Pão Seco — poema de Wallace Stevens

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Igual a viver numa terra de tragédia é / Viver num tempo de tragédia.

Eis que um poema de Wallace Stevens (1879-1955) escrito ao tempo da 2ª guerra mundial, ganha uma dimensão de actualidade:


Era um bater de tambores o que eu ouvi
Era a fome, eram os famintos que gritavam

 

O mundo não mudou. Tantos sonhos, tanto sangue, e a tragédia continua. África, uma vez mais, e a crise de fome aguda com o seu cortejo de vidas inocentes.
O tempo de tragédia é, para lá de todos os ideais que a humanidade vem alimentando, o nosso. E a terra de tragédia rodeia-nos perto ou longe, ainda que a tranquilidade do nosso quotidiano dela no imediato nos afaste.
Floresce a imensidão de teatros de guerra e devastação, que a natureza acentua com catástrofes naturais cada vez mais fora de controle. Por isso, diariamente surgem
… homens tisnados pelo vento,
Escuros como o pão, pensando em pássaros
Vindos de países escaldantes e litorais de areia escura,

arriscando a vida com a coragem de quem não tem nada a perder.

 

Se o poema Pão Seco, que a seguir transcrevo, não deixa de nos remeter por simples associação de ideias para as tragédias dos nossos dias, também reflecte, e é motivo de alarme, a forma como elas nos vão impregnando o quotidiano com a aceitação de uma inevitabilidade que não deveríamos permitir.


E os pássaros chegavam ainda, chegavam em bandos marítimos,
Porque era primavera e os pássaros tinham que chegar.
Sem dúvida que os soldados tinham que marchar
E que os tambores tinham que rufar, rufar, rufar.

Será?

Pão Seco

Igual a viver numa terra de tragédia é
Viver num tempo de tragédia.
Olhai agora os rochedos montanhosos e inclinados
E o rio que força o seu caminho sobre pedras,
Olhai os casebres daqueles que vivem nesta terra.

Aquilo foi o que eu pintei por trás do pão seco,
Os rochedos nem sequer tocados de neve,
Os pinheiros ao longo do rio e homens tisnados pelo vento,
Escuros como o pão, pensando em pássaros
Vindos de países escaldantes e litorais de areia escura,

Pássaros que vieram como água suja em ondas,
Voando por cima dos rochedos, voando por cima do céu,
Como se o céu fosse uma corrente que os trouxesse,
Espalhando-os como se espalham as ondas pela praia,
Uma após outra, tornando nuas as montanhas.

Era um bater de tambores o que eu ouvi
Era a fome, eram os famintos que gritavam
E as ondas, as ondas eram soldados movendo-se,
Marchando, marchando num tempo de tragédia,
Abaixo de mim, no asfalto, sob as árvores.

Eram soldados que seguiam marchando nos rochedos
E os pássaros chegavam ainda, chegavam em bandos marítimos,
Porque era primavera e os pássaros tinham que chegar.
Sem dúvida que os soldados tinham que marchar
E que os tambores tinham que rufar, rufar, rufar.

in Wallace Stevens, Antologia, tradução e introdução de Maria Andersen de Sousa, Relógio d’Água, Lisboa, 2005.

 

Original do poema

 

Dry Loaf

It is equal to living in a tragic land
To live in a tragic time.
Regard now the sloping, mountainous rocks
And the river that batters its way over stones,
Regard the hovels of those that live in this land.

That was what I painted behind the loaf,
The rocks not even touched by snow,
The pines along the river and the dry men blown
Brown as the bread, thinking of birds
Flying from burning countries and brown sand shores,

Birds that came like dirty water in waves
Flowing above the rocks, flowing over the sky,
As if the sky was a current that bore them along,
Spreading them as waves spread flat on the shore,
One after another washing the mountains bare.

It was the battering of drums I heard
It was hunger, it was the hungry that cried
And the waves, the waves were soldiers moving,
Marching and marching in a tragic time
Below me, on the asphalt, under the trees.

It was soldiers went marching over the rocks
And still the birds came, came in watery flocks,
Because it was spring and the birds had to come.
No doubt that soldiers had to be marching
And that drums had to be rolling, rolling, rolling.

Publicado pela primeira vez em Parts of a World (1942).
Transcrito de Wallace Stevens, Collected Poetry and Prose, The Library of America, 1996.

 

A foto que acompanha o artigo pertence a James Nachtwey. Foi feita por este no Sudão em 1993, e mostra uma vítima da fome.

Um erotismo suave na poesia de Walther von der Vogelweide (sec. XII)

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Curto é o dia de Inverno,
as noites, porém, compridas,
para dar ao amante terno
alegrias repetidas.

 

Os leitores familiarizados com a ópera Tannhäuser de Richard Wagner já se terão cruzado com o nome de Walther von der Vogelweide, pois é um dos minnesänger que acompanham o landgrave.

Outros,  melómanos com curiosidade mais estendida, conhecerão algumas das suas canções em interpretações de grupos de música antiga espalhadas por antologias de minnesänger. Mas descobrir a sua poesia em português é tarefa difícil. Encontro alguns poemas numa História da Literatura Alemã de onde transcrevo, em tradução, superlativa, de João Barrento.

Walther von der Vogelweide, poeta-músico alemão, e dos mais notáveis, terá nascido no Tirol por volta de 1170, tendo morrido cerca de 1228-30.
Embora sendo cavaleiro, preferiu viver a vida de cantor ambulante, andando de corte em corte em busca de mecenas. É assim que na corte de Hermann da Turíngia encontra Tannhäuser e participa num concurso de canto, afinal parte dos factos reais que pela ópera de Wagner circulam.

A poesia amorosa de Walther von der Vogelweide dá conta de uma atitude diferente perante a mulher que a praticada antes por trobadors e trouvères (1), e à época pelos minnesänger. Assim, enquanto a poesia de amor cortês se envolvia em aspectos idealizados da mulher de ressonâncias marianas, no nosso poeta o amor é terreno e repassado do lirismo que a felicidade de o viver pode proporcionar. Há outros aspectos na sua poesia, nomeadamente a crítica aos acontecimentos do tempo que fazem os especialistas considerá-lo o primeiro poeta político alemão.

Como hoje o que me interessa é levar o leitor para a sua poesia amorosa, aí fica uma amostra.

 

*
Uma senhor’ é minha alegria,
de coração tão virtuoso,
de tão formosa harmonia,
que servi-la é um gozo.
Não vai negar-me um sorriso,
é meu, seja como for,
nem que queira, eu não vou nisso,
sonho com esse favor.
Quando me sento a seu lado
e ela me dá conversa,
deixa-me tão baralhado
que me anda à roda a cabeça.
Não sou mau conversador,
mas basta ela olhar para mim
para eu deixar de saber
que me fez sentar ali.

 

**
Quero ajudar ao lamento
de quem melhor fica leda,
mas neste tão falso tempo
à renúncia só se entrega.
Noutros tempos qualquer terra prezara a tão bem-talhada:
hoje, toda a beleza é nada.
Se juntos estão amiga e amigo,
livres de todo o cuidado,
o Inverno todo, eu vos digo,
por ambos é bem passado.
Quer Inverno, quer Verão, os dois têm tanto sabor
que ambos aqui quero louvar.
Curto é o dia de Inverno,
as noites, porém, compridas,
para dar ao amante terno
alegrias repetidas.
Já dei com a língua nos dentes! Se me não tenho calado,
já me não deito a seu lado!

 

***
Com as damas porto-me assim:
sou-lhes como elas a mim;
meu tempo é melhor passado
com mulheres simples ao lado.
Por onde ando muitas vi,
e sempre uma me quer a mim.
E se este prazer me anima
para que hei-de olhar mais p’ra cima?

 

 

(1) O período da poesia trovadoresca pode situar-se nos séculos XII e XIII, entre os anos 1130 e 1300. Caracteriza-se por ser escrita nas línguas locais, habitualmente cantada, e maioritariamente virada para o enaltecimento da mulher.
Vale talvez a pena referir algo mais sobre trobadors e trouvères, indistintamente chamados em português trovadores, sendo que menestréis tem em português uma aplicação mais englobante, não servindo, por isso de tradução para minnesänger.
Trobadors foram os poetas provenientes do sul da Europa, da Catalunha a Viena, sul de França (abaixo do Loire) e norte de Itália, cuja produção se situa grosso modo entre 1130 e 1210.
A sua influência foi enorme na Europa da época, e estendeu-se ao norte de França, onde encontramos os trouvères com actividade identificada nos anos 1170 a 1240. Os minnesänger, cantores na Alemanha surgem entre os anos 1180 e 1300.
A influência dos trobadors estendeu-se ao resto da península ibérica cristã, onde mais tarde floresceram os poetas do cancioneiro galaico-português.

 

Nota bibliográfica e musicológica

História da Literatura Alemã, vol I, edições Cosmos, Lisboa, 1993.
Obra colectiva em que a tradução dos poemas é de João Barrento, quando outro tradutor não é identificado.

Guide de La Musique du Moyen Âge, v. a., Fayard, 1999.

Ensaio que acompanha o cd duplo do Studio der Früen Musik dirigido por Thomas Binkley, edição DAS ALT WERK.
Nestes cd’s com músicas de trobadors, trouvères e minnesänger, encontram-se 3 canções de Walther von der Vogelweide.

 

Abre o artigo a imagem de Walther von der Vogelweide incluída no Codex Manesse (Folio 124r), a mais completa fonte para a poesia minnesäng.

TrumpAmérica e as Três bandeiras americanas de Jasper Johns

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jasper-johns-three-flags-1958-500pxSão confusos estes dias à volta da nova(?) América do Presidente Trump.
Promessas de regresso ao passado num mundo habituado a aplaudir e venerar o novo, vindas exactamente do lugar onde o Novo parece ser um valor absoluto, é no mínimo desconcertante.

Os media, por incapacidade ou propósito, falam de uma catástrofe por vir, e convencem-nos que assim será. Tudo estava bem antes e este homem vem trazer um apocalipse sem mais? Não sei. Apenas uma certeza: a América que ele traz consigo sempre lá esteve.

Nas três bandeiras americanas sobrepostas pintadas por Jasper Johns (1930) em 1958, ainda que pareçam todas iguais, é a mais pequenina que está por cima, exactamente a que simbolicamente agora é vencedora. Pobre, desprotegida, egoísta, e nostálgica de uma riqueza que muito poucos conseguiram. A América são muitas Américas e esta por agora ganhou. É retrógrada, auto-centrada, vazia da generosidade que outras Américas nos fizeram acreditar ser a sua marca de água. Não é.

O mosaico americano surge aos nossos olhos diferente do que nos últimos anos conhecemos. Quebrado, se libertar a sua arrogância sobre o mundo, será uma preocupação de todos nós.

Se aos americanos cabe fazer com que a grande bandeira preocupada com o mundo, a paz, bem-estar, progresso de todos, e respeito mundial, venha ao de cima e volte a vencer, a nós, resto do mundo, cabe-nos não deixar que a embriaguês do poder torne este mundo irrespirável. Se muros, proteccionismo, e outras novidades ainda não reveladas, podem ser matéria de divergência política, respeitando em primeiro lugar a americanos, a que o mundo deve reagir em conformidade, a estabilidade do clima na terra, a sua preservação e cuidado é empenho de todos nós. Os primeiros sinais fazem o ar que respiramos ficar mais pesado. Imperioso alerta que se sobrepõe hoje à poesia.

Futebol e poesia em João Cabral de Melo Neto

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futebol-serigrafia-500pxO fatigante gesticular em “futebolez” que enche as televisões encobre e às vezes faz esquecer a lúdica beleza que a bola consigo traz. Não sendo atacado de clubite vejo com prazer um bem disputado jogo de futebol. Em outros jogos de bola perde-se a surpreendente magia que de súbito a criatividade de um jogador de génio pode fazer surgir do movimento de ponta do pé e bola.

 

O negócio financeiro à volta do futebol, com o seu calculismo, faz com que esses momentos sejam mais e mais raros. Resta, para quem a tem, a memória de tempo diferente recheado dessa magia, e que fez lendário o futebol brasileiro, como recorda o poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) que à frente transcrevo.

 

Mas o poema vai muito para além da evocação de memória do título, revela o segredo por detrás da magia da bola no pé que se faz Futebol: dá conta da volúpia do jogo e das qualificações necessárias para a fazer desabrochar:

 

 

[a bola]

é um utensílio semivivo,
de reacções próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

 

 

As astúcias de mão que um pé genial consegue, são, afinal, a revelação que acima referi.

 

 

 

Segue-se a totalidade do poema.

 

 

 

O Futebol Brasileiro Evocado da Europa

 

A bola não é a inimiga
como o touro numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reacções próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

 

 

Transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

Carta de Heloísa a Abailard segundo Pope

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danae-museu-capodimonte-de-napoles-detalhe-550pxO amor enquanto paixão avassaladora, sobrepondo-se a quaisquer considerações sociais, religiosas, ou outras, encontra na recriação da paixão de Heloísa por Abailard imaginada por Alexander Pope (1688-1744) no século XVIII, a desmesura adequada, e é ainda hoje de empolgante leitura:

 


Eu te amei, e o prazer fiel seguindo
Fracas lembranças do meu Deus só tive.
Estimação, dever, honra, e prudência
Hei tudo por te amar sacrificado!
Eu te adorava, e em tão suave engano
Da terra o resto para mim perdido,
Meu Deus, meu universo em ti só via.

 

 

A extensão do poema inviabiliza a sua transcrição na totalidade, pelo que escolho alguns fragmentos onde Heloísa dá conta da natureza e dimensão do seu amor por Abailard.

 

O poema, assumindo-se como carta, é escrito a partir do convento onde Heloísa foi obrigada a recolher depois da descoberta pelos seus familiares, dos amores clandestinos que mantinha, ainda adolescente, com o seu professor, e também clérigo, Abailard.

 

A tradução, em verso branco, é de José Anastácio da Cunha (1744-1787), feita no final do século XVIII.

 

 

 


És tu, insano amor, que vens de novo
De um coração sensível tomar posse?
Ah! quanto me enganava!… Eu amo, eu ardo,
Eu ainda adoro… — Oh nome sempre caro!…
Abailard!… Oh querido!… quanto te amo!
Uma, e mil vezes leio a tua carta
Mil vezes minha boca amante beija
Da tua mão as conhecidas letras.
Caro Abailard, que horror!… Neste retiro
Como o teu nome articular me atrevo!…

 


Ah! que amor em teus braços me encantava
E amor longe de ti meu pranto excita!…

 


Ah! da nossa união, tão livre e pura,
A terra, e o mesmo céu têm feito um crime!
Quando o meu coração, e o teu ligados,
De amor e de amizade tu me davas
Em nome da virtude lições meigas;
Teus olhos sobre os meus nadando em gosto,
Com o fogo das paixões então brilhavam;
Minha alma foi com a tua confundida;
Um Deus em ti sem susto contemplava;
Um erro assim busquei, que me iludia.
Ah! e quão fácil te era o alucinar-me!
Tu falavas — minha alma obedecia;
Tu me pintaste amor, de encantos cheio,
E a doce persuasão de teus discursos
No já vencido peito insinuaste:
Ah! que da tua boca para a minha
Ela pelos teus lábios se passava!…
Eu te amei, e o prazer fiel seguindo
Fracas lembranças do meu Deus só tive,
Estimação, dever, honra, e prudência
Hei tudo por te amar sacrificado!
Eu te adorava, e em tão suave engano
Da terra o resto para mim perdido,
Meu Deus, meu universo em ti só via.

 

Quando a tua alma, enfim, à minha presa,
Cerrar me instava de himeneu os laços,
Eu te disse: — Querido, que pretendes?
Amor crime não é, mas sim virtude:
Para que é pois tiranas leis impôr-lhe
E de prisões políticas cingi-lo?
Amor não é escravo; — independente
No coração dos homens ele nasce,
Qual puro sentimento de alma pura:
Nosso prazer liguemos, sem que seja
Necessário também ligar as sortes.
Ah! — Pensa que himeneu prender só deve
Dos amantes sem fé vulgares almas.
Meus prazeres, meus bens no amor encontro.
O firme amor insídias não receia,
Basta amar, e seguir a natureza.
Aprendamos a amar-nos mutuamente,
E só no puro amor amor busquemos,

 


Os títulos, a gloria, a honra, a fama:
Todos os nomes que a fortuna inventa,
Rejeito altiva, e só me lisonjeia
De tua amante o nome: — e se ainda há outro
De mim mais digno, e que melhor explique
Meu terno amor, por ti vaidosa o tomo.
Oh! quanto é doce amar, e ser amado!…
Esta a primeira lei, o resto é nada.
Quem mais ditoso do que dois amantes,
Pela afeição, e pelo gosto unidos!
Eles pensam, e falam livremente;
A alegria confundem com seus gestos;
Gozando sempre, e sempre desejando,
Seus corações contentes não conhecem
Nojosos dias, e preside sempre
Uma doce ilusão à sua dita:
Por áureo copo a longos tragos bebem
Dos males, e dos não logrados gostos
Eterno esquecimento: — se há ditosos,
Seus corações decerto a dita gozam!
A bem aventurança, que buscamos,
Amor a dá, amor ao prazer guia,
E os mais perfeitos bens no amor existem:
Tal, querido Abailard, foi nossa sorte.

“O Sentimento Europeu” e Agustina – o prazer da prosa

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comic-map-of-europe-500px— e é mais fácil discutir, alimentar, estimular uma ideia comum, do que pensar—,  o “sentimento europeu” não existe; assim como a humanidade não é exactamente nenhuma cousa, …

 

 

É do lado das mulheres que muito do melhor de Portugal surge. Hoje vou a uma dessas guardiãs do país na língua que aqui se fala: Agustina Bessa-Luís (1922). Não escreveu poesia stritu senso, mas quase toda a sua prosa é um admirável poema onde na curva de cada frase paramos embevecidos e meditativos sobre a beleza que a escrita em português pode ter. E em simultâneo lemos a prosa reflexiva de alguém que pensa a grandeza do comezinho de todos os dias e o revela nos gestos da sua banalidade.

 

Deixo-lhe, leitor, um mínimo cheiro em meia dúzia de frases entre os milhares que escreveu, e temos, vívidas, gentes e paisagens, e a reflexão densa onde uma ancestral sabedoria se revela.

 

 

 

De um relato de viagem nos anos 50, o livro  Embaixada a Calígula, transcrevo um curto fragmento do percurso  entre o Escorial e Madrid:

 

 

Até Madrid, a planície é pobre, mascarada por construções e pomares que não chegam a fazê-la pitoresca. Os ciganos acampam sob as árvores, passam carros de turismo e excursões de escolas com um padre zelador e algumas jovens mestras vestidas alegremente de Verão. As crianças usam vestidos curtos e gritam, desembrulhando as suas tortilhas e pão com chouriço picante. São vivas e tímidas, com um sorriso grave e independente, essas crianças que continuam uma raça que, com alguns povos euro-orientais, mantêm em belo conflito o sentimento da vida e da morte. Até chegar a Madrid pensamos naquilo que nos leva nesta viagem, isso a que de modo gesticulante e plástico chamam “o sentimento europeu”
Como acontece com os pensamentos que não são de ninguém, que se desenvolvem numa época simplesmente porque se fazem propriedade comum — e é mais fácil discutir, alimentar, estimular uma ideia comum, do que pensar —, o “sentimento europeu” não existe; assim como a humanidade não é exactamente nenhuma cousa, …

 

 

 

Outra prosa há: efabulação sobre o país e a gente que somos, nas raízes que uma modernidade emprestada raramente consegue esconder.

Pensar, como Agustina fez, fora das ideias comuns, faz-nos falta, tanto mais falta quanto pressentimos a vertiginosa mudança deste mundo onde ainda vivemos, e escolher por onde ir está a tornar-se vital.

O mundo inteiro depende dos teus olhos… com Paul Éluard

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Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

 

O encantamento do amor corre nas palavras do poema de Paul Éluard (1895-1952) que hoje transcrevo; e a vida só existe no olhar da amada:

 


Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

 

 

É bom quando este encantamento se instala em nós: o mundo é mais belo e o lugar dos sonhos é à nossa volta:

 


Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,

 

 

Tudo e mais isto dito na belíssima tradução de Luiza Neto Jorge que a seguir transcrevo.

 

 

 

 

 

 

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e aureola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

 

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

 

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

 

 

 

 

 

in Luiza Neto Jorge, Poesia Traduzida, edição Mododeler / Edições Afrontamento, Junho 2011.

Vozes, incêndios de imaginação – Marlene Dietrich

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dietrich1939-500pxNuma das canções de adolescência que ainda ouço com emoção, Where Do You Go To (My Lovely), Peter Sarstedt fala-nos de uma paixão que acabou, e descreve-nos a mulher, de alguma forma ideal, onde sobressaem as qualidades: falar como Marlene Dietrich e dançar como Zizi Jeanmaire.
Talvez haja leitores do blog que tenham visto dançar Zizi Jeanmaire e possuam a memória de  como as suas pernas falavam, dizendo-nos da graça, da beleza e do erotismo de um corpo de mulher. Também assim com a Dietrich. Continua a correr mundo a famosa fotografia de promoção de Der Blaue Engel (O Anjo Azul)

onde um grande plano da bela, sentada, nos mostra em perfil a perna dobrada, encaminhando o olhar espectador para onde a promessa de paraíso se esconde.

Não é das pernas de Marlene Dietrich que a canção nos fala, do que também valeria a pena,  mas da sua voz, afinal o pretexto para esta divagação.

Pouco mais haverá a dizer sobre as contraditórias emoções que ouvi-la provoca. Em dia de maior disponibilidade, deu-me para registar a emoção provocada por uma sua interpretação de Johnny, wenn du Geburtstag hast, que hoje aqui revelo.

ouvi-la cantar

“Johnny wenn du geburtstag hast”

acariciar o microfone

a voz rouca

de um desejo guardado

a ponta do dedo que aflora, pressiona

e o volume cresce

c r e s c e

c  r  e  s  c  e

ah!

acabou

 

vi, ouvi, senti

senti a mão acariciar-me a alma

suave e intensamente

fazendo crescer um desejo que a ausência acumulou

 

lembro-a, o braço estendido

vestido branco

o carro que se afasta

e a felicidade que fugiu

 

talvez para sempre

A canção Johnny, wenn du Geburtstag hast foi escrita por Frederick Hollander, famoso compositor berlinense de canções de cabaret.

O texto reporta-se a uma interpretação de Johnny, wenn du Geburtstag hast no New London Theatre de Londres em 1972, quando a Dietrich tinha a voz da experiência de uma vida de sedução. Embora abundem no youtube excertos deste concerto, a todos falta a interpretação /pretexto desta divagação emocionada.

Termino com a canção de abertura: Where Do You Go To (My Lovely) e a respectiva letra que, julgo, dispensa tradução, ou mesmo elucidação dos personagens e lugares nela referidos.

You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there’s diamonds and pearls in your hair, yes there are
You live in a fancy apartment
Of the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do
But where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I’ve seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does
When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs
And when the snow falls you’re found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don’t
But where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Won’t you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh a-ha-ha-ha
They say that when you get married
It’ll be to a millionaire
But they don’t realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn
Where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try
So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do
I know where you go to my lovely
When you’re alone in your bed
I know the thoughts that surround you
‘Cause I can look inside your head
(na na-na-na na na-na-na na-na na na na na)
(na na-na-na na na-na-na na-na na na na na)

 O artigo foi antes piblicado no blog em Abril de 2012.

Imóvel, desperto com A Partida

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a-partida-500px

A partida

 

Com açúcar, com afecto,
O meu doce predilecto
Pra dizer na estação,
— Pela voz do coração:
Como eu amo você.

 

Vejam só o que me cantou na cabeça ao acordar hoje. Que surpresa!
Parcialmente imobilizado por um aleijão no tornozelo, nem música nem poesia me chamam. Com este despertar devo estar a melhorar.

Talvez a poesia em breve aqui regresse. Até lá há no blog bem mais de oitocentos artigos com poesia para saciar os mais sedentos. É só circular ao acaso por aqui.
Abro o apetite aos menos afoitos com um amuse-bouche pessoano, escrito por um jovem Fernando quando o mundo ainda girava ao som de valsas, as que agora são apenas de Ano Novo.

O artigo foi aqui publicado ainda na era pré-Trump que agora parte. Deixará o mundo antigo saudades?

 

Na minha ontologia pessoal surge por vezes a ideia de que Deus será uma entidade bem disposta apesar da perplexidade que nos assalta tantas das vezes que olhamos em redor. Penso até que uma vez por outra talvez se ria com algumas das criações das suas criaturas. Vem isto à conversa porque certo dia de angustiosas dúvidas fui levado a ler entre outros os textos de Fernando Pessoa que a seguir refiro. Fosse para me fazer rir, fosse para dar a ver que sob o mais circunspecto de cada personalidade pode sempre encontrar-se o inesperado, o que segue é que as gargalhadas afastaram as angustias da minha meditação.

Longe de assumpções metafísicas a que muitas vezes a poesia de Fernando Pessoa conduz, eis algumas brejeirices do poeta, tanto juvenis como da idade madura.

Entre os “Primeiros Outros” personagem imaginados por Pessoa, como lhes chamou Teresa Rita Lopes, surge-nos a abrir o Dr. Pancrácio de quem nos chegaram poesias do lado serio e algumas jocosas, qual este epigrama de 1905, tinha o poeta 17 anos:

Epigrama do Dr.Pancrácio

O poeta Brás Ferreira
Discute co’o primo Bento
Se kágado tem o acento
Na segunda ou na primeira.

Grita-lhe a mulher, “Ó Brás,
Acaba co’a discussão;
É bem facil a questão:
O assento está sempre atráz.”

[c. 17-09-1905]

Dando conta de uma profundidade diferente, aparece-nos, sem data, o Dr. Nabos, produtor de ditos de espírito merecedores de atenção, e de quem retenho este pensamento capaz de revolucionar geometrias:

Metaphysica do Dr. Nabos:

Quem sabe se duas paralelas se não encontram quando a gente as perde de vista? s/d

Passemos com a dúvida sobre o encontro das paralelas à certeza de que corpo sobre brasa queima. Como nesta história acontecida ao Soba de Biká:

O SOBA DE BIKÁ

Tra j édia

O soba de Biká, maravilhoso gajo,
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar “Ai, minhas calças!”, “Uh!”,
Gritou ele, esquecendo o trajo, “ai o meu cu!”

Outro dos aspectos menos frequentes na obra do poeta é o amor e o sexo, mas para ele também lá temos qualquer coisa:

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Acrescento esta enigmática evocação dos mistérios do sexo:

Um par de montes iguais
Abre a estrada do prazer.
Quem chega lá quer ver mais,
Quem vê mais nada mais quer.

Termino com uma prodigiosa definição aplicável ao incerto verão que temos tido.

DIFERENÇA DE PESSOA

Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos…
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.

Os poemas foram transcritos de Poesia 1931-1935 e não datada, ed. Manuela Parreira da Silva al., Assírio & Alvim, Lisboa, 2006; Pessoa por conhecer II, Textos para um novo mapa, edição de Teresa Rita Lopes, Editorial Estampa, Lisboa, 1990; Poesia do Eu, antologia organizada por Richard Zenith, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.