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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Malevitch suprematista

30 Quinta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Kandinsky, Malevitch, Mondrian

malevich.petersburgFalamos de abstração em pintura quando nos encontramos perante uma obra onde não é reconhecível qualquer objecto ou realidade física identificável.

malevich.amsterdam

Tendo a abstracção começado pelo não-figurativo com Kandinsky (1866-1944),  (e o seu ensaio Ponto e Linha sobre o Plano é uma obra iluminante), Mondrian (1872-1944) desenvolveu a partir do valor das cores, a base para uma relação equilibrada enquanto indutora da emoção estética, nas obras do que chamou a Nova Plástica, em detrimento da harmonia, característica da pintura antiga ( veja-se Realidad Natural y Readidad Abstracta, Barral Editores, Barcelona 1973).

malevich.composition

Quando passamos a Malevitch (1879-1935), é no domínio do sem-objecto absoluto que nos encontramos. A representação basta-se a si mesma, e apenas o jogo plástico de cores e formas  transmite a emoção ao observador.

malevich.black-red-squareDe entre os fundadores da abstracção em pintura: Kandinsky, Mondrian, Malevitch, para citar os mais famosos, foi este ultimo quem levou mais longe esta pintura do sem-objecto com O Quadrado Negro sobre fundo Branco em 1915, e Branco no Branco em 1918.

malevich.black-square

Entre estas duas obras encontramos um conjunto vasto de obras de cores vivas e contrastadas onde formas de uma geometria quase regular em rectângulos e outras figuras geométricas se justapõem, surgindo a vaguear no espaço da tela, e em que o que conta é o movimento das massas coloridas.

malevich.supremus-56

Surgem estas obras sem propósito outro que dar conta de uma manifestação pictural da natureza enquanto lugar do ser, da vida, deste “Nada” que o pintor liberta sobre a tela. Este acto criador “não é mimético, é um acto puro que agarra a excitação universal do mundo, o ritmo, lá, de onde desapareceram todas as representações figurativas de tempo e espaço e onde não subsiste senão a excitação e a acção que ela condiciona. Excitação sem finalidade.” Citei amplamente o especialista da vanguarda plástica russa, Jean-Claude Marcadé, sobretudo em L’Avant-Garde Russe, Flammarion, Paris, 1995.

malevich.krasnodar

O século XX, com as vanguardas que se sucederam, encarregou-se da normalização de toda esta conversa e hoje olhamos estas obras ou de per se ou em contexto histórico, sendo certo que a arte da pintura não  voltou a ser a mesma depois destas escandalosas (à época) invenções.

malevich.aeroplane-flying

Concluo com mais algumas destas obras picturais, enquanto tal, onde a luz não é aquela, ilusória, do sol, mas a do negro e do branco de onde emanam ou se reúnem todas as outras cores.

malevich.black-circle

malevich.new-york

malevich.self-2d

malevich.supremus-58Todas as imagens são de obras de Malevitch do periodo Suprematista.

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Sobre a Nudez — poema de Jorge de Sena, pretexto para Expulsão do Paraíso por Masaccio

27 Segunda-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Jorge de Sena, Masaccio, Masolino

Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine ANTES DO RESTAURO2Masaccio (1401-1428), génio de curta vida, morreu com 27 anos, tem em Florença, no fresco da Santíssima Trindade em Santa Maria Novelle, a primeira utilização da perspectiva total na pintura ocidental; e nos frescos da Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine, a inovação do uso da luz com forma de definir figuras e adereços, substituindo a iluminação uniforme do quadro, até aí praticada, pela iluminação a partir de um foco, concretamente a suposta luz vida da janela, criando assim um jogo de luz e sombra que desde então funcionou como paradigma neste género pictórico.

Dos seis frescos da Capela Brancacci, o Pagamento do Tributo e a Expulsão do Paraíso são aceites unanimemente como as suas obras primas. É este último fresco, Adão e Eva expulsos do Paraíso que hoje me interessa. Abre o artigo a imagem que dele durante séculos foi vista. Expulsos do Paraíso depois do pecado original, Adão e Eva apresentam-se com umas folhas a cobrir o sexo. Foi o restauro dos frescos entre 1981 e 1989 que revelou o brilho da pintura que se escondia sob séculos de negligência. Acontece que a folhagem cobrindo o sexo de Adão e Eva era uma excrescência acrescentada provavelmente no século XVII, a qual foi removida com o restauro, permitindo hoje a visão sem tabus do corpo, tal como à época era aceite, e hoje ainda é quase matéria de escândalo. Daí a escolha do poema de Jorge de Sena (1919-1978), Sobre a Nudez.
Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine Após restauro2

Sobre a Nudez

Quoi! Tout nu! dira-t-on, n’avait-il pas de honte?

………………………………………………………………….

Tout est nu sur la terre, hormis l’hypocrisie.

Musset, Namouna

 

Nus nascemos, nus

nos inspecciona o médico,

a tropa, o professor de ginástica.

 

Nus, na mesa de operações,

na cama de hospital,

na da morte.

 

Nus no amor para nos vermos,

sentirmos a pele dos outros corpos e

para mais que penetrarmos

 

termos o choque e o roçar

que nos dizem do quanto penetramos.

Nus sempre, menos no que não importa.

 

Porque há então quem tema tanto

a nudez dos outros? Será

que teme, menos que o feio

 

de muitos, a beleza de

alguns, ou o fascínio das

esplêndidas partes

 

de uns raros? E que, paralisados

(de inveja), deixemos que o mundo e a vida

se soltem à deriva

 

para a nua liberdade?

 

1968-69

 

Tradução da epígrafe

 

O quê! Completamente nu! dir-se-á, não tinha vergonha?

………………………………………………………………………………

Tudo está nu sobre a terra, salvo a hipocrisia.

 

Na capela, frente ao fresco de Masaccio, encontra-se o fresco A Tentação, pintado por Masolino (1383-1447), de resto o pintor a quem foi encomendada a obra na capela e de quem Masaccio era ajudante. Com ele encerro o artigo.

Masolino - Tentação na Capela Brancacci 1426-27B

No contraste entre a amável serenidade do par pintado por Masolino e a expressiva dor nas fisionomias e atitudes corporais representadas por Masaccio está toda a medida da invenção e génio de Masaccio.

 

Pede comparar-se esta Tentação e o conjunto de pinturas que quase cem anos depois pintou sobre o mesmo  assunto Lucas Cranach, o Velho, que noutro artigo se encontram, e permitem ver a variedade expressiva a que o assunto se presta.

 

Nota bibliográfica

 

Como já noutro artigo o escrevi, se os livros de arte são belos objectos onde com prazer nos perdemos, os livros sobre frescos são preciosos, pois a tudo isso acrescentam o permitir ver o detalhe que no local é inacessível, seja pela iluminação, seja pela distância.

Ao leitor interessado recomendo como imperdíveis os volumes (4) Italian Frescoes publicados por Abbeville Press, New York, e para estes frescos em particular, Italian Frescoes, The Early Renaissance 1400-1470, de Steffi Roetgen.

 

O poema Sobre a Nudez foi publicado pela primeira vez em Peregrinatio ad loca infecta 70 poemas, alguns dos quais amáveis, com um epílogo altamente filosófico, e sem prefácio do autor, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969.

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Por causa de umas quantas canções — poesia de Leonard Cohen

24 Sexta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Leonard Cohen, Matisse

Blue Nude with Hair in the Wind 1952

Não sou muito de nostalgias, nem de parar a olhar para trás contemplando a vida vivida. Já foi! Fez-me como sou, e para a frente é o caminho. Inevitavelmente o que no passado conheci, as gentes que me encheram a vida mostram-me que o tempo passou, e não foi o mesmo para todos. Confronto-me demasiadas vezes com a memória de mim nos outros diferente do que suponho. São certamente artifícios da construção do eu em cada um.

Já vivi a adolescência num tempo em que as canções marcaram a memória, e de Leonard Cohen (1934), Suzanne, mais que outras, deram-me êxtases que garantiram ao cantor e poeta a minha admiração eterna:

…

Os beijos começaram nos nossos lábios / E foram terminar em todo o lado /

…

Com aquele ritmo dolente que ele hoje ainda sabe fazer, criando pura magia quando temos uma mulher nos braços, foi Leonard Cohen (1934) o artífice de bem sucedidas aventuras onde o amor participou.

É por via das suas canções que chego à poesia que escreveu, belíssima frequentemente, relato de vida pessoal que é também relato de vida de uma geração que foi adulta nos últimos 40 anos:

…

O livro do amor que li estava errado / Tinha um final feliz/

…

Standing Blue Nude 1952

Agarro-me ao seu Book of Longing, Livro do Desejo em português, traduzido por Vasco Gato, e um pouco ao sabor do acaso escolho alguns poemas.

A Grande Divisão

Nunca gostei da tua forma de amar

Tão tortuosa, tão antiquada

Ainda assim jejuei como um monge

E rezei para ver-te nua

 

Via-te a magoar toda a gente

Um governo de sofrimento

Dizia a mim mesmo “Seja Feita A Tua Vontade

A minha vontade não serve para nada”

 

Bebi bastante perdi o emprego

Vivi como se nada interessasse

E tu, tu nunca apareceste

Nem sequer respondeste

 

Eu era um tempo cego e avariado

E a bondade estava proibida

Creio que tentei apanhar uma boleia

Dos ácidos para a religião

 

Mas todas as guias luminosas tinham desaparecido

Bem como todas as boas direcções

O livro do amor que li estava errado

Tinha um final feliz

 

Mas quando o sistema estava já abalado

Para lá do reconhecimento possível

As coisas simples que eu esquecera

Retomaram a sua doce posição

 

Pensei ver-te com uma criança

Pensei ter-te ouvido a chorar

E o jardim inteiro à tua volta louco

E seguro sob a tua guarda

 

Não me recordo do que aconteceu depois

Mantive-te à distância

Mas emaranhado no nó do sexo

O meu castigo foi levantado

 

Os teus remédios debaixo da minha não

Os teus dedos no meu cabelo

Os beijos começaram nos nossos lábios

E foram terminar em todo o lado

 

E quando me preparava para partir

Tu puxaste-me para o teu lado

Para sermos Adão e Eva

Antes da Grande Divisão

 

E aqui amarrados não conseguimos mexer-nos

Excepto um para o outro

Estendemo-nos e afogamo-nos como os lírios

De lado nenhum para o çentro

 

E aqui não posso erguer uma mão

Para seguir as linhas da beleza

Mas as linhas estão traçadas e o amor está contente

Por ir e vir com tamanha liberdade

 

E aqui nenhum pecado pode ser confessado

Nenhum pecador perdoado

Está escrito que a lei tem de descansar

Antes de a lei ser escrita

 

E aqui o silêncio é apagado

O pano de fundo desmanchado por inteiro

A tua beleza não pode ser comparada

Não há espelho aqui, nem sombra

 

Mas eis que agora chega um vento que arranha

Sem propósito e sereno

Fere-me quando me separo dos teus lábios

Fere-nos pelo meio

 

E agora podem de novo as guerras começar

A tortura e o riso

Choramos alto, como fazem os humanos

Antes da verdade, e depois

 

Não sei como irá terminar

Sempre deixaste isso em aberto

Mas, ah, tu és a única amiga

Que nunca pensei conhecer.

(Tradução de Vasco Gato)

Because of a few songs

Because of a few songs

wherein I spoke of their mistery

women have been

exceptionally kind

to my old age

They make a secret place

in their busy lives

and they take me there.

They become naked

in their different ways

and they say,

“Look at me, Leonard

look at me one last time.”

Then they bend over the bed

and cover me up

like a baby that is shivering.

Por causa de umas quantas canções

Por causa de umas quantas canções

em que falava do mistério delas,

as mulheres têm-se mostrado

excepcionalmente compreensivas

para com a minha idade avançada.

Criam um lugar secreto

nas suas vidas ocupadas

e levam-me até lá.

Despem-se

cada uma à sua maneira

e dizem,

“Olha para mim, Leonard

olha para mim uma última vez.”

Depois inclinam-se sobre a cama

e cobrem-me

como a um bebé que treme.

(Tradução de Vasco Gato)

Half of the world

Every night she’d come to me

I’d cook for her, I’d pour her tea

She was in her thirties then

had made some money, lived with men

We’d lay us down to give and get

beneath the white mosquito net

And since no counting had begun

we lived a thousand years one

The candles burned, the moon went down

the polished hill, the milky town

transparent, weightless, luminous,

uncovering the two of us

on that fundamental ground,

where love’s unwilled, unleashed, unbound

and half the perfect world is found

Metade do Mundo

Todas as noites ela vinha ter comigo

Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá

Ela tinha trinta e tal naquela altura

conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens

Deitávamos-nos para dar e receber

debaixo do mosquiteiro branco

E uma vez que nenhuma contagem começara

viviamos mil anos num só

As velas ardiam, a lua descia

a colina polida, a cidade leitosa

transparente, sem peso, luminosa,

destapando-nos aos dois

naquele chão fundamental,

onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado

e do mundo perfeito se acha metade

(Tradução de Vasco Gato)

the road is too long

the sky is too vast

the wandering heart

is homeless at last

a estrada é demasiado longa

o céu demasiado vasto

o coração vagabundo

está finalmente sem abrigo

(Tradução Carlos Mendonça Lopes)

Standing Blue Nude  1952

Abro um pouco a janela da nostalgia e vou ouvir algumas canções, sobretudo uma, onde a música canta, mais que as palavras, a felicidade de um reencontro fugaz: Tonight Will Be Fine, Esta Noite Correrá Bem, publicada originalmente em 1969, no disco Songs From A Room.

Tonight Will Be Fine

Sometimes I find I get to thinking of the past.

We swore to each other then that our love would surely last.

You kept right on loving, I went on a fast,

now I am too thin and your love is too vast.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

I choose the rooms that I live in with care,

the windows are small and the walls almost bare,

there’s only one bed and there’s only one prayer;

I listen all night for your step on the stair.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

Oh sometimes I see her undressing for me,

she’s the soft naked lady love meant her to be

and she’s moving her body so brave and so free.

If I’ve got to remember that’s a fine memory.

And I know from her eyes

and I know from her smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

A edição portuguesa de Livro do Desejo é de Quasi Edições, 2008, é bilingue e editorialmente notável, oferecendo uma paginação onde os desenhos do poeta acompanham e comentam os poemas, proporcionando uma leitura paralela ao impacto que cada poema induz no leitor.

Acompanham o artigo os nus azuis de Matisse (1869-1964). Abre O Nu Azul com Cabelo ao Vento, segue-se o Nu Azul Sentado, e termina com o Nu Azul de Pé, todos de 1952.

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Miró, sabe o que é?

22 Quarta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Miró

Homem com cachimbo - 1925. Óleo sobre tela. 146 x 114 cm. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia. Madrid. España.Quando questões de cultura se põem publicamente, invariavelmente os asnos falam:

— Miró!… Quem vive de Miró? Quero lá mirar o Miró!

— Mas afinal que é isso de Miró? Come-se, bebe-se? Deve alguma coisa às finanças? Dá votos?

— Nada disso! AUMENTA AS EXPORTAÇÕES!

— Ena Pá, isso é bom! E há mais? Piró, Liró, por aí adiante? Vendido até às eleições, às tantas punha o défice a zero e a coisa corria-nos bem. Não?

— Isso não sei, mas podiam aproveitar a embalagem e vender também a Torre de Belém. Está para ali sem préstimo, e só a dar despesa…

O pássaro olhando tranquilamente as asas em chamas

Vem esta conversa a propósito das obras de Joan Miró (1893-1983) que o Estado Português pretende vender. Não as conheço, são segredo de alguns.

O gentlemanO Secretário de Estado da Cultura em funções já informou que conservar as obras na posse do Estado não é uma prioridade sua. Será dos portugueses?

Sesta - 1925. Museo Nacional de Arte Moderna. Centre Georges Pompidou. París. FrançaPara amenizar a prosa, termino com mais algumas imagens de obras de Miró, pertença de colecções pelo mundo, onde  valem para além do dinheiro que rendem, e por isso as conservam.

Interior holandês  1928, oleo sobre tela

Personagens na noite guiados pelos rastos fosforescentes dos caracóis

Paisagem catalã com caçador - 1923-1924. Óleo sobre tela 65 x 100 cm - Museo de Arte Moderna  New York

Retrato IV - 1938. Óleo sobre tela. 130 x 97 cm. Colecção privada

Da série A infancia de Ubu 1975

O sorriso das asas flamejantesDepois do Sorriso das asas flamejantes, acabemos com A esperança do condenado à morte III.

A esperança de condenado à morte III

P.S. para os leitores de outras paragens

O Estado Português comprou por via da nacionalização do BPN, em vez da falência do banco, uma colecção de obras de arte até hoje de conteúdo desconhecido dos portugueses, onde se incluem 85 obras do artista catalão Joan Miró. Propõe-se agora o Estado Português vendê-las em leilão em Londres, agendado já para Fevereiro de 2014. Espera, segundo a imprensa, obter 35 milhões de euros com essa venda.

O irrisório do dinheiro face à importância artística de semelhante património para o país, levou-me ao desabafo do artigo de hoje.

Acrescento ainda em post scriptum A mão apresentando um pássaro, óleo de 1926.

Mão apresentando um pássaro - 1926. Óleo sobre tela Colecção privada.

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Szymborska e os nus de Rubens

15 Quarta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Rubens, Wislawa Szymborska

Rubens_Rapto das filhas de LeucipoAAssistimos na arte barroca à representação do excesso. Surgem as pinturas em natureza-morta sobrecarregadas de géneros alimentares; pintam-se cenas de comezainas até ao entorpecimento, como as pintadas por Jan Steen (1626-1679) que há dias trouxe ao blog; o preciosismo e a sobrecarga de adereços no trajar de figurões socialmente importantes são mostrados em retratos hieráticos; e no nu temos as abundâncias carnais, de que as pinturas de Rubens (1577-1640) são o paradigma. Rubens earth-waterA1Para uma mulher  como Wisława Szymborska (1923-2012) em quem a parcimónia parece ser a marca de água, esta pintura não poderia deixar de impressionar, tanto mais quanto viveu o período central da sua vida na Polónia comunista onde a vida material correu entre dificuldades inenarráveis. E assim, num notável poema, Mulheres de Rubens, fala-nos ela de todo este excesso, exactamente a propósito das pinturas de nus femininos de Rubens. Não de uma representação em particular, mas de uma espécie de sobreposição carnal, de onde emerge o essencial da representação. Parte do poema desenvolve-se como comentário ao destino reservado a mulheres onde esta exuberância de carnes está ausente, e que a propria talvez tenha sentido com a sua figura fransina, ainda que as fotos mostrem um belo rosto de mulher.

rubens-1620ADeixo-vos com o poema em tradução de Julio Sousa Gomes e ao longo do artigo podem ver-se algumas dessas pinturas de excesso saídas do pincel de Rubens e seus ajudantes.

 rubens-1614-Venus_and_Adonis-ErmitazA

Mulheres de Rubens

Fauna mulheril de Arrasa-Montanhas,

nuas como um estrondo de barris.

Aninham-se em leitos amachucados,

dormem de bocas abertas como galos para cantar.

Fugiram-lhe as pupilas para as entranhas

e penetram no interior das glândulas,

cujos fermentos se espalham pelo sangue.

 

Filhas gradas do barroco. Cresce o bolo na masseira,

fumegam banhos, ruborescem vinhos,

leitões de neblina galopam no céu,

trompas estrondeiam num físico alarme.

 

Ó aboboradas, ó excessivas

e duplicadas pelo rejeitar das vestes,

e triplicadas pela pose truculenta,

ó gordas iguarias do amor!

 

As suas manas magras ergueram-se mais cedo

antes que no quadro a manhã clareasse.

E ninguém se deu conta da fila em que seguiram

pelo lado da tela por pintar.

 

Banidas do estilo. Costelas contadas,

natureza de ave nas nãos e nos pés.

Tentam erguer voo nas espáduas em quilha.

 

O século XIII dar-lhes-ia um fundo de ouro.

O século XX dar-lhes-ia ecrã de prata.

Em seiscentos não há nada para as chatas.

 

Eu diria até nédio o próprio céu,

nédios os anjos e nédia a divindade,

um bigodudo Febo que num suado

corcel vai penetrando na alcova ardente.

 Rubens_Peter_Paul-The_Three_GracesA1

Nota final

Para os leitores que os não conheçam, deixo os links para os artigos com pintura barroca de retrato, natureza-morta, e comezainas de Jan Steen.

Retrato barroco

Natureza-morta

Jan Steen

Rubens - Alegoria às bençãos da paz

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Querida – poema de Mang Ke com pintura de Zang Xiaogang

14 Terça-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Mang Ke, Zang Xiaogang

Zhang Xiaogang 00No eterno do amor e do seu relato poético, é das longínquas paragens da China de hoje que vem um poema do amor total, este Darling (título inglês) do poeta chinês Mang Ke (1951).

Mang Ke (1951) encontra-se entre os mais conhecidos poetas da China dos nossos dias. Incluido por alguns no grupo dos Misty Poets, foi co-fundador com o poeta Bei Dao da revista Today durante a Primavera de 1979 em Pequim. Encerrada pelo governo em 1980, esta revista teve papel fulcral na experimentação artística pós Revolução Cultural. Como tantos outros, também  Mang Ke (1951) viveu em exílio interno no campo, no período da Revolução Cultural.

Transcrevo a versão inglesa do poema, que conheço, e acompanho-a com uma minha aproximação em português.

 Zhang Xiaogang 01

Darling

If your body returns to its first form,

a small heap of yellow earth,

I’m still willing to lie on your full breasts

as I did in the beginning

I’m willing to turn into sunlight

to clothe you in a skin of sun

I’m willing to melt silently with you into one body

 

If your body turns to spring soil

I’m willing to surrender my own shape

to become water

I’m willing to be sucked up entirely

and with every feeling I have

to saturate your body

Zhang Xiaogang 05

Querida

Se o teu corpo regressar à primitiva forma:

um pequeno torrão de terra amarela,

jazerei sobre o teu peito

como no princípio aconteceu.

Disponível estou para em luz do sol me transformar

e numa capa solar te envolver.

Voluntária e silenciosamente me fundirei contigo num só corpo.

 

Se o teu corpo num regato se transformar

voluntariamente deixarei a minha forma

e serei água

disposto a ser sugado

e com com todo o meu sentir

saturar o teu corpo.

Zhang Xiaogang 04

Acompanham o artigo alguns dos extraordinários retratos de família pintados por Zang Xiaogang (1958) a partir de antigas fotos do tempo da Revolução Cultural.

 Zhang Xiaogang 02

Espantosos no misto de familiaridade e irrealidade que transmitem, dão a ver simultaneamente seres humanos e robots no que foi uma das grandes tragédias que parte da humanidade do século XX viveu. A esta pintura regressarei de forma mais circunstanciada.

Zhang Xiaogang 03

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Soneto de Correia Garção para um Feliz 2014

31 Terça-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Correia Garção, Píerre-Auguste Renoir

Renoir - Dance in the City 1883 A1Deste 2013 que termina me despeço com uma floração de amores tal como contada por Correia Garção (1724-1772).

Planta beijos e colhe amores o nosso poeta de hoje. Feliz certamente terá sido. Escolho para acompanhamento visual de semelhante prodígio, pares felizes dançando, no que pode ser a antecipação da festa de muitos leitores. São imagens de pinturas daquele que ficou conhecido como o pintor da gente feliz: Píerre-Auguste Renoir (1841-1919).

Renoir - Dance at Bougival 1883 A1

De beijos um cestinho Amor enchia,

E, depostos os duros passadores,

Quais semeiam o trigo os lavradores

Num campo os semeou todos um dia.

 

Daí a pouco com prazer se via

A seara ferver toda em Amores,

Que aos centos rebentavam entre as flores,

De que o travesso deus folgava e ria.

 

Eu, que bem por acaso ali me achava,

Um deles colho, e sobre o peito o prendo,

Sem recear o mal que me aguardava:

 

Pois as tenras raízes estendendo,

Pouco a pouco no coração mas crava

Donde novos amores vão nascendo.

Renoir - Dance in the Country 1883 A1

Por agora despeço-me. Encontrar-nos-emos aqui no próximo ano.

Que aos leitores 2014 traga semelhante floração, fazendo do ano que se inicia um Feliz Ano Novo.

A todos desejo que no próximo ano repitam o que de bom este ano tiveram e acrescentem o que dos sonhos mais desejem.

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No final do ano com poesia de Su Tung P’o

30 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jan Steen, Su Tung P'o

Garden Party 1677 A1Desconheço as origens da mística que envolve a chegada do Ano Novo. A excitação e entusiasmo que se apodera de nós acaba por ser o escape para a esperança que não morre por mais que a realidade a tente extinguir. Como há dias dizia a pessoa amiga: esperança tenho sempre, o tamanho é que varia.

Bom, mas voltando ao que no blog nos ocupa: a poesia, encontro num poeta chinês, velho de quase mil anos, Su Tung P’o (1036-1101), interrogações que nunca me tinha colocado:

 

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

 

Na simplicidade das perguntas um mundo de respostas. A cada um as suas.

Leaving the Tavern A1Deixo-vos, se à meditação o final do ano vos convidar, três poemas de Su Tung P’o, em versões da minha responsabilidade a partir da tradução inglesa de Kenneth Rexroth.

O último dia do ano

O ano a terminar

é como cobra arrastando-se no chão

Dentro em pouco já não o verás pois quase desapareceu.

Foi-se embora e com ele as preocupações.

Seria pior se o pudesses agarrar pela cauda.

Porquê tentar se daí não virá qualquer bem.

As crianças estão despertas, não conseguem adormecer.

Ficam levantadas toda a noite, rindo e brincando.

Os galos não cantam anunciando o amanhecer.

O relógio não ressoa nos gongos.

Toda a gente está a pé enquanto as velas ardem devagar,

desconsoladas e em grupo olham as estrelas lá fora.

Espero que o próximo ano seja melhor que este.

Mas sei que será exactamente o mesmo:

velhos erros e oportunidades perdidas.

Talvez na próxima noite de fim-de-ano conclua que foi melhor.

Deveria.

Sou ainda novo e cheio de confiança.

Tavern Garden 1660 A1

O fim do ano

Quando um amigo inicia uma viagem de milhares de quilómetros

e está prestes a partir, adia, adia, uma e outra vez.

Quando os homens partem, sentem que podem não voltar a encontrar-se.

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

Certamente algum lugar bem longe do horizonte.

Partiu como um rio que corre para leste,

e desagua no mar sem esperança de retorno.

Os meus vizinhos da esquerda bebem vinho quente.

Os da direita grelham um porco gordo.

Terão um dia de alegria

em recompensa de um ano de problemas.

Deixamos o ano que acaba partir sem pena.

Deixaremos tão sem preocupação os anos chegar?

Tudo passa, tudo parte, sempre sem um olhar atrás.

E nós cada vez mais velhos e mais fracos.

The Bean Feast 1668 A1

A passagem do ano

Cai a noite. As nuvens dispersam-se e desaparecem.

O céu está puro e frio.

Silenciosamente o Rio do Paraíso transforma-se em Abóbada de Jade.

Se esta noite não gozar a vida em pleno,

Fá-lo-ei no próximo mês, no próximo ano? Quem sabe quando será!

Steen_Jan-The_Effects_of_Intemperance A1

Acompanham o artigo pinturas de Jan Steen (1626-1679) dando conta de festas de arromba, apropriadas para fechar o ano velho.

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Um poema de Chagall acompanhado de auto-retratos

26 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ 7 comentários

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Marc Chagall

Chagall_Marc-Self_portrait-1928

Só é meu

O país que trago dentro da alma.

Entro nele sem passaporte

Como em minha casa.

Ele vê a minha tristeza

E a minha solidão.

Me acalanta.

Me cobre com uma pedra perfumada.

Dentro de mim florescem jardins.

Minhas flores são inventadas.

As ruas me pertencem

Mas não há casas nas ruas.

As casas foram destruídas desde a minha infância.

Os seus habitantes vagueiam no espaço

À procura de um lar.

Instalam-se em minha alma.

Eis porque sorrio

Quando mal brilha o meu sol.

Ou choro

Como uma chuva leve

Na noite.

Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.

Houve tempo em que essas duas caras

Se cobriam de um orvalho amoroso.

Se fundiam como o perfume de uma rosa.

Hoje em dia me parece

Que até quando recuo

Estou avançando

Para uma alta portada

Atrás da qual se estendem muralhas

Onde dormem trovões extintos

E relâmpagos partidos.

Só é meu

O mundo que trago dentro da alma.

Chagall_Marc-Self-Portrait_with_Palette 1917

Neste poema de Marc Chagall (1887-1985), em tradução do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) encontramos a chave para pormenores recorrentes da sua pintura, como seja o par vagueando no espaço, as faces duplicadas, e por aí adiante. Mas o poema dá-nos mais: dá-nos o retrato de um homem a quem a vida expatriou nas circunstâncias materiais e morais difíceis das perseguições aos judeus na Rússia de finais do século XIX e início do século XX, e que ficaram como marca de água na sua pintura pela vida fora. De entre o que pintou, encontramos nos auto-retratos uma variedade expressiva que os inclui entre as suas grandes obras, e que a pretexto do poema aproveito para trazer ao blog.

 Chagall_Marc-Self-portrait_with_White_Neck 1914

 

Chagall_Marc-Self-portrait_with_Seven_Fingers 1913-14

 

Chagall_Marc-Self_portrait 1914

Tradução do poema por Manuel Bandeira (1886-1968) publicada em Estrela da Vida Inteira, 20ª edição, 30ª reimpressão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2002.

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Jogos infantis de Bruegel pelo Natal

25 Quarta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ 4 comentários

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Bruegel

jftotalPara os leitores a quem da infância o Natal aproxime, esta pintura de Bruegel com dezenas de jogos infantis permitirá reencontrar algumas das brincadeiras que resistiram ao tempo e à tecnologia, e provavelmente lhes animou a infância, ou ainda hoje entretém filhos e netos.

É um divertido passatempo procurar identificar estes jogos numa cidade entregue às crianças e onde estas reinam, pois apenas 2 adultos, ao que me parece, estão presentes.

Para facilitar a tarefa acrescento vários detalhes em ampliação.

JF JF0A JFaJF00 JF0 JFb jfejff jaf2 jaf jaf1

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