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Yoshino Yoshiko (1915)

*

Como quem remenda

peúgas, remendo a mente

e prossigo a vida.

A partir das versões de Haiku japoneses recriados em português por Luísa Freire (ver nota bibliográfica), escolho alguns poemas onde para além do tempo e lugar, uma infinita melancolia passa, e é apenas sentida porque se é humano e as circunstâncias da vida a desencadeiam. São poemas escritos na primeira metade do século XX, e por detrás deles vive a conturbada história do Japão nesse meio século.

Na conhecida multiplicidade de leituras que cada poema permite, lemos quase sempre o contraste entre as vicissitudes do eu e a indiferente vida da natureza, ou então as disposições do espírito sublinhadas por aspectos do mundo natural.

Não têm qualquer ligação com as pessoas das poetisas, as imagens que acompanham os poemas. Representam jovens que, sem dificuldade, podemos associar à vivência das emoções  que os poemas destilam.

Takeshita Shizunojo (1887-1951)

 

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Meu marido partiu — 

flocos de neve e céu azul

nesta Primavera.

 

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Cheirando a suor,

aquele povo sem voz —

vou juntar-me a eles.

Hashimoto Takako (1899-1966) 

 

*

O forte nevão —

morro, sem ter descoberto

outras mãos que as do marido.

 

*

Uma lua

e um lago gelado

reflectem-se um ao outro.

 

*

Num dia de neve,

meu corpo no banho — amo tudo,

da cabeça aos pés.

Mitsuhashi Takajo (1899-1972)

 

*

Folhas a cair,

Folhas e folhas caindo

também na minha cama.

 

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Ali o balão

insuflado de tristeza,

subindo no ar.

 

*

Suas vidas duram

só enquanto estão a arder — 

mulher e pimenta.

 

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Pelo gelo fino

minha sombra a deslizar

até que mergulha.

Katsura Nobuko (1914)

 

*

Noite de Natal —

desde quando esta tristeza

por estar casada?

 

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Dois seios entre os ombros

e esta melancolia —

a chuva sem fim.

 

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Neve na janela —

um corpo faz a água quente

vazar da banheira.

Inahata Teiko (1931)

 

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Como se a felicidade

esperasse o novo ano

pelo calendário!

 

*

Murmúrio das ondas

a que os narcisos do campo

não dão atenção.

Uda Kiyoko (1935)

 

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Aperto nos braços

a alma, os seios e tudo o mais

ao chegar Outono.

 

Nota bibliográfica

in O Japão no Feminino II, Haiku, séculos XVII a XX, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

Organização e versão portuguesa de Luísa Freire, recriadas a partir da versão em inglês de Makoko Ueda, Haiku by Japanese Women: Far Beyond the Field, Columbia University Press, 2003].

Acompanham os poemas imagens de detalhes de gravurs japonesas do século XX conhecida como shin-hanga, de dois dos seus artistas mais representativos, Goyō Hashiguchi (1880-1921), o iniciador do movimento de revivalismo da ukiyo-e do período Edo, e Torii Kotongo (1900-1976), mostrando belas mulheres (bijinga).

A mestria técnica na capacidade de fazer o desenho transmitir emoção, aliada à expressividade que se desprende do rosto e atitudes destas belas mulheres, fazem destas gravuras obras-primas do retrato.

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