• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Monthly Archives: Outubro 2013

Gomes Leal — três poemas de História de Jesus

30 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Gomes Leal, Paul Gauguin

gauguin cristo amareloTermino por agora a visita à poesia de assunto religioso católico com três poemas de História de Jesus, de Gomes Leal (1848-1921) nos quais se relata a crucificação e morte de Jesus.

A história da vida de Jesus é nesta obra contada com a desenvoltura versificatória apanágio do poeta, e a poesia salta, episódio a episódio, transformando-a numa narrativa de encantamento em que as matérias de fé passam a segundo plano.

Abro com o rouxinol na cruz que canta na agonia de Cristo lembrando o Amor, o Céu. quando tudo chora em seu redor. Falar da crucificação de Jesus com a magia deste O Rouxinol do Calvário é provavelmente caso único e suponho que o episódio é apócrifo em relação à narrativa bíblica.

Segue-se-lhe a descrição das trevas em que a terra mergulhou enquanto Cristo agonizava. E nele o verso transmite o terror que a fé reclama: Fenderam-se os rochedos, com ruídos. /Um singular terror gelou os ossos.

Termino com a estocada final do soldado romano no Cristo já morto. Neste poema a doçura da mensagem de Jesus é posta em contraste com o gratuito da violência dos seus carrascos:

…

caiu enfim chagado, justiceiro, / ainda, ainda perdoando ao mundo …

…

um soldado romano vendo-o exposto, / e já morto na Cruz, lívido o rosto, / com um golpe de lança o trespassou.

 

Entrego-vos aos poemas

 

O Rouxinol do Calvário

Na noite que passou

o Cristo, no Calvário,

um rouxinol cantou

sobre a Cruz, solitário.

 

Os trigueiros soldados,

e os lirios de Salém,

perguntavam pasmados :

— Que voz canta tão bem ?

 

Como sentindo os males

das suas próprias penas,

vergavam-se nos cálix,

chorando, as açucenas.

 

Choravam os caminhos,

os dados, os cilícios,

a grinalda de espinhos,

e a esponja dos suplícios.

 

Choravam os sem luz,

e os rijos peitos bravos.

Começavam na cruz

a vacilar os cravos.

 

Pelo tranquilo espaço,

paravam as estrelas,

e o vagaroso passo

as mudas sentinelas.

 

Os peitos desumanos

ressentiam mudanças.

Deixavam os romanos

escorregar as lanças.

 

Assim cantou… cantou…

lembrando o Amor, o Céu.

Quando Jesus morreu,

do lenho, enfim, voou ! …

 

 

Trevas

Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,

Cortou o vento o ar como um açoite.

Rugiram os leões, e o eterno facho

do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.

 

Fenderam-se os rochedos, com ruídos.

Um singular terror gelou os ossos

dos legionários trágicos, vencidos

da confusão, do espanto, e dos destroços.

 

O morto surge e mais o seu sudário,

trazendo o assombro do final segredo.

O povo da Judeia do santuário

foi-se esconder na treva — e teve medo.

 

As violetas murcharam sobre a haste.

E uma voz singular, lúgubre, estranha,

soluçou pela trágica montanha :

— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»

 

 

O Último Golpe de Lança

Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,

rola mansa no ar calado e imundo,

pendeu, bem como um lírio moribundo,

sobre a haste do trágico madeiro…

 

quando, lançando o espirito profundo,

ao reino belo, grande, verdadeiro.

caiu enfim chagado, justiceiro,

ainda, ainda perdoando ao mundo …

 

um soldado romano vendo-o exposto,

e já morto na Cruz, lívido o rosto,

com um golpe de lança o trespassou.

 

Saiu daquela chaga sangue e água:

— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.

— Água de pranto ainda que chorou.

 

Abre o artigo o Cristo amarelo pintado por Paul Gauguin (1848-1903) em 1889, pouco depois da composição desta História de Jesus (1883). Noutra oportunidade virá à conversa a forma como os escritores simbolistas franceses olharam a pintura bretã de Gauguin e a entenderam como a materialização dos seus ideais de arte. Aqui surge tão só como uma ideia de Cristo que a arte desmaterializa.

Como curiosidade e em nota de rodapé registe-se que Gomes Leal era apenas um dia mais velho que Gauguin. Um nasceu a 6 de Junho de 1848, o outro a 7 de Junho de 1848.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Decimas à concepção de Maria por Gregório de Matos

25 Sexta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Gregório de Matos

Bolivia Luis Niño 1740No curto passeio pela poesia de matriz católica que por estes dias faço, escolho agora um poema de Gregório de Matos (1636-1696) cuja poesia popularizada anda mais ligada ao desbocado da sátira, tantas vezes obscena, que às matérias de confissão.

Se no soneto de Violante do Ceo de artigo anterior apenas uma visão deslumbrada corre, nas décimas de Gregório de Matos hoje transcritas há um esforço de encontrar causalidade na explicação do sobrenatural, mas de novo apenas a matéria de fé surge como argumento.

Preocupa-se o poeta em explicar a virgindade de Maria após a concepção de Jesus, e encontra apenas uma vontade primordial em Deus para fundamentar a ocorrência: Maria será mulher na terra e mãe do Filho de Deus e por isso isenta do pecado que condenou Eva.

Antes de ser fabricada / do mundo a máquina digna, / já lá na mente divina, / Senhora estáveis formada:

…

mas se Deus (sabemos nós) / que pode tudo, o que quer, / e vos chegou a eleger / por Mãe sua tão alta, / impureza, mancha, ou falta / nunca em vós podia haver.

…

foi vossa conceição / sacra, rara, limpa, e pura.

Temos pois, ao longo de quatro décimas, a explicação da concepção sem pecado e o incitamento ao louvor de Deus na glorificação da Virgem:

Louvem-vos os serafins / que nessa Glória vos vêem, / e todo o mundo também / por todos os fins dos fins:

 

DÉCIMAS

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa que foi depois,

nascer, Virgem, compreendida

 

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fôstes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

por Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

 

Louvem-vos os serafins

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

 

O Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu, estrelas, lua, e sol.

Noticia bibliográfica

Publicado em Gregório de Matos, Se Souberas Falar Também Falaras, Antologia Poética, Organização, selecção, estudo e notas de Gilberto Mendonça Teles, INCM, Lisboa, 1989.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Jorge de Sena — ISTO seguido de Glosa à Chegada do Outono

24 Quinta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Degas

Degas - Diego Martelli 1879Isto que … como tempo passa e vais medindo / em rugas e lembranças e em sombrias / e plácidas visões de coisa alguma, … Isto que passa como vida …/ não queiras, não perguntes, não esperes

Abro com um poema de Jorge de Sena (1919-1978) escrito nos tempos sombrios do Portugal de finais dos anos 50, onde a recusa da aceitação da vida como ela se oferecia, corre. Haverá pontos de contacto com a realidade portuguesa de hoje? Sentem os portugueses, hoje, ISTO, assim? Aos leitores a resposta.

 ISTO

Não queiras, não perguntes, não esperes.

Isto que passa como vida e tu

medes em dias, horas e minutos,

ou como tempo passa e vais medindo

em rugas e lembranças e em sombrias

e plácidas visões de coisa alguma,

às vezes sorridentes, mas sombrias;

sim: isto, a que dás nomes, que separas

do resto em que surgiu, de que surgiu;

isto, que já não queres, não interrogas,

de que já nada esperas, mas que queres,

porque perguntas sempre, e por que esperas;

isto, que já não és tu, nem vai contigo,

nem fica quando vais; em que não pensas,

porque ao medir apenas medes e

nada mais fazes que medir — só isto,

apenas isto, isto unicamente:

não queiras, não perguntes, não esperes,

que o pouco ou muito é tudo o que te resta.

1958

Há evidentemente uma leitura atemporal do poema, convocando a reflexão sobre o passar do tempo em cada um e as escolhas por fazer, num adiar que leva para o passado os sonhos quando as rugas e lembranças se instalam no lugar da vontade do novo:

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, / quando um de nós ou quando o amor chegou.

E com isto aporto ao poema Glosa à Chegada do Outono também de Jorge de Sena escrito pela mesma época.

 

Glosa à Chegada do Outono

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura acetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sêde, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo…

 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

1958

 

Notícia bibliográfica e iconográfica

Poemas publicados pela primeira vez em Fidelidade, 1958. Transcritos de Poesia – II, Moraes Editores, Lisboa 1978.

É de Degas (1834-1917) a pintura que acompanha o artigo.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Senhora das Maravilhas — soneto de Violante do Ceo

21 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Escola de Cusco, Violante do Ceo

Perú Escola de Cusco - representação da Virgem sec XVII-XVIIIPara uma mente organizada nos pressupostos do método científico como forma de percepcionar a verdade, há um esforço prévio à fruição da poesia religiosa, sobretudo no período barroco, decorrente do argumentário organizado nesta. Aqui, a matéria de fé não oferece controvérsia e a verdade revelada é o ponto de partida inquestionado para o exercício verbal da devoção.

Entre os exemplos notáveis desta expressão poética encontro este soneto à Virgem escrito por Soror Violante do Ceo (1601-1693), dando conta de uma visão deslumbrada — Quem quiser ver de Deus as maravilhas, / Veja das maravilhas a Senhora. Seriam adequadas considerações de história religiosa a pretexto da identificação que o poema faz entre Deus e a Virgem Maria, para as quais não estou minimamente preparado. Atenho-me por isso à construção do poema para realçar quanto o vocabulário laudatório e a construção do verso criam, à medida que o poema avança, uma encantatória melodia, que em crescendo nos leva à chave do soneto num emocionante remate.

 

A Nossa Senhora das Maravilhas

Ó Tu de Maravilhas superiores

Compêndio singular, cifra divina,

Do artífice maior obra mais dina,

Belíssimo exemplar de excelsas flores!

 

Maravilha maior entre as maiores,

Glória da Magestade Única e Trina,

Norte celestial, luz matutina,

Epílogo de eternos resplendores!

 

Flor, que aos mesmos anjos maravilhas,

Aplauda-te a harmonia mais sonora

Vendo, que só a Deus teu ser humilhas.

 

E diga Céu e Terra (ó bela Aurora)

Quem quiser ver de Deus as maravilhas,

Veja das maravilhas a Senhora.

Notícia bibliográfica

O poema de Soror Violante do Ceo encontra-se na obra Parnaso lusitano de divinos e humanos versos Vol I, 1733. Modernizei a ortografia.

Iconografia

Abre o artigo uma imagem da Virgem pintada no Perú colonial no século XVII-XVIII. Conhecidas como Escola de Cusco (antiga capital do império Inca), estas pinturas coloniais de assunto religioso Católico Romano, dão conta de uma fascinante simbiose entre imaginário popular e codificação erudita da doutrina católica através de uma linguagem pictórica de surpreendente originalidade. Revelando prodigioso domínio técnico, fazem tábua rasa das aquisições de representação praticadas na pintura europeia da época e desenvolvem-se num universo estético fechado, onde os assuntos sacros são por vezes contaminados pelo quotidiano profano como neste arcanjo com arcabuz com que encerro o artigo.

Perú Escola de Cusco - representação de aracanjo com arcabuz sec XVII-XVIII

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O demiurgo como arquitecto — iluminura do séc. XIII

20 Domingo Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Iluminuras

Biblia Moralizada 1220-1230 folio 1 versoGuardam-se nos pergaminhos medievais preciosas iluminuras, verdadeiras obras-primas de impossível acesso directo e que só lentamente o progresso técnico de reprodução tem vindo a permitir conhecer.

Entre as imagens mais conhecidas encontra-se, talvez, a que abre o artigo: representação de Deus como criador do universo, mostrado enquanto arquitecto fixando a medida do mundo. Atendendo à legenda que encima a imagem, representa esta a passagem do Génesis 1, em que Deus criou o céu e a terra, o sol e a lua e todos os elementos.

A simbólica medieval é riquíssima e vai lentamente sendo estudada e compreendida. A utilização do círculo para representar o cosmos é antiga e nesta pintura a sua perfeição e harmonia conforma a irregularidade dos corpos materiais — terra, sol, nuvens e estrelas — e a sua mutabilidade, desenhados fazendo lembrar corpos vivos em actividade.

Na imagem, o acto de criação divina é um acto artístico, enfatizador da importância dos arquitectos e da arquitectura, numa época em que estes assumiam relevante importância na sociedade francesa enquanto criadores das catedrais góticas: construções pensadas na sua geometria espacial, para conduzir ao encontro de Deus, encaminhando o olhar, desde a entrada, para as alturas.

No propósito de transmitir mensagens complexas de doutrina, a arte gótica adoptou uma técnica de representação que embora separe o humano do divino, mantém este suficientemente próximo do mundo conhecido para permitir a sua assimilação sem ambiguidades.

Nestas preciosas obras de fruição na intimidade, até final do século XIII são sobretudo imagens de narrações bíblicas e colecções de cantos com iluminuras (saltérios) o que nestes pequenos pergaminhos até nós chegou. Mais tarde surgem as crónicas dos reinos, a de Carlos Magno no início do século XIV, os livros de horas com o seu calendário de devoções, e livros de utilidade, como o belíssimo livro da caça de Gaston Phoebus no início do século XV. O aparecimento da imprensa no final deste século XV, apesar da sua rápida divulgação num mundo em acelerada mudança, não pôs logo fim à produção destas obras-primas em pergaminho, e o século XVI ainda vê surgir algumas obras de grande beleza entre as quais a Genealogia do Infante D. Fernando de Portugal.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Fragmento de memória com soneto de Michelangelo

15 Terça-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Jorge de Sena, Michelangelo

Vaticano Agosto de 1978 530Viajar é hoje um desejo e um prazer ao alcance de grande número. O mundo está mais pequeno. E embora possamos à distância do dedo num computador ter noticia do mais ínfimo recanto da terra, a vontade de ver e sentir os lugares continua a fazer parte do impulso humano por conhecer.

Testemunho maior dessa avalanche de gente a viajar que os últimos anos trouxeram, é provavelmente, em Roma, a Praça da Basílica de S.Pedro na Cidade do Vaticano, permanentemente ocupada por peregrinos e turistas, gostando de simplesmente ali estar, ou em filas que parecem eternas para visitar a igreja.

E se a uma parte da humanidade viajar não é possível, alguns há que continuam tão só a fugir à guerra ou à fome, como os homens, mulheres e crianças que todos os dias aportam ao largo da costa italiana, e aí por vezes encontram a morte. É ainda desta igreja de S. Pedro que se levanta a voz para lembrar ao mundo a tragédia dessa humanidade que na fuga para um futuro melhor morre às portas do paraíso sonhado.

Os paraíso onde o viver feliz se sonha são isso mesmo, matéria de sonho. E são inesperadas as formas como nos apercebemos quanto o mundo mudou ao longo das nossas vidas levando os paraísos sonhados de um lugar para outro.

Ao viajar por Itália confronto-me com a memória da primeira vez que longamente viajei pelo pais no já distante ano de 1978. Era uma vida diferente, e uma sociedade diferente. O mundo encontrava-se divido em dois blocos e na Europa havia fronteiras entre cada país. O muro de Berlim, de pé, desenhava a fronteira física e psicológica da liberdade.

No ano anterior (1977) tinha vivido por quase dois meses a experiência directa do comunismo na Polónia, paraíso sonhado por muitos e experiência devastadora da crença na possibilidade de um mundo melhor por simples decreto além de preciosa aprendizagem do valor da liberdade.

Quando este ano aterrei no aeroporto da antiga Berlim Leste, foi estranho recordar como 36 anos antes ali estive parado dentro de um avião que seguia para Moscovo com escala em Varsóvia, onde eu desceria, e da janela observava como os passageiros com destino a Moscovo, obrigados a descer do avião, seguiam por uma passadeira entre militares ou policias de espingarda em riste, sabe-se lá para onde. A angústia perante o sem sentido da situação e o absurdo do abuso assombraram-me durante muito tempo.

Foi outra, feliz, e formadora de um gosto, a viagem do ano seguinte a Itália. Ainda há pouco, quando alguém comentava comigo quanto o convívio com as coisas belas acaba por instalar em nós o gosto e o desejo do belo, lembrei dessa viagem um detalhe ocorrido em Verona, que agora recordo.

Representava-se nessa noite na Arena de Verona, majestoso e gigantesco teatro romano ao ar livre, a ópera O Trovador de Verdi. Estando em Veneza, decidi não perder a oportunidade do espectáculo e cedo cheguei a Verona.

Era princípio da tarde e passeando em torno da arena aproximei-me de uma excursão de farnel e garrafão. Eram italianos do sul em viagem de autocarro pelo norte de Itália, na modalidade que ao tempo era habitual entre pessoas de poucas posses: transportar lancheira, fazer piquenique junto ao autocarro, e muitas vezes dormir nele.

Aproximei-me, e a certa altura surpreendi a exclamação de um excursionista para outro: Guarda que bello! (Olha que belo!). Olhava para a arena, extasiado com a beleza do monumento.

Dificilmente entre outros povos, gente da mesma condição económica revelaria em voz alta esta comoção perante o espectáculo da beleza, mesmo que a ela fosse sensível.

O que me comove e surpreende sempre em Itália, é o gosto e carinho com que os italianos vivem o seu património construído e herdado.

Sacrificando o conforto do quotidiano que as construções modernas podem trazer à habitação e ao viver urbano, adoptam os centros históricos e mantêm-nos vivos, criando em quem chega o desejo de ali viver também. Aí vive o comércio tradicional, e a mais sofisticada moda internacional convive quase paredes meias com os géneros alimentares e a venda de arte. E depois as pessoas. Seja Roma, seja uma qualquer cidade média como Pádua, por exemplo, onde num sábado à tarde demoradamente passeei, as pessoas enchem as ruas com comércio, deambulam, param para conversar, vivem o espaço urbano como em Portugal só recordo na longínqua infância, e hoje apenas na zona do Chiado, em Lisboa, acontece.

A foto que hoje arquivo no blog, tirada nessa longínqua visita de 1978, dá conta de uma Praça de S. Pedro vazia durante a tarde, e é uma imagem hoje impossível de conseguir.

Nessa visita, não havia Papa. Tinha morrido Paulo VI e o consistório ainda não escolhera substituto. Os frescos da Capela Sistina ainda não tinham sido devolvidos às cores supostamente originais que hoje podemos admirar. Eram uma acinzentada mancha mal iluminada, onde a custo se divisavam as pinturas que pouco mais de dezena de visitantes observava. Hoje lá estão: esplendorosos, e dificilmente contempláveis entre a compacta multidão que se acotovela e os gritos dos seguranças: é proibido fotografar ou filmar!

Foi Michelangelo (1475-1564) o autor dessas maravilhas artísticas: o projecto da praça, o projecto da igreja e as pinturas do tecto e altar da Capela Sistina.

Artista e espírito da renascença, foi também poeta de génio, e com um seu soneto onde reflecte sobre a pequenez da sua condição humana perante Deus termino este circunlóquio entre o hoje e o mundo de há mais de 30 anos.

“Forse perché d’altrui…”

 

Forçoso é que a piedade enfim me venha,

pra que d’alheias culpas mais não ria,

seguro em meu valor, sem outro guia,

alma perdida que de si desdenha.

 

Nem sei que outra bandeira me mantenha

não vencedor, mas salvo da porfia

com que o tumulto adverso me seguia,

se não é Teu poder que me sustenha.

 

Ó carne, ó sangue, ó lenho, ó dor extrema!

Justo por vós se tome o meu pecado,

do qual nasci e os pais que foram meus.

 

Só Tu és bom: socorra tão suprema

piedade o meu predito iníquo estado:

tão perto a morte, e ainda tão longe Deus.

 

Original italiano

Forse perché d’altrui pietà mi vegna,

perché dell’altrui colpe più non rida,

nel mie propio valor, senz’altra guida,

caduta è l’alma che fu già sì degna.

 

Né so qual militar sott’altra insegna

non che da vincer, da campar più fida,

sie che ’l tumulto dell’avverse strida

non pèra, ove ’l poter tuo non sostegna.

 

O carne, o sangue, o legno, o doglia strema,

giusto per vo’ si facci el mie peccato,

di ch’i’ pur nacqui, e tal fu ’l padre mio.

 

Tu sol se’ buon; la tuo pietà suprema

soccorra al mie preditto iniquo stato,

sì presso a morte e sì lontan da Dio.

Soneto 66 das Rime de Michelangelo

Tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

As três Graças – escultura de Canova e um poema de Rufino

14 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

≈ 2 comentários

Etiquetas

Canova, Rufino

António Canova - As três graças 1Há semanas trouxe ao blog a história do Julgamento de Páris. Hoje, a pretexto da bela escultura de António Canova (1757-1822) figurando As Três Graças, venho com um poema de Rufino.

As Três Graças (Gratiae em latim), de seus nomes Eufrosina Talia e Aglaia, são divindades da Beleza e têm como propósito espalhar a alegria na natureza e no coração de homens e deuses (ainda bem que existem, senão, que seria do mundo?).

Habitualmente representadas como três donzelas agarradas umas às outras, duas olham-se entre si e a do meio olha na direcção contrária. A fonte de todo este conhecimento que vos deixo é o precioso Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. Às graças voltarei, inevitavelmente, tantas sãos as obras de arte que inspiraram.

Por enquanto convido-vos a participar do acontecimento relatado por Rufino.

Rufino, poeta grego contemporâneo de Marcial, como hoje é geralmente aceite, viu-se a certa altura colocado em embaraço semelhante ao de Páris no julgamento da beleza feminina, e da situação deixou-nos a história que segue:

Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,

a mim mostradas no esplendor da nudez.

As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam

marcadas ambas por covinhas graciosas;

a nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha

rubor mais forte que a púrpura da rosa;

as da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas,

palpitavam suaves ao seu próprio impulso.

Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas,

Não quereria saber de mais nenhuma.

Tradução de José Paulo Paes

Acrescento uma outra tradução do mesmo poema, longe, no entanto, do belo efeito poético da anterior. Ressalvo que, se nesta segunda tradução se referem coxas em vez de nádegas, o meu desconhecimento do grego antigo não me permite saber de que parte do corpo constava o julgamento. Posso no entanto referir que José Luís Calvo Martinez, na tradução em castelhano do mesmo poema nos diz a abrir: “Del culo de tres muchachas yo fui juez. …“

Vamos então à tradução do poeta Albano Martins

Fui juiz num concurso de coxas de três mulheres. Foram elas

que me escolheram, me mostraram a nudez esplendorosa

dos seus corpos. Marcada de pregas arredondadas,

a branca doçura das coxas de uma floria.

A carne Nevada da outra, de pernas afastadas, tinha uma cor

sanguínea, mais vermelha que uma rosa purpura.

A terceira mostrava-se serena como um mar tranquilo,

com a pele delicada apenas sacudida por estremecimentos involuntários.

Se o árbitro das deusas Tivesse contemplado estas coxas,

não teria querido olhar as primeiras.

Noticia bibliográfica

Este poema consta dos epigramas amorosos incluídos no volume V da Antologia Palatina, à qual jà me referi noutros artigos, e nela possui o número 35.

Traduções de José Paulo Paes em Poesia Erótica em tradução, ed. Companhia das Letras, 1990 e de Albano Martins em do mundo grego outro sol, ed. Asa Editores II , Porto, 2002.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Riposte – poema de William Carlos Williams

12 Sábado Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

William Carlos Williams

Jackiewicz_W_adys_aw-Akt-VO amor, preocupação permanente da humanidade e assunto eterno da poesia, encontra frequentemente formas inesperadas e tocantes de se exprimir.

Em imagens preciosas de limpidez e concisão compara William Carlos Williams (1883-1963) amor e poesia neste seu poema, Riposte, publicado pela primeira vez em 1917, no livro do estreia do poeta, Al Que Quiere!

Riposte

Love is like water or the air

my townspeople;

it cleanses, and dissipates evil gases.

It is like poetry too

and for the same reasons.

 

Love is so precious

my townspeople

that if I were you I would

have it under lock and key—

like the air or the Atlantic or

like poetry!

Acrescento ao original transcrito uma bela tradução do poeta José Manuel Mendes(1948).

 

Réplica

O amor é como a água,

queridos concidadãos;

purifica e dissipa os gases nocivos.

É como a poesia também

e pelas mesmas razões.

 

O amor é um tesouro de tal modo valioso,

queridos concidadãos,

que, no vosso lugar,

a sete chaves o guardaria —

como o ar ou Atlântico ou

como a poesia!

 

Tradução de José Manuel Mendes publicada no livro Cinzas de Véspera, Dezembro de 2012, em edição do autor, fora do mercado, e para oferta.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Saudade é ter presença e afastamento — poema de Ibn ‘Arabî

09 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Adalberto Alves, Ibn 'Arabî

Gyarmathy_Tihamer-Two_Continents 1952sentir que cada encontro é uma fome.

A voracidade do amor é isto. E que bem o diz Ibn ‘Arabî (1165-1240) o poeta andaluz de quem hoje vos trago dois poemas escritos naquela linguagem sábia e condensada que dá conta de verdades insofismáveis.

 *

na ausência a saudade me consome

mas também não me sacia o achamento

saudade é ter presença e afastamento

sentir que cada encontro é uma fome.

 

paixão é ter remédio e, todavia

é ter visão de nós que em nós desce

não se pode fugir, a ânsia cresce

vizinha de uma mística harmonia.

 

No poema que segue, através de uma surpreendente parábola, conta-nos o poeta de uma evidência raramente apreendida: amado e amada só o são verdadeiramente quando se sentem apenas um.

 **

um dia um amoroso veio bater

à porta da sua bem-amada

e ela, lá de dentro, veio dizer:

quem é? deu ele em responder:

sou eu, minha adorada!

 

disse ela, de seguida, já irada:

os dois não cabemos nesta casa!

 

no deserto ele foi arder a sua brasa

meditando até de madrugada.

 

voltou à porta dela, e bateu

e, uma vez mais, a voz se ouviu:

quem é? és tu! ele respondeu.

e logo aquela porta então se abriu.

As versões são do nosso arabista e poeta Adalberto Alves, e constam do seu livro de poemas, No Vértice da Noite, belíssima edição Argusnauta (editor Luís Gomes), com ilustrações de Figueiredo Sobral, Lisboa, 2007.

E deste livro escolho para terminar, agora de Adalberto Alves, como se à noite o mar…

 

como se à noite o mar…

numa estranha rota iluminada

deixasse livre o sonho esvoaçar:

os rostos que se foram, em parada,

em silêncio nos vêm visitar.

 

sob chuva distante e torturada

que na nossa tristeza deixa os sais,

rostos amados na sua desfilada,

vão-nos dizendo devagar: jamais!

 

como se à noite o mar…

 

me forçasse a perguntar, oh mágoa,

nesta fria margem de ilusão

porque correm os dias como água,

se não passam nem nunca passarão?

 

silente carícia de uma ignota mão

que marcas nas faces o signo da lua

abre-me a alma, fecha-me a razão

dá-me aquela Presença que é só Tua.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Cesariny — romance da praia de moledo e alguns poemas mais

07 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Cesariny

Cesariny - A Antonin ArtaudAgora que o Verão se despede, alguma poesia de Mário Cesariny (1923-2006) a acompanhar o romance da praia de moledo que a seguir transcrevo

canto da hora do banho

ó mar contente, tão frio

que o verde das ondas é neve

fazes meu corpo tão leve,

no ar, vazio!

meus seios, cabelos, tudo é brando!

na mão do mar talhado cerce

vou, como se a um velho comando

desobedecesse!

e raia de leve um sol macio

que ainda não amadurou

frio

de manhã forte e silente

as minhas mãos nem são de gente

são formas de água, de neve

sobre o maillot

Poema de belos versos, ao lê-lo percorre-nos o arrepio de entrar pela manhã na água gelada do mar do norte de Portugal, —...tão frio / que o verde das ondas é neve— numa sensação quase física, e cito de novo: e raia de leve um sol macio / que ainda não amadurou, apanágio apenas da grande poesia, exista ou não o sublime do assunto.

O poema abre o livro burlescas teóricas e sentimentais.

Continuemos com a poesia de Cesariny, e do livro discurso sobre a reabilitação do real quotidiano transcrevo três poemas.

XI

queria de ti um país de bondade e de bruma

queria de ti o mar de uma rosa de espuma

Ouçamos o poeta ler este poema onde a pausa na leitura após um primeiro queria lhe dá um sentido novo.

[audio=
https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Cesariny+-+Discurso+sobre+a+reabilita%C3%A7%C3%A3o+do+real+quotidiano+XI.mp3|bgcolor=FFF9EC|loader=C23A16|titles=XI|artists=Cesariny%5D

Depois deste encontro de desejo, o relato em partes de um acidente urbano: fala o condutor, falam os mirones e relata-nos o poeta o sucedido; tudo com a mestria da concisão poética.

XIX

ia muito bem a guiar o automóvel

quando ao fazer a mudança ( necessária?)

tudo mudou muito mais do que esperava

o automóvel (embora sempre andando) virou caixote do lixo

 

e ela — aflição — passou a ser apenas

um busto fora do caixote fechado

e a dar à manivela muito depressa.

A rua era comprida? perguntou a quem também estava

 

que contou de repente que com ela era assim: uma escada para o alto que nunca mais acabava.

Também havia quem viajasse muito

todas as noites e no mesmo sentido

 

estava esse muito cansado pois com os comboios normais

basta não querer e pronto mas se é sonho

não há manobra possível tem de se ir mesmo

Termino a viagem a este livro do poeta com o famoso poema X

 X

falta por aqui uma grande razão

uma razão que não seja só uma palavra

ou um coração

ou um meneio de cabeças após o regozijo

ou um risco na mão

ou um cão

ou um braço para a história

da imaginação

 

podemos pois está claro

transferir-nos

imaginar durante um quarto de hora

os séculos que virão

— os séculos um

e dois

da colonização —

depois

depois é este cair na madrugada ardente

na madrugada de constantemente

sem sol

e sem arpão

 

faltas tu faltas tu

falta que te completem

ou destruam

não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada

— não, de nenhuma maneira resultante!

nem mesmo o amor

não é o amor que falta

 

falta uma grande realmente razão

apenas entrevista durante as negociações

oclusa na operação do fuzilamento cantante

rodoviária na chama dos esforços hercúleos

morta no corpo a corpo do ismo contra ismo

 

falta uma flor

mas antes de arrancada

 

falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo coma o seu burro

mas que todos os burros se comam a si mesmos

que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e de propensões

se comam a si mesmos

muitas horas por dia até de manhã cedo

até que só reste o a o b e o c das coisas

para o espanto dos parvos

que aliás não estão a mais

 

isso eu o espero

e o faço

junto à imagem da

criança morta

depois que Pablo Picasso devorou o seu figo

sobre o cadáver dela

e longas filas de bandeiras esperam

devorar Picasso

que é perto da criança, ao lado da boca minha

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts

Visitas ao Blog

  • 2.369.876 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Prazeres — de Brecht a Lucrécio
  • Eugénio de Andrade — Green god

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Create a free website or blog at WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d