Aprendiamo-la na escola primária, e sabiamos de cor, esta Nau Catrineta.

Faz parte da vasta e preciosa colecção de romances populares passados de boca em boca e contados em longos invernos à roda do borralho.

Com mais vagar outro dia virei a estas histórias versificadas, que amo, onde paixões, algumas funestas, e aventuras, acontecem, trazendo o coração ao pé da boca e deixando-nos em suspenso sobre a sorte dos herois e protagonistas.

Hoje, para que não se esqueça, aqui fica a versão publicada no inicio do século XX por Carolina Michaëlis de Vasconcelos na sua escolha das Cem Melhores Poesias Líricas Portuguesas de Sempre que por mais de uma vez aqui referi.

 

NAU CATRINETA

Ouvi agora senhores,

Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar;

Já não tinham que comer,

Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho

Para o outro dia jantar;

Mas a sola era tam rija

Que a não puderam tragar.

Deitam sorte à ventura

Qual se havia de matar;

Logo foi cair a sorte

No capitão general.

“Sobe, sobe, marujinho,

Àquele mastro real;

Vê se vês terras de Espanha,

As praias de Portugal.”

“Não vejo terras de Espanha,

Nem praias de Portugal;

Vejo sete espadas nuas

Que estão p’ra te matar.”

“Acima, acima, gageiro,

Acima ao tope real!

Olha se enxergas Espanha,

Areias de Portugal.”

“Alvissaras, capitão,

Meu capitão general!

Já vejo terras d’Espanha,

Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a coser,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar.”

“Todas três são minhas filhas!

Oh! quem m’as dera abraçar!

A mais formosa de todas

Contigo a hei-de casar.”

“A vossa filha não quero,

Que vos custou a criar.”

“Dar-te-ei tanto dinheiro

Que não o possas contar.”

“Não quero o vosso dinheiro

Pois vos custou a ganhar.”

“Dou-te o meu cavalo branco,

Que nunca houve outro igual.”

Guardai o vosso cavalo,

Que vos custou a ensinar.”

“Dar-te-ei a Nau Catrineta,

Para nela navegar.”

“Não quero a nau Catrineta,

Que a não sei governar.”

“Que queres tu meu gageiro,

Que alviçaras te hei-de eu dar?”

“Capitão quero a tua alma

Para comigo a levar.”

“Renego de ti demónio,

Que me estavas a atentar!

A minha alma é de Deus;

O corpo dou eu ao mar.”

Tomou-o um anjo nos braços,

Não n’o deixou afogar.

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar;

E à noite a nau Catrineta

Estava em terra a varar.

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