Elogio da morena por Asclepíades

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Oleg Igorin

Apenas um poema de Asclepíades (???) extraído da Antologia Grega, dando conta do poder da beleza contra convenções e preconceitos.

Dídima seduziu-me com as suas traquinices. Oh! Eu derreto
como cera ao lume à vista da sua beleza.
Se ela é negra, que importa? Também os carvões o são. Mas
quando acesos, brilham como botões de rosa.

Tradução de Albano Martins, Antologia da Poesia Grega Clássica.

Mais Álvaro de Campos – Ai, Margarida, …

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Edward Burra 1905-1976 Tate

Mesmo nas mais aparentes bagatelas poéticas encontramos sobre que reflectir ao ler a poesia de Fernando Pessoa.

Nesta brincadeira sobre a leviandade e o amor, o diálogo entre o casal revela o contraste frequente entre homem e mulher, na oposição entre a fantasia masculina e o pragmatismo feminino.

A forma poética, prenhe de trivialidades, forçou o autor a declarar no final da conversa/poema tratar-se do resultado de uma bebedeira.

Ai, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que farias tu com ella?
– Tirava os brincos do prego,
casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrella.

Mas, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que diria tua mãe?
– (Ella conhece-me a fundo.)
Que ha muito parvo no mundo,
E que eras parvo tambem.

E, Margarida,
Se eu te désse a minha vida
No sentido de morrer?
– Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fôsse senão poesia?
– Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem effeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

Sr. Alvaro de Campos em estado

de inconsciencia

alcoolica.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, 1993.

Minayoshi Takada – uma foto

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Minayoshi Takada (1889-1982), fotógrafo japonês, é autor de algumas belas fotos de nu feminino.
Neste pontual arquivo com que preencho o blog, escolho uma foto de 1950, Canoa, onde as formas de barco e mulher se combinam.

Canoe, 1950 by Minayoshi Takada (1889-1982)

Apostilla por Alvaro de Campos ou a reflexão de Fernando Pessoa sobre carpe diem

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Modigliani_Amedeo-The_Young_Apprentice

Deixei há pouco tempo no blog um artigo em torno da Ode a Leucónoe de Horácio. Nele, a defesa do aproveitar a vida que passa sem preocupação pelo amanhã é o assunto. Carpe diem, é a ideia expressa em latim, e desde Horácio surge a espaços na poesia. Encontrámo-la no poema A vida, de Páladas, que aqui também deixei, e hoje retomo-a com o eco que a expressão encontrou em Álvaro de Campos, no poema Apostilla. Aqui, é a peculiar forma da reflexão Pessoana que se desenvolve através do seu heterónimo, interrogando-se sobre o que aproveitar o tempo significa.

Apostilla

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, para que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho á Virgilio, á Milton…
Mas é tam diffícil ser honesto ou ser superior!
É tam pouco provavel ser Milton ou ser Virgilio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com elles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castello de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, egual contra egual,
E a vontade em carambola diffícil…
Imagens de jogos ou de paciencias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida…

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciencia desconheça…
Não ter um acto indefinido nem facticio…
Não ter um movimento desconforme com propositos…
Boas maneiras da alma…
Elegancia de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cerebro está prompto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti
Qual foi o rhythmo do nosso socego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto á vida?)

Aproveitar o tempo!…
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de arvore, titillada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntaria e sòsinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O peão do garoto, que vae a parar,
E oscilla, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cahe, como cahem os deuses, no chão do Destino.

11/4/1928 – data do testemunho dactilografado.
Poema publicado em O Noticias Ilustrado, 27/2/1928.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

À janela – uma foto de Guy Bourdin

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Guy Bourdin (1928-1991), fotógrafo de moda, protegido de Man Ray, e vencedor do Grand Prix National de la Photographie em 1985, trabalhou para a Vogue e Harper’s Bazaar, e a sua obra tem vindo a ganhar progressivo reconhecimento e apreço. A foto que escolhi dá conta de uma simplicidade de mestre jogando com a geometria das linhas e o uniforme da cor.

guy_bourdin Vogue francesa 1971

Por uma vez, com uma janela, o olhar do espectador fica interessado não no que está para além da janela, mas no que aquém se mostra.

Entre o eterno e o efémero: os jardins de Monet

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Monet - mulher no jardim 1866Claude Monet (1840-1926), na incessante busca de guardar o efémero do visível na eternidade da tela, dando conta das cambiantes com que a luz matiza a paisagem, pintou ao longo da vida jardins, e neles cristalizou uma evanescente realidade que nos toca no imponderável do seu insinuado colorido.

Nas primeiras telas, e escolhi a mais antiga de 1866, há ainda alguma precisão no desenho, o qual se vai esbatendo com os anos na abstracção da pincelada, mas encontramos também o que viria a ser a marca do mestre, aquela mágica atmosfera em que a alma mergulha ao contemplar a realidade do quadro, e que nestas pinturas quase faz sentir o perfume das flores.

Monet jardins 02

Nas imagens que escolhi, as mulheres, quando presentes, transmitem a fragilidade das flores, e com elas seguimos ao encontro do inefável.

Monet jardins 03

Monet jardins 01

Monet jardins 08

Monet jardins 11

Monet jardins 06A

Monet jardins 09

Monet jardins 12

 

Alvaro de Campos – O Binómio de Newton

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Venus de Milo - Louvre

A uns causa estranheza, a outros, onde me incluo, a comparação feita no poema de Alvaro de Campos entre a Vénus de Milo (escultura grega da colecção do museu do Louvre), arquétipo da beleza feminina pelos séculos, e o binómio de Newton, (solução matemática para um problema de cálculo descoberta pelo físico e matemático inglês, Sir Isaac Newton (1643-1727)), parece justíssima e um golpe de génio poético, a sua formulação.

O binomio de Newton é tão bello como a Venus de Milo.
O que ha é pouca gente para dar por isso.

(Alvaro de Campos)

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fóra)

Acompanho o poema com os seus protagonistas: a abrir, uma foto da Vénus de Milo, da colecção do museu do Louvre, e a seguir, a explicitação matemática do binómio de Newton.

A formulação do binómio de Newton escreve-se  da seguinte forma:
onde os coeficientes  são chamados coeficientes binomiais e definem-se como: onde  e  são inteiros,  e  é o fatorial de x.
O coeficiente binomial  traduz, em análise combinatória, o número combinações de n elementos agrupados k a k.

Quando atacado de insónias, leitor(a), é bom remédio manualmente desenvolver o cálculo arbitrando o x e y da vida, e escolher n e k à medida da insónia. (Deixo à vossa imaginação a matemática da coisa). Rapidamente chega o sono repousante.

Bons sonhos!

Nota bibliográfica

Transcrevi a versão ortográfica de Teresa Rita Lopes na sua edição crítica do Livro de Versos de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

Um nu na floresta – Jean-Baptiste-Camile Corot

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Jean-Baptiste-Camille Corot 01O pessoal antigo socorria-se de pretextos, os mais diversos, para pintar mulheres nuas. Ele eram odaliscas, ele eram Afrodites, ele eram Vénus, e por aí fora. Lá por meados do século XIX, com o triunfo do realismo nas artes e uma substancial alteração da moral em França, as mulheres começam a surgir sem roupa nas pinturas, dispensando os pretextos mitológicos. E quando chegamos ao final do século XIX, consolidada uma certa liberdade visual, os banhos de mulheres nuas em grupo e ao ar livre, abundam.

Ingres pintou, a par de Courbet, e de forma naturalista, algumas as mais belas, dando à pintura a palpitação da carne. No entanto, a escolha de hoje cai sobre uma obra de Jean-Baptiste-Camile Corot (1796-1875), e é quase singular na obra do mestre, cuja actividade pictórica se desenvolveu sobretudo na paisagem.

A pintura, na harmonia do colorido e na serenidade da pose, convida à suave contemplação do belo corpo da jovem que se penteia, e aqui fica em detalhe.

Jean-Baptiste-Camille Corot 02

E. E. Cummings — dois poemas

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Chagall_Marc-Russian_Village_under_the_Moon

Em repouso do sublime, trago hoje dois curtos poemas de E. E. Cummings (1894-1962).

São poemas que celebram a mulher amada, nos antípodas da proverbial ironia, ou mesmo sarcasmo, do poeta, cristalizada nos conhecidos versos:

as senhoras de Cambridge que vivem em almas mobiladas
são desgraciosas e têm pensamentos confortáveis

Para a mulher amada encontra não uma alma mobilada, mas

a lua esconde-se no /cabelo dela.,

belos versos a que outros se acrescentam:

quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,…

Espero ter-lhe aberto o apetite e deixo-o, leitor, com os poemas na totalidade.

*
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)

contra o silêncio,ou a escuridão….

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

—e então somos Eu e Ela….

o que é isso que o realejo toca

**
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce

encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,

Recita
sobre a sua
carne
as pérolas

da chuva uma a uma murmurando.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro, in livrodepemas, ed Assírio & Alvim, 1999.

Com a poesia de Frei Agostinho da Cruz

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Dürer - Estudo de mãos 02A
O mundo é sonho vão, que enleia a vida,
Quem nele está melhor, tem pior alma
E quem o desprezou, tem alma e vida.

Afasto-me hoje da prosaica poesia contaminada de quotidiano por onde tenho circulado, e dirijo-me para as auras poéticas da transcendência do ser, guiado pela inspiração de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619).

Irmão mais novo do poeta Diogo Bernardes, fez-se monge capuchinho arrábido aos 20 anos e professou no conventinho da serra de Sintra, onde viveu até aos 65 anos. Por essa altura, em 1605, pediu para viver como eremita na serra da Arrábida.

Por vezes atormentada, a sua poesia é sobretudo uma contemplativa reflexão do homem que escreve num soneto que mais à frente transcrevo:

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,

Ou num outro soneto:

Acostumado tinha o sofrimento / A um mal, que já de antigo não sentia,

Dantes somente amor me perseguia, / Agora amor, fortuna e pensamento.

Estes tormentos do mundo são mitigados com a fé religiosa onde o monge procura apoio, por exemplo nesta espécie de orações em soneto para protecção de sonhos pecaminosos ao deitar, e enlevo do dia, ao despertar:

Ao recolher à noite para dormir

Omnipotente Deus, que o sol criastes
Presidente da luz do claro dia,
E o governo da noite escura e fria
À inconstante lua encarregastes:

Por refugio das gentes ordenastes
O repousado sono que alivia
O diurno trabalho e agonia,
A que nossa natureza obrigastes.

Pois deste se aproveita o inimigo,
Representando em sonhos e alusões,
Com que a vossa majestade ofendamos:

Livrai-nos do mal dele, e do perigo
De seus ardis e torpes invenções,
Por que dormindo ainda vos sirvamos.

Ao levantar da cama

Graças vos dou, Senhor, que da escura
Noite e perigos dela me livrastes,
Deste dia ver a luz deixaste
A mim humilde vossa criatura.

Fazei que esta alma seja nele pura
E limpa de pecado, pois a amastes,
E para me salvar do céu baixastes,
Tomando a carne nossa a figura

Com todo coração, e de vontade,
Com a palavra, obra e pensamento
Vos sirva, louve e ame neste dia.

Louvando vossa eterna majestade,
A meu obrar dareis merecimento,
Para gozar no céu vossa alegria.

Na simplicidade da vida monástica e no encontro com a natureza, sentiu a proximidade e o conforto de Deus.

Façamos primeiro uma curta digressão por alguma da poesia inspirada na natureza da serra da Arrábida.

Na Serra D’Arrábida

No meio desta serra, onde se cria
Aquela saudade d’alma pura,
Que no duro penedo acha brandura,
Ardente fogo dentro n’água fria:

Ouço do passarinho a melodia,
Vejo vestir o bosque de verdura,
Variar-se no céu outra pintura,
Que em vários sentimentos me varia.

Pasmando de quam mal se gasta a vida
De quem na terra quer subir ao céu
Pois caminhar em fim ninguém duvida.

Menos da vida estreita que escolheu,
Dos seus mais escolhidos mais seguida,
Christo Jesu, que numa Cruz morreu.

Da contemplação a mesma

Dos solitários bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
N’esta serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais fermosura.

Que tem quem tem na terra mór ventura,
Nos mais altos estados arriscada,
Se não tem a vontade registada
Nas mãos do Criador da criatura?

A folha que no bosque verde estava,
Em breve espaço cai, perdida a flor,
Que tantas esperanças sustentava.

Por isso considere o pecador,
Se quando na pintura se enlevava
Não se enlevava mais no seu pintor.

Da poesia que deixou, alguma foi publicada parcialmente a partir de cancioneiros manuscritos, já bem entrado o século XVIII. O conjunto da obra aguarda ainda, ao que suponho, uma edição crítica.

No sabor maneirista destes sonetos encontramos o homem incerto de si, em suave conflito com as paixões terrenas e de pensamento virado para o além.

*
No silêncio da noite, em que vigio,
Desterrado da terra o pensamento,
No que dentro nesta alma represento,
Ora me aquento mais, ora me esfrio.

E pera temperar fogo com frio,
Em que me esfrio mais, ou mais me aquento,
Dos efeitos do puro sentimento
Na minha saudade choro e rio.

Depois destes contrários temperados
Na môr quietação, na môr brandura
Meus pensamentos ficam sepultados:

Temperada a frieza na quentura
Do meu divino amor tão apurados,
Que me deixam em paz na sepultura.

Chora os desvarios da sua desaproveitada mocidade

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos:

Onde mais claros vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deus acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito.

Cuja pena a velhice está purgando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.

Da emenda

Concluído me tenho a mim comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razoes claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, por môr perigo
Meu amigo consigo a mim me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitários bosques enramados
De feras bravas, mansos passarinhos.

Que inda que entre os espinhos conversados,
Mais quero pés descalços entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.

À sua inalterável confiança em Deus

Ancorou-me a velhice no remanso
Deste mar oceano, largo e brando,
Onde não tenho já que andar remando,
Nem querer noutra parte melhor lanço.

Neste repouso meu, em que me lanço,
E me levanto sempre desejando,
As forças se me vão acrescentando
Para alcançar um bem que não alcanço.

E tendo já no mar ferro lançado,
A confiança minha não se altera,
Por mais que o bravo mar vejo alterado.

Antes mais firma e forte preservera,
Que quem só no seu Deus tem ancorado,
Do bem se logra já, que ter espera.

À morte

Os correios da morte são chegados
Por caminhos antigos, impedidos
Mal com meus olhos, mL com meus ouvidos,
ML com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
De conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo e morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na Cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.

*

Contentamentos meus que já passastes,
Trocando a vida alegre, que vivia,
Por este mal, que passo, que um só dia
Me não deixam, depois que me deixastes.

Acabar me convém, pois acabastes
De dar-me o desengano, que encobria
Uma esperança vã, que me trazia
Contente, a qual também me já tirastes.

Os olhos, que Amor sempre guiava
Aonde eu tinha firme o pensamento,
Quando vossa presença os alegrava;

Agora chorarão vosso apartamento,
Que lhe tirou um bem, que os sustentava,
E só de vós ficou o sentimento.

Depois desta curta visita onde alguns momentos poéticos nos consolam, termino com a transcrição completa dos sonetos citados no inicio.

*

Acostumado tinha o sofrimento
A um mal, que já de antigo não sentia,
E posto que era grave, nele via
Que o uso diminui o sentimento.

Ordenaram-me os céus novo tormento
No tempo, que esperei nova alegria;
Dantes somente amor me perseguia,
Agora amor, fortuna e pensamento.

A lembrança dos bens, que noutro estado
Teve este peito meu, que em chamas arde,
Está levando sempre meu cuidado.

Choro a noite, a manhã, a sesta e a tarde,
Mas não devo estar desesperado,
Pois não se escusa a morte, inda que tarde.

*

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Continuo contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Velo seguro o dano, o bem incerto,
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormente, menos sinto,
O bem fogo, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte onde está escondida
A causa deste vario movimento.

Transforma-se por não ser conhecida,
Por que quer apesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.

Os sonetos transcritos, com modernização da ortografia, constam de Poesia Inéditas de Frei Agostinho da Cruz, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924.

O desenho com as mãos em prece, que abre o artigo é do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), tal como o desenho de um velho com que encerro esta espiritual visita

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