As madonas de Fra Filippo Lippi e sonetos de Diogo Bernardes

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Imagem em tudo rara e peregrina, / Retrato de beleza virginal, / Se tão bela te fez a mão mortal, /Que tal faria a própria mão divina? / …

A idealização da mãe de Jesus como modelo de beleza absoluta é uma das características-chave do culto Mariano entre católicos, e é da Virgem como essa imagem da beleza absoluta que no final do século XVI fala o poema de Diogo Bernardes (1530-1605), Soneto a Uma Imagem da Virgem, que citei a abrir à frente transcrevo integralmente.

No poema de Diogo Bernardes colhido entre a sua poesia religiosa, a enunciação dessa beleza representada: … / Se tanta luz uns cegos olhos tem, / Se tal espírito morta formosura, / …, como se leu, não se materializa nos seus atributos físicos, antes se refere a um difuso conceito de belo:

Mas serão sombras, onde a sombra é tal

Que a vista no conceito desatina.

 

Ficam os mais retratos sombra escura

Diante ti, …

A humanidade católica sempre sentiu a necessidade da representação visível desta beleza absoluta,  e durante séculos, muito do trabalho encomendado a pintores foram cenas da vida da Virgem Maria. A sua beleza ideal foi sendo captada e representada consoante os valores estéticos de cada época e os respectivos padrões da beleza feminina quando jovem.

Hoje, e para acompanhar o soneto de Diogo Bernardes, escolho algumas das imagens da Virgem pintadas por Fra Filippo Lippi (1406-1469), o mais requisitado pintor de imagens representando a Virgem Maria, na Florença da sua época, capital cultural do ocidente em pleno renascimento italiano. 

Espelho das ideias da época sobre os cânones de beleza humana colhidos na herança greco-latina, nessas pinturas encontramos plasmada a ideia platónica de que a beleza da alma se estampa na beleza física do rosto, num canon de suavidade de linhas e harmonia de proporção. E assim, estas pinturas simbolicamente representando Maria entregam à eternidade dos mais belos rostos femininos que a pintura antiga nos deixou.

Soneto a Uma Imagem da Virgem

 

Imagem em tudo rara e peregrina,

Retrato de beleza virginal,

Se tão bela te fez a mão mortal,

Que tal faria a própria mão divina?

 

Belezas nunca vistas imagina

Quem bem te vê no próprio original,

Mas serão sombras, onde a sombra é tal

Que a vista no conceito desatina.

 

Ficam os mais retratos sombra escura

Diante ti, tu menos ante quem

Tão branda representas, tão formosa.

 

Se tanta luz uns cegos olhos tem,

Se tal espírito morta formosura,

Qual sereis vós, oh Virgem piedosa?

 

O aspecto simbólico do retrato religioso passa hoje ao lado da maior parte dos apreciadores de pintura antiga. Retirados do contexto de ritual e devoção, enchem as galerias dos museus de arte antiga, oferecendo ao visitante o espectáculo do seu esplendor estético e mestria de factura, e com isso ganham uma outra vida, ensinando a quem olha e vê, o sublime que o belo pode conter. 

Não ocorrerá hoje a nenhum crente, perante uma pintura da virgem Maria numa sala de museu, dirigir-lhe uma oração de qualquer tipo, ainda que na sua origem, o propósito dessa pintura fosse exactamente o de desencadear no seu observador esse sentimento de contrição, como ainda hoje pode acontecer num local reservado ao culto, público ou privado, onde uma imagem equivalente se mostre. Com essa componente de devoção, em presença ou ausência de imagens alegóricas, transcrevo mais dois sonetos de Diogo Bernardes. 

 

Num primeiro poema, Soneto a Nossa Senhora,  pede-se um genérico perdão por pecados não explicitados:

Virgem cheia de graça, e de humildade,

Por cuja intersecção, por cujo meio

Perdão o pecador contrito alcança:

 

Posto que me vejais de culpas cheio,

Pondo olhos em mim com piedade,

Vereis que sempre em vós tive esperança.

No último soneto que transcrevo, é a intersecção da Virgem para que o liberte do cárcere o que o poeta solicita (Diogo Bernardes ficou preso em Marrocos quando de derrota portuguesa em Alcácer-Quibir, onde o rei D. Sebastião encontrou a morte), num quadro comum de devoção religiosa e seu socorro face às dificuldades, usando não a formulação trivial da oração mas o precioso da palavra poética:

Mereça-vos, Senhora, isto, que peço,

Um coração contrito, humilde, e pronto

A vos servir, podendo, com mil vidas.

 

Eis os poemas:

Soneto a Nossa Senhora

Formosa Virgem, que do sol vestida,

De estrelas coroada, ao sol puro

Tanto aprouveste neste vale escuro,

Que sua luz em vós trouxe escondida:

Virgem das Virgens, flor, fonte de vida,

Deste mundano mar porto seguro,

Rodeado jardim de forte muro,

Antes do mundo ser já escolhida.

Virgem cheia de graça, e de humildade,

Por cuja intersecção, por cujo meio

Perdão o pecador contrito alcança:

Posto que me vejais de culpas cheio,

Pondo olhos em mim com piedade,

Vereis que sempre em vós tive esperança.

 

 


Soneto a Nossa Senhora estando cativo

Oh do meu doce amor doce cuidado,

Oh defensora minha em paz, e em guerra,

Em cuja mão todo o poder se encerra,

Em cujo ventre andou Deus encerrado.

Abrí um dia já alvo, e dourado,

Em que deixando atrás est’alta serra,

Passando o bravo mar, abrace a terra,

Onde nele se crê crucificado.

Mereça-vos, Senhora, isto, que peço,

Um coração contrito, humilde, e pronto

A vos servir, podendo, com mil vidas.

Ou seja, se por mim o não mereço,

À conta das mercês que não têm conto,

Que tendes para todos merecidas.

Poemas transcritos de Diogo Bernardes, Várias Rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa sua Mãe, e a Santos Particulares, edição de Marques Braga, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1946.

Acompanham o artigo imagens com detalhes de pinturas de Fra Filippo Lippi.

Me lo decía mi abuelito — poema de José Agustín Goytisolo

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A humanidade não passa sem ar, sem água e sem dinheiro.

No nosso tempo, à medida que a busca pelo dinheiro não abranda, o ar respirável e a água que precisamos para viver estão a ficar cada vez mais escassos.

Se a ênfase de quem mais consciência tem da premência do problema é posta na necessidade de alteração nos padrões de consumo de cada um, há um modelo de crescimento económico baseado no aumento do consumo individual para o qual ter sempre mais dinheiro é indispensável, o que nos leva ao assunto do poema de José Agustín Goytisolo (1928-1999), Me lo decía mi abuelito, que no final transcrevo. 

Este consumo desenfreado, exponenciado pela barata produção industrial chinesa dos últimos anos, de baixa qualidade e curta vida, é fonte de poluição desmedida, e encaixou na perfeição no modelo de crescimento baseado no aumento constante do consumo das sociedades ocidentais que todo o mundo procura, levando ao enriquecimento efectivo de alguns na sociedade chinesa.

Acontece que ter mais dinheiro sem ar ou sem água de pouco servirá.

Recordo-me de, no início do século, numa conversa com um jovem à beira dos 18 anos, este tentar convencer-me da indispensabilidade para ele de ter um automóvel. Procurei convencê-lo a adiar o desejo do carro dizendo-lhe simbolicamente o óbvio à época, e que hoje, embora sem ainda lá termos chegado, é verdadeiramente trágico: o mundo não aguenta um carro por cada chinês ou dizendo de outra maneira, o mundo não aguenta mais poluição automóvel, a que todas as outras do consumo supérfluo se acrescentam.

A argumentação dele em parte era verdade: a organização da vida de todos os dias, ainda hoje, em Portugal, é função da posse de um automóvel, sem o qual atender em tempo compromissos diversos é inviável. Felizmente, no país onde agora vive, o carro é não só quotidianamente dispensável, como o seu uso dissuadido, e ele quando precisa, aluga um. Entre nós, eu que tomei a opção de viver sem carro próprio, vejo como todos os dias isso torna a vida difícil.

Esta divagação procura ilustrar onde reside grande parte do problema das alterações climáticas que nos atinge e assusta, ou seja: na organização social, e em nós.

A ambição de ter dinheiro para possuir o que gostaríamos, móbil generalizado do viver, é o assunto do poema Me lo decía mi abuelito, em tempos cantado por Paco Ibañez(1934), que prometi antes e a seguir transcrevo. Dá ele conta como essa ambição nos chega desde a mais tenra idade na educação em casa, estimulando o passar por cima dos outros a qualquer preço para o conseguir, e simultaneamente, como essa ideia inculcada pode ser contrariada e esquecida pela vontade individual. Exista ela.  

Escrito à época como acerba crítica ao egoísmo individual por oposição a um pensamento que incluísse os outros, nas condições precisas dos nossos dias ganha uma acutilância de actualidade para além da componente ideológica original.

 

[Me lo decía mi abuelito]

 

Me lo decía mi abuelito,

me lo decía mi papá,

me lo dijeron muchas veces

y lo olvidaba muchas más.

 

Trabaja niño no te pienses

que sin dinero vivirás.

Junta el esfuerzo y el ahorro

ábrete paso, ya verás,

como la vida te depara

buenos momentos. Te alzarás

sobre los pobres y mezquinos

que no han sabido descollar.

 Me lo decía mi abuelito

me lo decía mi papá

me lo dijeron muchas veces

y lo olvidaba muchas más.

 

La vida es lucha despiadada

nadie te ayuda, así, no más,

y si tú solo no adelantas,

te irán dejando, atrás, atrás.

¡Anda muchacho y dale duro!

La tierra toda, el sol y el mar,

son para aquellos que han sabido

sentarse sobre los demás.

Me lo decía mi abuelito

me lo decía mi papá

me lo dijeron muchas veces

y lo he olvidado siempre más.

 

 

Embora suponha que o original é inteligível para a generalidade dos leitores do blog, a seguir deixo uma minha tradução do poema, à qual falta claramente a musicalidade do original, e por isso não me satisfaz.

 

 

[Dizia-me o meu avôzinho]

 

Dizia-me o meu avôzinho,

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esquecia muitas mais.

 

Trabalha menino, tu não penses 

que sem dinheiro viverás.

Junta o esforço ao aforro

abre caminho, já verás

como na vida bons tempos 

alcançarás. Subirás sobre

pobres e mesquinhos

que ficaram para trás.

Dizia-me o meu avôzinho

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esquecia muitas mais.

 

A vida é luta cruel

ninguém te vai ajudar,

e se por ti não avanças

deixar-te-ão para trás.

Anda rapaz, dá-lhe duro!

A terra inteira, o sol e o mar

são para aqueles que souberam

sentar-se sobre os demais.

Dizia-me o meu avôzinho,

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esqueci sempre mais.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Abre o artigo uma foto em Pequim numa das situações críticas de poluição atmosférica na cidade. A foto circulou na imprensa e não encontrei o nome do fotógrafo a quem a creditar.

Almeida Garrett – Vivamos livres, ou morramos homens

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Numa recolha de poesias para celebrar a derrota da Martinhada a 17 de Novembro de 1820, em sessão da Universidade de Coimbra a 21 e 22 do mesmo mês, encontro um veemente e empolgante poema de Almeida Garrett (1799-1854), então jovem estudante e já fogoso liberal. 

Panfleto de crítica política e social, ditado pelos acontecimentos da época, o poema é, lido hoje, uma vigorosa defesa da liberdade e dos direitos dos desfavorecidos, assumindo que os intelectuais também fisicamente lutarão em sua defesa, se preciso for, como foi o caso na Revolução Liberal, com Garrett e Herculano entre eles:

E veja o mundo com terror, e espanto

Em cada filho de Minerva um Marte.

Tremam, caiam perversos aristocratas.

 

Mudemos aristocratas por autocratas, e Isto que um jovem estudante proclamava há 200 anos, é de novo a luta travada hoje pelos jovens em Hong-Kong e a que, à distância, assistimos nas televisões, aspirando eles ao mesmo que o nosso poeta com os restantes liberais à época alcançaram:

… Jugo de ferro, que pesava outrora / Sobre nossas cabeças, já desfeito /A pedaços caiu; / …

 

Voltando ao poema, a sessão recolhe testemunhos poéticos de alguns estudantes na altura, entre eles António Feliciano de Castilho e o irmão Augusto Frederico Castilho. Chegada a vez de Garrett, eis o que tem a dizer o moço de vinte anos:

 

Ergo tardia voz, mas ergo-a livre

Ante vós, ante os céus, ante o universo;

Se os céus, se o mundo minha voz ouvirem.

 

E esta voz ergue-se para increpar poderosos e submissos à arbitrariedade do poder absoluto. 

Depois de invocar como no passado a poesia cantou os feitos Portugueses, continua:

Não posso tanto, não me atrevo, ó sócios;

Mas tenho um coração, que é Lusitano;

Mas tenho um coração, que é livre, e é d’homem.

Livres, como ele, minha voz, meu brado

O que a alma sente vos espalhe n’alma,

E o grito da razão troveje ao mundo.

Livres! … Ah! livre um Português foi sempre.

Sim: que essa infame sórdida caterva,

Esse rebanho vil de vis escravos,

Que ao ceptro da ignorância incensam curvos,

Esses … esses … ó Lusa academia,

Do nome Português vergonha, opróbrio.

Portugueses não são, jamais o foram.

 

Para que não restem dúvidas, enumera a quem se refere: todos os beneficiários do antigo regime absolutista:

Esses pérfidos monstros, que enfatuados

Das sociais distinções usurpam glória,

Julgam virtude o mérito da sorte,

Do feudalismo atroz cruéis sectários,

Aristocratas bárbaros, insanos,

Que em si pretendem concentrar direitos,

Que ao povo inteiro, que à nação pertencem,

Réus do crime maior, que a terra há visto,

Réus do crime maior, que o céu punira,

Réus do crime maior, que urdiu o inferno;

Estes, Lusos serão, ou serão homens?

E o nome Português, o nome augusto,

Ante quem se prostrou de rojo o mundo 

O nome Português cabe em tais monstros?

 

Refere a seguir como o rei se encontra cego por esta corte que vive à sua volta e impedido de ver o sofrimento do povo:

… 

[O nome Português]

Cabe nos monstros, que afumando ao trono

O torpe incenso de venal lisonja,

Abjectos, vis, aduladores, pérfidos,

Olhos no interesse, ao paternal soberano

Lhe impedem ver as públicas desgraças,

Gemer nos males de seu povo aflito?

 

O poema continua apelando directamente ao rei:

… / Oh rei! oh pai! oh suspirado! oh caro! / Ah! rompe duma vez da intriga as malhas; / … para já no final se congratular com a conquista da liberdade:

Oh flor da pátria! oh mimo de seus filhos!

Oh Lusitana, ilustre juventude!

Jugo de ferro, que pesava outrora

Sobre nossas cabeças, já desfeito

A pedaços caiu; e a mão soberba,

Que os insofridos lábios nos tapava,

Ao golpe audaz jazeu da liberdade.

 

A capacidade empolgante da palavra poética na língua portuguesa vive neste poema de forma ímpar:

Pode, mais do que a espada, a voz, e a pena;

Sejamos sempre heróis, e sempre livres;

Sejamos, como sempre, Portugueses;

Vivamos livres, ou morramos homens.

 

 

São história a sociedade e o tempo de que no poema se fala. Mas esta língua que é nossa, continua viva para nos fazer entender o mundo em redor, e também aquele mundo que conheceu quem antes de nós a usou e burilou, e com ela nos deixou conta das lutas e experiências da vida que lhe coube viver.

 

 

Eis o poema integral:

 

 

Ao Corpo Académico

 

Ergo tardia voz, mas ergo-a livre

Ante vós, ante os céus, ante o universo;

Se os céus, se o mundo minha voz ouvirem.

 

Inda a braços co’a esquálida doença,

Mal posso o brado alçar débil, e frouxo,

Subir aos cumes de estremada glória,

Heróis cantar, que a impulsos formidáveis

De pujante valor, de ardido esforço

Ao chão baquearam bárbaros colossos

Do despotismo atroz, da tirania,

Que a máscara perversa enganadora

Da hipocrisia vil do fanatismo

Com destra mão impávidos rasgaram;

Tão nobres feitos, tão sublime arrojo. 

Assaz dos vates resoou na lira

De sobejo entre vós cisnes do Pindo

Com louro eterno no porvir c’roaram;

Nos peitos vossos de sobejo, há muito

Em caracteres se gravou de fogo.

 

Não posso tanto, não me atrevo, ó sócios;

Mas tenho um coração, que é Lusitano;

Mas tenho um coração, que é livre, e é d’homem.

Livres, como ele, minha voz, meu brado

O que a alma sente vos espalhe n’alma,

E o grito da razão troveje ao mundo.

Livres! … Ah! livre um Português foi sempre.

Sim: que essa infame sórdida caterva,

Esse rebanho vil de vis escravos,

Que ao ceptro da ignorância incensam curvos,

Esses … esses … ó Lusa academia,

Do nome Português vergonha, opróbrio.

Portugueses não são, jamais o foram.

Esses pérfidos monstros, que enfatuados

Das sociais distinções usurpam glória,

Julgam virtude o mérito da sorte,

Do feudalismo atroz cruéis sectários,

Aristocratas bárbaros, insanos,

Que em si pretendem concentrar direitos,

Que ao povo inteiro, que à nação pertencem,

Réus do crime maior, que a terra há visto,

Réus do crime maior, que o céu punira,

Réus do crime maior, que urdiu o inferno;

Estes, Lusos serão, ou serão homens?

E o nome Português, o nome augusto,

Ante quem se prostrou de rojo o mundo 

O nome Português cabe em tais monstros?

Cabe nos monstros, que afumando ao trono

O torpe incenso de venal lisonja,

Abjectos, vis, aduladores, pérfidos,

Olhos no interesse, ao paternal soberano

Lhe impedem ver as públicas desgraças,

Gemer nos males de seu povo aflito?

 

Oh rei! oh pai! oh suspirado! oh caro!

Ah! rompe duma vez da intriga as malhas;

Denso negrume, que te ofusca o ceptro;

Com o ceptro punidor dissipa, e vinga.

JOÃO! . . . Quanto este nome é caro aos Lusos!

JOÃO! . . . Deslembra alguém tão sacro nome?

E cumpre à prepotência a nós lembrá-lo!

E cumpre ao orgulho suscitá-lo aos peitos!

A nós, a Portugueses, quais nós somos,

A filhos de Minerva!… A ofensa é crua,

Barbara a afronta, pérfido o conselho,

Indigna… Ah! perdoemos, sócios caros;

Generoso perdão se outorgue à infâmia:

Das dádivas do céu disponham Lusos.

 

Oh flor da pátria! oh mimo de seus filhos!

Oh Lusitana, ilustre juventude!

Jugo de ferro, que pesava outrora

Sobre nossas cabeças, já desfeito

A pedaços caiu; e a mão soberba,

Que os insofridos lábios nos tapava,

Ao golpe audaz jazeu da liberdade.

Anos de escravidão vingue um só dia;

Séculos ganhem fugitivas horas:

Em livres brados à virtude à gloria

O frouxo peito aos cidadãos movamos.

 

Pode, mais do que a espada, a voz, e a pena;

E, se a espada cumprir, cinja-se a espada;

E veja o mundo com terror, e espanto

Em cada filho de Minerva um Marte.

Tremam, caiam perversos aristocratas.

Sejamos sempre heróis, e sempre livres;

Sejamos, como sempre, Portugueses;

Vivamos livres, ou morramos homens.

 

João Baptista da Silva Leitão d’Almeida Garrett

 

in Collecção das Poesias recitadas na Salla dos Actos Grandes da Universidade de Coimbra nas noites do dia 21 e 22 de Novembro em pública demonstração de regosijo pelo feliz resultado do dia 17, 1820, COIMBRA. NA REAL IMPRENSA DA UNIVERSIDADE, 1821.

Modernizei a ortografia do poema.

Abre o artigo a imagem de uma foto de Anthony Kwan mostrando uma das recentes manifestações em Hong-Kong.

Vozes femininas na poesia japonesa do século XX

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Yoshino Yoshiko (1915)

*

Como quem remenda

peúgas, remendo a mente

e prossigo a vida.

A partir das versões de Haiku japoneses recriados em português por Luísa Freire (ver nota bibliográfica), escolho alguns poemas onde para além do tempo e lugar, uma infinita melancolia passa, e é apenas sentida porque se é humano e as circunstâncias da vida a desencadeiam. São poemas escritos na primeira metade do século XX, e por detrás deles vive a conturbada história do Japão nesse meio século.

Na conhecida multiplicidade de leituras que cada poema permite, lemos quase sempre o contraste entre as vicissitudes do eu e a indiferente vida da natureza, ou então as disposições do espírito sublinhadas por aspectos do mundo natural.

Não têm qualquer ligação com as pessoas das poetisas, as imagens que acompanham os poemas. Representam jovens que, sem dificuldade, podemos associar à vivência das emoções  que os poemas destilam.

Takeshita Shizunojo (1887-1951)

 

*

Meu marido partiu — 

flocos de neve e céu azul

nesta Primavera.

 

*

Cheirando a suor,

aquele povo sem voz —

vou juntar-me a eles.

Hashimoto Takako (1899-1966) 

 

*

O forte nevão —

morro, sem ter descoberto

outras mãos que as do marido.

 

*

Uma lua

e um lago gelado

reflectem-se um ao outro.

 

*

Num dia de neve,

meu corpo no banho — amo tudo,

da cabeça aos pés.

Mitsuhashi Takajo (1899-1972)

 

*

Folhas a cair,

Folhas e folhas caindo

também na minha cama.

 

*

Ali o balão

insuflado de tristeza,

subindo no ar.

 

*

Suas vidas duram

só enquanto estão a arder — 

mulher e pimenta.

 

*

Pelo gelo fino

minha sombra a deslizar

até que mergulha.

Katsura Nobuko (1914)

 

*

Noite de Natal —

desde quando esta tristeza

por estar casada?

 

*

Dois seios entre os ombros

e esta melancolia —

a chuva sem fim.

 

*

Neve na janela —

um corpo faz a água quente

vazar da banheira.

Inahata Teiko (1931)

 

*

Como se a felicidade

esperasse o novo ano

pelo calendário!

 

*

Murmúrio das ondas

a que os narcisos do campo

não dão atenção.

Uda Kiyoko (1935)

 

*

Aperto nos braços

a alma, os seios e tudo o mais

ao chegar Outono.

 

Nota bibliográfica

in O Japão no Feminino II, Haiku, séculos XVII a XX, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

Organização e versão portuguesa de Luísa Freire, recriadas a partir da versão em inglês de Makoko Ueda, Haiku by Japanese Women: Far Beyond the Field, Columbia University Press, 2003].

Acompanham os poemas imagens de detalhes de gravurs japonesas do século XX conhecida como shin-hanga, de dois dos seus artistas mais representativos, Goyō Hashiguchi (1880-1921), o iniciador do movimento de revivalismo da ukiyo-e do período Edo, e Torii Kotongo (1900-1976), mostrando belas mulheres (bijinga).

A mestria técnica na capacidade de fazer o desenho transmitir emoção, aliada à expressividade que se desprende do rosto e atitudes destas belas mulheres, fazem destas gravuras obras-primas do retrato.

Definições do Amor em alguns poemas setecentistas

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É Amor, ó mortais, um pensamento / Que se cria nos braços da incerteza, / …

(José Daniel)

 

Sentir e viver o amor é e terá sido atributo do género humano, mas a manifestação cultural da sua vivência é espelho das condicionantes culturais de cada tempo e lugar. Atenho-me à poesia, e em partícula ao soneto no rigor da sua forma, e trago quatro sonetos do século XVIII português sobre como definir o amor. São eles espelho da convencionalidade da época, embora todos se façam eco da perplexidade e ambivalência sentimental que o amor gera e é independente do quadro cultural em que é vivido.

Abro com um poema do início do século por João Cardoso da Costa (n. 1693) onde os ecos camonianos ainda se fazem sentir, na doçura da linguagem que amor inspira e na conflitualidade de sentimentos que desencadeia e … traz entre o pesar contentamento:

          Definição do amor

 

SONETO XXV

 

Um não sei quê de glória, e de tormento,

Um és, não és, de gosto, e de alegria,

Uma paixão, que engana a fantasia,

Me traz entre o pesar contentamento.

 

Uma aflição cruel entre o lamento,

Uma doudice em um, e outro dia,

Uma doce esperança em que se fia,

Me dá conforto ao bem no pensamento.

 

Um tal desassossego, que me rende

Uma valente dor, que me não cansa,

É a que mais me mata, e não me ofende.

 

Isto é amor, que posto em fiel balança,

Se a cousa amada com mais fé se atende,

Nunca se sabe o fim a uma esperança.

 

in João Cardoso da Costa (n. 1693) – Musa pueril, Lisboa, na oficina de Manuel Rodrigues, 1736.

 

 

Agora dois Sonetos de um Anónimo autor recolhidos na colectânea poética A Fenix Renascida

Dá-nos o poeta conta em mais uma Definição, o que é amor, e também do seu reverso, numa linguagem de ressonância barroca. 

Na Definição do amor mostra as contradições em que o apaixonado se vê envolvido:

É um querer ser livre e estar atado,

É um viver alegre e enfadado,

É por fim um não sei quê, que não entendo.

 

Depois de manifestar este desentendimento, o nosso poeta proclama no poema Negação do amor:

Quem cuida haver amor vive enganado,

Traidor ao coração que se lhe entrega.

Fuji, homens, fuji deste aleivoso,

 

 

Entrego-o, leitor, à fruição destes conselhos nos poemas completos:

 

 

   Definição do Amor

 

                 SONETO

 

É um nada amor que pode tudo,

É um não se entender o avisado, 

É um querer ser livre e estar atado,

É um julgar o parvo por sisudo.

 

É um parar os golpes sem escudo,

É um cuidar que é e estar trocado,

É um viver alegre e enfadado, 

É não poder falar e não ser mudo.

 

É um engano claro e mui escuro 

É um não enxergar e estar vendo 

É um julgar por brando ao mais duro.

 

É um não querer dizer e estar dizendo.

É um no mor perigo estar seguro 

É por fim um não sei quê, que não entendo.

 

Anónimo

in A Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos melhores engenhos portugueses, IV Tomo, Lisboa, 1746.

 

 

  Negação do amor 

 

                 SONETO

 

Quem cuida haver amor vive enganado,

Engana-se quem tem tal pensamento,

São cuidados de amor torres de vento,

Que em fim o vento leva este cuidado.

 

Fundei-me no amor fiquei frustrado,

Que em tudo falso é o seu fundamento,

Não há no mundo amor que tenha assento,

E todo o bem da terra é bem sonhado.

 

É cego para o bem, como bem o cega,

E para o mal, fútil e cauteloso, 

Traidor ao coração que se lhe entrega.

 

Fuji, homens, fuji deste aleivoso,

Que trata com rigor quem se lhe chega,

Fugi, que quem mais foge é venturoso.

 

Anónimo

in A Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos melhores engenhos portugueses, IV Tomo, Lisboa, 1746.

 

Termino com um soneto escrito no final do século XVIII dando conta de como à época também se via o amor em mais uma sua definição, agora do prolífico José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832)

Soneto já de filiação pré-romântica, encontramos nele as primícias do que virá a ser o amor sofrido dos românticos:

É mal que o mundo tem contaminado, 

Só o julga por bem quem o pretende, 

Enquanto se não chama desgraçado…

e a explicitação da sua natureza labiríntica, que desde que o mundo é mundo põe numa roda-viva os humanos:

É amor finalmente em todo o estado 

Labirinto, no qual ninguém se entende.

 

 

  Definição do Amor

 

    SONETO

 

É Amor, ó mortais, um pensamento

Que se cria nos braços da incerteza, 

É cadeia que traz a vida presa…

Fabricada nas mãos do fingimento…

 

É dos olhos pestífero alimento,

É golpe que não pode ter defesa, 

Tardio desengano d’alta empresa, 

Edifício com pouco fundamento.

 

É mal que o mundo tem contaminado, 

Só o julga por bem quem o pretende, 

Enquanto se não chama desgraçado…

 

E porque o mesmo mundo o não compreende, 

É amor finalmente em todo o estado 

Labirinto, no qual ninguém se entende.

 

in Rimas de José Daniel Rodrigues da Costa, Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa, 1795.

 

 

São estes poemas tão só amostras das variadas leituras que o universal sentimento amoroso desencadeia na fase de o descrer. Gotas nesse vasto mundo da criação poética que o amor provoca e os jovens leitores do blog constantemente dão notícia.

 

 

Apêndice 

Conhecem os amantes de ópera, como em O Barbeiro de Sevilha de Rossini (1792-1868), baseada na peça homónima de Beaumarchais (1732-1799), a criada Berta também nos transmite esta perplexidade, tão ao gosto do século XVIII, em parte da sua ária Il vecchiotto cerca moglie:

Ma che cosa è questo amore

che fa tutti delirar?

Egli è un male universale,

una smania, un pizzicore …

un solletico, un tormento …

Poverina, anch’io lo sento,

né so come finirà.

 

Tradução:

Mas que coisa é este amor

que faz todos delirar?

Ele é um mal universal,

uma mania, um formigueiro …

umas cócegas, um tormento …

Pobrezinha, também eu o sinto,

nem sei como acabará.

Carlos Mendonça Lopes

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Antoine Watteau (1684-1721), O embarque para Cítera, de 1717. A obra pertence à colecção do museu do Louvre.

Prontos para o amor, os mais variado casais aprestam-se para embarcar nas suas delícias, ou como metaforicamente o título da pintura refere, embarcar para Cítera, ou seja, para a ilha onde o culto a Afrodite, deusa do amor, se pratica.

O medo e um poema de Ostap Slyvynsky

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O medo, essa presença ocasional, ou nem tanto, que nos tolhe a acção, ou desenvolve a coragem ao vencê-lo, é o tema num poema de Ostap Slyvynsky (1978), ucraniano de quem pouca poesia conheço. 

Evocando um amuleto de infância, uma fisga ou funda, acessório precioso para vencer o medo infantil ao atravessar a floresta, é o adulto, que possuído de outros medos a recorda, no desejo de com ela os vencer de novo.

Quanto destes medos não conhecemos, adultos, e tão bom seria esconjurá-los com um amuleto de infância.

 

 

A fisga (*)

 

Algo escuro, um pouco maior

que a mão de uma criança. Parece

uma moldura para a vida mesquinha de alguém.

Olho-a por algum tempo

e então percebo que já sei o que é —

uma fisga!  Uma fisga de castanheiro, 

a única coisa que meu pai me fez, 

pois eu tinha medo de andar pela floresta à noite.

A minha primeira e única arma 

que por meses aqueci no meu bolso suado.

— Agora, disse,

Trá-la contigo enquanto estiveres com medo.

E mesmo quando já não tiveres, não a jogues fora,

guarda-a num lugar seguro.

Diz-me, funda, apareceste por

me reconhecer?  Sentiste que tivemos 

um passado comum?  Cheiraste-me como um cão abandonado

que se arrasta atrás de alguém, treinado para proteger?

Sim funda, tenho medo outra vez.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes a partir da versão inglesa do poema por Anatoly Kudryavitsky.

 

 

The sling (versão do poema em inglês)

 

Something dark, slightly bigger 

that a child’s hand. Resembles 

a frame for somebody’s petty life. 

I examine it for quite some time, 

but then realize that I already know what it is — 

a sling! A chestnut sling, the only thing my father 

made for me, as I was afraid 

to walk through the forest at night.

My first and only weapon 

that I was warming four months in my sweaty pocket.

“Here” my father said 

“Carry it while you’re still afraid.

And even when you are not, don’t throw it away, 

hide it somewhere safe.” 

Tell me, sling, did you turn up because you 

recognized me? Felt that we had had a common 

past? Sniffed me out like an abandoned dog 

that drags behind you, trained to protect? 

Yes sling, I’m scared again.

 

in The Frontier, 28 contemporary ukrainian poets, edited and translated from the Ukrainian by Anatoly Kudryavitsky, Glagoslav Publications, London. 2017.

(*) Fisga — Arma primitiva, construída com forquilha de madeira ou de metal, munida de tiras elásticas, com que se atiram pequenas pedras, ou outros pequenos projéteis. É conhecido também por diversos outros nomes no Brasil, entre eles baladeira, baleeira, beca, badogue ou badoque, bodoque, funda, peteca, seta, setra; (dos dicionários).

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), Pintura, de 1951.

 

Seios — um poema de Charles Simic

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Eu amo seios, duros / Seios cheios, coroados /  Por um botão. / …

Assim começa o poema Seios de Charles Simic (1938) que hoje transcrevo no blog acompanhado por uma tradução minha.

No filme Sexo e a Cidade, a certa altura uma protagonista diz para o marido qualquer coisa como isto:

Não percebo porque vocês homens andam sempre tão obcecado com seios de mulher. São algo que existe em cerca de metade da humanidade… E é aqui que reside o mistério, e confesso-me incapaz de desvendar: não é a raridade dos seios que faz a sua atracção e apelo irresistível:

Insisto que uma miúda

 Despida até à cintura

 É o primeiro e último milagre,

 Que o velho porteiro no seu leito de morte

 Ao pedir para ver os seios da esposa

 Uma última vez

 É o maior poeta que já viveu.

 

E entre poesia e milagre, entremos por este mistério com a companhia do poema de Charles Simic

Experiência física onde a razão sossobra, falar deles é enumerar o seu efeito sensorial.  

Como chegar até eles? O poeta sugere:

Gosto de ir até eles

 De baixo, como uma criança

 Que sobe a uma cadeira

 Para alcançar o doce proibido.

 

A eles chegados, há que os sentir:

Suavemente, com os lábios,

Solto o botão.

Tê-los soltos entre as mãos

Como duas recém-tiradas canecas de cerveja.

 

Ao toque dos mamilos, embalam os sentidos quais:

Grãos de inaudíveis suspiros,

Vogais de deliciosa clareza

Para a pequena e rubra escola das nossas bocas.

 

E agora, quem puder, aproveite para … / saborear cada seio / Como densa e escura uva / …

 

Entrego-o, leitor, ao poema, com esta derradeira citação:

Cuspo nos tolos que não incluem

Os seios na sua metafísica

Astrónomos que não os enumeraram

Entre as luas da terra …

 

 

Seios

 

Eu amo seios, duros

 Seios cheios, coroados

 Por um botão.

 

 Vêm pela noite.

 Os bestiários dos antigos

 Que incluem o unicórnio

 Deixaram-nos sair.

 

 Perlados, como o oriente

 Uma hora antes do sol nascer,

 Dois fornos da única

 Pedra filosofal

 Que merece a nossa atenção.

 

 Trazem nos seus mamilos

 Grãos de inaudíveis suspiros,

 Vogais de deliciosa clareza

 Para a pequena e rubra escola das nossas bocas.

 

 Algures, a solidão

 Faz outra entrada sombria

 Na sua lage, a miséria

 Toma outra taça de arroz.

 

 Eles aproximam-se: Presença

 Animal.  No celeiro

 O leite estremece no balde.

 

 Gosto de ir até eles

 De baixo, como uma criança

 Que sobe a uma cadeira

 Para alcançar o doce proibido.

 

 Suavemente, com os lábios,

 Solto o botão.

 Tê-los soltos entre as mãos

 Como duas recém-tiradas canecas de cerveja.

 

 Cuspo nos tolos que não incluem

 Os seios na sua metafísica

 Astrónomos que não os enumeraram

 Entre as luas da terra …

 

 Eles dão a cada dedo

 A forma verdadeira, a sua alegria:

 Sabão novo, espuma

 Onde as nossas mãos se limpam.

 

 E como a língua honra

 Esses dois pãezinhos azedos,

 Pois a língua é uma pena

 Mergulhada em gema de ovo.

 

 Insisto que uma miúda

 Despida até à cintura

 É o primeiro e último milagre,

 Que o velho porteiro no seu leito de morte

 Ao pedir para ver os seios da esposa

 Uma última vez

 É o maior poeta que já viveu.

 

 Oh minha doce, melancólica gaitas de foles.

 Olha, toda a gente está dormindo na terra.

 Agora, na absoluta imobilidade

 Do tempo, puxando para mim

 A cintura de quem eu amo,

 

 Vou saborear cada seio

 Como densa e escura uva

 Dentro da colmeia

 Desta minha lânguida boca.

 

Tradução do inglês por Carlos Mendonça Lopes

 

Poema original

 

Breasts

I love breasts, hard

Full breasts, guarded

By a button.

 

They come in the night.

The bestiaries of the ancients

Which include the unicorn

Have kept them out.

 

Pearly, like the east

An hour before sunrise,

Two ovens of the only

Philosopher’s stone

Worth bothering about.

 

They bring on their nipples

Beads of inaudible sighs,

Vowels of delicious clarity

For the little red schoolhouse of our mouths.

 

Elsewhere, solitude

Makes another gloomy entry

In its ledger, misery

Borrows another cup of rice.

 

They draw nearer: Animal

Presence. In the barn

The milk shivers in the pail.

 

I like to come up to them

From underneath, like a kid

Who climbs on a chair

To reach the forbidden jam.

 

Gently, with my lips,

Loosen the button.

Have them slip into my hands

Like two freshly poured beer-mugs.

 

I spit on fools who fail to include

Breasts in their metaphysics

Star-gazers who have not enumerated them

Among the moons of the earth …

 

They give each finger

Its true shape, its joy:

Virgin soap, foam

On which our hands are cleansed.

 

And how the tongue honors

These two sour buns,

For the tongue is a feather

Dipped in egg-yolk.

 

I insist that a girl

Stripped to the waist

Is the first and last miracle,

That the old janitor on his deathbed

Who demands to see the breasts of his wife

For the one last time

Is the greatest poet who ever lived.

 

O my sweet, my wistful bagpipes.

Look, everyone is asleep on the earth.

Now, in the absolute immobility

Of time, drawing the waist

Of the one I love to mine,

 

I will tip each breast

Like a dark heavy grape

Into the hive

Of my drowsy mouth.

 

in Charles Simic, New and Selected poems (1962-2012), Houghton Mifflin Harcourt, New York, 2013.

 

 

Nota final

Num tempo em que a intervenção plástica nos seios é frequente, seja por desagrado com a sua evolução biológica, seja em resultado de doença, (e o cancro da mama afecta estatisticamente cerca de um terço da mulheres), os prazeres sentidos com eles, e de alguma forma descritos no poema, não sofrem a mais pequena beliscadura, estejam ausentes preconceitos ou constrangimento mental. Sem eles, os preconceitos, é tão só entregarmo-nos aos prazeres mútuos da sua fruição.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura minha, Nu Azul, óleo s/tela, feita em 2004.

 

Cartas de amor, frio e morto papel — Soneto de Elizabeth Barrett Browning

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Fernando Pessoa (1888-1935) deixou escrito sobre as cartas de amor provavelmente a visão definitiva do seu paradoxo: por um lado, as expressões da ternura nas Cartas a Ofélia, e por outro a lucidez de quem se sente incapaz de amar, no poema de Álvaro de Campos: Todas as cartas de amor são / Ridiculas. / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridiculas. / …

Não ficou por aqui o poeta e acrescentou-lhe a pungente visão de quem ama sem esperança na Carta da corcunda para o serralheiro.

Não se esgota em Pessoa a leitura poética das cartas de amor, e pelo blog aqui e ali exemplos há. Hoje é num soneto de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), em inspirada tradução do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) que podemos ler:

 

As minhas cartas! Todas elas frio,

Mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

Da vida eis que retomo hora por hora.

 

Encontrar as cartas de amor de uma paixão que existiu, desencadeia em catadupa as emoções de um tempo em que a felicidade se julgava possível para sempre, e a sua leitura faz reviver o desengano. Ei-lo contado por Elizabeth Barrett Browning. Primeiro na versão de Manuel Bandeira, e a seguir, o poema original:

 

 

Soneto

 

As minhas cartas! Todas elas frio,

Mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

Da vida eis que retomo hora por hora.

 

Nesta queria ver-me — era no estio —

Como amiga a seu lado,,, Nesta implora

Vir e as mãos me tomar… Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.

 

Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito, que todo inda estremece!

 

Mas uma… Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o que então me disseste eu repetisse…

 

Tradução de Manuel Bandeira

in Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993.

 

 

Sonnets from the Portuguese 28

 

My letters! all dead paper, … mute and white ! —

And yet they seem alive and quivering

Against my tremulous hands which loose the string

And let them drop down on my knee to-night.

This said, … he wished to have me in his sight

Once, as a friend: this fixed a day in spring

To come and touch my hand … a simple thing,

Yet I wept for it! — this, … the paper’s light …

Said, Dear, I love thee; and I sank and quailed

As if God’s future thundered on my past.

This said, I am thine — and so its ink has paled

With lying at my heart that beat too fast.

And this … O Love, thy words have ill availed,

If, what this said, I dared repeat at last!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edvard Munch (1863-1944), Noite de verão, Inger na praia, 1889.

 

Pessoa, Lessing, e um soneto setecentista de reflexão agnóstica sobre a morte

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Provavelmente, mais que em qualquer época anterior, enfrentar a reflexão sobre o medo da morte, que não o medo de morrer, é acto de que se foge a sete pés. E, no entanto, ela, a morte, está sempre como possibilidade enquanto se vive. Morrer, é possível de muitas maneiras, e essa variedade retira acuidade à sua reflexão. Morrer é o caminho, a morte é o final. Ter medo da morte é viver em pânico constante, e este medo impedirá amar a vida mais. 

Fernando Pessoa enuncia a vantagem de pensar sobre a morte com a peculiaridade habitual: 

 

Quando, com razão ou sem,

Sobre o medo amplo da alma

A sombra da morte vem,

É que o espírito vê bem,

Com clareza mas sem calma,

Que sombra é a vida que passa,

Que mágoa é a vida que cessa,

E ama a vida mais.

10-2-1933

 

Após este prelúdio, passemos ao assunto de hoje: dois testemunhos poéticos setecentistas sobre como enfrentar a morte. No primeiro poema encontramos a desassombrada afirmação:

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

 

No segundo poema, o medo da morte é declarado, e iremos assistir a uma negociação para a adiar:

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Vem a morte ter comigo.

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

 

Lia eu uma colecção de sonetos antigos e deparei-me com alguns sonetos sobre a morte. Num dos poemas, um soneto assinado Maia, talvez de Manuel Rodrigues Maia (?-1804) encontrei, não a reflexão filosófica em filme de Ingmar Bergman no seu O Sétimo selo que acabara de rever: indagação alegórica sobre o sentido da vida e o silêncio de Deus, onde a morte se personifica na figura assustadora que nos persegue em vida, e ter-lhe medo ou não, condiciona-nos inevitavelmente a existência; mas uma sua descrição em palavras que dá a medida desse monstro terrível que ninguém quer conhecer, e que ao morrer figuradamente se materializa:

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

Não estamos, evidentemente, perante a reflexão platónica sobre a morte a pretexto da morte de Sócrates, abordado por Platão no diálogo Fedon, nem sequer sobre a estóica reflexão desenvolvida por Cícero num dos Diálogos em Túsculo. Antes encontramos no resto do poema uma veemente defesa epicurista da vida pelo prazer. No soneto, que à frente transcrevo na totalidade, o nosso poeta setecentista aceita a chegada da morte sem arrependimentos de última hora:

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

 

O interessante no poema prende-se com a época em que foi escrito, o século XVIII. Época de profunda crença religiosa, e temor do além-vida pelo castigo dos pecados cometidos, afoitamente salpicada de agnósticos e ateus. No poema encontramos uma manifestação absoluta de agnosticismo, sem proclamações doutrinárias sobre a vida além-morte, tão só a afirmação da supremacia dos prazeres da vida sobre o horror da morte. Eis o soneto na totalidade:

 

 

Soneto

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

— Ah! chega, chega à misera morada, 

Aproxima teu gesto carrancudo; 

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

 

Eis-me convulso já; a voz perdendo; 

Ao lado um padre tolo, meu vizinho, 

E eu querendo me rir porém morrendo! 

 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

Manuel Rodrigues Maia (?)

 

 

É diferente o que pela mesma época o poeta e filósofo do iluminismo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) nos traz no poema tangencialmente faustiano Der Tod (A Morte). Deixando também de lado as questões de além-morte, é o desejo absoluto de continuar a viver, a motivação do protagonista e assunto do poema. Mostra ele uma conversa fantasiada com a morte, ao chegar a sua hora:

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

Para o impedir propõe o poeta à morte outras vidas em troca dos prazeres do vinho e do amor até à saciedade:

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

Este desenlace é motivo de júbilo pois o poeta acredita que … Já de vinho e beijos farto. nunca estará, conseguindo assim vida eterna:

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

 

Na aparente ligeireza dos argumentos que dão sentido à vida, vamos encontrar a postura edonista dos nossos dias de que viver a vida vale a pena se for para ter prazer. E no caminho, para o conseguir, vale tudo.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing

A Morte

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

C’um sorriso vinho bota,

Diz, erguendo o copo ao ar:

“Viva a Peste! e a virar.”

E dum trago vaso esgota.

 

Eu já quite me julgava,

Eis que torna ela a dizer:

“Pobre louco! e podes crer

 Que por vinho te largava?”

 

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

— “Que suave linguagem!

Que nova vida me dais!

Vá um copo, um copo mais 

À nossa camaradagem!” 

 

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

Tradução de José Gomes Monteiro (séc.XIX)

 

 

E com estas reflexões brincadas sobre a morte termino, deixando o original do poema de G. E. Lessing recolhido na net, e que, espero, esteja correcto.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing 

 

Der Tod

 

Gestern, Brüder, könnt ihrs glauben?

Gestern bei dem Saft der Trauben,

(Bildet euch mein Schrecken ein!)

Kam der Tod zu mir herein.

 

Drohend schwang er seine Hippe,

Drohend sprach das Furchtgerippe:

Fort, du teurer Bacchusknecht!

Fort, du hast genug gezecht!

 

Lieber Tod, sprach ich mit Tränen,

Solltest du nach mir dich sehnen?

Sieh, da stehet Wein für dich!

Lieber Tod verschone mich!

 

Lächelnd greift er nach dem Glase;

Lächelnd macht ers auf der Base,

Auf der Pest, Gesundheit leer;

Lächelnd setzt ers wieder her.

 

Fröhlich glaub′ ich mich befreiet,

Als er schnell sein Drohn erneuet.

Narre, für dein Gläschen Wein

Denkst du, spricht er, los zu sein?

 

Tod, bat ich, ich möcht′ auf Erden

Gern ein Mediziner werden.

Laß mich: ich verspreche dir

Meine Kranken halb dafür.

 

Gut, wenn das ist, magst du leben:

Ruft er. Nur sei mir ergeben.

Lebe, bis du satt geküßt,

Und des Trinkens müde bist.

 

O! wie schön klingt dies den Ohren!

Tod, du hast mich neu geboren.

Dieses Glas voll Rebensaft,

Tod, auf gute Brüderschaft!

 

Ewig muß ich also leben,

Ewig! denn, beim Gott der Reben!

Ewig soll mich Lieb′ und Wein,

Ewig Wein und Lieb′ erfreun!

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do holandês Jan Provost (1465-1529), A morte e o avarento. Termino com a imagem da pintura do mesmo nome de H. Bosch (1450-1516), feita pela mesma época, e cuja imagem segue:

 

Vem já, doce amiga, vem — um poema de Carmina Cantabrigiencia

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Hoje, qualquer manual prático de sedução que se leve a sério refere a importância de um ambiente aprazível e de conforto, onde a música e o que comer e beber têm importância fundamental para o sucesso do embate amoroso.

Isto que a moderna psicologia da sexualidade recomenda, vamos encontrar num poema de quase mil anos num cancioneiro pertença da Universidade de Cambridge, conhecido como Carmina Cantabrigiencia

O poema cujo primeiro verso é Iam, dulcis amica, venito, em latim medieval, relata o aparato de sedução montado por alguém que pretende convencer ao acto amoroso uma donzela:

1

Vem já, doce amiga, vem

   só a ti amo, meu bem.

Vem, entra em meus aposentos,

   já repletos de ornamentos.

 

2

Tenho divãs preparados,

   há soberbos cortinados;

Enchem a casa as flores

   e seus delicados odores.

 

3

Já está a mesa posta,

   de belos manjares composta;

De famosos vinhos forrada

   e tudo o mais que te agrada.

 

E o poema prossegue enunciando outros prazeres até apresentar o argumento amoroso:

7

Vem já amiga e amada,

   sobre todas estimada;

És de meus olhos a luz,

   na vida o que me seduz.

 

Estando a donzela talvez reticente ao assédio, o poeta remata, abrindo o jogo:

10

Porquê, amiga, entreter

   se por fim o hás-de fazer?

O que farás acelera,

   pois já não aguento a espera.

 

 

Os Carmina Cantabrigiencia são uma colecção medieval de poemas da tradição goliárdica à semelhança dos famosos Carmina Burana embora em muito menor número.

Apresento uma versão total e rimada deste poema, com o número 33 na colecção dos Carmina Cantabrigiencia, chamado pelo editor do manuscrito Karl Breul, INVITATIO AMICE. Nesta minha versão, confrontada com versões rimadas em espanhol e inglês, na impossibilidade óbvia da tradução palavra a palavra, procurei captar na rima o balanço do original, respeitando o desenvolvimento do poema e a equivalência possível nos argumentos da sedução.

David Mourão-Ferreira traduz 6 quadras do poema (Quadras 1-5 e 7) em Imagens da Poesia Europeia I, as quais transcrevo no final.

 

 

Carmina Cantabrigiencia poema 33

Convite à amiga

 

1

Vem já, doce amiga, vem

   só a ti amo, meu bem.

Vem, entra em meus aposentos,

   já repletos de ornamentos.

 

2.

Tenho divãs preparados,

   há soberbos cortinados;

Enchem a casa as flores

   e seus delicados odores.

 

3

Já está a mesa posta,

   de belos manjares composta;

De famosos vinhos forrada

   e tudo o mais que te agrada.

 

4

Soam doces sinfonias 

   e ouvem-se as charamelas.

Donzel e douta donzela

   entoam músicas belas.

 

5

Ele a viluela afeiçoa,

   ela a lira tange e soa;

Cálices servem criados

   com licores apreciados.

 

6

— Agrada-me, mais que a mesa,

   a agradável sobremesa;

 Mais que a rica pitança

   a amorosa esperança.

 

7

Vem já amiga e amada,

   sobre todas estimada;

És de meus olhos a luz,

   na vida o que me seduz.

 

8

— Sempre vivi na floresta,

   nunca amei lugares de festa;

Evitei sempre o gentio

   e das gentes me desvio.

 

9

Amor meu, não queiras tardar;

   entreguemo-nos a amar.

Sem ti viver é bem duro,

   e o nosso amor está maduro.

 

10

Porquê, amiga, entreter

   se por fim o hás-de fazer?

O que farás acelera,

   pois já não aguento a espera.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes

 

 

Original do poema em latim medieval incluído em Carmina Cantabrigiencia com o número 33:

 

 

INVITATIO AMICE

 

1

lam, dulcis amica, venito,

quam sicut cor meum diligo

Intra in cubiculum meum,

ornamentis cunctis onustum.

 

2

Ibi sunt sedilia strata 

et domus velis ornata,

Floresque in domo sparguntur

herbeque fragrantes miscentur.

 

3

Est ibi mensa apposita

universis cibis onusta

Ibi clarum vinum abundat

et quidquid te, cara, delectat.

 

4

Ibi sonant dulces simphonie,

inflantur et altius tibie;

Ibi puer et docta puella 

pangunt tibi carmina bella

 

5

Hie cum plectro citharam tangit,

ilia melos cum lira pangit

Portantque ministri pateras

pigmentatis poculis plenas. 

 

6

Non me iuvat tantum convivium

quantum post dulce colloquium,

Nec rerum tantarum ubertas

ut dilecta familiaritas.

 

7

Jam nunc veni, soror electa 

et pre cunctis mihi dilecta.

Lux mee clara pupille

parsque maior anime mee.

 

8

Ego fui sola in silva

et dilexi loca secreta; 

Frequenter effugi tumultum

et vitavi populum multum.

 

9

Karissima, noli tardare;

studeamus nos nunc amare,

Sine te non potero vivere:

iam decet amorem perficere.

 

10

Quid iuvat differre, electa,

que sunt tamen post facienda?

Fac cita quod eris factura,

in me non est aliqua mora.

 

in The Cambridge Songs, A Goliard’s Song Book of the XII century, edited by Karl Breul, Cambridge, at the University Press, 1915.

 

 

Leia-se a terminar, a versão parcial do poema por David Mourão-Ferreira (quadras 1-5 e 7) incluída em Imagens da Poesia Europeia I:

 

Vem agora, doce amiga,

a meu coração tão cara!

Vem agora a minha casa,

para ti toda enfeitada…

 

Há véus que pendem do tecto;

e há cadeiras, e almofadas;

e também não faltam flores,

por entre ervas perfumadas…

 

A mesa já está servida,

de iguarias carregada;

e haverá límpido vinho,

e tudo o que mais te agrada…

 

Ouvirás, ao som da flauta,

doces músicas tocadas;

por um moço e uma donzela 

belas canções entoadas…

 

Ele canta ao som de cítara,

ela na lira embalada…

E os servos trazem taças 

com bebidas aromáticas…

 

Vem agora, minha irmã,

acima de tudo amada,

ó clara luz dos meus olhos,

parte maior da minh’alma.

 

in Imagens da Poesia Europeia I, Colóquio Letras 166/167, FCG, Lisboa, 2004.

 

 

Na imagem da miniatura persa do séc. XVI que abre o artigo podemos bem imaginar, pelas expressões de relutante prazer da rapariga e firmeza prazenteira e polida do rapaz, o casal protagonista do poema de caminho para o cenário de prazer que o poema antecipa: Vem já, doce amiga, vem / só a ti amo, meu bem. / Vem, entra em meus aposentos, / já repletos de ornamentos. / … / Porquê, amiga, entreter / se por fim o hás-de fazer? / O que farás acelera, / pois já não aguento a espera.