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O medo, essa presença ocasional, ou nem tanto, que nos tolhe a acção, ou desenvolve a coragem ao vencê-lo, é o tema num poema de Ostap Slyvynsky (1978), ucraniano de quem pouca poesia conheço. 

Evocando um amuleto de infância, uma fisga ou funda, acessório precioso para vencer o medo infantil ao atravessar a floresta, é o adulto, que possuído de outros medos a recorda, no desejo de com ela os vencer de novo.

Quanto destes medos não conhecemos, adultos, e tão bom seria esconjurá-los com um amuleto de infância.

 

 

A fisga (*)

 

Algo escuro, um pouco maior

que a mão de uma criança. Parece

uma moldura para a vida mesquinha de alguém.

Olho-a por algum tempo

e então percebo que já sei o que é —

uma fisga!  Uma fisga de castanheiro, 

a única coisa que meu pai me fez, 

pois eu tinha medo de andar pela floresta à noite.

A minha primeira e única arma 

que por meses aqueci no meu bolso suado.

— Agora, disse,

Trá-la contigo enquanto estiveres com medo.

E mesmo quando já não tiveres, não a jogues fora,

guarda-a num lugar seguro.

Diz-me, funda, apareceste por

me reconhecer?  Sentiste que tivemos 

um passado comum?  Cheiraste-me como um cão abandonado

que se arrasta atrás de alguém, treinado para proteger?

Sim funda, tenho medo outra vez.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes a partir da versão inglesa do poema por Anatoly Kudryavitsky.

 

 

The sling (versão do poema em inglês)

 

Something dark, slightly bigger 

that a child’s hand. Resembles 

a frame for somebody’s petty life. 

I examine it for quite some time, 

but then realize that I already know what it is — 

a sling! A chestnut sling, the only thing my father 

made for me, as I was afraid 

to walk through the forest at night.

My first and only weapon 

that I was warming four months in my sweaty pocket.

“Here” my father said 

“Carry it while you’re still afraid.

And even when you are not, don’t throw it away, 

hide it somewhere safe.” 

Tell me, sling, did you turn up because you 

recognized me? Felt that we had had a common 

past? Sniffed me out like an abandoned dog 

that drags behind you, trained to protect? 

Yes sling, I’m scared again.

 

in The Frontier, 28 contemporary ukrainian poets, edited and translated from the Ukrainian by Anatoly Kudryavitsky, Glagoslav Publications, London. 2017.

(*) Fisga — Arma primitiva, construída com forquilha de madeira ou de metal, munida de tiras elásticas, com que se atiram pequenas pedras, ou outros pequenos projéteis. É conhecido também por diversos outros nomes no Brasil, entre eles baladeira, baleeira, beca, badogue ou badoque, bodoque, funda, peteca, seta, setra; (dos dicionários).

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), Pintura, de 1951.