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Category Archives: Poetas e Poemas

Dia e Destino de Poeta – dois poemas de Octavio Paz

08 Segunda-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Octavio Paz

Dia

Estreio no blog a poesia de Octavio Paz (1914-1998), Nobel mexicano e poeta gigantesco entre os grandes das letras hispânicas.

Sábio nas coisas da vida e do amor, é no desprendimento da matéria que medita o dia, o efémero e o passar do tempo no poema Dia:

Dia feito de tempo e de vazio: / desabitas-me, apagas / meu nome e o que sou, / enchendo-me de ti: luz, nada.

Entrego-vos à tradução do poeta Luís Pignatelli (1935-1993).

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Día

¿De qué cielo caído,
oh insólito,
inmóvil solitario en la ola del tiempo?
Eres la duración,
el tiempo que madura
en un instante enorme, diáfano:
flecha en el aire,
blanco embelesado
y espacio sin memoria ya de flecha.
Día hecho de tiempo y de vacío:
me deshabitas, borras
mi nombre y lo que soy,
llenándome de ti: luz, nada.
              
Y floto, ya sin mí, pura existencia.

Antes de terminar, arquivo o famoso Destino de Poeta, evidência e síntese do falar poético:

Destino de Poeta

Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

Destino de poeta

¿Palabras? Sí, de aire,
y en el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palabras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos
que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.

A tradução é de novo de Luís Pignatelli. Ambas as traduções foram publicadas em Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

Os poemas integraram o livro Libertad bajo palabra (1958).

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Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia)

05 Sexta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Maya Plisetskaya, Sophia de Mello Breyner Andresen, Yousuf Karsh

Yousuf Karsh - Maya Plisetskaya

Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia de Mello Breyner Andresen a quem parecia ser S a letra adequada para dar à palavra o movimento do seu significado) parece um contra-senso – imobilizar algo que só existe em movimento.

Nesta foto de Yousuf Karsh (1908-2002) surge uma aproximação convincente à dansa fotografada, onde a lenda do ballet clássico, Maya Plisetskaya (1925), morre como cisne no ballet de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes.

Tudo me é uma dança em que procuro

A posição ideal,

Seguindo o fio dum sonhar obscuro

Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar

Tantos gestos perdidos

Mas a alma, dispersa nos sentidos,

Sobe os degraus do ar…

Sophia de Mello Breyner Andresen

in POESIA, 1944

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Uma manhã, no golfo de Corinto… e mais poemas de António Patrício

28 Quinta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Patrício

Traveller 01

É a um itinerário de amor e de prazer que nos convidam estes poemas de António Patrício (1878-1930), irmãos daquele soneto / obra-prima — Saudade do teu corpo — que em tempos aqui transcrevi.

São memória da felicidade do corpo que a mente revisita num folhear de lembranças, e a mestria o verso sublima.

Uma manhã, no golfo de Corinto…

Uma manhã, no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos-moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas,
róseos e brancos, alternando, até à praia.
— Não tornam mais a vir as horas dolorosas:
sumiram-se ao cair subtil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mística rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa:
“Queria viver assim, disseste, a vida toda.”
Tínhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois: a água era tão densa,
que nos trazia mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo…

A noite veio enfim: estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores: um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velhos.

Passamos agora da Grécia para o outro lado do mar, e é na velha Turquia que a memória do prazer passeia.

Poema de EYÚB

Tenho saudades de Eyúb…
Da cidadezinha-cemitério
a subir as ruas da colina,
dos ciprestes com ninhos de cegonha,
das stelas sem fez, dos turbantes em ruína.
Pé ante pé, como se fosse um crime,
tu entravas, de pálpebras cerradas,
no pátio sombreado da mesquita!
Na fonte ritual, de mármores rosados,
com inscrições de sonho, a malaquite e lazúli,
faziam-se, em silêncio, as abluções:
caíam com preguiça as folhagens dos plátanos,
no mosaico do chão estremeciam pombas.
Ao pé do túmulo dos derviches santos
erguia-se, a sorrir, o nosso perfumista.
E no teu sac-a-main, em vidros fasciados,
o génio dos jardins que ninguém visitou
e um velho nos vendeu em tardes de Setembro
dormia entre cartões e o teu bâton de rouge.
Corríamos Eyúb em todos os sentidos:
ruas de mausoléus arrendadas de acácias,
— fumávamos ao sol, nos mármores partidos —;
havia um ar de além narcotizando tudo:
os vivos que passavam como mortos,
o Corno de Oiro, ao longe, esfumado e de vidro.
Nenhum de nós falava.
E, porosa à tristeza, a tua argila eslava
impregnava-se, bebia a vida em torno,
para ma dar depois em luxúria e em sonho.
No cimo da colina,
Era a velada imensa dos ciprestes.
Voltávamos, então, a fitar Estambul,
reconhecendo cada domo, os minaretes.

E cada minarete, à voz do muezzin,
era um caule a florir, em orações, no ar.
Arrefecia um pouco: e nós os dois, descendo,
colados e com ritmo, entre calhaus rolando,
saíamos enfim do cemitério imenso.
Os mortos, em Eyúb, adormeciam todos…
À colina violácea as cegonhas voltavam.
E o ópio da terra muçulmana
doria tudo numa paz sem nome.

Ao pé do embarcadoiro,
olhando a água, a goles muito lentos,
bebíamos café que um cafégi trazia.
E na penumbra glauca as medusas bailavam:
Vénus, ao fundo, era no golfo um cális de oiro…
E ainda os nossos olhos a fitavam,
quando, em barco de sombra, o vapor atracava,
E, sem ruído, a gente turca se escoava.

Oh! a volta, oh! a volta,
na água espessa de noite, em dezenas de escalas,
até tocar por fim na ponte, em Estambul.
Nós íamos os dois como que entorpecidos,
sem um só movimento, enluvando os sentidos,
como a dizer adeus às coisas que passavam.

E passava o Phanar cor de sangue coalhado
(o sangue de Bizâncio a crepitar na tarde),
misérrimos jardins com um minarete pobre
(aonde vai rezar um muezzin em farrapos),
e que é como um pombal, como o pombal deserto
de que o génio de Allah fosse a invisível pomba.

Ah! Deitai-vos, deitai-vos…
Dormi nos contrafortes das mesquitas,
minaretes de Eyúb e de Constantinopla:
da Sulimanié e de Santa Sofia,
todos vós, todos vós; adormecei: deitai-vos…
Devagarinho: há névoa já: ninguém nos vê…
Como os mortos de Eyúb, adormecei. Silêncio.
Se houver estrelas é mais tarde. Adormecei.

Termina este curto deambular por memórias de paixão com a nostálgica recordação do anuncio do fim.

Em Prinkipo

O Outono de cristal enredomava a ilha.

Era uma elísea luz que os ciprestes fiavam

em rocas verde-bronze: os pinhais plumulavam.

Ouvimos não sei quê; e era – maravilha! –

era uma migração de cegonhas que vinha

em triângulos, gris, sobre a calma marinha,

num ritmo musical, musicalmente absorto,

como seguindo no ar o fantasma de um morto.

Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas

que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.

E como a migração, rósea e gris despedida,

também em ti dissesse o adágio da partida,

tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror:

era a Morte a passar por sobre o nosso amor.

Muito tempo passou. – Onde estás tu agora? –

Queria saber se em ti a magia dessa hora,

aquela migração de cegonhas que vinha,

rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,

voa e revoa ainda, irreal maravilha,

no Outono de cristal que enredomava a ilha.

Os poemas foram transcritos de Poesia Completa, Assírio & Alvim, Lisboa s/d (1980).

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Miguel Torga – quatro poemas de Cântico do Homem

27 Quarta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Miguel Torga

Michelangelo-Creation_of_Adam_detail-1508-1512-III

A curtos espaços releio a poesia de Miguel Torga (1907-1995). Vogo por entre os poemas num deambular de interrogações sobre o sentido deste viver de homem só em frente ao mundo.

Bato à porta da minha solidão,
E ninguém abre!
Na grande noite que me rodeou,
Quem vinha ao meu encontro, desviou
A direcção fraterna da ternura…

Trevas — é o que ficou
Na concha de que fiz a sepultura.

São poesia que insiste em fugir-nos no pouco amável do seu verso, e onde as exigências do existir nos confrontam.

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou, e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Hoje paro em mais dois poemas do livro Cântico do Homem pela primeira vez publicado em 1950.

Sonho perdido

Como foi que o meu sonho se perdeu
No liso descampado desta vida?
Distraída
Atenção
Que tão ingloriamente empobreceu
Quem não tinha outro vinho e outro pão!

Na fundura dos bolsos não encontro
Nem sequer a lembrança desenhada
Do seu calor!
Perdi o sonho… E resta-me o pudor
Deste triste poema ressequido…
Perdi o sonho… E nunca se encontrou
Nenhum sonho perdido.

Último Reduto

Meu coração é bom naturalmente.
Gosta do mar, da terra e das crianças.
Bate uma vida inteira sem mudanças,
Se ninguém o magoar.
No seu calor, é quente
Qualquer amor que o venha visitar.

Fonte dum rio que dá volta ao corpo
Da humanidade,
Nunca, em nenhuma idade,
Empobreceu a força do caudal!
Generosa, fecunda e permanente,
A vermelha corrente
Regou sempre a secura do areal.

E querem duvidar desta certeza!
Querem que uma represa
De amargura
Seja a vil sepultura
Dum braço que sempre se alargou!
Querem que a noite da desilusão
Se dobre sobre cada pulsação
Da onda que a ternura levantou!

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Canto – um poema de amor de Irene Lisboa (talvez esquecido)

25 Segunda-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Irene Lisboa

Klimt_Gustav-Hope_II

Já tinha alguns anos de publicação em livro a obra poética de Irene Lisboa (1892-1958) quando este exultante poema de entrega ao amor surgiu numa revista em 1944.

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.
…

Desenvolve-se o poema, e mais à frente, na ênfase do verso repetido, regressa a força da entrega à paixão:

…
Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…
…

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Na emoção do encontro e do afastamento seguimos pelos versos decantados onde o amor escorre em palavras de desejo e resignação.

…
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
…

É, sem duvida, um belo poema de amor, e dorme nas páginas esquecidas de uma revista literária hoje rara.

Podemos procurar com lupa até encontrar tão eloquente evocação poética de um beijo ardente quanto esta:

…
Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.
…

A este poema aplicam-se como luva as palavras de José Gomes Ferreira escritas num prefácio a umas “Poesias completas de Irene Lisboa” que nunca se publicaram: …tema do Amor que é um dos mais difíceis de analisar na poesia de Irene Lisboa porque, no fim de contas, reflecte o que existe no espírito e no corpo de todas as mulheres e a grande poetisa dos Pequenos Poemas Mentais tentava dia a dia, desencantar e exprimir sem o reduzir à resignação biológica feminina mais ou menos alindada com palavras de galanteio suficientes.

Sendo a obra poética de Irene Lisboa hoje praticamente desconhecida, e encontrar os seus livros tarefa beneditina de pesquisa em alfarrabistas, vale talvez a pena transcrever o que sobre a obra diz Jorge de Sena em Líricas Portuguesas III, onde republicou os Pequenos Poemas Mentais acima referidos:

“É hoje considerada um dos grandes escritores portugueses, pela originalidade incomparável do seu estilo e da sua personalidade, tendo criado uma vasta obra que se destaca pela delicadeza e subtileza de tom e por uma ironia discretamente desapegada e lúcida, mas no fundo aberta a uma ternura selvagem, uma humanidade áspera, uma ácida doçura.
Os seus poemas pouco publicados em livro e dispersos, porém— e toda a sua prosa possui um timbre da mais límpida poesia, uma poesia ao mesmo tempo finamente civilizada e acremente campestre —, através do requinte de uma consumada arte do ocasional e do momentâneo, igualmente constituem, no seu aspecto aparentemente descosido, e vagamente meditativo, a afirmação de uma das mais notáveis figuras líricas contemporâneas: lirismo feminino que é plácida desenvoltura de um espírito implacável, indomitamente livre e liberto.“

Deixo-vos com o poema.

CANTO

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim já estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

*

Cinco vidas, nada menos,
cinco vidas querias ter.
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inefável,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
É primavera! saíu-me da boca.
E tu sorriste.
Sorriste, creio.
Primavera e todas as estações…
Chuva e sol, tempo sem idade.

*

Aqueles suaves, langues verdes, tão cariciosos;
os redondos troncos
e os musgos fofos;
os melros agrestes
e as campainhas roxas daquelas flores da minha infância,
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho…
E as loucas nuvens corredias
e as pedras hieráticas
e as veredas amáveis,
como se os ofereciam!
Amavam-nos,
Não o viste?
No passo certo em que ambos íamos
tudo, tudo nos prendia
e nós tudo deixávamos.
Mas o vento…
o vento dos altos a que me dei,
mais do que o resto a ti me trouxe,
a ti me entregou.
Como se eu te esperasse
e te pudesse fugir,
sôfrego quiseste-me prender.
Eu presa já estava…

*

E assim continuámos.

*

Aquela hora não esquece.
Não pode esquecer,
nem se repete.

*

Mudarás tu ou mudarei eu.
O mundo acena-te.
E não se é nada…
Mas a hora, a hora, a hora tão cobiçada,
a hora que chegou,
passando, não passa…
morrendo, ficou…
Nos ramos,
nas heras luzentes,
na chuvinha suspensa,
nas voltas do caminho,
na frescura aspirada,
na solidão alegríssima e confidente,
em ti e em mim.
Ficou.
Está.
Mas a ninguém o confesses
nem disso te convenças.

*

Permanece,
está naquelas flores rosadas,
quasi sem cor, dos lindos arbustos…
Tornaremos jamais a vê-los sem nos lembrarmos?
Eles… somos nós passando,
Tu, silencioso;
eu, aconchegada.
Na tua mão quente,
a minha, presa e enraizada,
tão segura e tão confiante,
era uma dádiva.
Naquele breve momento
tu a recebias e guardavas.

*

Assim, inteira, a mim me guardasses!

*

Ou, sequer, a lembrança inconfundível
do repente doce e acre
em que me beijaste,
como se eu fosse uma folha,
uma baga de árvore
e tu uma rajada.
Em que me aspiraste
ou em que me sorveste…
Não me ficaria a boca em sangue?
Deixaste-me,
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada,
meu senhor.
Se eu pudesse voar,
soltar-me dos teus braços,
iria como um pássaro, receoso e deslumbrado,
de árvore em árvore, de ramo em ramo,
sem nada ver, tonto, tonto,
até que de novo o chamasses.

*

Mas a longa,
a magnânima tarde
não me concedeu asas…
Por isso a minha mão dentro da tua,
sensível e cativa,
te disse, te repetiu longamente, à saciedade,
o que bem querias saber
e até o que sentias.
Te confessou quanto lhe pediste.

Publicado no nº4 da revista Litoral em 1944.

Breve comentário bibliográfico.

A mais recente edição das obras de Irene Lisboa, de meu conhecimento, data da década de 90 e foi publicada pela Editorial Presença sob direcção de Paula Morão. Nesta edição, a poesia de Irene Lisboa, publicada originalmente em livro com o pseudónimo de João Falco, foi reunida no volume I, poesia I, com o título: um dia e outro dia… outono havias de vir. E por aqui ficou, que eu saiba. Houve um prometido volume de poesia inédita que não viu a luz do dia, suponho, e a poesia dispersa por publicações periódicas não foi objecto de qualquer recolha.

A organizadora da edição mencionada defendeu uma peregrina tese de doutoramento que publicou em livro, IRENE LISBOA vida e escrita, Editorial Presença, Lisboa, 1989, onde tratando da relação vida/escrita da mulher, consegue passar completamente ao lado da poesia de Irene Lisboa, quase como se esta fosse marginal à obra e não criação paralela à prosa ao longo da vida literária.

Na verdade a obra poética, dispersa (a partir de 1940 Irene Lisboa nunca mais publicou poesia em livro) exige primeiro a sua recolha para depois sobre ela reflectir. Mas numa obra literária onde a poesia conhecida surge a cada passo como voz interior que se liberta, pretender dissecar vida e escrita passando-lhe ao lado, interroga-nos sobre o sentido da tarefa e conclusões, para dizer o mínimo.

Pesquisar esta poesia perdida dá trabalho. Que maçada! É tão mais fácil perorar sobre edições acessíveis. Enfim!

Venha o investigador sério e probo que meta mãos à tarefa e nos dê estes poemas que, pelo conhecido, se adivinham de enorme valor. Eu, leitor, agradeço.

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Antonio Machado – Parábolas I

23 Sábado Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Antonio Machado, Magritte

Magritte_Rene-Beautiful_World

Regresso à poesia de António Machado (1875-1939) com a primeira das parábolas publicadas em Campos de Castilla (1907-1917).

Poema sobre a realidade e o sonho, nele, uma vez mais, António Machado  e o seu filosofar poético tocam-nos no mais fundo da alma.

Era un niño que soñaba / un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño / y el caballito no vio.

Fazendo uso da sua simplicidade enganosa, que não é senão mestria de génio, somos levados da infância à velhice embalados na música dos versos, tentando encontrar a fronteira entre sonho e realidade, sem sucesso.

Deixo-vos a tradução de José Bento, primeiro, seguida do original em castelhano.

Tentai a leitura do poema original em voz alta e sentir-se-á melhor o prodígio de musicalidade que este poema é.

Era um menino a sonhar

com um cavalo de cartão.

O menino abriu os olhos

e não viu o cavalinho.

Com um cavalinho branco

ele voltou a sonhar;

pelas crinas o prendia…

Assim não te escaparás!

Mal o conseguiu prender,

logo o menino acordou.

Tinha a sua mão fechada.

O cavalinho voou!

O menino ficou sério,

pensando não ser verdade

um cavalinho sonhado.

Já não voltou a sonhar.

E o menino se fez moço

e o moço teve um amor,

e dizia à sua amada:

Tu és de verdade ou não?

Quando o moço se fez velho

pensava: Tudo é sonhar,

o cavalinho sonhado

e o cavalo de verdade.

E quando chegou a morte,

o velho ao seu coração

perguntava: Tu és sonho?

Quem saberá se acordou!

Era un niño que soñaba

un caballo de cartón.

Abrió los ojos el niño

y el caballito no vio.

Con un caballito blanco

el niño volvió a soñar;

y por la crin lo cogía…

¡Ahora no te escaparás!

Apenas lo hubo cogido,

el niño se despertó.

Tenía el puño cerrado.

¡El caballito voló!

Quedóse el niño muy serio

pensando que no es verdad

un caballito soñado.

Y ya no volvió a soñar.

Pero el niño se hizo mozo

y el mozo tuvo un amor,

y a su amada le decía:

¿Tú eres de verdad o no?

Cuando el mozo se hizo viejo

pensaba: Todo es soñar,

el caballito soñado

y el caballo de verdad.

Y cuando le vino la muerte,

el viejo a su corazón

preguntaba: ¿Tú eres sueño?

¡Quién sabe si despertó!

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Alberto Caeiro – Poema VIII de O Guardador de Rebanhos no Dia do Pai

19 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, Louis Gallait

louis Gallait 1848

Somos filhos antes de sermos pais. Em cada idade sentimos o Dia do Pai de forma adaptada ao percurso por onde a vida nos levou.

Depois que somos pais, somos também filhos de maneira diferente. Mas por mais adultos e suficientes que sejamos, só a perda do Pai nos faz sentir como a partir daí estamos na vida por nossa conta. É essa referência que nos moldou ao crescer, que nos acompanha pela vida e nos faz desejar assinalar de forma especial a passagem do Dia do Pai, diferente do seu ou do nosso aniversário.

Uma vez pais, cada filho é sempre uma espécie do nosso Menino Jesus. Foi sentindo isso que escolhi assinalar este Dia do Pai com a transcrição do poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa, que termina precisamente com esta identificação:

Esta é a história do meu Menino Jesus. / Por que razão que se perceba /Não há de ser ela mais verdadeira / Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?

O poeta diz num verso lapidar como cada filho vive em nós e nos integra:

…

Ele dorme dentro da minha alma

…

A irreverência, por vezes chocante para católicos, que numa leitura superficial do poema a espaços surge, como por exemplo neste fragmento:

…

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

ganha a dimensão da liberdade de pensar e faz sentir a complexidade dos sentimentos que nos atravessam perante a força avassaladora da fé, na sua negação do irracional. Irracional que está sempre presente no amor com que banhamos os nossos filhos desde o dia em que nascem até que deles nos despedimos, talvez com o desejo secreto que o poeta desvela:

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Deixo-o, leitor, com o poema.

Para quem o conhece, fica o prazer do reencontro. Para quem o lê pela primeira vez, no final será, eventualmente, outra pessoa.

VIII

Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.            

Vi Jesus Cristo descer à terra.

           

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

           

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacôrdo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma côroa tôda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dêle;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que êle, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

           

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas pôças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que tôda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

           

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me tôdas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

           

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito-Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou –

«Se é êle que as criou, do que duvido» -.

«Êle diz, por exemplo, que os sêres cantam a sua glória,

Mas os sêres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam sêres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao cólo para casa.

           

…………………………………………………………

           

Êle mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Êle é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Êle é o humano que é natural,

Êle é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com tôda a certeza

Que êle é o Menino Jesus verdadeiro.

           

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque êle anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que fôr,

Parece falar comigo.

           

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segrêdo comum

Que é o de saber por tôda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

           

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que êle me faz, brincando, nas orelhas.

           

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acôrdo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

           

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fôsse todo um universo

E fôsse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

           

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque êle sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

           

Depois êle adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até êle estar nu.

           

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sòzinho

Sorrindo para o meu sono.

           

……………………………………………..

       

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

           

……………………………………………………

           

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

A transcrição ortográfica segue o texto fixado por Teresa Sobral Cunha na sua edição dos Poemas Completos de Alberto Careiro, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

A pintura que abre o artigo é do belga Louis Gallait pintada presumivelmente em 1848.

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Domingo à tarde, o poema de Alfred Lichtenstein com paisagens urbanas de Egon Schiele

10 Domingo Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Alfred Lichtenstein, Egon Schiele

Egon Schiele - suburbios

Deixemos entrar no meio das harmonias de que aqui falo um pouco da crueza do mundo que aos nossos olhos se expõe, apenas consintamos à vista circular em redor.

Egon Schiele - casas com roupas penduradas 2

Não obstante o poema de Alfred Lichtenstein (1889-1914) ser do inicio do século XX (1912), há uma realidade de miséria material e humana que perdura nas nossas sociedades e grita para que dêmos por ela.

Egon Schiele - casas amarelas

No poema, alguns detalhes são-nos hoje estranhos, mas a atmosfera em domingo de província ou de periferia urbana permanece reconhecível.

Egon Schiele - Cidade de Krumau 1915-16

Em ruas podres acampa o casario,
Sobre cuja bossa baço sol clareia.
Um cão de luxo perfumado e com cio
Atira ao mundo olhares de quem esgazeia

De fraldas cheias gritam bebés zangados.
Numa janela, a apanhar moscas, está um moço.
Um comboio no céu, sobre ventosos prados,
Vai pintando lento e longo traço grosso.

Como máquinas matraqueiam ferraduras.
Cheios de pó chegam ginastas ruidosos.
Lançam-se gritos brutais de tascas escuras.
Mas são cortados por inóspita maviosos.

Nos lupanares, onde s atletas lutam,
Difuso entardecer já tudo engole.
Um realejo uiva e criadas cantam.
Um homem esmaga mulher podre e mole.

La ciudad vieja

A pintura de paisagens urbanas de Egon Schiele (1890-1918) que acompanha o poema é grosso modo sua contemporânea. Género menos frequente na obra do pintor, no pesado do seu colorido, ela dá conta da atmosfera de pobreza e necessidade que também hoje se vive nos centros históricos semi-abandonados e em vastas zonas de arrabalde das grandes cidades.

Egon Schiele - casas com roupas penduradas

Termino com um pungente retrato de mãe e filha, também de Egon Schiele, dando conta de uma realidade que, afinal, permanece.

Egon Schiele - Mae e filha 500

A tradução portuguesa do poema é de João Barrento.

Para os eventuais conhecedores do alemão, segue o original do poema:

Sonntagnachmittag

Auf faulen Straßen lagern Häuserrudel,
Um deren Buckel graue Sonne hellt.
Ein parfümierter, halbverrückter kleiner Pudel
Wirft wüste Augen in die große Welt.

In einem Fenster fängt ein Junge Fliegen.
Ein arg beschmiertes Baby ärgert sich.
Am Himmel fährt ein Zug, wo windge Wiesen liegen;
Malt langsam einen langen dicken Strich.

Wie Schreibmaschinen klappen Droschkenhufe.
Und lärmend kommt ein staubger Turnverein.
Aus Kutscherkneipen stürzen sich brutale Rufe.
Doch feine Glocken dringen auf sie ein.

In Rummelplätzen, wo Athleten ringen,
Wird alles dunkler schon und ungenau.
Ein Leierkasten heult und Küchenmädchen singen.
Ein Mann zertrümmert eine morsche Frau.

 

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Herberto Helder e O AMOR EM VISITA no Dia da Mulher

08 Sexta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Matisse

Matisse_Henri-Zulma

Para quem anda distraído, ou ocupado nas imensas ninharias da vida, celebra o mundo neste dia 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher.
Assunto maior e recorrente no blog – A Mulher – aproveito a comemoração para, com pouca conversa, transcrever o longo poema/oração de Herberto Helder (1930) O AMOR EM VISITA, um entre aquela menos que duzia de obras-primas absolutas da poesia portuguesa do século XX, pela primeira vez publicado em 1958 e sucessivamente retocado.

Poema de exaltação do amor pela mulher, que a abrir nos diz:

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.

Com o poema caminhamos na musica encantatória do verso, e percorremos, entre o instante e o eterno, a vertigem do amor:

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.

sabendo que no final e sempre:

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas –
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
– Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo –
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável –
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água – e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Transcrevi a versão publicada em OU O POEMA CONTÍNUO, edição da obra poética de Herberto Helder, na forma definitiva de 2004, publicada por Assírio & Alvim em Setembro de 2004.

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Mais Álvaro de Campos – Ai, Margarida, …

06 Quarta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Edward Burra, Fernando Pessoa

Edward Burra 1905-1976 Tate

Mesmo nas mais aparentes bagatelas poéticas encontramos sobre que reflectir ao ler a poesia de Fernando Pessoa.

Nesta brincadeira sobre a leviandade e o amor, o diálogo entre o casal revela o contraste frequente entre homem e mulher, na oposição entre a fantasia masculina e o pragmatismo feminino.

A forma poética, prenhe de trivialidades, forçou o autor a declarar no final da conversa/poema tratar-se do resultado de uma bebedeira.

Ai, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que farias tu com ella?
– Tirava os brincos do prego,
casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrella.

Mas, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que diria tua mãe?
– (Ella conhece-me a fundo.)
Que ha muito parvo no mundo,
E que eras parvo tambem.

E, Margarida,
Se eu te désse a minha vida
No sentido de morrer?
– Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fôsse senão poesia?
– Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem effeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

Sr. Alvaro de Campos em estado

de inconsciencia

alcoolica.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, 1993.

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