêncio de água parada é a frase com que Fernando Campos (1924) no seu livro A Casa do Pó abre um capítulo onde fala do Convento de S. Francisco em Tavira.

Para quem não conhece a história do livro, o relato refere-se ao século XVI e contém descrições vívidas da saída dos judeus no porto da cidade em consequência do édito do Rei D. Manuel I.

O convento que o escritor recria não existe, pois foi destruído pelo terramoto de 1755. No seu lugar foi posteriormente construída uma igreja com o mesmo nome.

 A foto que encima este artigo mostra o campanário da igreja visto de casa de meus pais. Nessa igreja  conheci os primórdios da religião católica, nos três meses em que lá frequentei a catequese, por volta dos meus oito anos. Dessa época lembro o fascínio quando a porta da sala onde se recolhiam os santos da procissão de cinzas estava aberta e nos conseguíamos esgueirar para lá. Aquelas estátuas gigantes vestidas como gente, com feições realistas e pele dum branco glauco, davam realidade ao mundo descrito nas historias do catecismo. No entanto, apesar desta aprendizagem infantil, falta ao meu Deus o detalhe trazido pelos diferentes credos que a humanidade gerou. Nesta igreja me tenho despedido ao longo dos anos, de tios e avós, pois na família tem existido devoção e ligação à Irmandade de S. Francisco, e é lá que as cerimónias de despedida final acabam por acontecer. Foi lá que me despedi do meu pai, num dia inesquecível. Pela primeira vez tive consciência de que a partir daí, na vida, corria por mim. O suporte que sempre soube existir, ainda que enquanto adulto raramente o tenha pedido, tinha desaparecido. Agora era eu a âncora de outros.

Neste itinerário de memória reencontro aquele S. Boaventura lido na juventude, biógrafo e continuador das reformas da ordem fundada pelo Poverello.

Escrevia então Boaventura por volta do ano 1250 no  número 10 do seu imperdível livro: Redução das Ciências à Teologia – De reductione artium ad thelogiam:

” todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio“, antecipando os místicos S. João da Cruz e Santa Teresa de Avila.

Sabia esta gente o que nós nem imaginamos, apesar da parafernalia que nos rodeia.

Vejamos então todo o argumentário:

Se considerarmos o prazer concomitante ao exercício dos sentidos, intuiremos aí a união de Deus e da alma. Com efeito, todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio, pois que “o olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de escutar”[Eclesiastes, I, 8]. Semelhantemente, o sentido do nosso coração deve procurar com ardor, encontrar com gozo e reiterar incessantemente o que é a mesma beleza, a mesma consonância, a mesma fragrância, a mesma doçura e a mesma suavidade.

Este S. Francisco além do santo, cuja biografia se conhece por via da obra de S. Boaventura, foi um poeta maior e fundador da poesia italiana, introduzindo na herança vinda da poesia Provençal a espiritualidade que esta não continha, acrescentando-lhe uma dimensão quase cósmica no sublime Cântico do sol e das suas criaturas.

Arquivo no blog três versões do poema em português.

Comecemos pela versão de Herculano de Carvalho (1899-1986), antigo mestre que já não encontrei no IST, e ligado a Tavira desde sempre:

O cântico do sol –  versão de Herculano de Carvalho

Altíssimo, omnipotente, bom senhor,
É tua a gloria, as honras, o louvor,
Abençoado sejas.
Só a ti, ó altíssimo, convêm
E nenhum homem há digno de te invocar.


Louvado sejas, meu senhor,
Com todos os teus seres,
Em especial o senhor irmão sol,
O qual faz o dia e alumia por si próprio.
E que é belo e radiante com grande esplendor.
De ti, altíssimo, a nós dá testemunho.


Louvado sejas, meu senhor,
Pela irmã lua e plas estrelas;
Formaste-las no céu
Límpidas, preciosas e belas.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão vento
E pelo ar, as nuvens, por todo e qualquer tempo
Com o qual, às criaturas, dás sustentamento.
Louvado sejas, meu senhor, pela Irma água,
Que é tão útil e humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão fogo,
O qual nos ilumina pela noite;
E que é belo e jucundo e tão robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pla irmã, nossa mãe, a terra
Que nos sustenta e nos governa
E dá tão vários frutos,
Com as coloridas flores e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor,
Naqueles que perdoam por teu amor
E suportam doenças e tribulações;
Benditos esses que descansam em paz
E que hão-de ser por ti, Altíssimo, coroados.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã, nossa morte corporal,
A que homem vivente algum pode escapar;
Coitados dos que morrem em pecado mortal;
Benditos os que cumprem
Tua santíssima vontade,
Pois que a morte segunda, a eles, não faz mal.


Louvai e bendizei o meu Senhor,
Seguindo-o e dando graças com toda a humildade.

Veja-se agora a leitura em português que do mesmo poema faz Jorge de Sena

CÂNTICO DAS CRIATURAS – versão de Jorge de Sena

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor
a Ti a gloria, as honras, o louvor,
e todas as bênçãos.
A Ti só, Altíssimo, sejam dadas
e homem nenhum é digno de nomear-Te.


Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o mestre irmão sol
que só por si madruga e que nos ilumina.
E ele é belo e radiante e com grão esplendor
e de Ti, Altíssimo, ele é testemunha.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas
que no céu criaste claras e preciosas e belas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
e pelos ares sombrios ou serenos ou com todo o tempo
que sao das criaturas mantimento.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água
que é tão útil e é humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo
pelo qual de luzes se abre a noite
e é belo e alegre e é robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa madre terra
que nos sustenta e governa
e produz tantas frutas, coloridas flores, e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelos que por teu amor perdoam
e suportam enfermidades e tribulações,
Benditos aqueles que tudo suportam em paz
e que, por Ti, Altíssimo, serão coroados.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa morte corporal
da qual homem vivente algum há-de escapar,
aí daqueles que morrem em pecado mortal,
e benditos os que encontram na Tua santíssima vontade
que a morte segunda não lhes fará mal.


Louvade e bedizede o meu Senhor, e graças dade,
servide-O todos com mui grã humildade.

Lemos estas duas versões, fieis ao poema original, no sentido e na sua literalidade, mas as pontuais opções de construção do verso mostram a diferença entre um poeta de génio, Jorge de Sena, e um estimável tradutor, também poeta.

Passemos por fim a uma dita tradução integral a partir do francês incluída por Jacques LeGoff no seu livro com estudos sobre S. Francisco.

Nesta tradução apreendemos o carácter descritivo do poema, como que de oração, que as versões poetizadas anteriores, sobretudo a de Jorge de Sena mascaram um pouco, ao dar autonomia ao verso.

Cântico do irmão sol e das outras criaturas

Altíssimo, todo-poderoso e bom Senhor
A ti louvor, gloria, honra e todas as bênçãos
A ti devidos, ó Altíssimo
E nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, Senhor, com todas as tuas criaturas,
Muito especialmente o meu senhor irmão Sol
Através do qual nos dás o dia, a luz.
É belo, irradia com grande esplendor
E de ti, ó Altíssimo, é para nós a imagem.
Louvado sejas tu, Senhor, pela irmã Lua e as estrelas
No céu as acendeste, claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor, pelo irmão Vento
E pelo ar e pelas nuvens
Pelo céu sereno e pelos tempos
Com que sustentas todas as criaturas.
Louvado sejas Senhos pela irmã água
Tão útil e humilde
Preciosa e casta.
Louvado sejas Senhor pelo irmão fogo
Com que iluminas a noite,
É belo e animado,
Indomável e forte.
Louvado sejas Senhor, pela irmã nossa mãe terra
Que nos sustenta e alimenta
Que produz diversos frutos
Com flores coloridas e verdura.
Louvado sejas, Senhor, por aqueles
Que perdoam por amor de ti,
Que suportam provações e doenças,
Felizes se estiverem em paz
Pois por ti, ó Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, Senhor, pela nossa irmã, a morte do corpo
A que nenhum homem vivo escapa
Infeliz o que morre em pecado mortal,
Feliz o que ela surpreender fazendo a tua vontade
Porque não será ferido pela segunda morte.
Louvai e bendizei o meu Senhor,
Dai-lhe a graça e servi-o
Com toda a humildade.


Nota: A variação nos titulos do poema é da escolha dos tradutores respectivos.

Noticia bibliográfica:

S. Boaventura, Reduçãos das Ciências à Teologia, Atlantida, 1970, tradução do Padre Ilídio de Sousa Ribeiro

Poesia de 26 Séculos, Antologia prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1993

Oiro de vário tempo e lugar, São Francisco de Assis a louis Aragon, versões de A. Herculano de Carvalho

S. Francisco de Assis, Jacques leGoff, Teorema, 2000

A Casa do Pó, Fernando Campos, Difel, 1986

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A NAU CATRINETA

16 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Aprendiamo-la na escola primária, e sabiamos de cor, esta Nau Catrineta.

Faz parte da vasta e preciosa colecção de romances populares passados de boca em boca e contados em longos invernos à roda do borralho.

Com mais vagar outro dia virei a estas histórias versificadas, que amo, onde paixões, algumas funestas, e aventuras, acontecem, trazendo o coração ao pé da boca e deixando-nos em suspenso sobre a sorte dos herois e protagonistas.

Hoje, para que não se esqueça, aqui fica a versão publicada no inicio do século XX por Carolina Michaëlis de Vasconcelos na sua escolha das Cem Melhores Poesias Líricas Portuguesas de Sempre que por mais de uma vez aqui referi.

 

NAU CATRINETA

Ouvi agora senhores,

Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar;

Já não tinham que comer,

Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho

Para o outro dia jantar;

Mas a sola era tam rija

Que a não puderam tragar.

Deitam sorte à ventura

Qual se havia de matar;

Logo foi cair a sorte

No capitão general.

“Sobe, sobe, marujinho,

Àquele mastro real;

Vê se vês terras de Espanha,

As praias de Portugal.”

“Não vejo terras de Espanha,

Nem praias de Portugal;

Vejo sete espadas nuas

Que estão p’ra te matar.”

“Acima, acima, gageiro,

Acima ao tope real!

Olha se enxergas Espanha,

Areias de Portugal.”

“Alvissaras, capitão,

Meu capitão general!

Já vejo terras d’Espanha,

Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a coser,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar.”

“Todas três são minhas filhas!

Oh! quem m’as dera abraçar!

A mais formosa de todas

Contigo a hei-de casar.”

“A vossa filha não quero,

Que vos custou a criar.”

“Dar-te-ei tanto dinheiro

Que não o possas contar.”

“Não quero o vosso dinheiro

Pois vos custou a ganhar.”

“Dou-te o meu cavalo branco,

Que nunca houve outro igual.”

Guardai o vosso cavalo,

Que vos custou a ensinar.”

“Dar-te-ei a Nau Catrineta,

Para nela navegar.”

“Não quero a nau Catrineta,

Que a não sei governar.”

“Que queres tu meu gageiro,

Que alviçaras te hei-de eu dar?”

“Capitão quero a tua alma

Para comigo a levar.”

“Renego de ti demónio,

Que me estavas a atentar!

A minha alma é de Deus;

O corpo dou eu ao mar.”

Tomou-o um anjo nos braços,

Não n’o deixou afogar.

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar;

E à noite a nau Catrineta

Estava em terra a varar.

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Bom é amar, – mas como fere tanto? – 4 sonetos de Juan Boscán

11 Domingo Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Juan Boscán

Bom é amar, – mas como fere tanto?

Grande gosto é qu’rer bem, – porque entristece?

Prazer é desejar, – como aborrece?

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

Amar anima, – mas como causa espanto?

Pelo amor o bem da lama cresce,

– mas com assim, por ele , ela padece?

Como tantos contrários cobre um manto?

 

Não é o amor o que dor nos reparte;

a companhia que a seu pesar mantém

também, mau grado seu, nos fere e mata.

 

Nele rende-se o mal de nossa parte;

só ele em nosso bando nos sustém,

e nossa paz constantemente trata.

Rima ABBA ABBA CDE CDE

Doce sonhar e doce angustiar-me,

quando estava sonhando que sonhava.

Doce gozar com o que me enganava,

se um pouco mais durasse o enganar-me.

 

Doce em mim não estar que figurar-me

podia quanto bem eu desejava.

Doce prazer, mesmo se magoava,

que alguma vez chegava a despertar-me.

 

Oh sono, quão mais leve e saboroso

me foras se viesses tão pesado

que assentasses em mim com mais repouso!

 

Dormindo, enfim, fui bem-aventurado,

e é justo na mentira ser ditoso

quem deveras foi sempre desgraçado.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

 Pensando no passado, de medroso,

acho um grande amor dentro do peito;

eu bem sei que o passado é já desfeito,

mas dá imaginá-lo algum repouso.

 

Por de descanso estar tão desejoso,

repouso em qualquer parte onde me deito;

onde espero descanso, é o meu leito,

sendo embora o descanso mentiroso.

 

Mas este descansar sendo tão vão

há-de acabar-se dentro de um momento;

e em mim ficar sua recordação.

 

Cedo volto a esta inquietação;

a conta disto é tal que nem a tento;

mas o que perco e ganho está na mão.

Rima ABBA ABBA CDC CDC

 

 

Doce repouso deste entendimento;

doce prazer sobre o ser bom fundado;

doce saber que alto saber me é dado,

pois tenho de meu bem conhecimento.

 

Doce gozar de um doce sentimento,

vendo meu céu tão claro e serenado;

sobre o meu seio o mais doce cuidado,

com firme concluir que estou contento.

 

Doce gostar de um não sei quê sem nome,

que Amor dentro em minha alma colocou,

ao curar-me com inclito renome.

 

Doce pensar que no paraíso estou;

porém, enfim, me lembro que sou home(m),

digo o que penso do que se passou.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

Lemos estes poemas e não cessa o nosso espanto pela elegância como a eternidade do sentimento amoroso neles é tratada.

Quanto encanto, quanta sabedoria se encerram em todos e cada um dos versos. Escolho quase ao acaso:

 

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

ou estes versos onde a doçura descreve os sentimentos

 

Doce sonhar e doce angustiar-me, / quando estava sonhando que sonhava.

…

Doce pensar que no paraíso estou;

 

e ainda

 

Doce gozar de um doce sentimento, / vendo meu céu tão claro e serenado;

 

Qual deles mais delicadamente descreve o palpitar do coração apaixonado nas nuances do doce enlevo amoroso?

Juan Boscán foi, com Garsilaso de la Vega, o renovador da poesia de Espanha vinda dos Cancioneiros do século XV, ao fazer triunfar em Espanha a poesia a manera de los italianos, como o próprio se lhe referiu no prólogo A los lectores, na 1ª edição da sua poesia em conjunto com de Garsilaso, em 1546.

As traduções a partir do castelhano são, uma vez mais, de José Bento e foram publicadas na Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro – Renascimento, editada por Assirio  Alvim em 1993.

A apresentação da obra e as noticias bibliográficas dos autores antologiados são elucidativas e modelares na sua concisão.

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“A Bela de Yu” – poema de Jiang Jie (1245-1310)

28 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Jiang Jie

Regresso a Uma Antologia de Poesia Chinesa para vos trazer mais uma daquelas obras-primas em miniatura, capazes de dar na concisão do verso o essencial da vida, do tempo e do mundo. São as três fases da vida adulta: juventude, idade madura e velhice que por aqui passam na precisão destes quatorze versos.

Tomando como pano de fundo a constância e eternidade da chuva, vemos como a vida passou e o homem se transformou ouvindo a chuva indiferente.

É um poema de Jiang Jie (1245-1310).

 “A Bela de Yu”

Quando era novo, ouvia a chuva
Acompanhado por bailarinas,
As velas tremulando, no vermelho
Das cortinas de cama.
Depois, ouvi-a nos barcos errantes,
Nos imensos rios, sob nuvens baixas,
No vento de Oeste – lá onde
Grita o ganso selvagem.

Ouço-a agora junto à cabana dos monges
Com prata nos cabelos
Tristeza, alegria, ausência, encontro –
Passam, indiferentes.
Que ela tombe – a chuva, sobre os degraus,
Gota a gota, a noite inteira, até ser dia.


Uma palavra é de justiça sobre a beleza da versão em português. Gil de Carvalho assina aqui mais uma tradução que passará a pertencer de direito própria ao património da poesia portuguesa.

Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, foi publicado por Assírio & Alvim em 2010.

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Fausto, pretexto para dar a cara.

25 Quinta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Crónicas, Poesia Antiga

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Fausto, Goethe

São múltiplos os pretextos porque regresso ao Fausto de Goethe.  Aproxima-me o fim de mais um ano biológico e com ele o involuntário balanço eivado de alguma melancolia, E apossa-se de mim uma olvidada/ Saudade desse reino calmo e grave / Dos Espíritos.

E é no poema Dedicatória  com que abre Fausto  que me revejo, a mim e à minha circunstância:

Surgis de novo, figuras fugidias / … / Trazeis imagens de outra felicidade,/ E ressurge muita sombra querida; / Voltam primeiro amores, velha amizade,/ Como uma antiga lenda, meio perdida; / Renasce a dor, a mágoa insiste e invade / A errância labiríntica da vida,

 

Eis o poema:

Dedicatória

Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vós reter agora?
Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.


Trazeis imagens de outra felicidade,
E ressurge muita sombra querida;
Voltam primeiro amores, velha amizade,
Como uma antiga lenda, meio perdida;
Renasce a dor, a mágoa insiste e invade
A errância labiríntica da vida,
E nomeia os amigos que a má sorte
Privou de gozos e entregou cedo à morte.


Não ouvem os meus cantos de agora
As almas para quem primeiro cantei;
Disperso o grupo da primeira hora,
Mudos os ecos que então despertei.
A turba ignota o meu canto devora,
E nem com seu aplauso me alegrei;
E os que os meus versos amaram a fundo,
Se ainda vivem erram por esse mundo.


E apossa-se de mim uma olvidada
Saudade desse reino calmo e grave
Dos Espíritos, e a minha ciciada
Canção, eólia harpa, é voo de ave;
Estremeço, ao pranto a lagrima ajuntada
O peito austero torna leve e suave:
O que possuo dilui-se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

É uma dívida que os portugueses nunca pagarão, a que têm para com João Barrento,  e a sua actividade como tradutor, sobretudo a sublime tradução de Fausto de Goethe. Deixo-lhe aqui o meu enorme obrigado.

Noticia bibliográfica: Esta tradução do poema consta da edição de Fausto de Johann W. Goethe publicada por Relógio d’Água, em 1999, sendo a tradução, introdução e glossário de João Barrento.

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Ramalhete de Quadras Populares

18 Quinta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Quadras Populares

Entre as cem melhores poesias líricas portuguesas de sempre escolhidas por Carolina Michaëlis de Vasconcellos no inicio do século XX, encontra-se um ramalhete de quadras populares, das quais  escolho treze, em correspondência com a idade casadoira para a mulher nestes tempos ancestrais.

Os assuntos resumem-se a Deus e o Amor, ou religião e sexo como se preferir, e em algumas cruzam-se ambos.

Uma das quadras justifica um destaque especial pela exemplaridade como esclarece o mistério da sagrada concepção de Cristo, resolvendo-o na concisão argumentativa de quatro versos:

No ventre da virgem-mãe
Encarnou divina graça:
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça.  

Entre os sofrimentos e alegrias do Amor encontram-se:

Quem canta, seu mal espanta;
Quem chora seu mal aumenta:
Eu canto para espalhar
A paixão que me atormenta.

Eu não quero nem brincando
Dizer adeus a ninguém:
Quem parte, leva saudades,
Quem fica, saudades tem.

Das lagrimas faço contas
Para rezar as escuras.
Oh morte que tanto tardas!
Oh vida que tanto duras!

Nesta ultima cruza-se já com o amor, a religião, que na quadra seguinte apresenta uma argumentação originalíssima:

Fui-me confessar ao Carmo,
Confessei que andava amando;
Deram-me por penitencia…
Que fosse continuando.

E dando ao assunto um carácter quase ontológico surge-nos esta outra quadra:

Tu chamas-me tua vida,
Tua alma quero eu ser,
Que a vida morre com o corpo
E a alma eterna há-de ser!

Vejamos ainda um outro aspecto, este o da condição da mulher no que ao sexo se refere:

Coitadinho do que nasce
No mundo para ser mulher:
Se é bonita, tem seu erro,
Se é feia, ninguém a quer.

Altas torres tem teu peito,
Nas mais altas já eu vi.
Não se me dá que outrem suba
Escadas que eu já desci.

Candeia de quatro bicos
Alumia aos quatro cantos:
Mal empregada a menina
Que é amada por tantos!

Temos agora o cruzamento das infidelidades sexuais, por assim dizer, com as práticas religiosas, numa pouco ortodoxa associação:

Eu amava-te, menina,
Se não fora um senão:
Seres pia de agua benta
Onde todos põem a mão.

E com esta quadra chegamos ao grupo em que a crença é abordada no seu cruzamento com o amor.

Por te amar deixei a Deus;
Vê lá que gloria perdi:
Agora vejo-me só,
Sem Deus, sem gloria, sem ti.

Já pedi a morte a Deus,
Ele disse que m’a não dava,
Que pedisse a salvação,
Que[pois] a morte certa estava.

Terminemos com chave de ouro conhecendo uma quadra que encerra de forma exemplar um conceito popular de Deus:

Embora o que Deus nos deu
Caiba numa mão fechada,
O pouco com Deus é muito,
O muito sem Deus é nada.

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Nascemos para o sono – Poema do Ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder

05 Sexta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Nahuatl, Nauatle

NASCEMOS PARA O SONO

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho.

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece:

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

 

Poema mexicano do ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder, transcrito do livro O BEBEDOR NOCTURNO e publicado por Assírio & Alvim em 2010.

O náhuatl, em português nauatle, é uma lingua pré-colombiana ainda hoje falada em algumas partes do México.

A poesia em náhuatl tem características cosmogónicas, explicando a origem do universo e fixando o lugar e papel do homem nele.

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