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Chagall_Marc-Self_portrait-1928

Só é meu

O país que trago dentro da alma.

Entro nele sem passaporte

Como em minha casa.

Ele vê a minha tristeza

E a minha solidão.

Me acalanta.

Me cobre com uma pedra perfumada.

Dentro de mim florescem jardins.

Minhas flores são inventadas.

As ruas me pertencem

Mas não há casas nas ruas.

As casas foram destruídas desde a minha infância.

Os seus habitantes vagueiam no espaço

À procura de um lar.

Instalam-se em minha alma.

Eis porque sorrio

Quando mal brilha o meu sol.

Ou choro

Como uma chuva leve

Na noite.

Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.

Houve tempo em que essas duas caras

Se cobriam de um orvalho amoroso.

Se fundiam como o perfume de uma rosa.

Hoje em dia me parece

Que até quando recuo

Estou avançando

Para uma alta portada

Atrás da qual se estendem muralhas

Onde dormem trovões extintos

E relâmpagos partidos.

Só é meu

O mundo que trago dentro da alma.

Chagall_Marc-Self-Portrait_with_Palette 1917

Neste poema de Marc Chagall (1887-1985), em tradução do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) encontramos a chave para pormenores recorrentes da sua pintura, como seja o par vagueando no espaço, as faces duplicadas, e por aí adiante. Mas o poema dá-nos mais: dá-nos o retrato de um homem a quem a vida expatriou nas circunstâncias materiais e morais difíceis das perseguições aos judeus na Rússia de finais do século XIX e início do século XX, e que ficaram como marca de água na sua pintura pela vida fora. De entre o que pintou, encontramos nos auto-retratos uma variedade expressiva que os inclui entre as suas grandes obras, e que a pretexto do poema aproveito para trazer ao blog.

 Chagall_Marc-Self-portrait_with_White_Neck 1914

 

Chagall_Marc-Self-portrait_with_Seven_Fingers 1913-14

 

Chagall_Marc-Self_portrait 1914

Tradução do poema por Manuel Bandeira (1886-1968) publicada em Estrela da Vida Inteira, 20ª edição, 30ª reimpressão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2002.

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