Está aparentemente esclarecido o mistério genético dos girassóis mutantes pintados por Van Gogh, fazendo fé numa noticia de hoje.
Esclarecido o fenómeno cientifico, permanece o mistério da arte no esplendor da sua imorredoira atracção.
Motivo de paixão, algumas das pinturas de girassóis de Van Gogh foram e continuam ser a porta de entrada para a fruição plástica desde a mais tenra idade.
Nas minhas primeiras tentativas de pintar a óleo, foi uma jarra com três girassóis que tentei passar à tela, procurando concretizar o fascínio que as reproduções conhecidas das pinturas de Van Gogh lançavam.
Anos vai, no auge do poderio financeiro do Japão, foi noticia de espanto pelo mundo, o valor astronómico por que uma das pinturas de girassóis de Van Gogh foi comprada em leilão, e a seguir encerrada num cofre para ser protegida de roubos. Triste destino para a beleza! Parece-me, até, que esta venda foi o pontapé de saída para outras vendas por valores absurdos no mercado da arte, tendo levado pessoas a pensar que investir em arte apenas valia ou vale a pena olhando ao nome do artista.
Mas voltando aos girassóis, a atenção de poetas tem-se demorado nesta inflorescência, dando conta da complexidade de emoções que tais flores provocam. Pretexto para subtilezas em casos de amor, a ele não escapou no longínquo século XVI o génio de Camões, o que me permite acrescentar a esta nota um seu soneto.
No soneto, o poeta comparando-se ao girassol, cujo comportamento descreve na primeira parte, chama a amada de Meu Sol e diz-lhe como vê-la o faz viver :
Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,, e … em não vos vendo, entristecida / Se murcha, e se consome em grão tormento /
Uma admirável erva se conhece
Que vai ao Sol seguindo de hora em hora
Logo que ele do Eufrates se vê fora,
E quando está mais alto, então floresce
Mas quando ao oceano o carro desce
Toda a sua beleza perde Flora
Porque ela se emurchece, e se descora
Tanto co’a luz ausente se entristece.
Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa,
Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,
Cria flores em seu contentamento
Mas logo, em não vos vendo, entristecida
Se murcha, e se consome em grão tormento
Nem há quem vossa ausência sofrer possa.
Transcrevi a versão do soneto XXVIII da Centúria II (incluindo as virgulas) publicada por Manuel de Faria Y Sousa na sua edição das Rimas Varias de Camões (1685), com modernização da ortografia.
Pintados nos anos 1916-1919, a serie sobre nenúfares de Claude Monet (1840 – 1926) constitui o apogeu na forma de captar o intangivel da luz na água, dando conta das texturas e da mutabilidade da paisagem no imóvel da tela.
Um dos fascínios do meu fotografar é tentar captar a forma como a luz varia a nossa percepção da realidade circundante.
Neste fascínio compreendo os impressionistas e sobretudo Claude Monet, cuja incansável demanda foi guardar na tela a imperceptível mutação da paisagem provocada pela luz. Lembrado das suas pinturas de nenúfares, certo entardecer dei comigo a fotografar um lago cheio de nenúfares, e de tal forma fascinado, que bem entrada a noite ainda fotografava sem flash, tentando conservar a variedade do colorido que o sol ao desaparecer, foi deixando em redor.
Fotografias entretanto esquecidas, reencontrei-as hoje ao vasculhar o arquivo fotográfico e eis algumas.
São conhecidas as pinturas de George Grosz (1893-1959) ferozmente criticas de sociedade alemã ao tempo da República de Weimer.
Tomando como pretexto a presença de cães de estimação, eis algumas dessas pinturas. É uma classe média nos seus ócios que nos surge, quase sempre caricata no ufano ostensivo da sua condição.
Termino com o soneto de Franz Werfel (1890-1945), O homem belo e radiante.
Poeta do expressionismo alemão, casado com Alma Mahler, e tal como George Grosz exilado nos EUA depois da chegada de Hitler ao poder.
Em dois curtos poemas, Cristina Campo (1923-1977) e Wislawa Szymborska (1923-2012), nascidas no mesmo ano, cada uma à sua maneira conduz-nos pelo que de essencial a vida tem e nos faz.
Em tempos de existência diferentes, enquanto Wislawa Szymborska refere: Tu és bela – digo à vida – / mais esplêndida não podias, com Cristina Campo percorremos o depois: Ficou para trás, quente, a vida, / …
Na ironia mansa que perpassa em tanta da sua poesia Wislawa Szymborska guia-nos pelos nadas eternos da existência:
Só para não te ofender, / te irritar, descontrolar. / Eu saltito sorridente / há uns bons cem mil anos.
Allegro ma non troppo de Wislawa Szymborska
Tu és bela – digo à vida –
mais esplêndida não podias,
de rouxinóis e de rãs,
de formigas e sementes.
E tento ser-lhe agradável,
bajulá-la, olhá-la nos olhos.
Sou sempre a primeira a saudá-la,
de humilde expressão na fronte.
Vou-lhe saltando ao caminho,
da esquerda, da direita,
e fascinada me elevo,
e de enlevo me estatelo.
Que marinho este cavalo!
que silvestre é esta amora! –
nunca em tal houvera crido
se não tivesse nascido.
– Não encontro – digo à vida –
nada a que possa igualar-te.
Ninguém fará outra pinha,
nem melhor nem menos bem.
Louvo-te a generosidade, a criatividade,
a decisão e o rigor –
e mais ainda – e mais além –
a magia – a negra e a branca.
Só para não te ofender,
te irritar, descontrolar.
Eu saltito sorridente
há uns bons cem mil anos.
Arranho a vida pela bainha de uma folhita:
Terá parado? Ouviria?
Só uma vez, por um momento,
esqueceu-se de para onde ia?
Tradução de Júlio Sousa Gomes
Na desolada inquietação que acompanha a poesia de Cristina Campo lemos os restos, o que ficou:
Parece que hoje é o dia da Poesia para aqueles que não a lêem. Assinalemos tão auspiciosa data com um dos poemas da minha vida: Ode à Poesia de Pablo Neruda (1904-1973).
Para quem se interroga sobre questões utilitárias como por exemplo: Poesia? Para que serve? Pablo Neruda acompanha-o nesta ode:
…
Yo te pedí que fueras utilitaria y útil, como metal o harina, dispuesta a ser arado, herramienta, pan y vino, dispuesta, Poesía, a luchar cuerpo a cuerpo y a caer desangrándote.
…
E mais à frente responde. E em resultado permanece no coração dos homens que o leram.
Acompanham a poesia de Neruda algumas pinturas de Kazimir Malevich (1878-1935) representando trabalhadores manuais.
Não fora a sua extensão, acrescentaria o poema O Homem Invisível com que abre o livro Odes Elementares onde esta Ode à Poesia se contém. Fica o alvitre para um leitor curioso o procurar e este excerto:
…
eu não tenho importância
nem tempo
para os meus assuntos,
de noite e de dia
tenho que apontar tudo o que se passa,
e não esquecer ninguém.
É certo que de repente
me canso,
fico a olhar as estrelas,
estendo-me na relva, passa
um insecto cor de violino,
pouso o braço
sobre um pequeno seio
ou enlaço a cintura
da minha amada,
e vejo o veludo
cruel
da noite que estremece
com as suas constelações geladas,
então
sinto subir à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o pranto nos recantos,
a adolescência triste
e o sono invade-me,
durmo
…
(Tradução de Luis Pignatelli)
ODE À POESIA
Quase cinquenta anos
a caminhar
contigo, Poesia.
Ao princípio
enleavas-me os pés
e eu caía de borco
na terra escura
ou enterrava os olhos
no charco
para ver as estrelas.
Mais tarde estreitaste-me
com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
No minuto seguinte
convertias-te em taça.
Belo
foi
ires escorrendo sem te consumires,
ires entregando a tua água inesgotável,
ires vendo que uma gota
caía sobre um coração queimado
e dessas mesmas cinzas revivia.
Porém
nem isso me bastou.
Tanto andei contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
pus-te a fazer de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a fiar com as simples tecedeiras,
a bater o ferro na metalurgia.
E vieste comigo
andando pelo mundo,
mas já não eras
a florida
estátua da minha infância.
Falavas
agora
com voz férrea.
As tuas mãos
foram duras como pedras.
O teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
fizeste para mim pão com fartura,
ajudaste-me
a não cair de borco,
procuraste-me
companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina,
e eu ri-me quando saíste
com a testa suja de carvão
ou coroada com serrim fragrante
das serrações.
Já não dormíamos na estrada.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras vermelhas.
E tu, Poesia,
até aí tão desgraçadamente tímida,
marchaste
à cabeça
e todos
se habituaram ao teu traje
de estrela quotidiana,
pois mesmo que algum relâmpago denunciasse a tua família
tu cumpriste a tarefa,
andando passo a passo com os homens.
Eu pedi-te que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
pronta a ser arado,
ferramenta
pão e vinho,
pronta, Poesia,
a lutar corpo a corpo
e a cair esvaída em sangue.
E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda do mar,
flor branca e bandeira,
motor de música,
grande pétala de oiro,
sino submarino,
celeiro inesgotável,
obrigado
terra de cada um
dos meus dias,
vapor celeste e sangue
dos meus anos,
porque me acompanhaste
da mais enrarecida altura
à simples mesa
dos pobres,
porque puseste na minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me ergueste
à altura insigne
dos homens vulgares,
Poesia,
porque a teu lado
enquanto me gastava
tu foste sempre
aumentando essa frescura firme,
esse ímpeto cristalino,
como se o tempo
que a pouco e pouco me converte em terra
fosse deixar correr eternamente
as águas do meu canto.
Tradução de Fernando Assis Pacheco
ODE À POESIA (original)
Cerca de cincuenta años caminando contigo, Poesía. Al principio me enredabas los pies y caía de bruces sobre la tierra oscura o enterraba los ojos en la charca para ver las estrellas. Más tarde te ceñiste a mí con los dos brazos de la amante y subiste en mi sangre como una enredadera. Luego te convertiste en copa.
Hermoso fue ir derramándote sin consumirte, ir entregando tu agua inagotable, ir viendo que una gota caída sobre un corazón quemado y desde sus cenizas revivía. Pero no me bastó tampoco. Tanto anduve contigo que te perdí el respeto. Dejé de verte como náyade vaporosa te puse a trabajar de lavandera, a vender pan en las panaderías, a hilar con las sencillas tejedoras, a golpear hierros en la metalurgia. Y seguiste conmigo andando por el mundo, pero tú ya no eras la florida estatua de mi infancia. Hablabas ahora con voz férrea. Tus manos fueron duras como piedras. Tu corazón fue un abundante manantial de campanas, elaboraste pan a manos llenas, me ayudaste a no caer de bruces, me buscaste compañía, no una mujer, no un hombre, sino miles, millones. Juntos, Poesía, fuimos al combate, a la huelga, al desfile, a los puertos, a la mina, y me reí cuando saliste con la frente manchada de carbón o coronada de aserrrín fragante de los aserraderos. Y no dormíamos en los caminos. Nos esperaban grupos de obreros con camisas recién lavadas y banderas rojas.
Y tú, Poesía, antes tan desdichadamente tímida, a la cabeza fuiste y todos se acostumbraron a tu vestidura de estrella cotidiana, porque aunque algún relámpago delató tu familia cumpliste tu tarea, tu paso entre los pasos de los hombres. Yo te pedí que fueras utilitaria y útil, como metal o harina, dispuesta a ser arado, herramienta, pan y vino, dispuesta, Poesía, a luchar cuerpo a cuerpo y a caer desangrándote.
Y ahora, Poesía, gracias, esposa, hermana o madre o novia, gracias, ola marina, azahar y bandera, motor de música, largo pétalo de oro, campana submarina, granero inextinguible, gracias, tierra de cada uno de mis días, vapor celeste y sangre de mis años, porque me acompañaste desde la más enrarecida altura hasta la simple mesa de los pobres, porque pusiste en mi alma sabor ferruginoso y fuego frío, porque me levantaste hasta la altura insigne de los hombres comunes, Poesía, porque contigo mientras me fui gastando tú continuaste desarrollando tu frescura firme, tu ímpetu cristalino, como si el tiempo que poco a poco me convierte en tierra fuera a dejar corriendo eternamente las aguas de mi canto.
Noticia bibliográfica:
Esta Ode à Poesia foi, que eu saiba, traduzida duas vezes para português, ambas as traduções feitas por poetas, e publicadas na mesma editora, Publicações D.Quixote.
Uma, a tradução de Fernando Assis Pacheco encontra-se na Antologia Breve publicada na saudosa colecção cadernos de poesia. A outra consta da tradução feita por Luis Pignatelli (1935-1993) de Odes Elementales, publicada em 1977 com o titulo Odes Elementares.
Nada como a experiencia para nos revelar quanto estamos errados com as nossas ideias feitas.
Tinha para mim que acariciar seios cuja beleza acrescida decorria de cirurgia plástica, arrefeceria o prazer desde que o facto fosse conhecido. A experiência mostrou-me que perante uma intervenção bem feita o prazer explode intacto ao tacto destas maravilhas.
Nasce dentro das mãos este desejo / De toda te palpar e possuir:
Não será difícil imaginar que a bela de quem o poema fala poderia semelhar-se a alguma das belas do século XV cujos retratos há dias aqui deixei, qual seja por exemplo a bela Simonetta Vespucci pintada por Pietro di Cosimo cerca de 1520, ou a Fornarina, causa inventada da morte precoce de Rafael e que pela mesma época este pintou:
A tradução do poema é de David Mourão-Ferreira e foi publicada em Vozes da Poesia Europeia – II (Colóquio Letras nº 164). Os conhecedores da língua francesa encontram no final do post o poema em francês moderno com os dois versos (29 e 30) que David Mourão-Ferreira não traduziu:
[29]Tétin qui t’enfles, et repousses / [30] Ton gorgias de deux bons pouces
O poema chama-se em francês Le blason du beau tétin. O “blason”, género poético sem equivalente preciso em português, que eu saiba, é um curto poema celebrando uma parte do corpo feminino, constituindo-se essa parte como brasão ou emblema (blason) digno de ser cantado. Conhecido na poesia francesa em meados do século XV, ressurgiu e fez moda pela pena do nosso poeta de hoje Clément Marot (1497 – 1544). Este “blason” da bela teta foi estendido por outros poetas em imitação e emulação de Marot, nos anos que se seguiram ao seu aparecimento (1535), ao elogio de outras partes do corpo feminino das belas amadas dos poetas que as cantaram.
Depois de largo silêncio, vamos encontrá-lo de novo no século XX em poemas de Paul Eluard e André Breton, nomeadamente. Mas é um poema de Georges Brassens (1921-1981) , Le blason, que me atrai. Sendo uma elegia à “merveillette fente” como lhe chamou Pierre de Ronsard (1524-1585), de caminho vitupera a língua francesa pela homonimía de possuir para tal amiga do homem o mesmo termo que para idiota [con]. Infelizmente não conheço tradução portuguesa desta poema de Brassens, cantado pelo poeta no disco Mourir pour des idées (1962). Deixo-vos, pois, o poema e a interpretação do grande Brassens a cuja poesia e música espero regressar.
LE BLASON
Ayant avec lui toujours fait bon ménage, J’eusse aimé célébrer, sans être inconvenant, Tendre corps féminin, ton plus bel apanage, Que tous ceux qui l’ont vu disent hallucinant.
Ç’eût été mon ultime chant, mon chant du cygne Mon dernier billet doux, mon message d’adieu. Or, malheureusement, les mots qui le désignent Le disputent à l’exécrable, à l’odieux.
C’est la grande pitié de la langue française, C’est son talon d’Achille et c’est son déshonneur, De n’offrir que des mots entachés de bassesse À cet incomparable instrument de bonheur.
Alors que tant de fleurs ont des noms poétiques, Tendre corps féminin, c’est fort malencontreux Que ta fleur la plus douce et la plus érotique Et la plus enivrante en ait un si scabreux.
Mais le pire de tous est un petit vocable De trois lettres, pas plus, familier, coutumier, Il est inexplicable, il est irrévocable, Honte à celui-là qui l’employa le premier.
Honte à celui-là qui, par dépit, par gageure, Dota du même terme, en son fiel venimeux, Ce grand ami de l’homme et la cinglante injure, Celui-là, c’est probable, en était un fameux.
Misogyne à coup sûr, asexué sans doute, Au charme de Vénus absolument rétif, Était ce bougre qui, toute honte bu’, toute, Fit ce rapprochement, d’ailleurs intempestif.
La malepeste soit de cette homonymie! C’est injuste, madame, et c’est désobligeant Que ce morceau de roi de votre anatomie Porte le même nom qu’une foule de gens.
Fasse le ciel qu’un jour, dans un trait de génie, Un poète inspiré, que Pégase soutient, Donne, effaçant d’un coup des siècles d’avanie, À cette vrai’ merveille un joli nom chrétien.
En attendant, madame, il semblerait dommage, Et vos adorateurs en seraient tous peinés, D’aller perdre de vu’ que, pour lui rendre hommage, Il est d’autres moyens et que je les connais,
Involuntariamente, para cada um de nós o mundo começa quando nascemos. Daí para a frente é a nossa vida e o mundo fazê-mo-lo à imagem do que conhecemos. Para trás é historia e olha-mo-la com os instrumentos que fomos adquirindo.
Vivendo nós, hoje, num mundo de imagens, temos a maior dificuldade em recuar no tempo e imaginar as sociedades das quais os documentos visuais escasseiam.
Grande parte do meu prazer nos ócios é reunir peças para um puzzle que vou construindo na cabeça, pondo de pé os mundos fisicos, humanos e mentais que fizeram a realidade que encontrei ao nascer.
Das mulheres dum tempo anterior à fotografia nada sabemos. Ao ler poesia que enaltece a beleza da amada nunca saberemos se tal corresponde a uma realidade ou à distorção do amor.
Recuando no tempo a pintura é escassa mas existe para as estirpes reais. Feitas da mesma massa que o resto dos humanos, seriam tão belas ou feias como a generalidade das suas contemporâneas. Terão mudado as feições? Terão mudado os canones de beleza? Tenho para mim que apenas mudou a moda no vestir. Belas mulheres sempre existiram.
Restringindo o periodo que me ocupa hoje ao tempo das descobertas organizadas pelo Infante D Henrique no inicio de 1400 até à descoberta do Brasil, é ao acervo da pintura europeia do século XV que vou buscar imagens, belas imagens, de mulheres que viveram aquele período.
As não tão belas mulheres virão outro dia.
A identificação do pintor e retratada é feita no nome do ficheiro para não sobrecarregar o texto. Basta passar o cursor sobre a imagem e ele surge. Todas as imagens podem ser vistas em tamanho maior com click sobre a imagem no botão direito do rato.
Sendo a maioria das retratadas mulheres italianas, termino com uma das rimas de Petrarca (1304 – 1374), a 183, grosso modo um século mais velha que estas mulheres, e onde o poeta afirma:
Fechemos o Dia Internacional da Mulher com o canto à feminilidade vindo das esculturas de Henry Moore (1898 -1986) e um soneto de Christina Rossetti (1830-1894) – Remember – no final.
Remember
Remember me when I am gone away
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.
Manuel Bandeira (1886-1968), contemporâneo de Henry Moore, traduziu este soneto. A tradução foi publicada no livro Estrela da Manhã, edição de 1936, em 47 exemplares.
Remember
Recorda-te de mim quando eu embora For para o chão silente e desolado; Quando não te tiver mais a meu lado E sombra vã chorar por quem me chora.
Quando não mais puderes, hora a hora, Falar-me no futuro que hás sonhado, Ah de mim te recorda e do passado, Delícia do presente por agora.
No entanto, se algum dia me olvidares E depois te lembrares novamente, Não chores: que se em meio aos meus pesares
Um resto houver do afecto que em mim viste, — Melhor é me esqueceres, mas contente, Que me lembrares e ficares triste.
Termino a viagem à poesia no feminino vinda da América Central, com uma paragem em Cuba pela letra de um soneto de Carilda Oliver (1924),Hombres que me servísteis de verano.
Nesta evocação dos homens de uma vida, não há rancores mas agradecimento:
Regresso poeticamente à América Central, e desta vez à Costa Rica para, pela inspiração de Eunice Odio (1919-1974), lermos o seu POEMA PRIMERO (Posesión en el sueño).
Poucas vezes, um homem, qualquer homem, terá ouvido de uma mulher:
Tu cintura en que el día parpadea / llenando con su olor todas las cosas, / … entre outra belas coisas que o poema nos diz.
Leia-mo-lo:
Ven
Amado
Te probaré con alegría
Te soñaré conmigo esta noche.
Tu cuerpo acabará
donde comience para mi
la hora de tu fertilidad y tu agonia;
y porque somos llenos de congoja
mi amor por ti ha nacido con tu pecho,
es que te amo en principio por tu boca.
Ven
Comeremos en el sitio de mi alma.
Antes que yo se te abrirá mi cuerpo
como mar despeñado e lleno
hasta el crepúsculo de peces.
Porque tu eres bello,
hermano mío,
eterno mío dulcíssimo.
Tu cintura en que el día parpadea
llenando con su olor todas las cosas,
tu decision de amar,
de súbito,
desembocando inesperado a mi alma,
tu sexo matinal
en que descansa el borde del mundo
y se dilata.
Ven
Te probaré con alegría.
Manojo de lámparas será a mís pies tu voz.
Hablaremos de tu cuerpo
con alegria puríssima,
como niños desvelados a cuyo salto
fue descubierto apenas, otro niño,
y desnudado su incipiente arribo,
y conocido en su futura edad, total, sin diámetro,