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Category Archives: Poesia Antiga

A busca inacabada num poema de Al-Thurthusi

29 Domingo Mar 2015

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Al-Thurthusi

Iluminura 25 600pxContinuo com a poesia do Al-Andaluz, desta vez com Al-Thurthusi, andaluz do sec. XI, e um seu poema em versão de Jorge Sousa Braga.

 

Lemos, numa forma poética superior, da busca inacabada pelo ideal que todos com mais ou menos detalhe por uma vez tocámos e com persistência almejamos.

 

Olho o céu sem fim

à espera de ver a estrela que tu vez

 

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado

à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

 

Enfrento os ventos

à espera que tragam uma mensagem tua

 

Vagueio sem destino

à espera de ouvir uma canção que fale de ti

 

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção

que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos

 

Transcrito de O Vinho e as Rosas, Antologia de poemas sobre a embriaguez, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa 1995.

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Com Ibn Sâlih em relato de prazeres

27 Sexta-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Ibn Sâlih

Depois das seríssimas questões poeticamente abordadas nos últimos dias, volto à alegria simples da plenitude do amor com um curto poema de um nosso antepassado quando a península era o Al-Andaluz, Ibn Sâlih Ash-Shantamarî.

Os tempos eram violentos, as paixões também, e os homens encontravam repouso nos prazeres e no seu relato poético.

Aproveitai do curto poema para o longo prazer que ele revela.

 India sec XVIII 1

na mais luminosa noite

repouso ao corpo não dei

e de meus olhos o sono

nessa noite eu apartei:

aos brincos dela as argolas

dos tornozelos juntei.

India sec XVIII 2

Aos leitores a escolha de qual o caminho para unir os brincos às argolas dos tornozelos, sendo certo que o nosso poeta nos diz — repouso ao corpo não dei — pudera…

Esta poética versão de uma noite de amor foi mudada para português por Adalberto Alves, e consta da antologia O Meu Coração é Árabe, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999.

 

Diz-nos o antologiador que o poeta era natural de Faro, e terá vivido o século XII.

 

As pinturas que abrem e fecham o poema, são miniaturas da Índia do século XVIII, e pertencem à colecção do Museu Britânico.

 

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Um êxtase espiritual de São João da Cruz

20 Sexta-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Ary Scheffer, Benvenuto Cellini, São João da Cruz

CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial marmore 550pxA forma erotizada de expressar o sentimento religioso na poesia de São João da Cruz (1542-1591) faz da sua leitura uma experiência única. O contraste entre o amor divino, imaterial por natureza, e a sua expressão física relatada nos poemas, são o combustível para a singularidade da emoção à sua leitura.

 

Transcrevo o êxtase que no poema Noite Escura o santo homem relata. Nele, fala-nos a alma do encontro com o seu Amado, guiada até ele apenas pela luz que no seu coração ardia.

É do mais sublime que em poesia erótica existe no mundo.

 

Noite Escura

 

Canções da alma que rejubila

por ter chegado ao alto estado da perfeição,

que é a união com Deus,

pelo caminho da negação espiritual

 

Em uma noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

Às escuras, segura,

pela secreta escada, disfarçada,

oh ditosa ventura!,

às escuras e emboscada,

estando minha casa sossegada.

 

Nessa noite ditosa,

secretamente, que ninguém me via,

de nada curiosa,

sem outra luz nem guia

senão a que no coração me ardia.

 

Só esta me guiava

mais segura que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu já bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Oh noite, que guiaste!

Oh noite, amável mais que a alvorada!

Oh noite que juntaste

Amado com amada,

amada em seu Amado transformada!

 

Em meu peito florido,

que inteiro só para ele se guardava,

ficou adormecido,

e eu o afagava,

e o leque de cedros brisa dava.

 

A viração da ameia,

enquanto eu seus cabelos espargia,

com sua mão que enleia

o meu colo feria,

e meus sentidos todos suspendia.

 

Fiquei e olvidei-me,

O rosto reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, e deixei-me,

deixando o meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 Scheffer, Ary - Os fantasmas de Paulo e Francesca aparecem a dante e Virgilio 1835 Wallace Collection

Tradução de José Bento

Transcrito S. João da Cruz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Lisboa.

 

Acrescento a tradução de Jorge de Sena

 

Noite Escura

 

Em uma Noite escura,

com ânsias em amores inflamada,

ó ditosa ventura!

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

A ocultas, e segura,

pela secreta escada, disfarçada,

ó ditosa ventura!,

a ocultas, embuçada,

estando minha casa sossegada.

 

Em uma Noite ditosa,

tão em segredo que ninguém me via,

nem eu nenhuma cousa,

sem outra luz e guia

senão aquela que em meu seio ardia.

 

Só ela me guiava

mais certa do que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu mui bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Ó Noite que guiaste!,

ó Noite amável mais que a alvorada!,

ó Noite que juntaste

Amado com amada,

amada nesse Amado transformada!

 

No meu peito florido,

que inteiro para ele se guardava,

quedou adormecido

do prazer que eu lhe dava,

e a brisa no alto cedro suspirava.

 

Da torre a brisa amena,

quando eu a seus cabelos revolvia,

com fina mão serena

a meu colo feria,

e todos meus sentidos suspendia.

 

Quedei-me e me olvidei,

e o rosto inclinei sobre o do Amado:

tudo cessou, me dei,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

Termino com a transcrição do original do poema.

 

Noche Oscura

Canciones de el alma que se goza

de habber llegado al alto estado de la perfección,

que es la unión con Dios,

por el camino de la negación espiritual

 

En una noche obscura,

con ansias, en amores inflamada,

¡oh dichosa ventura!,

salí sin ser notada,

estando ya mi casa sosegada.

 

Ascuras y segura,

por la secreta escala disfrazada,

¡oh dichosa ventura!,

a oscuras y en celada,

estando ya mi casa sosegada.

 

En la noche dichosa,

en secreto, que nadie me veía,

ni yo miraba cosa,

sin otra luz y guía

sino la que en el corazón ardía.

 

Aquesta me guiaba

más cierto que la luz del mediodía,

adonde me esperaba

quien yo bien me sabía,

en parte donde nadie parecía.

 

¡Oh noche, que guiaste!

¡Oh noche, amable más que el alborada!

¡Oh noche que juntaste

Amado con amada,

amada en el Amado transformada!

 

En mi pecho florido,

que entero para él solo se guardaba,

allí quedó dormido,

y yo le regalaba,

y el ventalle de cedros aire daba.

 

El aire del almena,

cuando yo sus cabellos esparcía,

con su mano serena

en mi cuello hería

y todos mis sentidos suspendía.

 

Quedéme y olvidéme,

el rostro recliné sobre el Amado,

cesó todo, y dexéme,

dexando mi cuidado

entre las azucenas olvidado.

 

Abre o artigo a imagem do chamado Cristo do Escorial esculpido por Benvenuto Cellini (1500-1571) para o acompanhar no seu próprio enterro. A escultura em mármore de Carrara, e de tamanho natural, mede 1,84m, mostra-se actualmente na Basílica do Escorial, nos arredores de Madrid. Acontece que, supostamente para evitar o escândalo dos fiéis, se encontra envolta na bacia, por uma tela.

 CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial com tela 300px

Comprado pelos Medici, foi posteriormente oferecido a Filipe II de Espanha, e por este guardado no Mosteiro do Escorial.

 

A imagem da pintura dá conta de uma visão de Paolo e Francesca vivendo no inferno pelo pecado da luxúria, e encontrados por Dante na sua passagem. A pintura, de Ary Scheffer (1795-1858), feita em 1835, pertence à Wallace Collection de Londres.

 

Num tempo em que culpa e castigo ocorrem dentro de outros paradigmas, a sobreposição da mente ao corpo é algo com que todos os dias temos que nos haver.

Sendo estas obras testemunhos históricos de uma relação entre o erótico e o sagrado, e com uma história mítica que lhes subjaz, hoje, no nosso confronto com elas, somos questionados sobre as certezas acerca de quanto corpo e espírito são realidades autónomas no ser humano: entre fazer e pensar que distância há a percorrer? — (emocional, social e afectivamente?).

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Sófocles — fragmento de Rei Édipo

19 Quinta-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Robert Smithson, Sófocles

Robert Smithson-Spiral-Jetty-Great-Salt-Lake-02-1970A condição de homem, em filho sempre, em pai, se acontece, vive-se na fragilidade da nossa circunstância. No labirinto do mundo apenas alguns caminhos percorremos, e em cada encruzilhada somos levados a decidir, bem ou mal, por onde continuar. Dessas escolhas vivemos as consequências. Se em algum momento podemos sentir: Pai, Pai, porque me abandonaste!? há um desabar em torno que retira sentido ao mundo.

A tragédia que as armadilhas do destino podem proporcionar viveu-as Édipo enquanto filho e pai, levadas a uma dimensão de absoluto. Personagem exemplar e mítico, na tragédia Rei Édipo escrita por Sófocles, confronta-se com os acasos que a vida o fez viver.

É a sua condição de filho que matou o pai, posteriormente casou com a mãe com quem gerou também filhos que seriam simultaneamente seus irmãos, o que se relata nos fragmentos que a seguir transcrevo.

Apesar de nos actos ignorar a sua condição de filho, descobrindo-se autor de tão hediondos crimes, furou os olhos cegando-se, a assim renunciou à vida quando o suicídio era um interdito.

A história, abusivamente assimilada a partir de Freud ao chamado complexo de Édipo, dá conta, entre a vastidão das suas implicações morais, da dignidade com que um homem aceita o inevitável sofrimento pela honra, em sequência de actos ignominiosos cometidos no desconhecimento da sua natureza e dimensão.

 

 

Estásimo IV

 

Coro

 

Ó gerações dos mortais,

como a vossa vida ao nada

se iguala!

Que homem, sim, que homem

da ventura mais possui

do que a aparência de a ter,

e, uma vez tida, de cair no ocaso?

Sim, com o teu exemplo — o teu!…

ó desditoso Édipo, os mortais

em nada vejo afortunados.

 

Tu, que ao mais alto

apontaste e dominaste

em tudo próspera a riqueza

— ó Zeus! — que derrubaste,

fatídica, a virgem

de recurvas presas e contra a morte

tua muralha nos ergueste!

Desde então meu rei

tu és chamado e as maiores

honras te são dadas,

da poderosa Te as

senhor!

 

Agora, quem poderá contar maior desdita?

Quem, no sofrimento, quem na ruína cruel

se lhe aproxima na derrocada da vida?

Aí, gloriosa figura de Édipo

a ti, imenso, o mesmo

porto foi bastante

para o filho e o pai

nas núpcias receber.

Como pôde, como pôde o seio fecundado

por teu pai consentir-te,

desditoso, no silêncio até agora?

 

Descobriu-te, mau grado teu, o tempo que tudo vê;

condena esta união monstruosa, em que há muito

genitor é gerado são um só.

Ai, filho de Laio,

nunca, nunca eu

te conhecesse!

Choro como se um grito

de horrores dos meus lábios

escapasse. E para falar

com justiça, por ti tomei alento,

e por ti, agora, a treva me cobre os olhos!

v.v. 1186-1222

 

…

 

Édipo

 

Que estas acções não foram o procedimento ideal, não mo ensines nem tão-pouco me dês conselhos. Pois, se eu tivesse vista, não sei com que olhos poderia encarar o meu pai, ao entrar no Hades, ou minha desgraçada mãe; contra ambos cometi crimes que exigem mais do que a forca.

E também em contemplar os meus filhos, nascidos como nasceram, que prazer poderia eu sentir? Nunca os meus olhos o teriam! Nem em contemplar a cidade, nem as suas muralhas, nem as imagens sagradas dos deuses; delas me afastei eu próprio — eu, que agora sou o maior dos desgraçados, e que fui um dos mais nobres filhos de Tebas — ao exortar todos ao repúdio do homem impuro, desse que os deuses apontam como anátema e filho de Laio.

Depois de tal mancha ter descoberto em mim, podia eu encará-los de olhar levantado? De modo algum. Houvesse ainda para a fonte dos sons uma barreira na senda dos ouvidos, e não me teria contido, sem aferrolhar o meu pobre corpo, para que fosse, além de cego, incapaz de ouvir; é doce para o espírito habitar longe dos seus males.

Oh Citerón, porque me acolheste? Porque me não recebeste para em seguida me dares a morte? Jamais mostraria então aos homens a minha origem. Oh, Pólibo, Corinto, antigo palácio ancestral, que passava por ser o de meu pai, tanta beleza criastes, e tanto mal dissimulado em mim! Pois agora, eu me descubro como réprobo, de réprobos nascido. Oh, caminho tripartido, recanto arborizado do vale, floresta de carvalhos, senda estreita da tripla encruzilhada, que bebeste, por minhas mãos derramado, o sangue de meu pai: acaso vos lembrais ainda de mim, dos crimes que em vossa presença cometi e daqueles que, ao vir, de novo pratiquei? Oh, himeneu, himeneu, que me fizeste nascer, e, depois de eu ter nascido, de novo me fizeste germinar na minha própria semente! Por ti se mostraram os pais, irmãos, filhos, como sangue incestuoso, para quem as esposas eram mulheres e mães ao mesmo tempo — toda a espécie de actos que são a suprema vergonha da humanidade.

Mas não é belo evocar o que não é decoroso. Depressa, pelos deuses, escondei-me algures, ou matai-me, arrojai-me ao mar, lá, onde jamais me possam ver. Aproximai-vos, dignai-vos tocar um homem desgraçado; acreditai, não tenhais receio, pois os meus males ninguém —senão eu — entre os mortais é capaz de os suportar.

v.v. 1369-1415

 

Tradução de Maria do Céu Zambujo Fialho

Transcrito de Sófocles, Rei Édipo, edições 70, Lisboa, 1997.

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Uma ode de António G. da Silveira Malhão

15 Domingo Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António Gomes da Silveira Malhão, Fragonard

Fragonard- A Leitora 600pxA desprezada poesia neo-clássica que pelo século XVIII em Portugal se escreveu, contém exemplos de graça poética, harmonia singela e por vezes inventiva, no cantar os recorrentes assuntos que a ocupam.

Um destes assuntos é a descrição das incomparáveis belezas da amada.

Pouco importa nesta poesia se a mulher objecto da paixão era na verdade assim. Em poesia nunca é a verdade que importa. Reino do subjectivo e não de notícias, a leitura da poesia é do soberano domínio da emoção.

Os olhos do apaixonado assim a vêm e dão-nos conta do tumulto que em si provoca tal visão (real, sonhada ou imaginada).

No leitor, o transporte para o seu universo fará o caminho da procurada empatia.

 

Na curta obra de António Gomes da Silveira Malhão (1758-1785) escolho a Ode VI.

Nesta ode estamos perante algo mais subtil que o louvor da amada. Estamos perante a reunião na mulher de tudo o que mais belo tem a natureza, e ao homem, porque ela existe, apenas a inevitabilidade da paixão e o sofrimento de amor lhe resta.

ODE VI

 

Todos os dotes

De mais beleza

Que tinha ocultos

A natureza,

 

Dos áureos cofres

Amor furtou

E unindo-os todos

Marcia formou.

 

Saiu-lhe a obra

Tão rara, e bela,

Que Amor, formando-a,

Pasmou de vê-la!

 

Depois contente

Por lhe ter feito

Tão lindo o rosto,

Tão alvo o peito,

 

Deu neste dia

Geral perdão

Aos que gemiam

No seu grilhão.

 

Mas se Amor, terno,

Todos soltou,

De novo Márcia

Os cativou!

 

A curta obra de António Gomes da Silveira Malhão foi apenas publicada postumamente por seu irmão, Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão (1757-1816).

Transcrevi a Ode VI, com modernização da ortografia, de Vida e Feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Tomo III, Lisboa, 1797.

Notícias biográficas dos dois irmãos podem ser encontradas na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Tomo 16.  

A data da morte do poeta António G. S. Malhão decorre do relatado na obra Vida e Feitos… Tomo III.

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Boécio – um poema de Consolação da Filosofia

02 Segunda-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Boécio, Mark Rothko

A completude do humano faz-se com o físico e com o espiritual. Depois de desafiar os leitores para a experiência do sexo, venho hoje com a consolação da filosofia, tal como no-la deixou Boécio no livro do mesmo nome.

Texto ímpar na sua intemporalidade, nele seguimos as dúvidas do autor, que tantas vezes identificamos com as nossas,  sobre as vicissitudes e significado da existência, e a resposta filosófica às mesmas.

Alternando prosa e verso (na obra denominado Metro), acompanhamos os azares da fortuna e a resposta que ao desespero a filosofia dá, encontrando nela cada um dos leitores, a consolação por que anseia e às vezes desespera.

Neste caminho de interrogação chegamos inevitavelmente ao Criador invocado no Metro 9 do Livro III:

Ó Criador do céu e da terra,

 que com eterna razão governas o mundo,

Sublime poema agora em tradução portuguesa, nele encontramos uma concepção do Deus Criador:

Tu, na verdade, és a serenidade,

Tu o tranquilo repouso dos piedosos.

 ao qual o homem aspira:

Concede-me, ó Pai, ascender à augusta morada do bem,

concede-me contemplar do bem a fonte,

concede-me que fixe em ti, encontrada a luz,

a clara visão do espírito.

 

Deixo-vos com o poema na sua totalidade e as notas do tradutor.

Ó Criador do céu e da terra,

 que com eterna razão governas o mundo,

que, a partir da eternidade, fazes avançar o tempo

e que, permanecendo imóvel, a tudo dás movimento.

Tu, que causas exteriores não impeliram a criar

a obra da instável matéria,

mas foi antes a beleza intrinseca e imaculada do sumo bem

que Te levou a criar tudo segundo o modelo celeste,

Tu, sendo belissimo Tu próprio, governas o belo mundo

a partir da tua mente, formando-o à tua imagem,

ordenando que partes perfeitas

dêem origem a um todo perfeito!

Tu unes os elementos através de proporções matemáticas,

de modo que os frios se liguem às chamas,

as coisas áridas às líquidas,

de modo que o fogo, mais subtil, não se evole

ou o peso da água empurre para baixo

as terras submersas.

Tu, unindo a alma da tripla natureza(1),

que tudo liga e move,

liberta-la disseminando-a por membros harmoniosos,

a qual quando, separada,

tiver juntado o movimento em dois orbes (2),

a si mesma regressa, envolve a mente profunda

e transforma o céu à sua imagem e semelhança.

Tu crias as almas através de processos semelhantes

e as formas de vida inferiores,

ligando as mais altas a leves carros,

semeia-las pelos céus e terras,

e quando estas se voltam para Ti,

com benévola lei fazes que a Ti regressem,

trazidas pelo fogo.

Concede-me, ó Pai, ascender à augusta morada do bem,

concede-me contemplar do bem a fonte,

concede-me que fixe em ti, encontrada a luz,

a clara visão do espírito.

Dissipa as névoas e os entraves da massa terrenal

e resplandece com o Teu esplendor.

Tu, na verdade, és a serenidade,

Tu o tranquilo repouso dos piedosos.

Contemplar-te é o fim e o princípio,

ó guia, ó chefe, caminho e destino.

(1)Trata-se aqui da Alma do Mundo, anima mundi. A natureza é formada por mens, anima e materia, sendo a anima o elemento de ligação, distribuído por todas as coisas, a que dá movimento e união.
 
(2) A alma divide-se em duas partes, cujos movimentos tomam a forma de dois círculos, que acabam por voltar à sua origem.

Noticia bio-biliográfica

 Anicio Torcato Severino Boécio (480-524 d.C.) viveu os anos finais do Império Romano (historicamente extinto em 476 d.C. com a deposição de Rómulo Augústulo pelas legiões da Gália). Pertenceu à mais alta aristocracia romana, tendo da família dos Anícios, cristã desde o século IV, saído dois papas e um cônsul.

Homem rico e poderoso, o senador Boécio encontrava-se preso em 524, acusado de traição, e com a consciência de que esta acusação o poderia levar à morte. Despojado de tudo, com ele ficou apenas a vasta cultura, fruto da melhor educação possível à época. No estado de espírito que esta história de vida induz, naquela espécie de ante-câmara da morte, escreveu este diálogo entre o homem do mundo e uma figura feminina, a Filosofia, fazendo passar nesta conversa, as interrogações mais fundas de cada homem que se pensa e pensa o mundo.

O livro, Consolação da Filosofia, está finalmente disponível numa deslumbrante tradução moderna  de Luis M. G. Cerqueira, que transforma a obra, para quem a lê, em livro de cabeceira.

A edição é da Fundação Calouste Gulbenkian, em 2011.

A imagem que acompanha o artigo mostra uma pintura de Mark Rothko (1903-1970).

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Da solidão no leito em dois poemas medievais

01 Domingo Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Cancioneiro Galaico-Português, Juião Bolseiro, Roberta Flack, Venantius Fortunatus

Iluminura 22x530O começo para esta conversa foi uma velha canção dos anos 70 na voz de Roberta Fack, Jesse. A interpretação tem tudo: na voz, o calor do desejo que queima na espera de quem se ama, dito em palavras que dele dão conta:

Jesse come home, there’s a hole in the bed / Where we slep; …,

Esta marca no colchão leva-nos à evocação de momentos felizes que se desejaria repetir. A canção vai por aí fora e eu levo-vos por outro caminho, que não o das vossas eventuais recordações de solidão no leito. Quem vier, vai ao encontro de outras bem mais antigas falas desta mesma dor da espera por um amor que não chega, quando o desejo arde e a cama teima em permanecer fria.

 

Primeiro, uma Cantiga de Amigo no Cancioneiro Galaico-Português de Juião Bolseiro, poeta provavelmente galego, e activo no terceiro quartel do século XIII, aqui em versão modernizada por Natália Correia:

 

Sem o meu amigo sinto-me sozinha

e não adormecem estes olhos meus.

Tanto quanto posso peço a luz a Deus

e Deus não permite que a luz seja minha.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Quando eu a seu lado folgava e dormia

depressa passavam as noites; agora

vai e vem a noite, a manhã demora;

demora-se a luz e não nasce o dia.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Diferente é a noite quando me aparece

meu lume e senhor e o dia me traz;

pois apenas chega logo a luz se faz.

Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Padres nossos já rezei mais de um cento

implorando Àquele que morreu na cruz

que cedo me mostre novamente a luz

em vez destas longas noites de Advento.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

in Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Editorial Estampa, Lisboa, 1970.

 

O outro poema, bem mais velho cerca de 700 anos, foi escrito por Venantius Fortunatus que viveu no século VI (ca. 540-ca. 600). Nele uma mulher fala de amor assim:

 

Sem ti, a noite vem com as asas pesadas;

sem ti, mesmo com sol, o dia é escuridão.

 

a que se acrescenta, em dúbia interpretação, uma nota mística de um conúbio com Cristo, mais tarde amplamente glosado por Santa Teresa de Ávila.

De que forma a linguagem de amor carnal apenas se refere nesta poesia medieval a amores espiritualizados, é matéria que ocupa especialistas. Aos não especialistas fica tão só a emoção que a palavra transmite, e com o nosso sentir joga.

 

A versão portuguesa é de David Mourao-Ferreira.

 

A mística donzela

 

Prostrada, a soluçar, não vejo quem desejo,

e abraço tristemente as pedras contra o peito.

Do esposo privada, aqui, no duro leito,

não o posso abraçar, como era meu desejo.

 

Oh! Dize-me onde estás! Onde te encontrarei?

Em que terra seguir-te, aí de mim, sempre ignota?

Ou terei de buscar nos astros minha rota

a fim de te alcançar, meu senhor e meu rei?

 

Sem ti, a noite vem com as asas pesadas;

sem ti, mesmo com sol, o dia é escuridão.

O lírio, a rosa, o nardo, o narciso não são

capazes de florir minh’alma abandonada.

 

Na esp’rança de te ver, observo cada imagem,

mas amor faz-me errar no alto os olhos vagos.

Chego assim a supor que só ventos pressagos

dirão de meu senhor a exacta paragem…

 

Quero lavar a lage onde puseres os pés,

co’o cabelo enxugar o solo de teus templos.

Só doçura acharei nos mais duros exemplos

se por fim puder ver, meu senhor, quem tu és…

 

Carmina, Livro VIII, 3, vv. 227-46

in Vozes da Poesia Europeia I, Colóquio Letras nº163, Lisboa, Jan-Abr 2003.

 

E agora, num novo salto de cerca de 700 anos em relação ao poema de abertura, a solidão cantada por Roberta Flack em 1971.

 

Jesse

 

Jesse come home, there’s a hole in the bed

Where we slept; now it’s growing cold.

Jesse your face, in the place where we lay

By the hearth, all apart, it hangs on my heart

 

And I’m keeping the light on the stairs

No I’m not scared; I wait for you

Hey Jesse, it’s lonely, come home.

 

Jesse the floors  and the walls, recalling

Your Steps; and I remember too.

All the pictures are fading and shading in grey

But  I still set a place on the table at noon

 

And I’m keeping the light on the stairs

No I’m not scared; I wait for you

Hey Jesse, it’s lonely, come home.

 

Jesse the spread on the bed,

Is like when you left, and I kept it for you.

And all the blues and the greens have been recently cleaned

And are seemingly new; hey Jesse, me and you

 

We’ll swallow the light on the stairs

I’ll fix up my hair, and sleep unaware

Hey Jesse, I’m lonely, come home.

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Amor, Amores, no Cancioneiro Popular Português

05 Quinta-feira Fev 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ 4 comentários

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Anna LISIEWSKA, Cancioneiro Popular Português, Jan Steen, Quadras Populares

Jan Steen - Auto-retrato como alaudistaAo Cancioneiro Popular Português fui buscar algumas quadras à volta do amor. Contam elas alegrias e desgostos, falam de amores ligeiros ou eternos, saudades e promessas vãs. Tudo naquela mescla de ingenuidade e sabedoria a que o verso de sete sílabas e a quadra chamada de pé-quebrado (rima abcb) transmite um especial encanto.

Antes dos assuntos sérios do amor, e porque tudo isto é para cantar, façamos um breve intróito à conta da inspiração:

 

Eu sei fabricar cantigas

Mesmo com o pó do chão:

Inda bem não digo uma,

Já vem outra de roldão…

 

E para o poeta que também é tocador, algumas apreciações:

 

O tocador da viola

É bonito, toca bem:

Amigo das raparigas,

É o pior que ele tem!

 

Mas nem sempre o tocador tem o coração volúvel, se não, leiam:

 

Eu dedilho na guitarra

As cordas do coração.

Pela guitarra é que eu tive

A posse da tua mão.

 

E se mulher não há…

 

Guitarra, minha guitarra,

Só tu és a minha amiga:

Ficas comigo na cama,

És a minha rapariga.

LISIEWSKA, Anna Rosina - Alegoria do ouvir 600pxFeito o intróito, passemos ao sério:

 

O amor quando se encontra

Causa penas e dá gosto:

Sobressalta o coração,

Sobem as cores ao rosto.

 

Isto sabido, vamos aos variados estados amorosos:

 

A dúvida:

 

Tenho um dedo que adivinha,

Um dedo que me diz tudo;

Perguntei-lhe se me amavas,

Mas o ladrão ficou mudo…

 

A certeza:

 

Não te amo por um dia

Nem só por uma semana;

Amo-te por toda a vida,

Se o coração não me engana.

 

O estado apaixonado:

 

Mal sabes quanto me alegro

Quando te vejo defronte:

É como quem morre à sede

E põe a boca na fonte!

 

O meu coração do teu

É bem ruim de apartar:

É como a alma do corpo

Quando Deus a vem buscar.

 

Ai, muito custa uma ausência

A quem na sabe sentir!

Mas mais custa uma presença

De ver e não possuir!

 

Dormindo sonho contigo,

De dia contigo estou;

Tua imagem vem comigo

P’ra todo o lado onde vou.

 

Esta noite sonhei eu

Cuidando que era já tua;

Tive tantas alegrias

Como pedras há na rua!

 

O amor e o seu fim:

 

Lá vai o rio correndo

Oh, quem mo dera agarrar!

O amor é como o rio:

Vai-se e não torna a voltar.

 

Ainda que o lume se apague

Na cinza fica o calor;

Ainda que o amor se ausente

No coração fica a dor.

 

Aquele primeiro amor

Que no mundo tem a gente

Não sei que doçura tem

Que lembra constantemente

 

(Var) Que alembra eternamente.

 

Outras variadas formas de viver o amor onde entre peitos e penas surge alguma variedade expressiva:

 

Ó minha bela menina,

Ponha o seu amor só num;

Não traga muitos à trela,

Que pode ficar sem nenhum.

 

 

Ando cansado da vida,

Ando doente do peito;

Dá-me xarope de beijos,

Dá-me chá de amor-perfeito.

 

Esta noite me obrigaram

A dormir c’uma morena;

A pena maior que eu tive:

Ser a noite tão pequena.

 

A pena com que te escrevo

Não é de nenhum pavão,

Criada foi em meu peito,

Junto do meu coração.

 

Despeço-me com vontade de ser o passarinho da quadra final:

 

Que passarinho é aquele,

Que no ar faz ameaços?

Com o bico pede beijos,

Com as asas pede abraços!

 

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Uma fábula de Bingre em início de Carnaval

03 Terça-feira Fev 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Bingre, Francisco Joaquim Bingre, Salvador Dalí

Dalí - Nu com seios de caracol

No mundo dos nossos dias, repartido entre o intelectualmente pretensioso e a ignorância militante, a fábula é género desprezado. E, no entanto, quanto conhecimento dos homens elas encerram na frescura e aparente inocência das suas formas poéticas.

Conhece a tradição ocidental três conjuntos maiores, que de algum modo se retomam entre si com variações, e são: os fabulários de Esopo e Fedro, vindos da antiguidade grega e romana, e as fábulas de La Fontaine do pós-renascimento, reelaboração de fábulas da antiga Índia compiladas por Roudaki sob o nome Kalilè e Demnè.

Por cá, ainda que surjam pontualmente nos mais diversos autores, foram sobretudo os poetas do neo-clacissismo português que a praticaram, com destaque para Bocage, a Marquesa de Alorna, Cruz e Silva, e Curvo Semedo. Filinto Elisio traduziu para verso português (sem rima) as Fábulas de La Fontaine, e no primeiro quartel do século XIX, Almeida Garrett também a praticou. Mais tarde, Henrique O’Neill reuniu um vasto acervo de apólogos, próprios e alheios, de qualidade poética desigual, num livro, Fabulário, que é hoje raridade de alfarrabista. Pela mesma altura João de Deus criou verdadeiras jóias, e em meados do século XX, Cabral do Nascimento editou um fabulário original, entre o melhor da sua obra.

Mas não será de nenhum destes autores a escolha de hoje. Será antes de Francisco Joaquim Bingre a fábula que lereis: marotice inocente vestida pela zoologia, em início de temporada de Carnaval.

Bingre, companheiro de Bocage na Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, foi autor de uma obra vastíssima até há pouco desconhecida, e da qual, há semanas, trouxe amostras ao blog.

 

O Caracol e a Lesma

Fábula

 

Um caracol retorcido

Com a lesma era casado:

Que negra vida com ela

Não padecia o coitado!

 

Ele dormia na casca,

Ela pegada à parede;

Um aranhão lhe chupava

A reima, se tinha sede.

 

Nestes encontros noturnos

Gozavam prazeres mornos:

Ao enroscado marido

Nasceram dois lindos cornos.

 

Ele escondia-os no búzio,

Envergonhado do sol.

Quantos não conheço eu,

Com frontes de caracol?!

 

in Obras de Francisco Joaquim Bingre,volume V, poema 711, edição de Vanda Anastácio, Lello Editores, 2003.

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Francisco Joaquim Bingre – apresentação e poesia

21 Quarta-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Francélio Vouguense, Francisco Joaquim Bingre

Lyonel Feininger 01 600pxÉ vasta, variada, e de qualidade média elevada, a obra poética de Francisco Joaquim Bingre (1763-1856). A obra permaneceu inédita na quase totalidade até à edição levada a cabo por Vanda Anastácio entre 2000 e 2005. São 6 grossos volumes e um total de 2089 poemas. Perco-me neles desde que existem, e o prazer de ler é imenso.

Observador acutilante da realidade humana, social e política do Portugal entre as duas Marias rainhas, a I e a II: são quase setenta anos passados à lupa com uma inspiração poética que atravessou escolas e manteve uma originalidade que ainda hoje surpreende e encanta.

As histórias literárias, quando reescritas, dar-lhe-ão o lugar de destaque que merece. Até lá os leitores abertos à descoberta encontram neste corpus poético infindáveis horas de prazer.

Sinceramente não sei por onde começar a dar-vos conta desta poesia que frequentemente me prende: se transcrever o verso mordaz, a meditação existencial, a observação de costumes, as peripécias da juventude ou as vissicitudes de uma vida duríssima, que nos últimos vinte anos do poeta, entre os setenta e os noventa rondou frequentemente a miséria.

Profissionalmente fora escrivão e tabelião em Mira (Aveiro) desde 1801, e em 1834, com a reforma judiciária, foi despedido. Contava à data 70 anos. Viveu os restantes 23 anos quase sempre na maior miséria segundo os relatos contemporâneos que nos chegaram. Por exemplo, conforme cita Inocêncio no seu Dicionário Bibliográfico Português de uma carta do poeta a Costa e Silva:

“Aqui estou viúvo há vinte e cinco anos; aqui tenho enterrado muitos filhos e netos; aqui findarei os tristes dias de oitenta e cinco invernos, vítima da fome e da penúria, com uma filha viúva e cinco netos, sem abrigo, senão o das carcomidas asas deste desditoso velho!“

Também o refere na sua poesia, qual seja um pungente soneto onde à sua madrasta sorte junta as de Camões e Bocage, entre outros:

 

 

Velhice e Pobreza (Poetas Pobres)

 

Soneto 142

 

Morreu pobre o Camões, pobre o Garção;

Quita e Matos viveram na pobreza;

Bocage teve lances de escasseza,

Muitos dias sofreu falta de pão.

 

Santos e Silva tinha uma ração

Do Hospital na botica, por fineza.

Parece que capricha a Natureza

Em fechar à poesia a destra não!

 

Aqueles foram vates de alto espanto,

Que deixaram no mundo eterno nome,

Muitas vezes comendo o próprio pranto;

 

Tal o Bingre mirrado se consome:

Se os não pode imitar no doce canto,

Ele os imita vítima da fome.

[2072]

 

O poeta viveu 93 anos. Gozou de fama junto dos escritores românticos, apesar da escassa obra publicada, e aos 89 anos, em 14-12-1852, um grupo de jovens, tendo dado conta da situação de miséria em que o poeta se encontrava, promoveu no Porto um sarau de beneficência com o apoio financeiro de António Bernardo Ferreira (o filho da Ferreirinha, a D. Antónia do vinho do Porto) à cabeça, cujo conteúdo poético foi posteriormente reunido na brochura O Benefício do Poeta Bingre, o qual subsistiu até ao século XXI como a notícia de que Bingre tinha existido e fora alvo da admiração de contemporâneos. Antes, em 1850, e também com fim beneficente, fora editado o folheto O Moribundo Cisne do Vouga com alguns poemas de Bingre.

Fundador, e membro, com Bocage e outros, da Academia das Belas Letras em Lisboa, também conhecida como Nova Arcádia, nela teve o nome de Francélio Vouguense e entre os contemporâneos foi também conhecido como Cisne do Vouga.

Sedutor inveterado, se a poesia fala verdade, avançado na idade, a certa altura escreveu:

…

Um homem que adorou tanto as mulheres,

Quando tem, como eu, longeva idade,

Nas caveiras medita o fim dos seres.

[1358]

 

 

E é sobre como o poeta viu o amor ao longo da vida que me decido às transcrições escolhendo tão só alguns sonetos em que o D.Juan se despede e medita sobre a irremediável passagem do tempo.

 

*

Foi o tempo da minha mocidade

Assaz bem liberal para comigo:

Foi-me sempre risonho e meu amigo,

Enquanto me durou viril idade.

 

Mas hoje, na fatal caducidade

A afeição me perdeu, e o amor antigo:

É-me escasso, é cruel, é inimigo

Bastantemente meu, não tem piedade.

 

Quando eu, na minha fúnebre velhice,

Mais dele precisava para escora

Da cansada existência e da tontice,

 

Me desampara o falso Tempo agora!

Ai, quanto me enganou na meninice!

Quem se pode livrar de mão traidora!

[1402]

 

Ao Desengano

 

Já dos males de amor estou curado;

Não me lembram traições de vãs beldades,

Ingratidões, agravos, falsidades:

Já vivo de tudo isso deslembrado.

 

Não me lembra se amei ou fui amado,

Nem se tive prazer co’as falsidades;

Não conservo desejos, nem saudades;

Vivo todo esquecido do passado.

 

Graças mil dou ao Santo Desengano,

Que nas águas do Letes sonolento

Me fez largar memórias desse engano.

 

Tenho limpo de Amor o pensamento.

Esqueci-me, curei todo o meu dano,

Quando no rio entrei do esquecimento.

[1780]

 

*

Homem cego em paixões, surdo à verdade,

Que te esqueces do barro de que és feito,

De que o pó amassado, em pó desfeito

Reverter para a terra outra vez há-de!

 

Se sabes que a emprestada quantidade

Deves pagar, por natural direito,

Como vives no mundo satisfeito

Na escravidão da estúpida Vaidade?

 

No réu ocaso pensa; olha que um dia

As pompas, os brasões, forças, talento,

Se hão-de sumir co’a louca fantasia.

 

Pensa, pensa no ultimo momento;

Considera que a tua cinza fria

Dispersa levará, pelo ar, o vento.

[1793]

 

Duas meditações de arrependimento: pois o homem, crente, goza, mas depois pesa-lhe:

 

*

Cheio de insipidez, triste e sem gosto,

Vivo maquinalmente em ansiedade,

Arrastando o grilhão da longa idade,

Abafando no peito o meu desgosto.

 

Esvoaçando poisam no meu rosto

Os remorsos da minha mocidade:

Assusta-me a tremenda eternidade,

E o tremendo juiz no trono posto.

 

Os delitos da minha extensa vida

Tem na sua rectíssima balança

A concha esquerda para o chão pendida.

 

Desgraçado de mim, se ele não lança

Na direita algum sangue da ferida

De seu lado, onde amor mais peso alcança.

[1398]

 

**

Vivido tenho assaz: que resta agora

De tão longa existência e tanta dura?

Pedir à madre Terra a sepultura,

Para o pó receber de que é credora.

 

Vai findar a carreira encantadora;

E os prazeres da mágica doçura

Trocados vejo, em fúnebre amargura,

De uma falsária dita enganadora.

 

Que resta mais na triste despedida?

Pedir perdão desse estragado uso,

Que fiz no mundo, de uma extensa vida.

 

A vossos pés, meu Deus, venho confuso

Piedade implorar nesta partida:

Contrito a vós, Senhor, com dor me acuso.

[1400]

 

Termino com uma serena reflexão sobre a finitude da existência, de par com a constatação, numa originalíssima formulação  poética, do extraordinário da máquina humana:

 

Vai parar esta máquina excelente,

Este raro relógio delicado,

Este moto contínuo humanizado,

Esta assombrosa construção vivente:

 

A corda vai quebrar, do gasto dente

Da roda que a prendia, tem saltado:

Todo o composto jaz desconcertado,

A pêndula de um fio está pendente.

 

Trabalhou sobre um eixo de diamante

Julgais oitenta e três em marcha certa

Com muito pouca variação rodante:

 

Hoje de todo o Tempo o desconcerta,

Pouco trabalha já, durou bastante,

Mas já seu mesmo Autor o não concerta.

[2061]

 

 

Os números entre [ ] que seguem os poemas transcritos indentificam os poemas na edição de Vanda Anastácio, Obras de Francisco Joaquim Bingre, colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Lello Editores, 6 volumes, 2000-2005.

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