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vicio da poesia

Category Archives: Convite à fotografia

Glamour a cores – algumas fotos de divas do cinema

19 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à fotografia

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Audrey Hepburn, Ava Gardner, Bette Davis, Brigitte Bardot, Ingrid Bergman, Isabella Rossellini, Judy Garland, Kim Novak, Lauren Bacall

Lauren Bacall34Lauren Bacall

Faz parte da glória dos anos clássicos do cinema de Hollywood o acervo de fotografia a preto e branco, onde a mitificação das actrizes e actores da época se concretizou, e comummente referido como fotografia de glamour.
Chegada a cor à fotografia, o esplendor de cores puras na vivacidade e brilho do papel deu lugar a outro tipo de mitificação, não já no etéreo e difuso de sombras e clarões, mas na precisão das formas a que o jogo do colorido acrescentava impacto.

Reúno um pequeno grupo de fotos da época, anos 50/60 com algumas, porventura, menos conhecidas fotos.

Judy Garland11Judy Garland

Ava Gardner 03Ava Gardner

Bette Davis4Bette Davis

Audrey Hepburn11

Audrey Hepburn

Kim-Novak 02Kim Novak

Termino com o espectáculo da herança biológica em mãe e filha: Ingrid Bergman e Isabella Rossellini

Ingrid Bergman29Ingrid Bergman

Isabella Rossellini3Isabella Rossellini

E como já estamos na Europa, onde Deus criou a mulher, acrescento em post scriptum Brigitte Bardot,

Brigitte Bardot14Até à próxima.

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Frantisek Drtikol – Quatro fotos de 1930

16 Quarta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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Frantisek Drtikol

Frantisek Drtikol Tanecnice, 1930 500pxNo curto período entre as duas guerras mundiais em que a Checoslováquia existiu como país independente e livre, as artes, e nomeadamente a fotografia, caminharam de passo com as vanguardas europeias, produzindo uma plêiade de fotógrafos e trabalhos em torno da fotografia que só agora começam a ganhar um conhecimento internacional alargado. De entre esses fotógrafos de génio trago hoje ao blog 4 fotos de 1930/31 de Frantisek Drtikol (1883-1961) cuja obra centrada sobretudo no nu feminino, atinge por vezes uma originalidade estonteante.

Frantisek Drtikol Duše, 1931 500px

 

Frantisek Drtikol Duše, 1930 500px

 

Frantisek Drtikol Bez názvu, 1930 500px

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Um poema de amor de Manuel de Freitas

05 Quarta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Convite à música, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Henry Purcell, Manuel de Freitas

go 118a2Z1 530Já aqui escrevi da surpresa e admiração pela poesia de Manuel de Freitas (1972), excepção na poesia mimética que hoje por Portugal se escreve. Quando lancei um olhar abrangente sobre a sua poesia, ficou de fora o livro GAME OVER. A ele vou hoje buscar um poema de amor, que no meu desconhecimento supus, o poeta não escreveria.

IN VAIN THE AM’ROUS FLUTE

Estas escadas tinham degraus
onde por acaso nos sentámos
à espera de não ver gaivotas,
com livros abertos
quando as mãos chegavam.

De novo e despercebida e só,
acendia-se para morrer na tarde
a inútil figuração do desejo.

E éramos outra vez nós
os seus irrepetíveis figurantes,
escondidos num poema
que o tempo pisou, deixa lá
– o recomeçado amor descendo.

Nota talvez desnecessária

O título do poema remete para a Ode para o dia de Santa Cecília de 1692, Hail, bright Cecilia! Z 328, de Henry Purcell (1659-1695), onde se encontra a parte para dois tenores “In vain the am´rous flute and soft guitar”.

Vale a pena sentir o poema ganhar uma especial emoção e harmonia ao ouvi-la. A ardência do desejo no pudor da linguagem sobressai se se souber o que na ária se canta:

In vain the am´rous flute and soft guitar
Jointly labour to inspire
Wanton heat and loose desire
Whilst thy chaste airs do gently move
Seraphic flames and heav’nly love.

A fotografia que abre o artigo não evoca nada. Apenas o calor da luz sobre a desolação me fez escolhê-la.

Noticia bibliográfica

GAME OVER foi publicado por &etc em 2002, com capa de Luis Manuel Gaspar, paginação e composição de Olímpio Ferreira.

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Outono de Russell Edson (n.1935)

29 Quinta-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Russell Edson

É sempre preciso o maior cuidado com o que se diz. Raramente somos compreendidos.

O poema de hoje dá, na sua simplicidade alegórica, a extensão desta incomunicação, mesmo entre os que são próximos.

Entre o gesto e a aparência corre um mundo de significados cuja compreensão nos escapa em grande parte.

Deixo-vos com a interrogação maior: quando alguém fala, quem houve, ouve o quê?

Outono

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono

Segue-se o original em inglês

The Fall

There was a man who found two leaves and came
indoors holding them out saying to his parents
that he was a tree.

To which they said then go into the yard and do
not grow in the living room as your roots may
ruin the carpet.

He said I was fooling I am not a tree and he
dropped his leaves.

But his parents said look it is fall.

Poema publicado em O TÚNEL, com tradução do poeta José Alberto Oliveira, edição ASSÍRIO & ALVIM, Lisboa 2002.

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Poemas para o Verão – Visita a Alberto Caeiro com László Moholy-Nagy por companhia

09 Quinta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernado Pessoa, László Moholy-Nagy

Alberto Caeiro, dos heterónimos de Fernado Pessoa, será o mais consentâneo com o estado de espírito hedonista que me invade nestas tardes de calor, onde apenas consigo a imobilidade do pasmo.

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos …
…
Fragmento do poema XLI de O Guardador de Rebanhos

Mas por aqui entrado, há um filosofar poético (Cada cousa é o que é) que inevitavelmente surge, mesmo sabendo que Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. / Não me ponho a pensar se ela sente, e o olhar espanta-se.

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
…
Fragmento de Poemas Inconjuntos

Está seguramente certo, respondo eu ao Poeta. E naquele andar em circulo do pensamento parado, a cousa volta de novo:

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Poema XXIV de O Guardador de Rebanhos
Tão profunda reflexão com este calor só tem uma solução, um mergulho no mar!
E aí vou. Amanhã haverá mais poesia.

Pareceram-me compatíveis com esta poesia as fotos de László Moholy-Nagy (1895 – 1946) feitas em 1925, no âmbito da Bauhaus, e talvez contemporâneas, grosso modo, desta poesia de Alberto Caeiro.

 

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Poemas para o Verão: de novo Sophia com Liberdade e Eugénio de Andrade com As amoras

08 Quarta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia onde
A minha não é a praia de Sophia onde Não há nenhum vestígio de impureza,
É uma praia popular, onde as multidões se acotovelam quando a maré está alta, ou se espraiam quando chega a baixa-mar.
É uma praia de famílias onde um curioso hiato etário acontece. Encontram-se ausentes os jovens. Apenas nos cruzamos com crianças e adolescentes em idade de ainda acompanharem os pais, ou então casais de meia idade a quem a acessibilidade da praia conforta.
Circulando entre a multidão nos passeios à beira-mar, dou por mim muitas vezes a tentar imaginar as pessoas com que me cruzo, vestidas e ocupadas nos seus afazeres profissionais. Não consigo! Os corpos semi-nus, obesos ou deselegantes, longe dos padrões publicitários como é característico da humanidade, ganham uma identidade que apaga as diferenças existentes entre o banhista do guarda-sol da coca-cola, e o outro que se protege na sombra da dispendiosa palhota da primeira fila, onde repousa na espreguiçadeira.
Mas também nesta minha praia, hoje as Ondas tombando ininterruptamente, / Puro espaço e lúcida unidade, me permitiram sentir, nadando, que Aqui o tempo apaixonadamente / Encontra a própria liberdade.

Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

As pessoas de quem falei acima são quem faz este meu país, e de quem Eugénio de Andrade (1923-2005) também fala no seu poema As amoras.

As amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Notícia bibliográfica

O poema de Sophia, publicado inicialmente em Mar Novo (1ª edição 1958), foi transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, 2ªedição, 2011.

O poema de Eugénio de Andrade, publicado inicialmente em O Outro Nome da Terra (1ªedição 1988) foi transcrito de Poesia, Rosto Editora, Vila Nova de Gaia, Abril de 2011.

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Notícias do Paraíso, também por Zbigniew Herbert (1924 – 1998)

03 Sexta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Zbigniew Herbert

Anoitecera há pouco.

Por quilómetros estendia-se o areal deserto.

No horizonte do mar surgiam ao longe as silhuetas dos apanhadores de conquilha.

Do azul rosado do poente ergue-se majestosa a lua, cheia, neste Agosto de prazer.

Corre sobre o mar uma ligeira brisa temperando o ar quente que se mantém acima dos 30ºC.
Lambendo a areia da baixa-mar vêm as ondas mansas marulhar junto ao corpo que deitado se enleva nesta doçura de paraíso. E o banho, inevitável, surge. Qual Adão antes do pecado original, mergulho e aí vou, em movimentos que parecem surgir naturalmente, no indescritível prazer do fluir da água até ao mais recôndito da alma.

É de um outro paraíso que nos fala o poema de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) que hoje transcrevo. Eivado dos pressupostos cristãos e longe do panteísmo por onde acima andei, afirma ele, como verdade revelada, que “na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado“. Todos aceitamos que sim. Por isso mesmo se chama paraíso!
De qualquer forma, é comovente a visão que nos descreve dos proletários celestes: envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos.
Ao genial poeta polaco regressarei com mais detalhe.

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A principio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz.

Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

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Partir, e Álvaro de Campos na bagagem

28 Sábado Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, carlos mendonça lopes, Fernando Pessoa

Com as férias em perspectiva, o sentimento da viagem surge-me em contradição. Partir, sim! Buscar o quê? Repouso pede-me o corpo. Aventura, reclama a imaginação. Não direi como Álvaro de Campos que “Nunca…Perco…Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,“, mas o desconforto do desconhecido ganha um peso que é ao fim e ao cabo uma espécie de “opressão [que] se infiltra no fundo do meu coração.“

I

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

O heterónimo de Fernando Pessoa disse muitas vezes algo do que sinto. Felizmente nunca me sinto Álvaro de Campos mas a espaços tropeço nos seus versos com um fugaz sentimento de identificação. A catarse pela poesia pode acontecer. Ler o que em silêncio cogito introduz a distância que devolve a lucidez. E se num primeiro momento domina o “Volta amanhã, realidade! / Basta por hoje, gentes! / ​Adia-te, presente absoluto! / ​Mais vale não ser que ser assim. “, há uma vontade interior que cresce e “Ergo-me de repente todos os Césares. / ​Vou definitivamente arrumar a mala. / Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; / ​Hei de vê-la levar de aqui, / ​Hei de existir independentemente dela.” .

II

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
​Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
​Acendo o cigarro para adiar a viagem,
​Para adiar todas as viagens.
​Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
​Adia-te, presente absoluto!
​Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
​Tenho por força que arrumar a mala,
​A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
​Tenho que existir a arrumar malas.
​A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
​Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
​Sei só que tenho que arrumar a mala,
​E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
​E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
​Vou definitivamente arrumar a mala.
​Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
​Hei de vê-la levar de aqui,
​Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
​Salvo erro, naturalmente.
​Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
​Fim.

Afinal não sou o poeta, mas alguém que anseia ir ao encontro das raízes, e vou para Tavira, sem o desejo de que “Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, / ​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.“
Que o infinito permaneça longe de mim, desejo!

Nota talvez desnecessária

O heterónimo Álvaro de Campos criado por Fenando Pessoa, foi concebido como tendo nascido em Tavira, minha terra natal, como é sobejamente conhecido dos leitores habituais do blog.

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Urban Views – fotografias

12 Terça-feira Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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carlos mendonça lopes

Tão longo silêncio no blog deveu-se à preparação do livro de fotografias URBAN VIEWS que acabei de publicar em versão iBook para iPad e iPhone e em impressão a pedido em grande formato de 30×30 cm através do site bulrb.com.

Deixo o link para os leitores que tiverem curiosidade de o folhear.

LINK para URBAN VIEWS

Por algum tempo o livro ficará disponível para visualização integral no site do editor.

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O humano olhar de Henri Cartier-Bresson

02 Sábado Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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Henri Cartier-Bresson

Olhar cada fotografia de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) devolve-me de forma quase pungente, a irremediável passagem do tempo. Vi-as jovem adulto na excitação surpresa da descoberta de uma linguagem fotográfica desconhecida. Vejo-as de novo e meço a distância a que aqueles mundos fotografados estão do hoje; ou não!
No cerca de meio século que durou o seu fotografar, a partir do inicio dos anos 30 do século XX, pelo mundo houve guerras, houve paz, houve miséria e abundância, e existiram sobretudo sonhos, hoje desfeitos e entalados numa espécie de eterno retorno do animal que há em nós.
São frágeis as aquisições culturais, ainda que o homem só o seja no quadro de uma cultura que lhe dê o sentido do viver com os outros. E é esta aproximação ao sentido de viver com os outros que encontro nas fotografias de Henri Cartier-Bresson.
Nunca é o anedótico que fala. Sendo todas e cada uma das suas fotos conhecidas, instantâneos peculiares onde a surpresa ao olhar se conserva, mesmo depois de observadas dezenas de vezes, é nesse tempo suspenso cada vez mais longe de nós que a reflexão se detém. Outros terão falado da composição plástica de cada imagem, do equilíbrio dos volumes no rectângulo fotografado, na forma como o jogo de sombras no quadro urbano contribui para a atmosfera da cena, e tudo isso é verdade, e uma lição permanentemente disponível para quem fotografa. Mas o que faz delas as obras-primas para lá da técnica, é o olhar sobre o humano. A gente que nelas nos surge, dos duques de Windsor ao deserdado do mundo, fazendo de todos semelhantes entre si, na exposição de um olhar, de uma atitude, de um estar que é afinal uma forma de ser. E ao vê-las instala-se em nós a sensação de que passámos a conhecer aquelas pessoas. São sempre pessoas, nunca são gente.
Deixo-vos com uma curta escolha.

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