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Uma turbada emoção surpreendeu-me hoje ao ler Câmara Ardente de Miguel Torga (1907-1995).
O poeta estava na curva dos cinquenta, idade de balanço em que a esperança na vida por vir teima em permanecer.

Olhar para trás, olhar em volta, é inevitável. O encontro com a nossa circunstância nem sempre é fácil.

E o cavalo do tempo a galopar…
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
É ver, a sonhar,
Um relâmpago a rasgar
O céu dum pesadelo


Transcrevo quase ao acaso alguns poemas. Dão conta da interrogação perante si e o mundo, num falar poético repleto de contida emoção.

Lastro

Depois da noite, o dia, a claridade!
A benção de acordar
E de ter vida!
Olhar
E descobrir a eternidade
Em cada contingência renascida.

A música concreta dos ruídos…
A frescura dos frutos orvalhados…
O perfume da brisa que perpassa…
E os sentidos
Felizes, excitados
Como podengos que farejam caça.

Assim dentro de nós o sol nascesse
E apagasse
Nessa madrugada,
A teimosa e penosa consciência
Da existência
Passada!

Calendário

Pregados na parede da memória,
Os dias do passado
Amarelecem.
Folhas mortas dum bloco de emoções,
Solto-as ao vento da melancolia.
Seis de Outubro, um de Abril,
Ano tal, ano tal, e a mais bela manhã primaveril
Desfeita numa pústula outonal!

A inútil persistência de viver!
O erro de lutar
Por qualquer duração!
Mesmo antes do
Letes
conhecido,
Todo o sonho,
Ou gemido,
Ou alegria,
É uma data vazia
No sepulcro do tempo decorrido.

Colóquio

Duvida das palavras…
Nunca disseram nada.
Palmeiras no deserto
Da expressão,
O mais que dão
É sombra aos sentimentos,
Nos momentos
Em que o sol é uma cruz de expiação.


Ouve o silêncio – a voz universal.
Só ele é o verdadeiro confidente
Do coração de tudo.
Poeta angustiado
E penitente,
Mudo
A teu lado
É que eu sou transparente…

Encontro

Rasgo todos os véus da minha vida,
Como quem despe a noiva em pensamento.
Eterno adolescente, desatento
Aos adultos conselhos da razão,
Violento
O pudor que lhe vela a imperfeição.

Quero a sua nudez desencantada,
Bosque sem folhas, onde a claridade
Desça à raiz das sombras e as desfaça.
Quero ver a pureza
Da impureza,
A intima brancura da desgraça.

E descubro o que sou no que ela é:
O triste dia a dia
Deste absurdo humano:
Erguida pelo vento da loucura,
Uma onda à procura
De oceano.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforçei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

E os poemas surgem-nos ordenados no livro como um olhar de balanço numa simbólica:

Câmara Ardente

Serve-se no presente
Dum símbolo futuro…
Um frio prematuro
De mortalha
Coalha
A inspiração
Que animava o seu canto.
Não morreu. Mas enquanto
A vida lhe negar um novo sol,
Mais quente e mais fecundo,
Não vislumbra outra imagem
Da intima paisagem
Deste mundo…

CÂMARA ARDENTE foi publicado em 1962, em Coimbra.

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