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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Girassóis, Van Gogh, o mistério genético e um soneto de Camões

31 Sábado Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, Van Gohg

Está aparentemente esclarecido o mistério genético dos girassóis mutantes pintados por Van Gogh, fazendo fé numa noticia de hoje.

Esclarecido o fenómeno cientifico, permanece o mistério da arte no esplendor da sua imorredoira atracção.

Motivo de paixão, algumas das pinturas de girassóis de Van Gogh foram e continuam ser a porta de entrada para a fruição plástica desde a mais tenra idade.

Nas minhas primeiras tentativas de pintar a óleo, foi uma jarra com três girassóis que tentei passar à tela, procurando concretizar o fascínio que as reproduções conhecidas das pinturas de Van Gogh lançavam.

Anos vai, no auge do poderio financeiro do Japão, foi noticia de espanto pelo mundo, o valor astronómico por que uma das pinturas de girassóis de Van Gogh foi comprada em leilão, e a seguir encerrada num cofre para ser protegida de roubos. Triste destino para a beleza! Parece-me, até, que esta venda foi o pontapé de saída para outras vendas por valores absurdos no mercado da arte, tendo levado pessoas a pensar que investir em arte apenas valia ou vale a pena olhando ao nome do artista.

Mas voltando aos girassóis, a atenção de poetas tem-se demorado nesta inflorescência, dando conta da complexidade de emoções que tais flores provocam. Pretexto para subtilezas em casos de amor, a ele não escapou no longínquo século XVI o génio de Camões, o que me permite acrescentar a esta nota um seu soneto.

No soneto, o poeta comparando-se ao girassol, cujo comportamento descreve na primeira parte, chama a amada de Meu Sol e diz-lhe como vê-la o faz viver :

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,, e … em não vos vendo, entristecida / Se murcha, e se consome em grão tormento /

Uma admirável erva se conhece

Que vai ao Sol seguindo de hora em hora

Logo que ele do Eufrates se vê fora,

E quando está mais alto, então floresce

 

Mas quando ao oceano o carro desce

Toda a sua beleza perde Flora

Porque ela se emurchece, e se descora

Tanto co’a luz ausente se entristece.

 

Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa,

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,

Cria flores em seu contentamento

 

Mas logo, em não vos vendo, entristecida

Se murcha, e se consome em grão tormento

Nem há quem vossa ausência sofrer possa.

Transcrevi a versão do soneto XXVIII da Centúria II (incluindo as virgulas) publicada por Manuel de Faria Y Sousa na sua edição das Rimas Varias de Camões (1685), com modernização da ortografia.

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Os nenufares de Claude Monet e uma homenagem fotográfica

27 Terça-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia

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Claude Monet, nenúfares

Pintados nos anos 1916-1919, a serie sobre nenúfares de Claude Monet (1840 – 1926) constitui o apogeu na forma de captar o intangivel da luz na água, dando conta das texturas e da mutabilidade da paisagem no imóvel da tela.

Um dos fascínios do meu fotografar é tentar captar a forma como a luz varia a nossa percepção da realidade circundante.

Neste fascínio compreendo os impressionistas e sobretudo Claude Monet, cuja incansável demanda foi guardar na tela a imperceptível mutação da paisagem provocada pela luz. Lembrado das suas pinturas de nenúfares, certo entardecer dei comigo a fotografar um lago cheio de nenúfares, e de tal forma fascinado, que bem entrada a noite ainda fotografava sem flash, tentando conservar a variedade do colorido que o sol ao desaparecer, foi deixando em redor.

Fotografias entretanto esquecidas, reencontrei-as hoje ao vasculhar o arquivo fotográfico e eis algumas.

 

 

 

 

 

 

 

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George Grosz – The lady and the dog e poema de Franz Werfel

25 Domingo Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Franz Werfel, George Grosz

São conhecidas as pinturas de George Grosz (1893-1959) ferozmente criticas de sociedade alemã ao tempo da República de Weimer.

Tomando como pretexto a presença de cães de estimação, eis algumas dessas pinturas. É uma classe média nos seus ócios que nos surge, quase sempre caricata no ufano ostensivo da sua condição.

 

 

 

 

 

Termino com o soneto de Franz Werfel (1890-1945), O homem belo e radiante.

Poeta do expressionismo alemão, casado com Alma Mahler, e tal como George Grosz exilado nos EUA depois da chegada de Hitler ao poder.

 

O homem belo e radiante

Os amigos com quem vou conversando,

Outrora tristes, irradiam prazer,

Nos meus belos passeios, dá gosto ver

Como me dão o braço, ar venerando.

 

Ah, dignidade não é para o meu semblante,

Não lhe basta ser sério e equilibrado,

Pois mil sorrisos, em voo renovado,

Surgem da sua imagem cintilante.

 

Eu sou um corso em praças soalheiras,

Festa de verão com mulheres e bazar,

Meu olhar baixa, ante o brilho profundo.

 

Quero sentar-me em relvados e eiras

E com a terra na noite penetrar,

Oh, Terra, noite, sorte, Oh, estar no mundo!

Tradução de João Barrento

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A vida e duas poetisas: Cristina Campo e Wislawa Szymborska

25 Domingo Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Cristina Campo, Paul Klee, Wislawa Szymborska

Em dois curtos poemas, Cristina Campo (1923-1977)  e  Wislawa Szymborska (1923-2012), nascidas no mesmo ano, cada uma à sua maneira conduz-nos pelo  que de essencial a vida tem e nos faz.

 Em tempos de existência diferentes, enquanto Wislawa Szymborska  refere: Tu és bela – digo à vida –  / mais esplêndida não podias, com Cristina Campo percorremos o depois: Ficou para trás, quente, a vida, / …

Na ironia mansa que perpassa em tanta da sua poesia Wislawa Szymborska guia-nos pelos nadas eternos da existência:

Só para não te ofender, / te irritar, descontrolar. / Eu saltito sorridente  / há uns bons cem mil anos.

Allegro ma non troppo de Wislawa Szymborska

Tu és bela – digo à vida –

mais esplêndida não podias,

de rouxinóis e de rãs,

de formigas e sementes.

 

E tento ser-lhe agradável,

bajulá-la, olhá-la nos olhos.

Sou sempre a primeira a saudá-la,

de humilde expressão na fronte.

 

Vou-lhe saltando ao caminho,

da esquerda, da direita,

e fascinada me elevo,

e de enlevo me estatelo.

 

Que marinho este cavalo!

que silvestre é esta amora! –

nunca em tal houvera crido

se não tivesse nascido.

 

– Não encontro – digo à vida –

nada a que possa igualar-te.

Ninguém fará outra pinha,

nem melhor nem menos bem.

 

Louvo-te a generosidade, a criatividade,

a decisão e o rigor –

e mais ainda – e mais além –

a magia – a negra e a branca.

 

Só para não te ofender,

te irritar, descontrolar.

Eu saltito sorridente

há uns bons cem mil anos.

 

Arranho a vida pela bainha de uma folhita:

Terá parado? Ouviria?

Só uma vez, por um momento,

esqueceu-se de para onde ia?

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes

Na desolada inquietação que acompanha a poesia de Cristina Campo  lemos os restos, o que ficou:

Ficou a caricia que não encontro

…

Vamos ao poema

Ficou para trás, quente, a vida,

a marca colorida dos meus olhos, o tempo

em que ardiam no fundo de cada vento

mãos vivas cercando-me…

 

Ficou a caricia que não encontro

senão entre dois sonos, a infinita

minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra

que transfiguravas o sangue em lágrimas.

 

Nem sequer um rosto trago

comigo, já trespassado em outro rosto

como esperança no vinho e consumado

em acesos silencios…

 

                                    Volto sozinha

entre dois sonos lá’trás, vejo a oliveira

rósea nas talhas cheias de água e lua

do longo inverno. Torno a ti que gelas

 

na minha leve túnica de fogo.

 

Tradução de José Tolentino Mendonça

 

 

As imagens reproduzem pinturas de Paul Klee

 

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Uma ode à poesia de Pablo Neruda

21 Quarta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Fernando Assis Pacheco, Luis Pignatelli, Malevich, Pablo Neruda

Parece que hoje é o dia da Poesia para aqueles que não a lêem. Assinalemos tão auspiciosa data com um dos poemas da minha vida: Ode à Poesia de Pablo Neruda (1904-1973).

Para quem se interroga sobre questões utilitárias como por exemplo: Poesia? Para que serve? Pablo Neruda acompanha-o nesta ode:

…

Yo te pedí que fueras
utilitaria y útil,
como metal o harina,
dispuesta a ser arado,
herramienta,
pan y vino,
dispuesta, Poesía,
a luchar cuerpo a cuerpo
y a caer desangrándote.

…

E mais à frente responde. E em resultado permanece no coração dos homens que o leram.

Acompanham a poesia de Neruda algumas pinturas de Kazimir Malevich (1878-1935) representando trabalhadores manuais.

Não fora a sua extensão, acrescentaria o poema O Homem Invisível com que abre o livro Odes Elementares onde esta Ode à Poesia se contém. Fica o alvitre para um leitor curioso o procurar e este excerto:

…

eu não tenho importância

nem tempo

para os meus assuntos,

de noite e de dia

tenho que apontar tudo o que se passa,

e não esquecer ninguém.

É certo que de repente

me canso,

fico a olhar as estrelas,

estendo-me na relva, passa

um insecto cor de violino,

pouso o braço

sobre um pequeno seio

ou enlaço a cintura

da minha amada,

e vejo o veludo

cruel

da noite que estremece

com as suas constelações geladas,

então

sinto subir à minha alma

a onda dos mistérios,

a infância,

o pranto nos recantos,

a adolescência triste

e o sono invade-me,

durmo

…

(Tradução de Luis Pignatelli)

ODE À POESIA

Quase cinquenta anos

a caminhar

contigo, Poesia.

Ao princípio

enleavas-me os pés

e eu caía de borco

na terra escura

ou enterrava os olhos

no charco

para ver as estrelas.

Mais tarde estreitaste-me

com os dois braços da amante

e subiste

pelo meu sangue

como uma trepadeira.

No minuto seguinte

convertias-te em taça.

 

Belo

foi

ires escorrendo sem te consumires,

ires entregando a tua água inesgotável,

ires vendo que uma gota

caía sobre um coração queimado

e dessas mesmas cinzas revivia.

Porém

nem isso me bastou.

Tanto andei contigo

que te perdi o respeito.

Deixei de ver-te como

náiade vaporosa,

pus-te a fazer de lavadeira,

a vender pão nas padarias,

a fiar com as simples tecedeiras,

a bater o ferro na metalurgia.

E vieste comigo

andando pelo mundo,

mas já não eras

a florida

estátua da minha infância.

Falavas

agora

com voz férrea.

As tuas mãos

foram duras como pedras.

O teu coração

foi um abundante

manancial de sinos,

fizeste para mim pão com fartura,

ajudaste-me

a não cair de borco,

procuraste-me

companhia,

não uma mulher,

não um homem,

mas milhares, milhões.

Juntos, Poesia,

fomos

ao combate, à greve,

ao desfile, aos portos,

à mina,

e eu ri-me quando saíste

com a testa suja de carvão

ou coroada com serrim fragrante

das serrações.

Já não dormíamos na estrada.

Esperavam-nos grupos

de operários com camisas

recém-lavadas e bandeiras vermelhas.

 

E tu, Poesia,

até aí tão desgraçadamente tímida,

marchaste

à cabeça

e todos

se habituaram ao teu traje

de estrela quotidiana,

pois mesmo que algum relâmpago denunciasse a tua família

tu cumpriste a tarefa,

andando passo a passo com os homens.

Eu pedi-te que fosses

utilitária e útil,

como metal ou farinha,

pronta a ser arado,

ferramenta

pão e vinho,

pronta, Poesia,

a lutar corpo a corpo

e a cair esvaída em sangue.

 

E agora,

Poesia,

obrigado, esposa,

irmã ou mãe

ou noiva,

obrigado, onda do mar,

flor branca e bandeira,

motor de música,

grande pétala de oiro,

sino submarino,

celeiro inesgotável,

obrigado

 terra de cada um

 dos meus dias,

 vapor celeste e sangue

 dos meus anos,

 porque me acompanhaste

 da mais enrarecida altura

 à simples mesa

 dos pobres,

 porque puseste na minha alma

 sabor ferruginoso

 e fogo frio,

 porque me ergueste

 à altura insigne

 dos homens vulgares,

 Poesia,

 porque a teu lado

 enquanto me gastava

 tu foste sempre

 aumentando essa frescura firme,

 esse ímpeto cristalino,

 como se o tempo

 que a pouco e pouco me converte em terra

 fosse deixar correr eternamente

as águas do meu canto.

Tradução de Fernando Assis Pacheco

 

ODE À POESIA (original)

Cerca de cincuenta años             
caminando
contigo, Poesía.
Al principio
me enredabas los pies
y caía de bruces
sobre la tierra oscura
o enterraba los ojos
en la charca
para ver las estrellas.
Más tarde te ceñiste
a mí con los dos brazos de la amante
y subiste
en mi sangre
como una enredadera.
Luego
te convertiste
en copa.

Hermoso
fue
ir derramándote sin consumirte,
ir entregando tu agua inagotable,
ir viendo que una gota
caída sobre un corazón quemado
y desde sus cenizas revivía.
Pero no me bastó tampoco.
Tanto anduve contigo
que te perdí el respeto.
Dejé de verte como
náyade vaporosa
te puse a trabajar de lavandera,
a vender pan en las panaderías,
a hilar con las sencillas tejedoras,
a golpear hierros en la metalurgia.
Y seguiste conmigo
andando por el mundo,
pero tú ya no eras
la florida
estatua de mi infancia.
Hablabas
ahora
con voz férrea.
Tus manos
fueron duras como piedras.
Tu corazón
fue un abundante
manantial de campanas,
elaboraste pan a manos llenas,
me ayudaste a no caer de bruces,
me buscaste
compañía,
no una mujer,
no un hombre,
sino miles, millones.
Juntos, Poesía,
fuimos
al combate, a la huelga,
al desfile, a los puertos,
a la mina,
y me reí cuando saliste
con la frente manchada de carbón
o coronada de aserrrín fragante
de los aserraderos.
Y no dormíamos en los caminos.
Nos esperaban grupos
de obreros con camisas
recién lavadas y banderas rojas.

Y tú, Poesía,
antes tan desdichadamente tímida,
a la cabeza
fuiste
y todos
se acostumbraron a tu vestidura
de estrella cotidiana,
porque aunque algún relámpago delató tu familia
cumpliste tu tarea,
tu paso entre los pasos de los hombres.
Yo te pedí que fueras
utilitaria y útil,
como metal o harina,
dispuesta a ser arado,
herramienta,
pan y vino,
dispuesta, Poesía,
a luchar cuerpo a cuerpo
y a caer desangrándote.

Y ahora,
Poesía,
gracias, esposa,
hermana o madre
o novia,
gracias, ola marina,
azahar y bandera,
motor de música,
largo pétalo de oro,
campana submarina,
granero
inextinguible,
gracias,
tierra de cada uno
de mis días,
vapor celeste y sangre
de mis años,
porque me acompañaste
desde la más enrarecida altura
hasta la simple mesa
de los pobres,
porque pusiste en mi alma
sabor ferruginoso
y fuego frío,
porque me levantaste
hasta la altura insigne
de los hombres comunes,
Poesía,
porque contigo
mientras me fui gastando
tú continuaste
desarrollando tu frescura firme,
tu ímpetu cristalino,
como si el tiempo
que poco a poco me convierte en tierra
fuera a dejar corriendo eternamente
las aguas de mi canto.

Noticia bibliográfica:

Esta Ode à Poesia foi, que eu saiba, traduzida duas vezes para português, ambas as traduções feitas por poetas, e publicadas na mesma editora,  Publicações D.Quixote.

Uma, a tradução de Fernando Assis Pacheco encontra-se na Antologia Breve publicada na saudosa colecção cadernos de poesia. A outra consta da tradução feita por Luis Pignatelli (1935-1993) de Odes Elementales, publicada em 1977 com o titulo Odes Elementares.

 

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A bela teta segundo Clément Marot e Le blason de Georges Brassens

17 Sábado Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música, Poesia Antiga

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Clément Marot, Georges Brassens, Pierre de Ronsard

Nada como a experiencia para nos revelar quanto estamos errados com as nossas ideias feitas.

Tinha para mim que acariciar seios cuja beleza acrescida decorria de cirurgia plástica, arrefeceria o prazer desde que o facto fosse conhecido. A experiência mostrou-me que perante uma intervenção bem feita o prazer explode intacto ao tacto destas maravilhas.

Nasce dentro das mãos este desejo / De toda te palpar e possuir:

O elogio poético explicito dos seios não é muito frequente. Recuo ao século XVI, a um francês pouco mais velho que Camões, para encontrar uma explicita elegia às tetas, agora chamadas seios.

A bela teta

Teta perfeita, branca como um ovo,

Teta de cetim feita, cetim novo,

Teta da qual a rosa tem vergonha,

Teta melhor que tudo o que se sonha,

Teta dura, nem teta, mas enfim

Comparável a bola de marfim,

E no centro da qual somente esteja

Um rubi de morango ou de cereja

Que ninguém vê nem toca por enquanto,

Mas que aposto ser tal como eu o canto:

Teta de bico pois tão encarnado

Que parece por agora sossegado,

Quer ela vá correndo ou vá andando,

Quer ela vá partindo ou vá saltando:

Teta do lado esquerdo, tão matreira,

Sempre longe da sua companheira,

Teta que és testemunha e viva imagem

De compostura tal da personagem

Que só de ver-te assim como te vejo

Nasce dentro das mãos este desejo

De toda te palpar e possuir:

Mas é preciso eu próprio me impedir

De mais me aproximar, pois não duvido

Depois desse desejo outro surgido…

Ó teta nem modesta nem vistosa,

Teta madura, teta apetitosa,

Teta que noite e dia ouço gritar:

“Depressa me casai, quero casar!”

…

…

Com justiça, feliz se vai dizer

Aquele que de leite te há-de encher,

Fazendo de uma teta de donzela

Teta de dona inteiramente bela.

Não será difícil imaginar que a bela de quem o poema fala poderia semelhar-se a alguma das belas do século XV cujos retratos há dias aqui deixei, qual seja por exemplo a bela Simonetta Vespucci pintada por Pietro di Cosimo cerca de 1520, ou a Fornarina, causa inventada da morte precoce de Rafael e que pela mesma época este pintou:

A tradução do poema é de David Mourão-Ferreira e foi publicada em Vozes da Poesia Europeia – II (Colóquio  Letras nº 164). Os conhecedores da língua francesa encontram no final do post o poema em francês moderno com os dois versos (29 e 30) que David Mourão-Ferreira não traduziu:

 [29]Tétin qui t’enfles, et repousses  / [30] Ton gorgias de deux bons pouces

O poema chama-se em francês Le blason du beau tétin. O “blason”, género poético sem equivalente preciso em português, que eu saiba, é um curto poema celebrando uma parte do corpo feminino, constituindo-se essa parte como brasão ou emblema (blason) digno de ser cantado. Conhecido na poesia francesa em meados do século XV, ressurgiu e fez moda pela pena do nosso poeta de hoje Clément Marot (1497 – 1544). Este “blason” da bela teta foi estendido por outros poetas em imitação e emulação de Marot, nos anos que se seguiram ao seu aparecimento (1535), ao elogio de outras partes do corpo feminino das belas amadas dos poetas que as cantaram.

Depois de largo silêncio, vamos encontrá-lo de novo no século XX em poemas de Paul Eluard e André Breton, nomeadamente. Mas é um poema de Georges Brassens (1921-1981) , Le blason, que me atrai. Sendo uma elegia  à “merveillette fente” como lhe chamou Pierre de Ronsard (1524-1585), de caminho vitupera a língua francesa pela homonimía de possuir para tal amiga do homem o mesmo termo que para idiota [con]. Infelizmente não conheço tradução portuguesa desta poema de Brassens, cantado pelo poeta no disco Mourir pour des idées (1962). Deixo-vos, pois, o poema e a interpretação do grande Brassens a cuja poesia e música espero regressar.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Georges+Brassens+-+Le+Blason.mp3

LE BLASON

Ayant avec lui toujours fait bon ménage,
J’eusse aimé célébrer, sans être inconvenant,
Tendre corps féminin, ton plus bel apanage,
Que tous ceux qui l’ont vu disent hallucinant.

Ç’eût été mon ultime chant, mon chant du cygne
Mon dernier billet doux, mon message d’adieu.
Or, malheureusement, les mots qui le désignent
Le disputent à l’exécrable, à l’odieux.

C’est la grande pitié de la langue française,
C’est son talon d’Achille et c’est son déshonneur,
De n’offrir que des mots entachés de bassesse
À cet incomparable instrument de bonheur.

Alors que tant de fleurs ont des noms poétiques,
Tendre corps féminin, c’est fort malencontreux
Que ta fleur la plus douce et la plus érotique
Et la plus enivrante en ait un si scabreux.

Mais le pire de tous est un petit vocable
De trois lettres, pas plus, familier, coutumier,
Il est inexplicable, il est irrévocable,
Honte à celui-là qui l’employa le premier.

Honte à celui-là qui, par dépit, par gageure,
Dota du même terme, en son fiel venimeux,
Ce grand ami de l’homme et la cinglante injure,
Celui-là, c’est probable, en était un fameux.

Misogyne à coup sûr, asexué sans doute,
Au charme de Vénus absolument rétif,
Était ce bougre qui, toute honte bu’, toute,
Fit ce rapprochement, d’ailleurs intempestif.

La malepeste soit de cette homonymie!
C’est injuste, madame, et c’est désobligeant
Que ce morceau de roi de votre anatomie
Porte le même nom qu’une foule de gens.

Fasse le ciel qu’un jour, dans un trait de génie,
Un poète inspiré, que Pégase soutient,
Donne, effaçant d’un coup des siècles d’avanie,
À cette vrai’ merveille un joli nom chrétien.

En attendant, madame, il semblerait dommage,
Et vos adorateurs en seraient tous peinés,
D’aller perdre de vu’ que, pour lui rendre hommage,
Il est d’autres moyens et que je les connais,

Et que je les connais.

Terminemos com o original deste elogio dos seios

Le blason du beau tétin

Tétin refait, plus blanc qu’un œuf, (1)

Tétin de satin blanc tout neuf,

Toi qui fait honte à la rose

Tétin plus beau que nulle chose,

Tétin dur, non pas tétin voire (2)

Mais petite boule d’ivoire

Au milieu duquel est assise

Une fraise ou une cerise

Que nul ne voit, ne touche aussi,

Mais je gage qu’il en est ainsi.

Tétin donc au petit bout rouge,

Tétin qui jamais ne se bouge,

Soit pour venir, soit pour aller,

Soit pour courir, soit pour baller (3)

Tétin gauche, tétin mignon,

Toujours loin de son compagnon,

Tétin qui portes témoignage

Du demeurant du personnage, (4)

Quand on te voit, il vient à maints

Une envie dedans les mains (5)

De te tâter, de te tenir :

Mais il se faut bien contenir

D’en approcher, bon gré ma vie,

Car il viendrait une autre envie.

Ô tétin, ni grand ni petit,

Tétin mûr, tétin d’appétit,

Tétin qui nuit et jour criez

«Mariez moi tôt, mariez !»

Tétin qui t’enfles, et repousses

Ton gorgias de deux bons pouces : (6)

A bon droit heureux on dira

Celui qui de lait t’emplira,

Faisant d’un tétin de pucelle,

Tétin de femme entière et belle.

(1) refait : nouvellement formé

(2) voire : qui n’est pas, à vrai dire, un tétin

(3) baller : danser

(4) demeurant : de tout le reste de la personne

(5) trois syllabes

(6) décolleté, haut de la robe, corsage

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Belas mulheres do século XV e um soneto de Petrarca

09 Sexta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Petrarca

Involuntariamente, para cada um de nós o mundo começa quando nascemos. Daí para a frente é a nossa vida e o mundo fazê-mo-lo à imagem do que conhecemos. Para trás é historia e olha-mo-la com os instrumentos que fomos adquirindo.

Vivendo nós, hoje, num mundo de imagens, temos a maior dificuldade em recuar no tempo e imaginar as sociedades das quais os documentos visuais escasseiam.

Grande parte do meu prazer nos ócios é reunir peças para um puzzle que vou construindo na cabeça, pondo de pé os mundos fisicos, humanos e mentais  que fizeram a realidade que encontrei ao nascer.

Das mulheres dum tempo anterior à fotografia nada sabemos. Ao ler poesia que enaltece a beleza da amada nunca saberemos se tal corresponde a uma realidade ou à distorção do amor.

Recuando no tempo a pintura é escassa mas existe para as estirpes reais. Feitas da mesma massa que o resto dos humanos, seriam tão belas ou feias como a generalidade das suas contemporâneas. Terão mudado as feições? Terão mudado os canones de beleza? Tenho para mim que apenas mudou a moda no vestir. Belas mulheres sempre existiram.

Restringindo o periodo que me ocupa hoje ao tempo das descobertas organizadas pelo Infante D Henrique no inicio de 1400 até à descoberta do Brasil, é ao acervo da pintura europeia do século XV que vou buscar imagens, belas imagens, de mulheres que viveram aquele período.

As não tão belas mulheres virão outro dia.

A identificação do pintor e retratada é feita no nome do ficheiro para não sobrecarregar o texto. Basta passar o cursor sobre a imagem e ele surge. Todas as imagens podem ser vistas em tamanho maior com click sobre a imagem no botão direito do rato.

Sendo a maioria das retratadas mulheres italianas, termino com uma das rimas de Petrarca (1304 – 1374), a 183, grosso modo um século mais velha que estas mulheres, e onde o poeta afirma:

Femina è cosa mobil per natura;

Rima 183

Se dela o doce olhar me mata aqui,

e as palavrinhas brandas de tal sorte,

e se Amor sobre mim a faz tão forte,

só quando fala ou só quando sorri,

 

ah! que será, se acaso ela por si,

por minha culpa ou por malvada sorte,

separa os olhos da mercê, e à morte,

lá onde me protege, então me fie?

 

Porém se tremo, e em coração gelado

vejo às vezes mudar sua figura,

medo é de antigas provas derivado.

 

Mulher é coisa móvel por natura;

onde eu sei bem que um amoroso estado

no peito dela pouco tempo dura.

 

Tradução de Vasco Graça Moura

 

Segue-se o original do soneto:

 

Se ‘l dolce sguardo di costei m’ancide,

e le soavi parolette accorte,

e s’Amor sopra me la fa si forte,

sol quando parla, o ver quando sorride,

 

lasso!, che fia, se forse ella divide,

o per mia colpa, o per malvagia sorte,

gli occhi suoi da mercé, si che di morte

là dove or m’assicura, allor mi sfide?

 

Però s’i’ tremo, e vo col cor gelato,

qualor veggio cangiata sua figura,

questo temer d’antiche prove è nato.

 

Femina è cosa mobil per natura;

ond’io so ben ch’un amoroso stato

in cor di donna picciol tempo dura.

 

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Mulheres de Henry Moore e Remember de Christina Rossetti

09 Sexta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Christina Rossetti, Henry Moore

Fechemos o Dia Internacional da Mulher com o canto à feminilidade vindo das esculturas de Henry Moore (1898 -1986) e um soneto de Christina Rossetti (1830-1894) – Remember – no final.

Remember

Remember me when I am gone away

Gone far away into the silent land;

When you can no more hold me by the hand,

Nor I half turn to go yet turning stay.

 

Remember me when no more day by day

You tell me of our future that you planned:

Only remember me; you understand

It will be late to counsel  then or pray.

 

Yet if you should forget me for a while

And afterwards remember, do not grieve:

For if the darkness and corruption leave

 

A vestige of the thoughts that once I had,

Better by far you should forget and smile

Than that you should remember and be sad.

 

Manuel Bandeira (1886-1968), contemporâneo de Henry Moore, traduziu este soneto. A tradução foi publicada no livro Estrela da Manhã, edição de 1936, em 47 exemplares.

Remember

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando não te tiver mais a meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
— Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

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Hombres que me servísteis de verano, poema de Carilda Oliver

08 Quinta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Carilda Oliver, Matisse

Termino a viagem à poesia no feminino vinda da América Central, com uma paragem em Cuba pela letra de um soneto de Carilda Oliver (1924), Hombres que me servísteis de verano.

Nesta evocação dos homens de uma vida, não há rancores mas agradecimento:

Sabed todos que os llevo de la mano.

 

Hombres que me servísteis de verano

Ése que no dejó de ser mi amante

y al que le debo siempre sepultura,

uno a quien nunca quise lo bastante;

aquél, obra de sueño, conjectura…

 

Alguien que jugó a nada y tuvo suerte,

otro que no ha venido de la guerra,

éste donde converso con mi muerte

porque me lo disputa hasta la tierra.

 

Salid de la memoria evocadora

con vuestro amor, pues tengo frío ahora!

Sabed todos que os llevo de la mano.

 

Vuestras sombras estallan como um mito

de vez en quando aquí. Sois lo bendito,

hombres que me servisteis de verano.

 

Publicado em La ceiba me dijo tú, 1979

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Poema Primero de Eunice Odio

08 Quinta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Eunice Odio, Matisse

Regresso poeticamente à América Central, e desta vez à Costa Rica para, pela inspiração de Eunice Odio (1919-1974), lermos o seu POEMA PRIMERO (Posesión en el sueño).

Poucas vezes, um homem, qualquer homem, terá ouvido de uma mulher:

Tu cintura en que el día parpadea  / llenando con su olor todas las cosas, / … entre outra belas coisas que o poema nos diz.

Leia-mo-lo:

Ven

Amado

 

Te probaré con alegría

Te soñaré conmigo esta noche.

 

Tu cuerpo acabará

donde comience para mi

la hora de tu fertilidad y tu agonia;

y porque somos llenos de congoja

mi amor por ti ha nacido con tu pecho,

es que te amo en principio por tu boca.

 

Ven

Comeremos en el  sitio de mi alma.

 

Antes que yo se te abrirá mi cuerpo

como mar despeñado e lleno

hasta el crepúsculo de peces.

Porque tu eres bello,

hermano mío,

eterno mío dulcíssimo.

 

Tu cintura en que el día parpadea

llenando con su olor todas las cosas,

tu decision de amar,

de súbito,

desembocando inesperado a mi alma,

tu sexo matinal

en que descansa el borde del mundo

y se dilata.

 

Ven

 

Te probaré con alegría.

 

Manojo de lámparas será a mís pies tu voz.

 

Hablaremos de tu cuerpo

con alegria puríssima,

como niños desvelados a cuyo salto

fue descubierto apenas, otro niño,

y desnudado su incipiente arribo,

y conocido en su futura edad, total, sin diámetro,

en su corriente genital más próxima,

sin cauce, en apretada soledad.

 

Ven

te probaré con alegría.

 

Tu soñarás conmigo esta noche,

y anudarás aromas caídos nuestras bocas.

 

Te poblaré de alondras y semanas

eternamente oscuras y desnudas.

 

Publicado em Los elementos terrestres, 1947

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