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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Mulheres pintadas por Paula Rego

31 Terça-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Paula Rego

Estas mulheres pintadas por Paula Rego (1935) são outras que não as musas inspiração dos poetas que povoam o blog.

Mulheres fora da poesia, talvez assomem uma que outra vez em alguns poemas de Herberto Hélder.

À dureza da vida que as fez assim, juntaram continuar meninas. E os sonhos estão lá, num prodígio pictórico em que a variação de escala joga um papel essencial.

A estas mulheres, conhecêmo-las. Até talvez nos tenham acompanhado na vida mas não as vemos.

Mulheres, qual uma Joaquina que longo tempo nos serviu e a quem, certo Natal ofereci um colar de contas de fantasia: foi a primeira vez que alguém lhe ofereceu algo para por em si que não fosse apenas cobrir-se por higiene ou pudor.

Duras na expressão, talvez também no afecto, que razões terão para ser diferentes? O mundo que para a beleza abre passadeiras vermelhas, a estas, confina-as num qualquer vão de escada, físico ou mental, teimando em não as ver.

E eis que Paula Rego no-las mostra com toda a força inescapável da Arte.

Estas pinturas são de algum modo o equivalente da Carta da corcunda ao serralheiro, que Fernando Pessoa nos deixou, e forçam-nos a olhar o que nem sempre queremos ver.

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Nevermore – soneto de Paul Verlaine

30 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paul Verlaine, Toulouse-Lautrec

É a um exercício de reflexão sobre os limites e resultados da tradução de poesia que convido o leitor que simultaneamente leia fluentemente francês.

São três as leituras em português que transcrevo de um famoso soneto de Paul Verlaine (1844-1896), Nevermore.

As opções dos tradutores dividem-se entre a fidelidade verbal ao texto e a captação da ideia numa reconstrução em português.
A polémica é antiga e permanece. Qual delas é a opção legítima? Por mim, apenas o talento poético do tradutor permite criar na nossa língua um poema que pareça ter-lhe sempre pertencido, o que, com rara felicidade, acontece nestas três traduções, embora a tradução de charmant por vibrante, no penúltimo verso, feita por Fernando Pinto do Amaral me pareça discutível.

Outras traduções são ainda possíveis para a infinita nostalgia que se desprende deste Ah! …

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

Vamos então às traduções. O original encontra-se integralmente no final do artigo.

Nevermore

Doces recordações, que me quereis? O Outono
Fazia o tordo voar num lânguido ar de sono
E, monótono, o Sol lançava do seu trono
Ao bosque desmaiado uma luz de abandono.

Íamos sós os dois, sonhando, o pensamento
E o cabelo a esvoaçar na quimera do vento.
E eis que ela, olhos em mim, num enternecimento,
“Qual foi na vida”, disse,”o teu melhor momento?”

Trinava a doce voz, em vibrações amenas;
Um sorriso discreto eu lhe volvi apenas
E a sua mão beijei, devotamente.

— Ah! as primeiras flor’s, como são perfumadas!
E como se ouve soar, que murmúrio atraente
Tem o primeiro sim nas bocas bem-amadas!

Tradução de Pedro da Silveira

E agora a versão de Herculano de Carvalho

Nevermore

Reviver, reviver, que me queres tu? O Outono
Fazia o tordo abrir as asas pelo céu morno
E, monótono, o Sol lançava um raio em torno
Do bosque amarelando, à brisa, em abandono.

Os dois íamos sós e num sonho absorvente,
Eu e ela, o cabelo e o pensamento ao vento.
De súbito, voltando o olhar de encantamento:
“Qual teu dia melhor?” disse a voz de oiro quente.

A voz doce e sonora, em fresco timbre, angélica,
Um sorriso discreto à pergunta deu réplica,
E beijei sua mão branca devotamente.

— Aí! as primeiras flores e os botões perfumados!
E como soa num murmúrio comovente
O “sim” primeiro, ao vir de lábios bem-amados.

Termino com a versão de Fernando Pinto do Amaral

Nevermore

Ah, lembrança, lembrança, que me queres? O Outono
Fazia voar os tordos plo ar desmaiado
E o sol dardejava um monótono raio
No bosque amarelado onde a nortada ecoa.

A sonhar caminhávamos os dois, a sós,
Ela e eu, pensamento e cabelos ao vento.
De repente, fitou-me em olhar comovente:
“Qual foi o teu mais belo dia?” disse a voz

De oiro vivo, sonora, em fresco timbre angélico.
Um sorriso discreto deu-lhe a minha réplica
E então, como um devoto, beijei-lhe a mão branca.

— Ah! as primeiras flores, como são perfumadas!
E como em nós ressoa o murmúrio vibrante
Desse primeiro sim dos lábios bem-amados!

Nevermore

Souvenir, souvenir, que me veux-tu ? L’automne
Faisait voler la grive à travers l’air atone,
Et le soleil dardait un rayon monotone
Sur le bois jaunissant où la bise détone.

Nous étions seul à seule et marchions en rêvant,
Elle et moi, les cheveux et la pensée au vent.
Soudain, tournant vers moi son regard émouvant
” Quel fut ton plus beau jour? ” fit sa voix d’or vivant,

Sa voix douce et sonore, au frais timbre angélique.
Un sourire discret lui donna la réplique,
Et je baisai sa main blanche, dévotement.

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

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Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio com pintura de Georges Seurat

29 Domingo Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gabriele D'Annunzio, Georges Seurat

Depois de Hesíodo, nos próximos tempos, mas com incerta cadência, vão aparecer alguns poemas numa espécie de elegia para o verão: sentimentos, lugares e acontecimentos com o Verão num papel de protagonista. Hoje é o poema Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) onde uma intensa comunhão com a natureza se vive.

Meio-Dia

No seu auge o dia.
Sobre o mar etrusco
paira um verde pálido
como o dessepulto
bronze das estátuas.
Tudo tão tranquilo
que à roda não vibra
nem da brisa o hálito;
sequer um arbusto
se move na áspera,
solitária praia.

Bonança, calor,
em tudo silêncio.
O Verão, maduro,
cobre-me a cabeça,
como sendo um fruto
que a mim me pertença,
e colher eu deva
com a minha mão,
e sugar eu deva
com a minha boca.
Nem um só vestígio
de humana presença.
Nada que se ouça,
se me ponho à escuta.
Longe a dor dos homens.
Nem já tenho nome.
Sinto que o meu rosto
se doura de um ouro
que é meridiano;
e que a minha loura
barba já reluz
como a própria areia.
Mesmo o delicado
desenho da onda
na orla da praia
me está no palato,
na palma da mão
regendo-me o tacto.
Toda a minha força
na areia se expande,
no mar se difunde:
minha veia, o rio;
minha fronte, o monte;
o bosque, o meu púbis;
meu suor, a nuvem.
E vivo na flor
de esteva das dunas,
nas pinhas, nos bagos
dos juncos; nas algas,
na flora marinha;
nas coisas exíguas,
nas coisas imensas;
na areia contínua,
de cumes longínquos.
Só ardo e rebrilho.
E nem tenho nome.
Montanhas e ilhas,
bosques e baías
perderam os nomes
que outrora lhes dei
ou tinham outrora
em lábios humanos.
E eu próprio sem nome
nem destino humano:
já só Meio-Dia
agora me chamo.
Vivo em tudo, tácito,
tal e qual a Morte.

Toda a minha vida
se tornou divina.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Acompanha o poema a pintura solar de Georges Seurat (1859-1891), génio de curta vida que no espaço de nove anos (1882-1891) produziu um conjunto de pinturas imperecíveis, onde a alegria do mundo se exprime.
Inventor da técnica pontilhista, com um absoluto domínio cientifico da teoria das cores, é a sobreposição de pontos de cores puras a responsável pela textura e efeito das suas pinturas resplandecendo modernidade.

Depois deste conjunto explorando as possibilidades do contraste em diagonal no preenchimento da superfície pictórica, escolhi este segundo grupo onde a horizontal na definição da paisagem surge no seu potencial pictórico.

Termino dando conta, em complemento da pintura inicial, da evolução da técnica aplicada à figura humana.

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Stéphane Mallarmé — Brisa marinha

27 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paul Gauguin, Stéphane Mallarmé

Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé (1842-1898), Brisa marinha, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin (1848-1903) a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.

Brisa marinha (Brise marine)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

Tradução de Herculano de Carvalho

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

Brise marine

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

 

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Poemas para o verão: Hesíodo (séc VIII a.C,) a abrir

26 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Abel Grimmer, Bruegel, Hesíodo

Verão, quando é “o vinho melhor / mais ardentes as mulheres e moles os homens;” segundo a sabedoria de Hesíodo nos seus mais de 2700 anos, é também tempo de poesia. E para este Verão reuni um grupo variado de poemas onde, da Rússia à América, a estação nos surge.

Dou a primazia a um fragmento do poema Trabalhos e Dias de Hesíodo (séc VIII a.C,) o mais antigo poeta grego cujo nome se conhece, e bastas vezes referido no blog.

Quando o cardo floresce e a sonora cigarra,
pousada nas árvores, espalha o melodioso canto,
pela fricção das asas, na penosa estação do calor,
nessa altura são mais gordas as cabras e o vinho melhor,
mais ardentes as mulheres e moles os homens;
Siriús abrasa-lhes a cabeça e os joelhos,
fica-lhes ressequida a pele pelo calor. É tempo então
de gozar a sombra de uma rocha, o vinho bíblino,
um pão de qualidade, leite de cabra que já não amamenta,
carne de vitela apascentada nos bosques, que ainda não pariu,
e de cabritos tenros. Bebe então o vinho rubro,
sentado à sombra, saciado o coração com o festim,
o rosto voltado de frente para a frescura do Zéfiro;
e de uma fonte que corre perene e límpida,
deita três partes de água e a quarta de vinho

Trabalhos e Dias (582-596)
Tradução de José Ribeiro Ferreira
Edição INCM, Lisboa 2005

A abrir o artigo vem um desenho de Bruegel (1525-1569) conhecido por Verão.

Termino com a pintura de um seguidor, Abel Grimmer (1570-1619) – Verão, feita provavelmente meio século mais tarde.

Veja o leitor as diferenças como exercício de Verão.

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Moda feminina no século XVII e dois sonetos de Nicolau Tolentino

25 Quarta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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FRANS POURBUS, MARCUS GHEERAERTS o jovem, Nicolau Tolentino

Não sou conhecedor da história do vestir. Simplesmente a minha paixão pela pintura de retrato leva-me muitas vezes a ficar boquiaberto perante vestimentas de outrora com que as nobres pessoas se envolviam. Pasmo muitas vezes a pensar como se moveriam se na verdade se vestissem assim.
É certamente abusivo o título do artigo, pois o moderno conceito de moda, na volubilidade do gosto dos nossos dias, não é compaginável com as características da sociedade do século XVII. No entanto, a hierarquização social definida pela forma de vestir foi uma constante pelos séculos nas sociedades europeias. Há noticia na poesia satírica portuguesa do século XVIII, sobretudo, tanto de uma vontade de parecer mais do que se é, como de originalidades no vestir, verdadeiramente saborosas. No que ao século XVI se refere, há noticia de ordenações reais estipulando ao detalhe uma disciplina no traje.
Sendo a realeza o vértice da pirâmide social, é a esta que cabe a apresentação mais ofuscante da forma de surgir em público. E nesse universo reuni um pequeno grupo de pinturas onde a surpresa do traje é permanente  (a identificação da retratada consta do nome do ficheiro).

Para a nota poética do artigo, e como obviamente estas pessoas reais não podiam ser objecto de sátira, é ao século XVIII, onde ela abunda, que vou buscar dois sonetos de Nicolau Tolentino (1741-1811).

Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
E sobre os ombros nas jocundas frentes
De enrolado cabelo aneis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,

Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.

Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.

Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.

Agora o famosissimo Colchão dentro do toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada:”

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso  nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Sonetos gémeos no desenvolvimento da ideia e na construção poética, em ambos é o despautério do desenlace (a chave de ouro do soneto) a desencadear o riso.

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Cecco Angiolieri – Soneto LXXXVI

24 Terça-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Cecco Angiolieri, Simone Martini

À época de Cecco Angiolieri (1260-1320) a cultura em Siena, de onde era natural, atingia um pico e rivalizava com Florença no que ao domínio das artes respeita. Entre as obras-primas que nos chegaram deste curto século, destacam-se a pintura de Duccio, dos Lorenzetti, sobretudo os frescos do bom e mau governo, e a pintura de Simone Martini, a cuja obra voltarei a propósito de Laura e Petrarca, mas de quem hoje escolho o famoso cavaleiro solitário para ilustração deste artigo.

Com a mordacidade e o desbocado herdado da poesia goliárdica, os sonetos de Cecco Angiolieri (1260-1320) são no seu conjunto pouco conhecidos hoje. Contemporâneo de Dante, com quem polemicou poeticamente, da sua poesia reúnem-se hoje 129 sonetos, alguns dos quais com autoria questionada. Registo no blog a existência do poeta com o seu provavelmente mais famoso soneto, o nº86, no original italiano e na tradução portuguesa de Herculano de Carvalho.

A linearidade da argumentação na enumeração do uso do poder, e a clareza do discurso dispensam a intermediação interpretativa. Apenas a constância com que os defeitos (e virtudes) humanas atravessam os séculos vale a pena destacar.

Soneto LXXXVI

Se fora fogo, eu abrasava o mundo,
Se fora vento eu o arrasaria,
Se eu fora a água então o afogaria,
Se fora Deus, mandava-o pró profundo.

Se fora papa, em delírio jucundo
A todos os cristãos eu prenderia,
Se fora imperador, o que faria?
Golpeava a todos o pescoço, fundo.

Se fora morte, ao meu pai procurava,
Se fosse vida, o não queria mais
E coisa igual com minha mãe se dava.

Se fosse Cecco, como o sou de mais,
As mais linda mulheres p’ra mim guardava
E deixaria as feias para os mais.

Tradução de Herculano de Carvalho

Original do Soneto LXXXVI

S’i fosse fuoco, arderei ‘l mondo;
s’i fosse vento, lo tempestarei;
s’i fosse acqua, i’ l’annegherei;
s’i fosse Dio, mandereil’ en profondo;

s’i fosse papa, allor serei giocondo,
ché tutti cristiani imbrigarei;
s’i fosse ‘mperator, ben lo farei;
a tutti tagliarei lo capo a tondo.

S’i fosse morte, andarei a mi’ padre;
s’i fosse vita, non starei con lui;
similemente faria da mi’ madre.

Si fosse Cecco com’i’ sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre:
le zoppe e vecchie lasserei altrui.

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Soneto de Ludovico Ariosto

23 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bartolomeo Veneto, Ludovico Ariosto

É conhecido em moderna tradução portuguesa o monumental poema Orlando Furioso de Ludovico Ariosto (1474-1533). São menos conhecidos os seus sonetos.

Arquivo no blog mais um daqueles retratos de mulher contido no soneto XXV, desta vez de uma traidora amante, cuja beleza física é laudatoriamente descrita para acentuar o contraste no fecho do soneto:

E embora seja tudo assim perfeito, / permiti que vos diga ousadamente: / mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Soneto XXV

Que bela sois, senhora! Tanto, tanto,

que por mim nunca vi cousa mais bela!

Contemplo a fronte e penso que uma estrela

a meu caminho dá seu brilho santo.

Contemplo a boca e pairo no encanto

do sorriso tão doce que é só dela;

olho o cabelo de ouro e vejo aquela

rede que amor me impôs com terno canto.

É de terso alabastro o colo, o peito,

os braços mais as mãos, e finalmente

quanto de vós se vê ou se adivinha.

E embora seja tudo assim perfeito,

permiti que vos diga ousadamente:

mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Soneto XXV (original italiano)

Madonna, sète bella e bella tanto,

ch’io non veggio di voi cosa più bella;

miri la fronte o l’una e l’altra stella

che mi scorgon la via col lume santo;

miri la bocca, a cui sola do vanto

che dolce ha il riso e dolce ha la favella,

e l’aureo crine, ond’Amor fece quella

rete che mi fu tesa d’ogni canto;

o di terso alabastro il collo e il seno

o braccia o mano, e quanto finalmente

di voi si mira, e quanto se ne crede,

tutto è mirabil certo; nondimeno

non starò ch’io non dica arditamente

che più mirabil molto è la mia fede.

A pintura é obra de BARTOLOMEO VENETO 1502-31, dos anos 1520-25. Pintor de quem pouco se sabe, e a quem são atribuídos alguns requintados e notáveis retratos.

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Veneza de Alfred de Musset

22 Domingo Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Alfred de Musset, Canaletto

Veneza é paixão de quem a visita, e na poesia abundam as obras com Veneza como fundo ou pretexto, sendo talvez a maior, o conjunto de epigramas venezianos de Goethe. Acrescem outras poesias espalhados pela obra de poetas das mais variadas épocas. Para hoje escolhi um poema de Alfred de Musset (1810-1857), cuja poesia é nos nossos dias pouco conhecida em Portugal, que eu saiba.

Este Venise (Veneza) é uma poesia dos vinte anos incluída no seu primeiro livro, Contes d’Espagne et d’Italie. Contém este livro poesias, plenas de verve, de um jovem a quem os prazeres levaram a escrever a famosa obra licenciosa Gamiani, ou duas noites de excessos. A sua vida aparece contida, ao que se diz, em toda a obra, da qual La Confession d’un Enfant du Siècle permanece um documento notável sobre a juventude culta da primeira metade do século XIX em França. Pela sua poesia, de uma deliciosa musicalidade, foi chamado “o poeta da juventude”.

Para a biografia fica a relação escandalosa com George Sand e depois da rotura, com a Malibran, diva cara aos melómanos, para quem várias obras-primas da ópera foram compostas, e a quem há poucos anos Cecília Bartoli dedicou um espectacular disco, concerto dvd e museu itinerante.

Veneza

Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem ‘strelada
Meio velada …

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estatuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos! … Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la …

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Italia, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado …

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados …
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!

Venise (original em francês)

Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans l’eau,
Pas un falot.

Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur l’horizon serein,
Son pied d’airain.

Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,

Dorment sur l’eau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.

La lune qui s’efface
Couvre son front qui passe
D’un nuage étoilé
Demi-voilé.

Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.

Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,

Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,

Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.

Ah ! maintenant plus d’une
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
L’oreille au guet.

Pour le bal qu’on prépare,
Plus d’une qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.

Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En s’endormant ;

Et Narcissa, la folle,
Au fond de sa gondole,
S’oublie en un festin
Jusqu’au matin.

Et qui, dans l’Italie,
N’a son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?

Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.

Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés…
Ou pardonnés.

Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Qu’à nos yeux a coûté
La volupté !

Acompanham o artigo três pinturas de Bernardo Canal dito Canaletto (1697-1768), veneziano que pintou a cidade como nenhum outro.

A tradução do poema é de Pedro da Silveira e encontra-se no livro Mesa de Amigos, Angra do Heroísmo, 1986.

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Figos: prazer e memória com poesia de Eugénio de Andrade

20 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, Figos, Giovanna Garzoni, Tavira

Ardidos que estão milhares de hectares de arvoredo na tragédia do incêndio de ontem, no seu rescaldo, a dureza da perda levará as gentes a um esforço redobrado de recuperação, e a paisagem agora nua e calcinada reverdecerá, como pelos séculos em que estas terras têm sido habitadas, a espaços aconteceu. De toda a vegetação queimada, são as figueiras perdidas que mais lamento.

A Figueira

Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde da Agosto
apenas me roçava, e partia.

Apenas aflorados neste poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), os figos frescos são fruta frágil com exigências caprichosas no seu amadurecimento e apanha, pelo menos para os aficionados. A hora ideal para os apanhar e comer directamente da árvore é o alvorecer, quando a “brandura” derramada pela noite ainda permanece. Apanhados e comidos durante o dia ou mesmo ao entardecer de uma daquelas tardes de verão do Sul, onde o calor brilha no restolho dourado, ao som do zumbido das cigarras, são receita certa para problemas intestinais. Ao entrever as delicias das próximas férias, é neles que penso, e pouco mais. Mar e nadar, certamente. Mas a incerteza sobre a multidão mitiga-me o entusiasmo. Num horizonte de nada fazer, à oportunidade de reencontrar as comidas de boa memória, redobra-me o entusiasmo de partir.
Alimento de excelência no Sul, prepará-los e gozá-los ao longo do ano foi matéria de invenção das gentes onde o figo abunda. Por exemplo, associo o Dia de Todos-os-Santos sobretudo aos figos. Nas terras do Sul foi desde que me recordo um dia festivo, ficando para o dia seguinte, 2 de Novembro, a celebração dos mortos, no que se chamava Dia de Finados. Finados, aqueles para quem a vida chegou ao fim, Apenas recentemente o Dia de Finados se sobrepôs ao Dia de Todos-os-Santos.
Como qualquer dia festivo também o Dia de Todos-os-Santos tinha, e tem para quem ainda pratica, as suas comidas de celebração, e neste dia, no meu berço Natal, são os figos, e os doces com figo, os reis: figos cheios (figos recheados com chocolate, açúcar e canela e ligeiramente torrados no forno), bombons de figo (pasta de figo moído, açúcar, canela e algo mais que faz o segredo da receita), enrolado em pequenas bolas guardadas em papel colorido, e estrelas (figos abertos em três pontas unidos dois a dois com miolos de amêndoa na extremidade e passados ligeiramente pelo calor do forno para colar). Estas especialidades da época, que felizmente a minha mãe não dispensa e continua a fazer, remetem-me para o tempo da despreocupada infância.
São os figos que me trazem a única memória de uma bisavó.
Comecei na escola paga quando fiz três anos. Era a escola da menina Emília. Não existindo infantários, as primeiras letras eram ensinadas aos meninos e meninas naqueles anos cinquenta, em casas particulares, por uma senhora que organizava esta escola doméstica, paga chamada, pois este ensino tinha uma mensalidade, ao contrário do ensino oficial e obrigatório a partir dos sete anos, que era gratuito. Nas famílias com mais necessidades as crianças apenas começavam a aprendizagem das letras nesta escola oficial, e assim se fazia a diferenciação para a vida. Quando cheguei ao ensino oficial lia, escrevia e sabia a matemática elementar (tabuada) como apenas a outra meia dúzia na minha situação o sabiam entre cerca de 30 rapazes.
Voltando à bisavó, morava na mesma rua da menina Emília. A escola ficava ao cimo da rua do Malfor, perto da passagem de nível, ou seja, do cruzamento da rua com a linha de comboio. A casa da bisavó era um pouco mais abaixo. Quando terminada a escola regressava à tarde a casa, passava-lhe junto à porta. Habitualmente estava à janela e muitas vezes chamava-me para lanchar. Nestas visitas, o prémio que recordo era tentar tirar-lhe de dentro dos bolsos das saias alguns figos secos ou torrados que sempre lá estavam, e que ela na brincadeira esquivava. Não sei de outros que, comidos depois, me soubessem melhor.

Despeço-me de toda esta evocação, onde afinal foi do passar do tempo que falei, com Prato de Figos, poema de Eugénio de Andrade em que uma metáfora do envelhecimento se escreve.

Prato de Figos

Também a poesia é filha
da necessidade —
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que num inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.

Vai o artigo acompanhado pelas apetitosas pinturas de Giovanna Garzoni (1600-1670).

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