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vicio da poesia

Tag Archives: carlos mendonça lopes

Notícias do Paraíso, também por Zbigniew Herbert (1924 – 1998)

03 Sexta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Zbigniew Herbert

Anoitecera há pouco.

Por quilómetros estendia-se o areal deserto.

No horizonte do mar surgiam ao longe as silhuetas dos apanhadores de conquilha.

Do azul rosado do poente ergue-se majestosa a lua, cheia, neste Agosto de prazer.

Corre sobre o mar uma ligeira brisa temperando o ar quente que se mantém acima dos 30ºC.
Lambendo a areia da baixa-mar vêm as ondas mansas marulhar junto ao corpo que deitado se enleva nesta doçura de paraíso. E o banho, inevitável, surge. Qual Adão antes do pecado original, mergulho e aí vou, em movimentos que parecem surgir naturalmente, no indescritível prazer do fluir da água até ao mais recôndito da alma.

É de um outro paraíso que nos fala o poema de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) que hoje transcrevo. Eivado dos pressupostos cristãos e longe do panteísmo por onde acima andei, afirma ele, como verdade revelada, que “na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado“. Todos aceitamos que sim. Por isso mesmo se chama paraíso!
De qualquer forma, é comovente a visão que nos descreve dos proletários celestes: envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos.
Ao genial poeta polaco regressarei com mais detalhe.

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A principio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz.

Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

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Abelardo, o membro: uma fantasia

02 Quinta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Prosas

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carlos mendonça lopes, Tom Wesselmann

Entra Agosto, chegam as férias, e neste sem-que-fazer vasculho papéis esquecidos, ou antes, vasculho ficheiros esquecidos. De entre o que encontrei surgiu esta história com Abelardo, o membro por protagonista, de que vos deixo uma versão curta.

Abelardo, o membro: uma fantasia

– Estou chateadíssima. Então não é que o Abelardo se estragou.
– Não me digas.
– Digo sim! Imagina tu que o Zé anda a ler uma história qualquer passada no Iraque. Encontrou lá descrita uma cena de sexo que o excitou e quis reproduzir. Então, quando estávamos na cama insistiu para que lhe enfiasse qualquer coisa no traseiro. Lembrei-me de lhe enfiar o Abelardo, mas qual quê? Eu bem o apertava, o esfregava e nada, o Abelardo ficava mole, fugia, escorregava, até parecia ter vida para se recusar a entrar ali. Nunca tinha acontecido comigo. Depois de tudo isto, o Zé desistiu e como calculas ficou furioso. Agora tenho bem umas semanas de jejum. E sem o Abelardo não sei como vai ser.
– Compra outro.
– Já não há. Fui à procura e desapareceu.
– Mas onde é que o compraste?
– Comprei na internet. Procurava um vibrador com o tamanho a que estava habituada e lá estava:
“Abelardo, o conforto das noites solitárias:
Dimensões: 18 x 4cm
Preço: 80 € + despesas de expedição
Fazem-se entregas em mão ou por correio em embalagem discreta.”
Decidi-me, e desde então tem sido do outro mundo. Até ao outro dia que se avariou. Como estava dentro da garantia, devolvi-o, mas responderam-me hoje dizendo que daquele modelo não havia mais. Fôra um sucesso e esgotara rapidamente. Poderiam enviar de outro tipo.
Não tenho esperança nenhuma. Este Abelardo era tão especial!
De repente pareceu-lhe ouvir uma voz dentro da cabeça:
– Pois é Alda, o vibrador que a consolou não era um vibrador qualquer, era não só especial, mas único. Guardava nele a essência da voluptuosidade desde tempos imemoriais.
– Hélia, parece-me que não me estou a sentir muito bem. Tenho a impressão de ouvir vozes na cabeça. Vou voltar para casa, tomo um chá e um Xanax e vou ver se acalmo.
– Queres que vá contigo?
– Não, não te incomodes. Apanho um táxi e vou. Táxi! Táxi!.
Parou um táxi, despediram-se e entrou. Sentada continuou a ouvir a voz. Era uma voz calma, pausada e deixava uma sensação de vir de fora do tempo: Esse vibrador, Alda, possui uma história que talvez goste de conhecer.
Indicou a morada ao taxista e encostou-se no banco. Pareceu-lhe até que adormecia.
Entretanto o taxi chegou a casa. Pagou e saiu. Sentia-se um pouco zonza, talvez por ter dormitado. Em casa tirou o casaco, descalçou-se, mudou de roupa e foi à cozinha. Pôs uma chávena com água no microondas para fazer chá. Ia buscar os comprimidos quando a voz de novo lhe apareceu:
– Não tome comprimidos, vão fazer-lhe mal. Sente-se no sofá com o chá e ouça-me.
Cada vez mais intrigada, e até um pouco assustada, sentou-se com a chávena e a saqueta do chá na mão.
– Sabe Alda, o Abelardo estragou-se porque o quis obrigar a penetrar um homem, a única coisa que nunca fez na vida e estava impedido de fazer. Agora que o devolveu ao fabricante irá certamente para o lixo e perder-se-ão, talvez para sempre, as suas virtualidades, a menos que o salve algum poder sobrenatural, o que nem será improvável a atender às vicissitudes por que passou ao longo dos séculos até lhe chegar às mãos.
– Que conversa tão estúpida. Só há vibradores há meia dúzia de anos, não conseguiu impedir-se de dizer em voz alta.
– É verdade, só há vibradores há meia dúzia de anos, mas a borracha com que este vibrador foi feito teve uma adição especial. Proveio de um lote de preservativos usados e recolhidos para reciclagem. Vai concerteza querer saber os pormenores.
– Talvez, pensou intrigada. E a voz prosseguiu:
– Nestes tempos de HIV, James Bond, em quem eu habitava, a conselho insistente do estúdio cinematográfico, resolveu adoptar o uso de preservativo nas suas actividades, e assim, num dia de distracção e grande azáfama, fui levado dentro de um preservativo usado. Foi um acidente sério. Diz-se até que por causa disso o próximo James Bond será casto. O caminho até James Bond foi acidentado e cheio de peripécias. Do que aconteceu ao preservativo conto mais à frente.
Cheguei a James Bond através de uma figurante do seu primeiro filme, e com ele permaneci até à fatídica distracção. Foram tempos bons, belas mulheres, hotéis de luxo, uma vida de correria à roda do mundo, enfim, do melhor que me recordo.
Mas voltando à rapariga, ela tinha sido modelo de Picasso, e num daqueles processos porque a providência me fez passar de geração em geração, a bela moça recebeu-me do pintor e passou-me ao James.
Foi já avançado na idade que Picasso, ao ter relações com a jovem modelo, depositou nela sem o saber a essência da virilidade masculina de que era no sec XX o guardião, numa cadeia que se transmitiu entre artistas e outros homens de génio desde há séculos. Tão infausto acontecimento foi o inicio da conhecida impotência do pintor no final da vida, com as consequências visíveis na sua obra pictórica.
– Começa a interessar-me a história, disse Alda de si para si.
E a voz continuou:
– O percurso desta essência através dos tempos tem despertado curiosidades, sobretudo num Sr. Borges, que se tem esforçado por a conhecer, mas não tem sido fácil de reconstruir, e o próprio tem ainda saltos e lacunas por preencher. Também já não serei de grande ajuda pois sinto a memória a esvair-se, agora que o principal de mim desapareceu. De alguma maneira a senhora é responsável por ter enviado para o lixo parte importante e essencial da virilidade masculina tal como tem sido conhecida até aos nossos dias.
Mas voltemos ao preservativo. Como as exigências explicitas no estúdio cinematográfico eram de reciclar tudo o que fosse reciclável, o preservativo que me continha foi incluído num lote de borracha para esse fim. O lote foi vendido a um fabricante de vibradores e assim me vi dentro de uma dessas peças infernais que só funcionam a pilhas. Eu nunca precisei de pilhas para funcionar pelo que transformei um banal vibrador na peça especial que conheceu.
Cada vez mais intrigada, Alda não resiste e pergunta-se:
– Abelardo, mas Abelardo porquê? Ainda se se chamasse Picasso ou James Bond, percebia-se. E aí a voz continuou:
– O fabricante de vibradores pretendia lançar num mercado tão competitivo como é o dos acessórios de sexo, onde todos são iguais parecendo diferentes, mais um produto que, sendo igual, chamasse sobre si as atenções. Contratou os serviços de uma agência de publicidade da qual recebeu diversas propostas insatisfatórias, até que uma noite lhe ocorreu: pois é, a diferença está no nome. Tinha visto na televisão um programa de um grupo de rapazes a dar pelo nome de Gato Fedorento.
Vibrador com nome era de facto um pouco estranho mas permitia ao possuidor criar uma relação afectiva com o objecto sem precisar estar a imaginar mais nada. Entre os nomes que lhe iam surgindo nenhum parecia suficientemente apelativo até que lhe segredei:
– Abelardo.
– Abelardo? É nome de gente? Ah pois é! É aquele que foi castrado por seduzir a aluna Heloísa, e a família não gostou. É isso mesmo!
Ao outro dia deu instruções ao departamento de promoção. A nova linha de vibradores teria nome e chamar-se-ia “Abelardo, o membro”.
– Podem começar a ter ideias sobre o aspecto gráfico da embalagem, ordenou.
Embalado e anunciado, fui posto à venda na internet com outros vibradores do mesmo lote de borracha, mas os outros não me continham. Ao que sei venderam-se depressa, sem que o nome de baptismo tivesse qualquer interferência nisso. Eu fui comprado pela senhora e tivemos as alegrias de que se recorda. Entretanto aconteceu a desgraça com o seu marido, e agora acabou-se de vez Abelardo.
Alda com um estremecimento, levantou-se e disse alto:
– Vou mesmo tomar um Xanax e ver se durmo. Já ouço vozes na cabeça há tempo de mais, devo estar a ficar maluca.

Epílogo

Devolvido o vibrador ao fabricante, como não funcionava foi separado para reciclagem.
Acabou incluído num lote que serviu para fabricar o boneco E.T. do filme de Spielberg do mesmo nome.
Provavelmente, e a acreditar no filme, a essência do nosso Abelardo estará agora no espaço sideral, quem sabe se ganhando nova vida entre os extra-terrestres.

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Partir, e Álvaro de Campos na bagagem

28 Sábado Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, carlos mendonça lopes, Fernando Pessoa

Com as férias em perspectiva, o sentimento da viagem surge-me em contradição. Partir, sim! Buscar o quê? Repouso pede-me o corpo. Aventura, reclama a imaginação. Não direi como Álvaro de Campos que “Nunca…Perco…Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,“, mas o desconforto do desconhecido ganha um peso que é ao fim e ao cabo uma espécie de “opressão [que] se infiltra no fundo do meu coração.“

I

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

O heterónimo de Fernando Pessoa disse muitas vezes algo do que sinto. Felizmente nunca me sinto Álvaro de Campos mas a espaços tropeço nos seus versos com um fugaz sentimento de identificação. A catarse pela poesia pode acontecer. Ler o que em silêncio cogito introduz a distância que devolve a lucidez. E se num primeiro momento domina o “Volta amanhã, realidade! / Basta por hoje, gentes! / ​Adia-te, presente absoluto! / ​Mais vale não ser que ser assim. “, há uma vontade interior que cresce e “Ergo-me de repente todos os Césares. / ​Vou definitivamente arrumar a mala. / Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; / ​Hei de vê-la levar de aqui, / ​Hei de existir independentemente dela.” .

II

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
​Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
​Acendo o cigarro para adiar a viagem,
​Para adiar todas as viagens.
​Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
​Adia-te, presente absoluto!
​Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
​Tenho por força que arrumar a mala,
​A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
​Tenho que existir a arrumar malas.
​A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
​Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
​Sei só que tenho que arrumar a mala,
​E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
​E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
​Vou definitivamente arrumar a mala.
​Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
​Hei de vê-la levar de aqui,
​Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
​Salvo erro, naturalmente.
​Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
​Fim.

Afinal não sou o poeta, mas alguém que anseia ir ao encontro das raízes, e vou para Tavira, sem o desejo de que “Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, / ​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.“
Que o infinito permaneça longe de mim, desejo!

Nota talvez desnecessária

O heterónimo Álvaro de Campos criado por Fenando Pessoa, foi concebido como tendo nascido em Tavira, minha terra natal, como é sobejamente conhecido dos leitores habituais do blog.

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Urban Views – fotografias

12 Terça-feira Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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carlos mendonça lopes

Tão longo silêncio no blog deveu-se à preparação do livro de fotografias URBAN VIEWS que acabei de publicar em versão iBook para iPad e iPhone e em impressão a pedido em grande formato de 30×30 cm através do site bulrb.com.

Deixo o link para os leitores que tiverem curiosidade de o folhear.

LINK para URBAN VIEWS

Por algum tempo o livro ficará disponível para visualização integral no site do editor.

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da fermosa benfeitoria (rimas obscenas) – livro e e-book

01 Terça-feira Maio 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes

É com entusiasmo que vos falo da estreia em livro do meu heterónimo, Carlos Mendonça Lopes, com este da fermosa benfeitoria (rimas obscenas).

Somos da mesma idade embora ele insista em parecer mais novo. Quando me falou da ideia de publicar este livro, pensei: que falta de senso! Apesar de me parecer bom rapaz, tem às vezes pancada. E esta de insistir em publicar rimas obscenas, não lembrava ao diabo. Espero bem que brevemente dê a lume coisa mais séria. Mas o que segue é que, para lá do que está escrito no livro, e haverá quem goste e quem deteste (é a vida!), o livro ficou muito bonito. É também opinião de quem já o viu.
Deu-se ao trabalho de apresentar estas rimas seguindo o exemplo de Camilo Castelo Branco na abertura do livro Nostalgias, com um aviso aos distraídos:

Parafraseando Camilo Castelo Branco no seu Nostalgias (Ultima Prosa Rimada)  direi que estas rimas obscenas, a que não chamarei “poesias”, para não desflorar as virginais transcendencias da Grande Arte…   foram escritas como exercícios de desenfado ao correr dos anos, sem qualquer pretexto directo. As afinidades identificadas tornaram-se evidentes a posteriori, e dão conta de um demorado convívio com a poesia erótica do cânone ocidental.

Mas afinal de que trata o livro? perguntará o leitor cheio de curiosidade. Eis o assunto:

Num diálogo com alguma herança poética europeia entre a antiguidade clássica e o século XIX, e tomando o sexo por assunto, da fermosa benfeitoria  (rimas obscenas), ilustrado  com a reprodução de 16 pinturas da erótica japonesa de oitocentos, reúne  rimas originais de sabor popular, ecoando o mito do pintor  e  modelo  forjado  no século  XIX,  a poesia erótica  de Paul Verlaine,  os contos libertinos de La Fontaine,  a poesia de Catulo  e  Ovídio,  e os  poetas  Bocage  e  Junqueiro. Termina  com uma epifania decorrente da religião. No final as evocações poéticas são convenientemente dilucidadas.

Justifica-se o homem, para publicar este livro, ter aprendido com uma ex-namorada que o sexo deve ser matéria de conversação social. Ora aí tem leitor(a): Quando numa conversa de amigo(s) o leitor(a) puxa do seu iPhone ou iPad e começa a mostrar o livro, as imagens, as rimas, ou então, na sala, tira o livro da estante e o folheia, já está! A conversa instala-se e vai por aí adiante. O limite é o céu.

Aproveite e não se arrependerá, corra a comprá-lo. Encontra-o à venda fazendo click com o rato sobre o nome do livro ao longo do texto, ou aqui.

http://br.blurb.com/user/store/53carlos

A compra é simples. Segue as instruções do site, e abre a versão e-book do livro no iTunes em qualquer dos seus computadores, ou em iBook nos iPad e iPhone.

Ao abrir, começa a folhear e esquece-se do tempo. Serão horas de prazer de ver e ler. É, leitor(a), garanto-lhe, um livro de que não se irá cansar. A ele voltará uma e outra vez, a propósito ou sem propósito, apenas para desenfado em momento de tédio, ou em repouso de actividades mais intensas. Será o dinheiro mais bem gasto em livro electrónico que lhe aconteceu. Pretexto para conversa, assunto para diversão em grupo, as ocasiões para o usar e falar dele surgirão a cada passo. Vá por mim, e não se arrependerá. E isto enquanto espera pela luxuosa versão em papel de qualidade fotográfica, encadernado a tecido preto com sobrecapa a cores, que fará um sucesso na sua sala ou no seu quarto, e que também comprou, aqui.

http://br.blurb.com/user/store/53carlos

Quer ter uma ideia do livro? Ora veja:

Visualização parcial do livro da fermosa benfeitoria (rimas obscenas)

E se gostou do que viu,  partilhe com quem conhecer. Verá que lhe vão agradecer.

A ilustrações do livro são a reprodução de 16 pinturas eróticas japonesas sobre seda, do século XIX, de minha colecção, e que o poeta pediu de empréstimo para acompanhar as suas rimas. Três ou quatro delas já apareceram no blog e dão agora a volta ao mundo. As outras vêem pela primeira vez a luz da publicidade, no livro.

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Prévert, Les Feuilles Mortes e Juliette Greco

07 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Erwin Blumenfeld, Jacques Prévert, Juliette Greco

Alguns poemas encontram na musica a forma de chegar ao coração dos homens. Um deles, Les Feuilles Mortes de Jacques Prévert, companhia inseparável do meu cancioneiro, aqui recordo na voz de Juliette Greco, incluindo uma tradução literal que arrisco, uma vez que o desconhecimento do francês é hoje generalizado.

Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+-+Les+feuilles+mortes.mp3

” Les Feuilles Mortes “
Jacques Prévert – 1945

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes/Oh! queria tanto que te recordasses
Des jours heureux où nous étions amis./dos dias felizes quando éramos amigos.
En ce temps-là la vie était plus belle,/Nesse tempo a vida era mais bela,

Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./ e o sol mais brilhante que hoje.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle./As folhas mortas agarram-se à pá.
Tu vois, je n’ai pas oublié…/Vês, não esqueci…
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ As folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/as recordações e os remorsos também
Et le vent du nord les emporte/e o vento norte norte transporta-os
Dans la nuit froide de l’oubli./na noite fria do esquecimento.
Tu vois, je n’ai pas oublié/ Vês, não esqueci
La chanson que tu me chantais./a canção que tu me cantavas.

[Refrain:]
C’est une chanson qui nous ressemble./É uma canção que nos semelha.
Toi, tu m’aimais et je t’aimais/ Tu, tu me amavas e eu te amava
Et nous vivions tous deux ensemble,/e viviamos os dois juntos,
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais./ tu que me amavas, eu que te amava.
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,/Mas a vida separa os que se amam,
Tout doucement, sans faire de bruit/docemente, sem fazer ruido
Et la mer efface sur le sable/e o mar apaga na areia
Les pas des amants désunis./os passos dos amantes desunidos.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ as folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/ as recordações e os remorsos também
Mais mon amour silencieux et fidèle/mas o meu amor silencioso e fiel
Sourit toujours et remercie la vie./continua a sorrir e agradece à vida.
Je t’aimais tant, tu étais si jolie./Amava-te tanto, eras tão bonita.
Comment veux-tu que je t’oublie ?/Como queres que te esqueça?
En ce temps-là, la vie était plus belle/ Nesse tempo, a vida era mais bela
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./e o sol mais ardente que hoje.
Tu étais ma plus douce amie/ Eras a minha mais doce amiga
Mais je n’ai que faire des regrets/mas não tenho senão que lamentar
Et la chanson que tu chantais,/e a canção que cantavas,
Toujours, toujours je l’entendrai !/sempre, sempre a ouvirei!

Poema todo ele de melancolia, em que o outono dos amores e da vida se cruza com as folhas caídas, e o vento norte nos transporta pela noite fria do esquecimento, ouvir este Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco é uma emoção repetidamente saboreada. Tanta vida naquela voz.

Voz que noutra canção nos guia nos segredos dos preliminares do amor, ao cantar Desabillez-moi.

Desabillez-moi na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/10+-+Deshabillez-moi.mp3

Sendo uma canção que toda a vida a artista cantou, quando jovem há uma veemência que bem passados os oitenta (nasceu em 1927), tem o sabor dos vinhos amadurecidos com o tempo.

No final de 2009, quando se apresentou no CCB, arriscou cantar esta canção. Antes teve o cuidado de alertar a audiência para a consciência que tinha da estranheza de interpretar semelhante canção nesta idade da vida.

Foi um dos momentos mais comoventes do concerto, sentir aquela audiência quase toda formada por gente a quem há muito a juventude escapou, vibrar num frémito de recordação de prazeres talvez perdidos, ou apenas sonhados.

É a voz o veículo destas emoções, e quando não envelhece, a experiência torna-a na evidência do sublime.

Na memória desse concerto escrevi este  relato

Deshabillez-moi

C’est la belle Juliette qui chante.

Ouvimos, olhamos, e não nos libertamos mais.

Canta-nos na cabeça no mais inesperado dos momentos.

Os olhos, do tamanho do mundo, revelam os mistérios do amor.

O gesto,

o braço levantado,

a figura de negro até aos pés

transporta mais erotismo que uma striper em palco.

A voz, talvez rouca,

desencadeia tempestades

onde a razão se perde

E vamos ao fundo do abismo para a não perder.

Depois canta “j’arrive”

e é a morte que nos visita

Na dor da despedida e da perda.

O teatro da voz é mais verdadeiro que a vida.

Façamos agora uma pequena volta por quase 50 anos de interpretações felizmente conservadas,  pour notre bonheur, com um pequeno grupo de canções com Paris em fundo e um perfume de acordeon, num balanço reminiscente de bal musette, que estiveram na origem do mito da boémia parisiense de final dos anos 50 e anos 60.

Paris-Canaille na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/08+-+Paris+Canaille.mp3

Sous le ciel de Paris na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/03+-+Sous+le+ciel+de+Paris.mp3

Il n’y a plus d’après na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/03+-+Il+n%27y+a+plus+d%27apres.mp3

Accordeon na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/09+-+Accordeon.mp3

 

Tenha valido a pena o passeio, espero.

Nota: A fotogravura de Juliette Greco que ilustra o artigo é de Erwin Blumenfeld, 1951.

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A mulher grávida — poema de Jaime Cortesão

13 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à fotografia

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carlos mendonça lopes, Jaime Cortesão

“Pesa um silencio d’alto sobre o mundo” e o poeta submisso ao milagre da vida, ergue-nos esta mulher símbolo, sem forma, sem beleza outra que ser a maravilha da origem do mundo

A mulher grávida

Eu sou a mulher pejada.

Minha boca apetecida,

Com outra boca colada,

Deu beijos para dar Vida.

 

Em mim é santo o Desejo,

É santo por ser fecundo:

Puz toda a alma num beijo,

E fui a origem do mundo.

 

Olhai: caminho por entre

Todo o povo sem receio,

Pois trago um filho no ventre

E uma fonte em cada seio.

 

Quem sentir vida tam alta

Não se furte, não a esconda;

Vêde-a … em meu ventre se exalta,

Sobe toda numa onda.

 

Um filho todas as vezes,

Que é de mãe enternecida,

Trá-lo o ventre nove meses

E o coração toda a vida.

 

Que imenso poder eu tenho

– Dar vida por ser o amor;

Não há poeta tamanho,

Nem génio mais criador!

 

E por meu ventre sagrado

Vou falar: escutai bem.

Fala o verbo revelado

No meu instinto de mãe.

 

Eu vejo para além da vista,

Ouço pra além dos ouvidos:

Oh! Que terra nunca vista,

Que heróis jamais concebidos!

 

Ouço em mim vozes estranhas,

A minha Alma deita luz …

Trago nas minhas entranhas

Outro menino Jesus.

 

Meu Filho amostra-me a face,

Faze-te Aurora nascida,

Embora a luz me queimasse,

Inda que eu perdesse a Vida.

 

Sou o Céu da Madrugada,

A minha carne anda em brilho;

Sinto-me ébria de Alvorada

Rompe o Sol: nasce o meu filho!

O poema é de Jaime Cortesão (1884 – 1960) e foi publicado em 1914 no livro Glória Humilde.

A poesia de Jaime Cortesão ressuma uma sensualidade embrulhada por vezes numa aura mística ligando o sexo ao transcendente da condição humana.

Em Glória Humilde há um esforço de aproximação e ligação à natureza, onde se procura dar a ver o carácter sagrado dos gestos essenciais da vida. Mas é sobretudo no livro Divina Voluptuosidade fazendo supor ao leitor a eternidade no paraíso como uma espécie de orgasmo perpétuo, que chegamos ao carácter sagrado do sexo, de alguma forma aflorado neste canto à gravidez enquanto origem do mundo.

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