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vicio da poesia

Monthly Archives: Fevereiro 2013

E. E. Cummings — dois poemas

27 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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E. E. Cummings, Marc Chagall

Chagall_Marc-Russian_Village_under_the_Moon

Em repouso do sublime, trago hoje dois curtos poemas de E. E. Cummings (1894-1962).

São poemas que celebram a mulher amada, nos antípodas da proverbial ironia, ou mesmo sarcasmo, do poeta, cristalizada nos conhecidos versos:

as senhoras de Cambridge que vivem em almas mobiladas
são desgraciosas e têm pensamentos confortáveis
…

Para a mulher amada encontra não uma alma mobilada, mas

a lua esconde-se no /cabelo dela.,

belos versos a que outros se acrescentam:

quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,…

Espero ter-lhe aberto o apetite e deixo-o, leitor, com os poemas na totalidade.

*
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)

contra o silêncio,ou a escuridão….

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

—e então somos Eu e Ela….

o que é isso que o realejo toca

**
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce

encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,

Recita
sobre a sua
carne
as pérolas

da chuva uma a uma murmurando.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro, in livrodepemas, ed Assírio & Alvim, 1999.

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Com a poesia de Frei Agostinho da Cruz

26 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Albrecht Dürer, Frei Agostinho da Cruz

Dürer - Estudo de mãos 02A…
O mundo é sonho vão, que enleia a vida,
Quem nele está melhor, tem pior alma
E quem o desprezou, tem alma e vida.

Afasto-me hoje da prosaica poesia contaminada de quotidiano por onde tenho circulado, e dirijo-me para as auras poéticas da transcendência do ser, guiado pela inspiração de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619).

Irmão mais novo do poeta Diogo Bernardes, fez-se monge capuchinho arrábido aos 20 anos e professou no conventinho da serra de Sintra, onde viveu até aos 65 anos. Por essa altura, em 1605, pediu para viver como eremita na serra da Arrábida.

Por vezes atormentada, a sua poesia é sobretudo uma contemplativa reflexão do homem que escreve num soneto que mais à frente transcrevo:

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,

Ou num outro soneto:

Acostumado tinha o sofrimento / A um mal, que já de antigo não sentia,
…
Dantes somente amor me perseguia, / Agora amor, fortuna e pensamento.
…

Estes tormentos do mundo são mitigados com a fé religiosa onde o monge procura apoio, por exemplo nesta espécie de orações em soneto para protecção de sonhos pecaminosos ao deitar, e enlevo do dia, ao despertar:

Ao recolher à noite para dormir

Omnipotente Deus, que o sol criastes
Presidente da luz do claro dia,
E o governo da noite escura e fria
À inconstante lua encarregastes:

Por refugio das gentes ordenastes
O repousado sono que alivia
O diurno trabalho e agonia,
A que nossa natureza obrigastes.

Pois deste se aproveita o inimigo,
Representando em sonhos e alusões,
Com que a vossa majestade ofendamos:

Livrai-nos do mal dele, e do perigo
De seus ardis e torpes invenções,
Por que dormindo ainda vos sirvamos.

Ao levantar da cama

Graças vos dou, Senhor, que da escura
Noite e perigos dela me livrastes,
Deste dia ver a luz deixaste
A mim humilde vossa criatura.

Fazei que esta alma seja nele pura
E limpa de pecado, pois a amastes,
E para me salvar do céu baixastes,
Tomando a carne nossa a figura

Com todo coração, e de vontade,
Com a palavra, obra e pensamento
Vos sirva, louve e ame neste dia.

Louvando vossa eterna majestade,
A meu obrar dareis merecimento,
Para gozar no céu vossa alegria.

Na simplicidade da vida monástica e no encontro com a natureza, sentiu a proximidade e o conforto de Deus.

Façamos primeiro uma curta digressão por alguma da poesia inspirada na natureza da serra da Arrábida.

Na Serra D’Arrábida

No meio desta serra, onde se cria
Aquela saudade d’alma pura,
Que no duro penedo acha brandura,
Ardente fogo dentro n’água fria:

Ouço do passarinho a melodia,
Vejo vestir o bosque de verdura,
Variar-se no céu outra pintura,
Que em vários sentimentos me varia.

Pasmando de quam mal se gasta a vida
De quem na terra quer subir ao céu
Pois caminhar em fim ninguém duvida.

Menos da vida estreita que escolheu,
Dos seus mais escolhidos mais seguida,
Christo Jesu, que numa Cruz morreu.

Da contemplação a mesma

Dos solitários bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
N’esta serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais fermosura.

Que tem quem tem na terra mór ventura,
Nos mais altos estados arriscada,
Se não tem a vontade registada
Nas mãos do Criador da criatura?

A folha que no bosque verde estava,
Em breve espaço cai, perdida a flor,
Que tantas esperanças sustentava.

Por isso considere o pecador,
Se quando na pintura se enlevava
Não se enlevava mais no seu pintor.

Da poesia que deixou, alguma foi publicada parcialmente a partir de cancioneiros manuscritos, já bem entrado o século XVIII. O conjunto da obra aguarda ainda, ao que suponho, uma edição crítica.

No sabor maneirista destes sonetos encontramos o homem incerto de si, em suave conflito com as paixões terrenas e de pensamento virado para o além.

*
No silêncio da noite, em que vigio,
Desterrado da terra o pensamento,
No que dentro nesta alma represento,
Ora me aquento mais, ora me esfrio.

E pera temperar fogo com frio,
Em que me esfrio mais, ou mais me aquento,
Dos efeitos do puro sentimento
Na minha saudade choro e rio.

Depois destes contrários temperados
Na môr quietação, na môr brandura
Meus pensamentos ficam sepultados:

Temperada a frieza na quentura
Do meu divino amor tão apurados,
Que me deixam em paz na sepultura.

Chora os desvarios da sua desaproveitada mocidade

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos:

Onde mais claros vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deus acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito.

Cuja pena a velhice está purgando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.

Da emenda

Concluído me tenho a mim comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razoes claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, por môr perigo
Meu amigo consigo a mim me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitários bosques enramados
De feras bravas, mansos passarinhos.

Que inda que entre os espinhos conversados,
Mais quero pés descalços entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.

À sua inalterável confiança em Deus

Ancorou-me a velhice no remanso
Deste mar oceano, largo e brando,
Onde não tenho já que andar remando,
Nem querer noutra parte melhor lanço.

Neste repouso meu, em que me lanço,
E me levanto sempre desejando,
As forças se me vão acrescentando
Para alcançar um bem que não alcanço.

E tendo já no mar ferro lançado,
A confiança minha não se altera,
Por mais que o bravo mar vejo alterado.

Antes mais firma e forte preservera,
Que quem só no seu Deus tem ancorado,
Do bem se logra já, que ter espera.

À morte

Os correios da morte são chegados
Por caminhos antigos, impedidos
Mal com meus olhos, mL com meus ouvidos,
ML com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
De conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo e morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na Cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.

*

Contentamentos meus que já passastes,
Trocando a vida alegre, que vivia,
Por este mal, que passo, que um só dia
Me não deixam, depois que me deixastes.

Acabar me convém, pois acabastes
De dar-me o desengano, que encobria
Uma esperança vã, que me trazia
Contente, a qual também me já tirastes.

Os olhos, que Amor sempre guiava
Aonde eu tinha firme o pensamento,
Quando vossa presença os alegrava;

Agora chorarão vosso apartamento,
Que lhe tirou um bem, que os sustentava,
E só de vós ficou o sentimento.

Depois desta curta visita onde alguns momentos poéticos nos consolam, termino com a transcrição completa dos sonetos citados no inicio.

*

Acostumado tinha o sofrimento
A um mal, que já de antigo não sentia,
E posto que era grave, nele via
Que o uso diminui o sentimento.

Ordenaram-me os céus novo tormento
No tempo, que esperei nova alegria;
Dantes somente amor me perseguia,
Agora amor, fortuna e pensamento.

A lembrança dos bens, que noutro estado
Teve este peito meu, que em chamas arde,
Está levando sempre meu cuidado.

Choro a noite, a manhã, a sesta e a tarde,
Mas não devo estar desesperado,
Pois não se escusa a morte, inda que tarde.

*

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Continuo contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Velo seguro o dano, o bem incerto,
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormente, menos sinto,
O bem fogo, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte onde está escondida
A causa deste vario movimento.

Transforma-se por não ser conhecida,
Por que quer apesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.

Os sonetos transcritos, com modernização da ortografia, constam de Poesia Inéditas de Frei Agostinho da Cruz, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924.

O desenho com as mãos em prece, que abre o artigo é do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), tal como o desenho de um velho com que encerro esta espiritual visita

Durer_Albrecht-Study_of_a_Man_Aged_93

 

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Veneza pelo pincel de Francesco Guardi

21 Quinta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Francesco Guardi

guard299

São irresistíveis as pinturas de Francesco Guardi (1712-1793) sobre Veneza. Fazendo uso daquele peculiar colorido que transforma as vistas de Veneza em imagens de sonho, a técnica de pintura, em que edifícios e gente são apenas insinuados na sua mancha identificável, transmite simultaneamente o prazer do reconhecimento e da estranheza, convidando o olhar a demoradamente nelas passear. Deixo-vos com uma pequena escolha.

guard312

guard313

14

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Veneza em 2 poemas de Aleksandr Blok e pintura de Canaletto

21 Quinta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ 2 comentários

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Aleksandr Blok, Canaletto

Canaletto - 1732 a

À imagem iconográfica de Canaletto (1697-1768) com que abre o artigo, dando a ver a Veneza do século XVIII, que em grande parte hoje se conserva, acrescento 2 poemas de Aleksandr Blok (1880-1921), poeta russo, o mais velho daquela geração que sucumbiu ao avançar da revolução soviética para o estalinismo, triturando todos os movimentos artísticos de vanguarda que a revolução permitira e desenvolvera.

Veneza II

Pelas lagunas, frio vento.
Gôndolas – mudas tumbas.
Esta noite, jovem e doente,
Sob a coluna do leão sucumbes.

Na torre, com uma canção de chumbo,
Os gigantes dão a hora noturna.
Na laguna lunar Marcos mergulha
Sua iconóstase soturna.

Nas sombras das galerias dos palácios,
À palidez da lua –  passos.
Salomé, esgueirando-se, passeia
Minha cabeça em sangue nos seus braços.

Tudo dorme – palácios, canais, gente.
Só o passo deslizante da princesa
Só – sobre o peito negro – uma cabeça
Contempla a treva em torno com tristeza.

Veneza III

O barulho da vida já não dura.
A maré de inquietudes se quebranta.
E no veludo negro o vento canta
Minha vida futura.

Talvez despertarei noutro lugar,
Quem sabe nesta terra entristecida,
E algumas vezes hei de suspirar
Pensando em sonho nesta vida?

Mercador, padre, arrais, neto de um doge,
Quem me fará viver? Que criatura
Há de forjar com minha mãe futura
Na noite escura a vida que me foge?

Quem sabe até, ao escutar o canto
Da jovem veneziana, comovido,
O meu futuro pai por entre o encanto
Da canção já me tenha pressentido?

Quem sabe em algum século vindouro
A mim, criança, a sorte me consente
Abrir as pálpebras, tremulamente,
Junto à coluna do leão de ouro?

Mãe, o que canta este áfono instrumento?
Talvez a fantasia já te embale
E me protejas com teu santo xale
Da laguna e do vento?

Não! O que é, o que foi – tudo está vivo!
Fantasias, visões, ideias – tudo!
A onda do oceano recidivo
As despeja na noite de veludo!

Traduções de Augusto de Campos, in poesia da recusa, Perspectiva, São Paulo, 2006.

Apenas a biografia e a peculiar disposição do poeta Aleksandr Blok explica esta atmosfera de morte que percorre os seus poemas evocando Veneza, os quais integram os Versos Italianos de 1909.

Provavelmente a cidade que ele conheceu não foi a Veneza que em meados dos anos 70 conheci e me apaixonou como a mais bela das cidades, onde a ausência de ruído automóvel e o som dos passos no empedrado de calçadas e pontes fazia o mundo parecer de uma magia fora do meu tempo.

Hoje, a avalanche turística permanente fez desaparecer grande parte dessa magia, mas há um encanto que permanece e faz desejar voltar a Veneza, sempre.

Termino com mais 3 vistas de Veneza pelo pincel mágico de Canaletto.

Canaletto - 1728

Canaletto - 1732 b

Canaletto - 1732

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Mulheres na pintura de Ingres (II) e ainda Le violon d’Ingres

20 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia

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Ingres, Man Ray

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Half-figure_of_a_Bather

Porque a vida não é apenas metafísica, tenho que confessar uma fraqueza: a contemplação na cama de uma mulher nua, de costas, onde as formas dos ombros à anca se desenvolvem como se de um violoncelo se tratasse, é música para os meus olhos, e todo o corpo vibra. As mãos percorrem em caricias aquelas suaves curvas e o concerto em que tudo termina deixo à vossa imaginação adivinhar.

Sendo a natureza naturalmente diversa e pródiga, permitindo este encanto musical em muitas das suas belas criaturas, há no entanto uma fotografia famosa de Man Ray (1890-1976) que consagra este esplendor da forma feminina, talvez de forma definitiva,

Man Ray - Le violon d'Ingres

e que não por acaso, o mestre, em homenagem às belas mulheres pintadas por Ingres, chamou Le violon d’Ingres.

A homenagem é justíssima pois à harmonia de formas, pose e colorido de cada uma das pinturas que a seguir arquivo, só falta o nosso “arco” para fazer a música soar.

Olhai e sentí:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Bather

Certamente encantado com a obra, ei-la de novo com outro fundo:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Small_Bather

e como o que realmente importa é o que está na frente, aí ficam alguns inspiradores resultados.

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Study_for_Roger_freeing_Angelica

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Birth_of_Venus

Como O Banho Turco e A Fonte podem ser encontrados algures no blog, termino com A Grande Odalisca

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Grand_Odalisque

Uma nota a propósito da foto de Man Ray, Le violon d’Ingres de 1924

Le violon d’Ingres era, não sei se ainda em uso, uma expressão idiomática francesa para exprimir ocupação de ócio, ou hobby.

A foto, cuja modelo é Kiki de Montparnasse, pode oferecer a leitura a partir do título, de que se o hobby de Ingres era tocar violino, o de Man Ray seria ocupar o tempo livre com Kiki, de resto modelo de outras fabulosas fotos do mestre. De caminho, cada um de nós pode embalar a imaginação nesta espécie de ocupação do tempo livre, tocando as cordas de quem mais lhe apetecer.

 

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A parábola dos cegos de Pieter Brueghel o Velho, e o poema de William Carlos Williams

19 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Pieter Brueguel o Velho, William Carlos Williams

Parábola dos cegos 01A par dos valores intrinsecamente plásticos na pintura de Pieter Brueguel o Velho (1525-1569), que nos encantam o olhar pelo movimento e colorido das cenas pintadas, existe um lado documental sobre aquele mundo do século XVI longe a vida da corte, que transforma a contemplação desta pintura num mergulho na história e vicissitudes da condição humana.

Escolho para hoje a ilustração da parábola dos cegos, que no terrível da sua representação nos compunge e empurra para a reflexão sobre o que nos nossos dias de semelhante existe.

Enquanto leitura metafórica, a pintura remete-nos para a cegueira com que cada homem caminha na vida, seguindo os outros e não buscando por si o seu caminho, num percurso em que o tropeçar nos erros e no desconhecido é inevitável. Esta cegueira metafórica, no contexto da época do pintor, é sobretudo moral e religiosa, a qual conduz à miséria da vida terrena.

O poeta norte-americano William Carlos Williams (1883-1963) reflectiu em poesia, num famoso livro de 1962, e prémio Pulitzer, Pictures from Brueghel and Other Poems, sobre esta obra. No final transcrevo o poema no original, The Parable of the Blind, desconhecendo se existe alguma versão portuguesa dele.

Agora alguns detalhes de tão fabuloso quadro.

Parábola dos cegos 03

Parábola dos cegos 091

Parábola dos cegos 08

Parábola dos cegos 09

Parábola dos cegos 092

The Parable of the Blind

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

 

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Um poema de Wu-ti em versão de António Ramos Rosa

18 Segunda-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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António Ramos Rosa, Archipenko, Poesia Chinesa Antiga, Wu-ti

Archipenko - Torso no espaço

Aí, Senhora minha,
que deixei de ouvir
o roçar da seda
do vosso vestido.

Já o pó se acama
sobre o chão dos pátios
do palácio onde
não mais passeais.

As folhas mortas
vão-se amontoando
diante da porta
p’ra sempre fechada.

E o silêncio do
palácio nunca mais
será quebrado pelo
lindo riso vosso.

Meu pobre coração
não encontra sossego
e, sem esperança alguma,
em vão por vós chama.

Versão de António Ramos Rosa (1924), in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Embora sem informação editorial nesta versão, suponho que se trata de um poema do 6º imperador da dinastia Han, Wu-ti, que viveu entre 157-87 a. C, e não de c. 200 como assinalado na edição portuguesa.

O poema terá sido escrito em lembrança da sua amante Li Fu-jen, quando esta morreu.

Acrescento a versão inglesa do poema por Arthur Waley, a qual, no confronto com o português, permite saborear melhor a beleza da versão de António Ramos Rosa, na quase imponderável leveza do vocabulário, transmitindo-nos aquela espécie de silêncio que a ausência convoca.

LI FU-JEN

The sound of her silk skirt has stopped.
On the marble pavement dust grows.
Her empty room is cold and still
Fallen leaves are piled against the doors.
Longing for that lovely lady
How can I bring my aching heart to rest?

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura/colagem de Archipenko – Torso no espaço.

Archipenko (1887-1964), conhecido sobretudo como escultor do Construtivismo soviético, possui também algumas belas obras de pintura/tecnica mista que noutro artigo arquivarei.

 

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O desejo, canção da Grécia, em versão de Herberto Hélder

17 Domingo Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Herberto Helder, Poesia Grega Antiga

Rune T 02É numa linguagem de oráculo que Herberto Hélder (1930) nos dá a versão dum poema da Grécia arcaica, originário de Epiro, a que chamou O DESEJO.
Podemos escolher entre os versos e desdobrá-los de significados, e a cada leitura novas leituras se nos oferecem, nesta ansiedade de amor:

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, / eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

Continuamos a leitura, e ouro, vermelho, maçã, são as palavras/imagens por onde o desejo se espraia.

Ler o poema é penetrar um pouco no mistério do desejo e na dificuldade da sua verbalização.

O DESEJO
(Canção)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Versão de Herberto Hélder, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

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Mulheres na pintura de Ingres (I)

16 Sábado Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Ingres

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_MoitessierEm viagem a Londres, anos vai, aconteceu estar em exibição um vasto conjunto de pintura de retrato de Ingres.

Ingres (1780-1867) era para mim, até ver as obras nessa exposição, um pintor que pouco me chamava, parecendo-me os seu retratos um tudo-nada decorativos.

A demorada observação do detalhe fez-me compreender a importância daquele preciosismo pictórico no impacto da imagem. Aquelas mulheres olham-nos de frente quase sempre, senhoras de si e da sua condição e falam connosco. Há uma verdade humana nestas pinturas que não condescende com hipotéticos cânones de beleza feminina, e são mulheres de carne, osso e sentimento que nos são reveladas. Ora vejam:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Gonse

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Delphine_Ingres-Ramel

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_Jacques-Louis_LeBlanc

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Baronne_James_de_Rothschild

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Princess_de_Broglie

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Moitessier_Standing

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Marcotte_de_Sainte-MariePoderia fazer-se, a partir de cada um destes retratos, e não conhecendo nada da biografia das retratadas, uma história de vida, de sentimentos e condição social, enquadrada, está bem de ver, na sociedade francesa da primeira metade do século XIX. Estes retratos são bem o contraponto pictórico de algumas heroínas de Balzac e da sua Comédia Humana.

Ingres é também autor da pintura de alguns dos mais belos nus da tradição ocidental. Mostrá-los fica para outro dia.

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Erros meus… com Camões e a glosa de Gastão Cruz

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Camões, Gastão Cruz, Paul Klee

Klee_Paul-SiblingsPor muito que estejamos convencidos do acerto das nossas escolhas, uma vez por outra ou o desânimo, ou as contrariedades, ou a constatação pela evidência do erro, conduzem-nos a reflexões próximas das de Camões no famoso soneto que hoje trago, sem que, evidentemente, as consigamos expressar com a elegante inspiração do nosso génio maior.

As escolhas, os enganos, a sorte, tudo lá está, na concisão que o soneto exige, servido pela admirável simplicidade de uma linguagem que nos faz participar desse destino.

Na perpétua releitura a que os clássicos convidam, os nossos poetas, por vezes, encontram aí inspiração. É o caso, hoje, de Gastão Cruz (1941) que ao famosíssimo soneto de Camões

[Erros meus, má fortuna, amor ardente]

foi buscar âncora para a glosa que o seu poema Erros traduz.

É num diálogo com o soneto de Camões que o poema de Gastão Cruz se inicia, ganhando rapidamente o caminho da interrogação própria do poeta, atendo-se apenas às perplexidades do amor e que o tempo se encarrega de esgotar:

em que tudo era eterno e só durou / o espaço da manhã do teu sorriso

…

frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas…

A simplicidade da linguagem acompanha o soneto de Camões, um dos motivos porque ele continua a falar-nos, e a reflexão desencantada de Gastão Cruz termina sem resposta à interrogação inicial:

Não sei se má fortuna erros decerto / erros somente?…

Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

Para o caso de haver leitores a quem o soneto de Camões não seja familiar, ele aqui fica, sem comentários intrusivos.

Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

A pintura, de Paul Klee, que abre o artigo, é de 1930.

Noticia bibliográfica

O poema Erros de Gastão Cruz inclui-se no livro Crateras, publicado em 2000, suponho. Esta transcrição foi feita a partir da poesia reunida do poeta OS POEMAS (1960-2006), ed. Assírio & Alvim, 2009.

O soneto de Camões, publicado pela 1ª vez em 1616, é aqui transcrito com actualização ortográfica de Maria de Lurdes Saraiva, e consta de Lírica Completa II, INCM, 1980.

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