• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Camões — Pode um desejo imenso

18 Domingo Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Poesia Antiga

≈ 3 comentários

Etiquetas

Camões

Matisse - Rosto de mulher 1935 invertAfastamento e dor de ausência, amor, distância, beleza lembrada, mais que idealizada: Tais asas dá o desejo ao pensamento!

De tudo a que o amor aspira, contado no superlativo da singularidade da amada, se faz a mais bela das odes de Camões, [Pode um desejo imenso].

 

Ode VI da edição de 1598 das Rimas

 

Pode um desejo imenso

arder no peito tanto

que à branda e à viva alma o fogo intenso

lhe gaste as nódoas do terreno manto,

e purifique em tanta alteza o esprito

com olhos imortais

que faz que leia mais do que vê escrito.

 

Que a flama que se acende

alto tanto alumia

que, se o nobre desejo ao bem se estende

que nunca viu, a sente claro dia;

e lá vê do que busca o natural,

a graça, a viva cor,

noutra espécie milhor que a corporal.

 

Pois vós, ó claro exemplo

de viva fermosura,

que de tão longe cá noto e contemplo

n’alma, que este desejo sobe e apura;

não creais que não vejo aquela imagem

que as gentes nunca vêem,

se de humanos não têm muita ventagem.

 

Que, se os olhos ausentes

não vêem a compassada

proporção, que das cores excelentes

de pureza e vergonha é variada;

da qual a Poesia, que cantou

até ‘qui só pinturas,

com mortais fermosuras igualou;

 

se não vêem os cabelos

que o vulgo chama de ouro,

e se não vêem os claros olhos belos,

de quem cantam que são do Sol tesouro,

e se não vêem do rosto as excelências,

a quem dirão que deve

rosa, cristal e neve as aparências;

 

vêem logo a graça pura,

a luz alta e severa,

que é raio da divina fermosura

que n’alma imprime e fora reverbera,

assi como cristal do Sol ferido,

que por fora derrama

a recebida flama, esclarecido.

 

E vêem a gravidade

com a viva alegria,

que misturada tem, de qualidade

que ūa da outra nunca se desvia;

nem deixa ūa de ser arreceada,

por leda e por suave,

nem outra, por ser grave, muito amada.

 

E vêem do honesto siso

os altos resplandores,

temperados co doce e ledo riso,

a cujo abrir abrem no campo as flores;

as palavras discretas e suaves,

das quais o movimento

fará deter o vento e as altas aves;

 

dos olhos o virar,

que torna tudo raso,

do qual não sabe o engenho divisar

se foi por artifício, ou feito acaso;

da presença os meneios e a postura,

o andar e o mover-se,

donde pode aprender-se fermosura.

 

Aquele não sei quê,

que aspira não sei como,

que, invisível saindo, a vista o vê,

mas para o compreender não acha tomo;

o qual toda a Toscana poesia,

que mais Febo restaura,

em Beatriz nem em Laura nunca via;

 

em vos a nossa idade,

Senhora, o pode ver,

se engenho e ciência e habilidade

igual à fermosura vossa der,

como eu vi no meu longo apartamento,

qual em ausência a vejo.

Tais asas dá o desejo ao pensamento!

 

Pois se o desejo afina

ūa alma acesa tanto

que por vós use as partes da divina,

por vós levantarei não visto canto,

que o Bétis me ouça, e o Tibre me levante;

que o nosso claro Tejo

envolto um pouco vejo e dissonante.

 

O campo não o esmaltam

flores, mas só abrolhos

o fazem feio; e cuido que lhe faltam

ouvidos para mim, para vós olhos.

Mas faça o que quiser o vil costume;

que o sol, que em vós está,

na escuridão dará mais claro lume.

 

Transcrito de Lírica Completa III, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1981.

Nota ortográfica

Substituí na transcrição vêm por vêem.

A 3ªpessoa do plural do presente indicativo do verbo Ver vem escrito vêm na edição referida acima, por razões que desconheço.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Camões — Transforma-se o amador na cousa amada

11 Domingo Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ 2 comentários

Etiquetas

Camões

Arpad Sczenes -Conversação IV 1949Quem tem de amores o tempo e da razão o tormento, esquece quanto o pensamento se engana em questões de coração. Vem isto a propósito de um famoso soneto de Camões onde o poeta reflecte sobre o amor idealizado e de como só pensar não satisfaz um coração amante.

Nestas coisas do amor parece-me que o muito analisar, conversar, reflectir e esmiuçar, complica mais do que esclarece. Saber deixar o tempo pulir a aspereza que a vida em nós eriça, acaba por ser a mais sábia forma de equilibrar o amor imaginado com a realidade que ele oferece. Mas voltando a Camões, como nos fala então o poeta?

Começa por afirmar: Transforma-se o amador na cousa amada, / Por virtude do muito imaginar, e a certa altura interroga-se: Que mais deseja o corpo de alcançar? Certamente não será rebolar-se apenas com ideias, diria eu, o que afinal o poeta confirma ao concluir o poema afirmando: [E] o vivo e puro amor de que sou feito, / Como a matéria simples busca a forma.

Calo-me e deixo o poeta falar.

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

 

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está liada.

 

Mas esta linda e pura semideia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim co’a alma minha se conforma,

 

Está no pensamento como ideia;

[E] o vivo e puro amor de que sou feito,

Como a matéria simples busca a forma.

 

Luís de Camões, edição Lobo Soropita, 1595.

 

Num outro soneto igualmente famoso — Pede o desejo, Dama, que vos veja — dá-nos Camões  exactamente a contraparte do imaginado, na manifestação do desejo de ver a quem se ama.

 

Pede o desejo, Dama, que vos veja:

Não entende o que pede; está enganado.

É este amor tão fino e tão delgado,

Que quem o tem não sabe o que deseja.

 

Não há cousa a qual natural seja,

Que não queira perpétuo seu estado.

Não quer logo o desejo o desejado,

Porque não falte nunca onde sobeja.

 

Mas este puro afeito em mim se dana:

Que, como a grave pedra tem por arte

O centro desejar da natureza,

 

Assim meu pensamento (pela parte

Que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)

Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

 

Luís de Camões, edição Lobo Soropita, 1595.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Sczenes (1897-1985), Conversação IV, de 1949.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Amor é um arder que não se sente – Soneto do Abade de Jazente

27 Sábado Dez 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ 2 comentários

Etiquetas

Abade de Jazente, Camões

Iluminura 24 500pxRespondendo ao soneto de Camões “ Amor é fogo que arde sem se ver”, escreveu o Abade de Jazente a sua visão de amor.

Bem longe está daquela doce sensação camoniana de nunca contentar-se de contente.  É antes uma leitura pesarosa e sofredora do amor, diferente daquele contentamento descontente mas pelo contrário – É um não acabar sempre penando/ É um andar metido em mil tormentos.

Pobre Abade que assim o sentiu:

 

Amor é um arder que não se sente,

É ferida que doi e não tem cura,

É febre que no peito faz secura,

É mal que as forças tira de repente.


É fogo que consome ocultamente,

É dor que mortifica a criatura,

É ansia a mais cruel, a mais impura,

É fragoa que devora o fogo ardente.


É um triste penar entre lamentos,

É um não acabar sempre penando,

É um andar metido em mil tormentos.


É suspiros lançar de quando em quando,

É quem me causa eternos sentimentos,

É que me mata e vida me está dando.

 

Vale a pena comparar os sonetos verso a verso e perceber onde acontece a mudança do sentir e como a música das palavras o transmite:

 

Camões /     Abade de Jazente

 

Amor é fogo que arde sem se ver;  /  Amor é um arder que não se sente,

É ferida que dói e não se sente;  /  É ferida que doi e não tem cura,

É um contentamento descontente;  /  É febre que no peito faz secura,

É dor que desatina sem doer;  /  É mal que as forças tira de repente.


 

É um não querer mais que bem querer;  /  É fogo que consome ocultamente,

É solitário andar por entre a gente;  /  É dor que mortifica a criatura,

É nunca contentar-se de contente;  /  É ansia a mais cruel, a mais impura,

É cuidar que se ganha em se perder;  /  É fragoa que devora o fogo ardente.


 

É querer estar preso por vontade;  /  É um triste penar entre lamentos,

É servir a quem vence, o vencedor;  /  É um não acabar sempre penando,

É ter com quem nos mata lealdade.  /  É um andar metido em mil tormentos.


 

Mas como causar pode seu favor  /  É suspiros lançar de quando em quando,

Nos corações humanos amizade,  /  É quem me causa eternos sentimentos,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?  /  É que me mata e vida me está dando.


 

Ao comparar   “Amor é fogo que arde sem se ver” e  “Amor é um arder que não se sente” o Abade fica irremediavelmente para trás na imagem que abrasa o coração amante.

Em todo o soneto lemos o contraste entre o génio e o ofício, ainda que a visão tragificada que o Abade tem do amor seja convincentemente transmitida ao leitor. Mas trata-se de uma criação por decalque e não invenção original.

Apenas no último verso do soneto do Abade de Jazente, aquele  “É que me mata e vida me está dando.” , o Abade chega às alturas do seu modelo, o que não é pouco. Somente aí vemos expressar o que para Camões é a natureza do amor, aquela permanente oscilação entre contrários que percorre todo o seu poema.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Culinária no blog com A Boa Dieta + A VIDA de José Lino Grünewald

22 Sábado Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Culinária, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Friedrich von Logau, José Lino Grünewald

No tempo depois do amor, quando a fome aperta mas a vontade de largar o abraço não existe, nada como ter à mão a possibilidade de cozinhar algo que, sendo feito pelos dois, permite prolongar o prazer na partilha de uma intimidade conivente. É com esse propósito que vos faculto a receita para um delicioso prato de frango com queijo e laranja. Prepara- se em menos de cinco minutos se os ingredientes estiverem à mão. Será mais demorado se, como me aconteceu ontem, for necessário ir ao supermercado comprar azeite. Mas o prazer pode sempre ser retomado.

Basta de conversa e vamos então à receita para duas pessoas:

Ingredientes

Pelo menos três peitos de frango, dependendo do tamanho dos peitos e da fome;
Um queijo fresco médio + um queijo mozzarela fresco médio;
Salada pré-lavada de agrião ou rúcola ou mista

Para o tempero:
Azeite,
Dentes de alho a gosto,
Sumo de meia laranja grande ou de uma laranja média,
Sal ou flor de sal

Execução:

1 – Queijo, salada e mesa

Cortam-se os queijos em cubos para um prato de servir.
Coloca-se a salada noutro prato de servir (pré-lavada em pacote é mais fácil), depois de passar por água da torneira.
Põem-se na mesa, dois pratos e respectivos talheres, guardanapos, copos para água e vinho.
Abre-se a garrafa de vinho (pode ser branco verde, ou maduro branco ou tinto, do Dão, ou  do Douro), e já está.

2 – Frango

Numa tábua cortam-se os peitos de frango em cubos pequenos e temperam-se com um pouco de sal. Se se lavarem antes os peitos de frango (questão de gosto), ou estiverem húmidos de descongelar, secam-se com papel de cozinha antes de cortar.

Numa frigideira colocam-se os dentes de alho descascados, laminados, e cobre-se o fundo com azeite.
Acende-se o fogo e deixam-se os alhos fritar em fogo baixo ou moderado para não queimar.
Quando o azeite estiver bem quente acrescenta-se o frango em cubos (cuidado que o azeite pode espirrar) e saltei-se (mexe-se com colher) até perder a cor de cru. A operação não deve demorar mais de 2 minutos para que o frango fique suculento.

Quando o frango estiver pronto deita-se sobre o queijo no prato de servir.
Rega-se com um pouco do azeite da fritura, a gosto, e espreme-se sobre o frango a meia laranja.

Dá-se a volta para envolver e está pronto a comer.

Agora é só sentar, brindar e saciar a fome que existir.

A soneca(?) depois desta refeição pode ser deliciosa.

Por motivos óbvios não há fotos da comida.

Agora um conselho poético para continuar esta boa dieta:

A BOA DIETA

Carlota dissera ao seu doutor
Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,
Embora à noite a coisa fosse mais sadia.
Sendo ela prudente, resolveu
Fazê-lo duas vezes ao dia:
De manhã, por prazer
De noite, por dever.

Poema de Friederich von Logau (1604-1655) em tradução de João Paulo Paes.

Friederich von Logau (1604-1655)  foi um notável poeta do barroco alemão, período de onde nos chegaram fascinantes poesias visuais, algumas das quais magistralmente traduzidas por João Barrento na Antologia do Barroco Alemão, O Cardo e a Rosa.

Para uma vez mais dar conta das continuidades poéticas que atravessam o mundo, é com um herdeiro brasileiro dessa poesia visual que termino – José Lino Grünewald(1931-2000) – Zelino para os amigos, poeta e tradutor brasileiro, talvez apenas conhecido em Portugal pela sua tradução de OS CANTOS de Erza Pound.

Figura de proa da vanguarda poética brasileira, com os irmãos Campos, Augusto e Haroldo, e Décio Pignatari, à sua poesia regressarei. Por agora fiquemos com a vida

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A longevidade e o peso da idade, um poema de João Xavier de Matos

17 Segunda-feira Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Bulhão Pato, João Xavier de Matos

Bloemaert_Abraham-Landscape_with_Vegetables_and_Fruits_in_the_Foreground AHá pouco mais de 100 anos Bulhão Pato escrevia no prefácio ao seu “Livro do Monte” esta coisa espantosa para o homem de hoje –  A árvore, passados para nós os cinquenta, substitui a mulher. O que vale é que antes tinha escrito: Quando a alma não envelhece, a sensibilidade é porventura mais viva em anos provectos, com o que provavelmente virei a concordar.

Este prefácio em apresentação daquele conjunto de poemas à natureza continua, ilustrando o que a companhia de uma árvore permite a um solitário a quem os desejos do corpo abandonaram aos cinquenta anos.

Nos nossos dias, nem bem passados os sessenta o homem se sente assim. A juventude ainda não é eterna mas prolongou-se muito.

Graças aos nossos políticos são jovens os agricultores até aos 40 anos como quer que se sintam, mesmo que mais cedo que o nosso poeta prefiram a árvore à mulher. E são jovens também, mas já só até aos 35 anos, os membros dos partidos, e por aí fora.

Efectivamente, além da graça destas classificações politicas, somos todos mais novos quando chegamos à idade em que os nossos pais, para não falar dos avós, já se consideravam na curva descendente da vida.

Na vertigem do dia-a-dia poucos percebemos a profundidade dessas alterações e não sei bem se todos desfrutam desta aumentada juventude que a sociedade moderna nos trouxe.

É lendo os autores antigos em cartas ou memórias de algum tipo, que esta maravilhosa realidade se me faz presente, quando constato em gente muito mais nova que eu, achaques, preocupações e atitudes mentais mais adequadas ao final da vida que à idade física que possuem.

Trago como exemplo um soneto de João Xavier de Matos (???? – 1789) escrito provavelmente em meados do sec. XVIII onde o poeta, com trinta e cinco – Já lá vão sete lustros, que este monte / Berço me foi: – se sente com a vida perto do fim – Vai-se apagando a luz, secando a fonte – e despede-se com uma súplica – Paixões, desejos, ide-vos embora; / Favor, que me fareis por poucos dias.

Pensar eu que alguém se sentiu a caminho do fim da vida aos trinta e cinco anos, e era esse o padrão comum, ainda que a longevidade existisse, leva-me a gostar cada vez mais do tempo que me foi dado viver.

É aproveitar e desfrutar quanto possível. Há apenas que ter a cabeça a rodar na linha certa.

E agora o soneto:

 

Já lá vão sete lustros, que este monte

Berço me foi: Já da vital jornada

Mais de meia carreira está passada;

E cedo iremos ver outro horizonte:


A mão já treme, já se enruga a fronte,

Já branqueja a cabeça, e com a pesada

Considração da vida mal gastada,

Vai-se apagando a luz, secando a fonte.


Pouco nos resta, que passar já agora;

E para as derradeiras agonias

De tantos anos, aproveite hum’hora.


Esperanças, temores, vãs porfias,

Paixões, desejos, ide-vos embora;

Favor, que me fareis por poucos dias.

 



O propósito era falar da poesia de Bulhão Pato, e afinal saiu este razoado. Bulhão Pato e a sua obra têm que ficar para outro dia.

E Xavier de Matos também vai ter que esperar.

Por agora boa noite.


Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia

26 Domingo Out 2014

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poesia Antiga

≈ 1 Comentário

Preencho o blog como se de um jardim aberto ao mundo se tratasse. E hoje vou colher, para  aqui plantar, no jardim de poesia erótica do Siglo de Oro.

Publicou José Bento em 1997, na Assírio & Alvim, com o título Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro, uma escolha pessoal de 51 poesias retiradas dos 144 poemas reunidos em Poesía erótica del siglo de Oro.

Dá o poeta e tradutor, na Nota Introdutória, as razões da escolha de que cito: Não tem este meu jardim outro objectivo que não seja recrear-me, ao ler e traduzir estes versos, e procurar recrear outros que porventura os apreciem, estando por mim excluído qualquer intuito erudito, de que não sou capaz.

Subscrevo integralmente o propósito no que ao conteúdo do blog se refere, agradeço penhorado ao poeta ter-nos dado o prazer de todo o seu labor de tradutor, tantas vezes genial, e entre as poesias que maior gozo me deram neste livro escolho a que traz na edição o nº 45

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,

beija-me, acaba, dá-me este contento,

e cada beijo teu engendre um cento,

sem que cesse jamais esta porfia.

 

Beija-me cem mil vezes cada dia,

pra que, chocando alento com alento,

saiam deste int’rior contentamento

doce suavidade e harmonia.

 

Ai, boca, venturoso o que te toca!

Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!

Acaba, vida, dá-me este contento,

 

dá-me já tal gosto com tua boca.

Beija-me, vida: tudo em mim lateja.

Aperta, morde, chupa, mas com tento.

Dispenso-me de clarificar o que beija a boca pois a chave de ouro que conclui o soneto é perfeitamente elucidativa.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Uma Ode ao orgasmo simultâneo escrita no século XVIII por José Anastácio da Cunha

18 Sábado Out 2014

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poesia Antiga

≈ 1 Comentário

Etiquetas

José Anastácio da Cunha

Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942)Não é aqui o lugar para discutir as actuais teorias de sexólogos sobre a irrelevância da simultaneidade de orgasmo para o prazer do sexo, de que nos fala o poema de hoje. Trata-se antes de dar a conhecer uma expressão poética desse prazer, velha de cerca de 250 anos.

Ode

Já quasi até morria

C’os olhos nos da amada.

E ela que se sentia

Não menos abrasada:

– “Ai, caro Atfes! – dizia –

Não morras inda, espera

Que eu contigo morrer também quisera”

A ansia com que acabava

A vida, Atfes, refreia,

E, enquanto a dilatava,

Morte maior o anseia.

Os olhos não tirava

Dos do ídolo querido,

Nos quais bebia o Néctar diluído.


Quando a gentil Pastora,

Sentindo já chegada

Do doce gôsto a hora,

Com a vista perturbada

Disse, tremendo: – “Agora

Morre, que eu morro, amor”

– “E eu – disse ele – contigo”

Viram-se desta sorte

Os dois finos amantes

Mortos ambos de um tal corte;

E os golpes penetrantes

Desta casta de morte

Tanto lhe agradaram,

Que para mais morrer recuscitaram.

Este poema de José Anastácio da Cunha (1744 – 1787), O Lente Penitenciado, na certeira expressão de Aquilino foi publicado pela 1ª vez por Hernâni Cidade na edição da obra poética do autor, em 1930. Encontrava-se inédito no manuscrito nº 678 da Biblioteca Municipal do Porto. Talvez valha a pena referir, apenas, como este poema deita por terra a ideia feita da passividade da mulher durante o sexo, tão divulgada até tempos bem perto de nós.

Afinal, quantas vezes não foi ouvida:

Ai, …(ponha aqui o nome quem quiser) …!

Não morras inda, espera

com a variante hoje do verbo vir em vez do verbo morrer.

Brevemente haverá mais pois,

Desta casta de morte / Tanto lhe agradaram, / Que para mais morrer recuscitaram.

A pintura de Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942) que abre o artigo dá certamente conta do arco-íris  do prazer relatado no poema.


Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Cântico Maior, 8, 6-7

10 Quarta-feira Set 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ 2 comentários

Etiquetas

Cântico dos Cânticos

Suite VollardNo culminar do imperecível cântico ao amor que é o conjunto de poemas de Cântico dos Cânticos ou Cântico Maior de Salomão, lemos os versos 8, 6-7, onde se canta a sem medida do amor, a sua força, a sua dignidade sem preço.

Trago ao blog algumas das versões que conheço entre traduções próximas do original e versões um tanto livres. Abro com a tradução de José Nunes Carreira, tradução integral do mais fidedigno original conhecido. Segue-se-lhe a versão da Bíblia Protestante. Depois, uma concisa versão de Herberto Helder a qual não inclui os versos finais sobre o sem-preço do amor. Leremos a seguir uma tradução do hebraico por Haroldo de Campos, com algumas belas opções vocabulares, a começar pela opção por sinete em vez de selo para dar a medida de como o amor se grava em nós. Termino com a tradução mais bela que conheço, por José Tolentino Mendonça, a qual, à fidelidade ao original alia soluções poéticas de enorme encanto.

 

Tradução de José Nunes Carreira

6

Faz de mim um selo

em teu coração estampado,

um sinete em teu braço.

Pois forte como a Morte é o Amor,

feroz como os infernos a paixão.

Seus dardos, dardos de fogo;

suas chamas…

7

Águas diluvianas não conseguem

extinguir o amor.

Torrentes não o levam de enxurrada.

Se alguém quisesse dar

por amor toda a fazenda

de sua casa,

só desprezo iria achar.

 

Versão da Bíblia

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo

sobre o teu braço, porque o amor é forte como

a morte, e duro como a sepultura o ciúme;

as suas brasas são brasas de fogo, labaredas

do Senhor.

 

As muitas águas não poderiam apagar este amor,

nem os rios afogá-lo: ainda que alguém desse

toda a fazenda de sua casa por este amor,

certamente a desprezariam.

 

Versão de Herberto Helder

Põe-me como um selo em teu coração,

como um selo no teu braço.

Porque o amor é forte como a morte,

o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.

As suas feições são como flechas de fogo,

uma chama de Deus.

 

As grandes águas não poderão extinguir o amor,

nem submergi-lo os rios

 

Tradução do hebraico de Haroldo de Campos

6

Grava-me como um sinete    sobre o teu coração

como um sinete    sobre o teu braço

pois forte como a morte    o amor

como o amargume do Sheol    o ciúme

Suas chamas    são chamas    de fogueira

o fogo ardente do Senhor

7

Altas águas    não poderão

apagar o amor

e torrentes de rios    não o afogarão

Um homem que ofereça     todos os seus bens de mais preço

para obter favor de amor

sobre ele o desprezo    o menosprezo

 

Tradução do hebraico de José Tolentino Mendonça

6

grava-me como selo no teu coração    como selo em teu braço

porque forte como a morte é o amor    voraz a paixão como o abismo

seus ardores são chamas de fogo    labaredas do Senhor

7

por maiores que sejam as águas    jamais apagarão o amor

rio nenhum o poderá submergir

entregasse alguém     toda a riqueza de sua casa para comprar o amor    

seria ainda tratado com desprezo.

 

Notícia bibliográfica

Tradução de José Nunes Carreira in Cantigas de Amor do Oriente Antigo, Edições Cosmos, Lisboa, 1999.

Versão da Bíblia, in edição autónoma de O Cântico dos Cânticos, Estúdios Cor, Lisboa, 1966.

Versão de Herberto Helder in O Bebedor Noturno, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

Tradução de Haroldo de Campos in Éden um Tríptico Bíblico, Editora Perspectiva, S. Paulo, 2004.

Tradução de José Tolentino Almeida in Cântico dos Cânticos, Edições Cotovia, Lisboa, 1997.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

É amanhã que vou viver — um epigrama de Marcial

29 Sexta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Marcial

Iluminura 09x500

Não é de hoje, nem de ontem, uma espécie de insatisfação entre o quotidiano vivido e o desejo do que afinal nos importa mais, levando o pensamento a confortar-se com o amanhã que virá.

Na forma lapidar do epigrama, e fazendo uso de uma espécie de redução ao absurdo sobre o onde o amanhã se encontra, Marcial (40-102) exorta-nos a viver ontem o que desejamos, pois o hoje pode já ser tarde, fazendo-nos lembrar que o amanhã pode não existir.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“É amanhã que vou viver, é amanhã” — dizes, Póstumo, sempre.

Diz-me cá: esse amanhã, Póstumo, quando é que chega?

A que distância fica esse amanhã? onde pára? ou aonde se deve procurar?

Se calhar junto dos Partos ou dos Arménios se esconde?

Esse amanhã já tem a idade de Príamo ou Néstor.

Esse amanhã, diz-me cá, por quanto se pode comprar?

É amanhã que vais viver? Viver hoje, Póstumo, já é tarde:

sensato é quem, Póstumo, viveu ontem.

 

Tradução de Paulo Sérgio Ferreira

in Marcial, Epigramas, vol II, Edições 70, Lisboa, 2000.

 

Depois da tradução a partir do original latino, entrego o leitor à versão de David Mourão-Ferreira onde o intemporal do poema se capta, transmitindo-nos na sua verdade poética a reflexão sobre a urgência de viver o que importa para lá da espuma dos dias.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“Amanhã”, dizes tu. “Viverei amanhã.”

Quando virá, porém, esse tal amanhã?

Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?

Em que reino se esconde o rosto de amanhã?

Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?

É coisa que se venda? É coisa que se compre?

Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?

 

Tarde já é viver no próprio dia de hoje.

Mais sábio é começar a vivermos desde ontem.

 

in Vozes da Poesia Europeia — I

Colóquio Letras, nº163, Jan-Abr 2003.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Num vergel mui deleitoso — poema de Frei Diego de Valência

26 Terça-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Frei Diego de Valência

William-Adolphe-Bouguereau 500pxAfasto-me das graves matérias com que ultimamente tenho ocupado o blog, para dar conta de mais uma inventiva forma de falar poeticamente do amor e do prazer de o fruir.

O poema, incluído no século XV por Baena no seu Cancioneiro, foi considerado, na autorizada opinião de Menendez Pelayo, o melhor poema de amor deste cancioneiro.

É, pois, a voz e inspiração de Diego de Valência (c.1350-c.1412), franciscano e homem tido no seu tempo como sábio de vários saberes, que vos trago. Autor de poemas filosóficos e teológicos, não fugiu ao erótico e mesmo ao burlesco e obsceno.

Pelo que deixou escrito, os saberes do amor não lhe deviam ser estranhos, ainda que no poema de hoje, talvez para salvar aparências, refira:

…

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

 

Encontramos a abrir o poema um vergel [pomar, jardim, horto] por metáfora do sexo de uma jovem mulher onde:

 

Maçãs e muitas romãs / o cercam por toda a parte; / não há homem que se farte / de suas frutas temporãs; / …

 

Não é de forma alguma abusiva a leitura do poema como metáfora do acto sexual e do seu prazer, e nela sou acompanhado por outros.

Ao ler o poema com esta chave, e em remate do gozo erótico, conclui o nosso autor:

 

…

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

Temos assim que para início do acto o nosso poeta nos conta:

 

Num vergel mui deleitoso / entrei por minha ventura, / onde achei toda a doçura / e prazer muito gostoso;

…

 

Em tempos sem contraceptivos, o risco de gravidez está presente, e o nosso poeta lembra-o logo a seguir:

 

…

e causado por natura, / de morar mui perigoso.

…

 

No resto segue o detalhe dos prazeres com imagens de fruta — não há homem que se farte — e harmonias concorrentes com o canto dos pássaros — que fazem dormir de amores. —, acrescentando em remate a explícita referência de quanta doçura emana das fontes onde o prazer vive, e que referi antes.

 

Frei Diego de Valência (c.1350-c.1412)

 

1.9.6.1 — Estes versos fez o dito Mestre Frei Diego por amor e louvores de uma donzela que era mui formosa e respalndecente, da qual estava mui enamorado.

 

Num vergel mui deleitoso

entrei por minha ventura,

onde achei toda a doçura

e prazer muito gostoso;

a entrada foi escura

e causado por natura,

de morar mui perigoso.

 

Em muito espessa montanha

este vergel foi plantado,

por toda a parte cercado

por ribeira muito estranha:

quem alguma vez se banha

em sua fonte perenal,

pelo curso natural,

tanta doçura o engana.

 

Maçãs e muitas romãs

o cercam por toda a parte;

não há homem que se farte

de suas frutas temporãs;

mas, amigos, não são sãs

para quem delas muito usa,

pois gozando-as não se escusa

a que não faltem maçãs.

 

Calhandras e ruisenhores

nele cantam noite e dia,

fazendo alta melodia

além variações multicolores;

e outras aves melhores

papagaios, filomelas;

cantam sereias serenas

que fazem dormir de amores.

 

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

(Cancioneiro de Baena)

Tradução de José Bento, Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Acrescento o original castelhano:

 

Este dezir fixo e ordenó el  dicho Maestro Fray Diego por amor e loores de una donzella que era muy fermosa e muy resplandeciente, de la cual era muy enamorado.

 

En un vergel deleitoso

fui entrar por mi ventura,

do fallé toda dulçura

e plazer muy sabroso;

……………………………….

la entrada fue escura,

obrado fue por natura

de morar muy peligroso.

 

En muy espesa montaña

este verger fue plantado,

de todas partes cercado

de ribera muy estraña;

al que una vez se baña

en su fuente perenal,

segun curso natural,

a duçura lo engaña.

 

Pumas e muchas milgranas

lo cercan de toda parte,

non sé home que se farte

de las sus frutas tempranas;

mas, amigos, non son sanas

para quien de ellas mucho usa,

que usando non se escusa

que non menguen las mançanas.

 

Calandras e ruiseñores

en él cantan noche e día,

e fazen grant melodía

en deslayos e discores,

e otras aves mejores,

papagayos, filomenas,

en él cantan las serenas

que adormecen con amores.

 

La entrada del vergel

a mí fué siempre defesa,

mas, amigos, non me pesa

por saber cuanto es en él;

es mas dulce que la miel

el rocío que d’él mana,

que toda tristeza sana

el plazer que sale d’él.

 

Versão sumariamente modernizada por Álvaro Alonso em Poesía de Cancionero, Ediciones Cátedra, Madrid, 1999.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.368.466 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • As três Graças - escultura de Canova e um poema de Rufino
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Vasos Gregos

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d