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vicio da poesia

Monthly Archives: Abril 2013

Insónia de fim-de-semana com poema de Juan Ramón Jiménez

13 Sábado Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Crónicas, Poetas e Poemas

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Juan Ramón Jimenéz

Nu a meio corpo - inicio sec XX

Quando leio e aqui transcrevo os exaltados êxtases poéticos da rapaziada de inicio do século XX, interrogo-me sobre qual seria o aspecto das mulheres que os entusiasmavam.

Por exemplo, para Juan Ramón Jiménez (1881-1958), o Nobel espanhol, quando escreve no seu poema A mulher nua:

Limite exacto da vida, / perfeito continente, / harmonia formada, único fim, / definição real da beleza, / mulher nua:

que mulher veria?

É uma pergunta para a qual nunca terei resposta, mas apraz-me aceitar que a beleza fotografada a meio corpo que vos trago a abrir poderia estar entre essas deusas de levar à loucura os mancebo da época. Ou então, esta outra menininha com frio apenas nas pernas que prazenteira se mostra, com mais delicadeza e charme que suas netas ou bisnetas que hoje fazem os fólios centrais das revistas de tudo e nada.

Nu vintage inicio sec XXQuerereis conhecer o poema na totalidade? Ele aqui fica.

A mulher nua 

Humana fonte bela,
repuxo de delicia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que contemplavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?

(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)

Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes
concreta eternidade!

Poema de Juan Ramón Jiménez

Tradução de José Bento

Não estando ao alcance de todos belezas de primeira água como as anteriores, havia a fantasia de sonhar com as divas do cinema já na época, e não muito diferente da primeira, é a foto de Louise Brooks (1906-1985), inesquecível Lulu no cinema mudo e diva dos anos 20 do século XX, com que fecho esta pequena nota de fim-de-semana.

Louise Brooks

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Fragmentos de Álvaro de Campos

10 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Picasso

Bust of a Man - 1972-2

Ora até que enfim…, perfeitamente…
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima…
…

*

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
…

*
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…
…

Ainda que seja pouco adequado transcrever de um poema apenas um seu fragmento, cortando-lhe eventualmente o sentido que o conjunto revela, há versos que nos tocam por vezes como faíscas e queimam à flor da pele.

Alguns desses que no acaso do folhear, a leitura foi soltando, resolvi aqui transcrever, com as minhas desculpas aos puristas que considerem tal feito um atentado às obras. A totalidade de cada poema pode ser sempre encontrada a partir do primeiro verso, trancrito, em qualquer edição da obra de Alvaro de Campos.

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Dia e Destino de Poeta – dois poemas de Octavio Paz

08 Segunda-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Octavio Paz

Dia

Estreio no blog a poesia de Octavio Paz (1914-1998), Nobel mexicano e poeta gigantesco entre os grandes das letras hispânicas.

Sábio nas coisas da vida e do amor, é no desprendimento da matéria que medita o dia, o efémero e o passar do tempo no poema Dia:

Dia feito de tempo e de vazio: / desabitas-me, apagas / meu nome e o que sou, / enchendo-me de ti: luz, nada.

Entrego-vos à tradução do poeta Luís Pignatelli (1935-1993).

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Día

¿De qué cielo caído,
oh insólito,
inmóvil solitario en la ola del tiempo?
Eres la duración,
el tiempo que madura
en un instante enorme, diáfano:
flecha en el aire,
blanco embelesado
y espacio sin memoria ya de flecha.
Día hecho de tiempo y de vacío:
me deshabitas, borras
mi nombre y lo que soy,
llenándome de ti: luz, nada.
              
Y floto, ya sin mí, pura existencia.

Antes de terminar, arquivo o famoso Destino de Poeta, evidência e síntese do falar poético:

Destino de Poeta

Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

Destino de poeta

¿Palabras? Sí, de aire,
y en el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palabras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos
que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.

A tradução é de novo de Luís Pignatelli. Ambas as traduções foram publicadas em Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

Os poemas integraram o livro Libertad bajo palabra (1958).

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Dirceu – O poeta Tomás António Gonzaga

07 Domingo Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Dirceu, Marília, Poesia, Tomás António Gonzaga


Continuo a desafiar os leitores do Blog para a poesia antiga.

Publicado este artigo num tempo em que a audiência do blog se contava por meia dúzia de leitores, o artigo tem permanecido escondido entre o mais de meio milhar de artigos do arquivo do blog. Resolvi despertá-lo, na tentativa de encontrar novos leitores para um poeta maior que dá gosto ler.

Hoje, o autor é conhecido e lendária a paixão por Marília. Será a sua poesia assim conhecida?

Despida dos convencionalismos arcádicos que pululam na maior parte da poesia portuguesa da segunda metade do sec. XVIII, é a nobreza e verdade do sentimento o que nos comove ao lê-la.

Do lirismo do tempo de Coimbra ainda com sabor ao soneto quinhentista, à variedade poética com que envolve a sua paixão por Marília, temos um conjunto de belíssima poesia de que escolho quase ao acaso alguns poemas.

 

Antes de Marília

Vamos com o jovem poeta do sonho de riqueza ao coração dividido por dois amores

I

Num fértil campo do soberbo Douro,

Dormindo sobre a relva, descansava,

Quando vi que a fortuna me mostrava,

Com alegre semblante, o seu tesouro.

 

De uma parte, um montão de prata e ouro

Com pedras de valor o chão curvava;

Aqui um ceptro, ali um trono estava,

Pendiam coroas mil de grama e louro.

 

– Acabou-se – diz-me então – a desventura:

De quantos bens te exponho qual te agrada,

Pois benigna o concedo, vai, procura.

 

Escolhi, acordei, e não vi nada:

Comigo assentei logo que a ventura

Nunca chega a passar de ser sonhada.

 

II

É gentil, é prendada a minha Altéia;

As graças, a modéstia do seu rosto

Inspiram no meu peito maior gôsto

Que ver o próprio trigo quando ondeia.

 

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia,

A nova sujeição me vejo exposto;

Ah! Que é mais engraçado, mais composto

Que a pura esfera, de mil astros cheia!

 

Prender as duas com grilhões estreitos

É uma acção, ó deuses, inconstante,

Indigna dos sinceros nobres peitos.

 

Cupido, se tens dó de um triste amante,

Ou forma de Lorino dous sujeitos,

Ou forma desses dous um só semblante.

 

Retrato e paixão por Marília

Primeiro o retrato.

Os olhos:

ao sol se excedem / na luz que dão,

o resto di-lo o poema.

 

Depois a paixão com um poema que nos dá conta do que sente o apaixonado sem remédio.

se não vivera /

uma esperança / no peito seu, /

já morto estava / o bom Dirceu.

 

III

A minha amada / é mais formosa

que branco lírio, / dobrada rosa,

que o cinamomo,  / quando matiza / co’a folha a flôr.

Vénus não chega / ao meu amor.

 

Vasta campina, / de trigo cheia,

quando na sesta / co vento ondeia,

ao seu cabelo, / quando flutua, / não é igual.

Tem a cor negra, / mas quanto val!

 

Os astros, que andam / na esfera pura,

quando cintilam  / na noite escura,

não são, humanos, / tão lindos como / seus olhos são,

que ao sol se excedem / na luz que dão.

 

Às brancas faces / ah! Não se atreve

jasmim de Itália, / nem inda a neve,

quando a desata / o sol brilhante / com seu calor.

São neve, e causam / no peito ardor.

 

Na breve boca / vejo enlaçadas

as finas per’las / com as granadas;

a par dos beiços, / rubis da India / têm preço vil.

Neles se agarram / amores mil.

 

Se não lhe desse / compadecido,

tanto socorro / o deus Cupido;

se não vivera / uma esperança / no peito seu,

já morto estava / o bom Dirceu.

 

Vê quanto pode / teu belo rosto,

e de gozá-lo / o vivo gosto!

Que submergido / em um tormento / quase infernal,

porqu’inda espero, / resisto mal.

 

IV

Não sei, Marília, que tenho, / Depois que vi o teu rosto,

Pois quanto não é Marília / Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava, / Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro: / Hoje, ó bela, me aborrece

Inda o trato lisonjeiro / Do mais discreto pastor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Saio da minha cabana / Sem reparar no que faço;

Busco o sítio aonde moras / Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janela; / Aonde, Marília bela,

Tu chegas ao fim do dia; / Se alguém passa e te saúda,

Bem que seja cortesia, / Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se estou, Marília, contigo, / Não tenho um leve cuidado;

Nem me lembra se são horas / De levar à fonte o gado.

Se vivo de ti distante, / Ao minuto, ao breve instante

Finge um dia o meu desgosto; / Jamais pastora te vejo

Que em teu semblante composto / Não veja graça maior.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Ando já com o juizo, / Marília, tão perturbado,

Que no mesmo aberto sulco / Meto de novo o arado.

Aqui no centeio pego, / Noutra parte em vão o sego;

Se alguém comigo conversa, / Ou não respondo, ou respondo

Noutra coisa tão diversa, / Que nexo não tem menor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se geme o bufo agoureiro, / Só Marília me desvela,

Enche-se o peito de mágoa, / E não sei a causa dela.

Mal durmo, Marília, sonho / Que fero leão medonho

Te devora nos meus braços: / Gela-se o sangue nas veias,

E solto do sono os laços / À força de imensa dor.

Ah! Que os efeitos, que sinto,

Só são efeitos de amor!

 

O namoro e a explicação do sexo

Brincadeiras, ciúme, e como se fazem meninos com exemplos colhidos na natureza.

 

V

Num sitio ameno, / cheio de rosas, / de brancos lírios / murtas viçosas.

Dos seus amores / na companhia / Dirceu passava / alegre o dia.

Em tom de graça, / ao terno amante / manda Marília / que toque e cante.

Pega na lira, / sem que a tempere, / a voz levanta, / e as cordas fere.

Cos doces pontos / a mão atina, / e a voz iguala / à voz divina.

Ela, que teve / de rir-se a ideia, / nem move os olhos, / de assombro cheia.

Então Cupido / aparecendo, / à bela fala, / assim dizendo:

– Do teu amado / a lira fias, / só por que dele /zombando rias?

Quando num peito / assento faço, / do peito subo / à lingua e braço.

Nem creias que outro / estilo tome, / sendo eu o mestre, / a acção teu nome.

 

VI

Minha Marília, / tu enfadada? / Que mão ousada

perturbar pode / a paz sagrada / do peito teu?

Porém que muito / que irado esteja

o teu semblante: / também troveja / o claro céu.

 

Eu sei, Marília, / que outra pastora / a toda hora,

em toda a parte, / cega namora / ao teu pastor.

Há sempre fumo / aonde há fogo:

Assim, Marília, / há zelos, logo / que existe amor.

 

Olha, Marília, / na fonte pura / a tua alvura,

a tua boca / e a compustura / das mais feições.

Quem tem teu rosto / Ah! Não receia

que terno amante / solte a cadeia, / quebre os grilhões.

 

Não anda Laura / nestas campinas / sem as boninas

no seu cabelo, / sem peles finas / no seu jubão.

Porém que importa? / O rico asseio

não dá, Marília, / ao rosto feio / a perfeição.

 

Quando apareces / na madrugada, / mal embrulhada

na larga roupa, / e desgrenhada, / sem fita ou flor,

Ah! Que então brilha / a natureza!

Então se mostra / tua beleza / inda maior.

 

O céu formoso, / quando alumia / o sol de dia,

ou estrelado, / na noite fria, / parece bem.

Também tem graça / quando amanhece;

até Marília, / quando anoitece / também a tem.

 

Que tens, Marília, / que ela suspire, / que ela delire,

que corra os vales, / que os montes gire, / louca de amor?

Ela é que sente / esta desdita;

e na repulsa / mais se acredita / o teu pastor.

 

Quando há, Marília, / alguma festa / lá na floresta,

(fala a verdade!) / dança com esta / o bom Dirceu?

E se ela o busca, /vendo buscar-se,

não se levanta, / não vai sentar-se / ao lado teu?

 

Quando um por outro / na rua passa, / se ela diz graça

ou muda o gesto, / esta negaça / faz-lhe impressão?

Se está fronteira, / e brandamente /

lhe fita os olhos, / não põe, prudente, / os seus no chão?

 

Deixe o ciúme, / que te desvela, / Marília bela;

nunca receies / dano daquela / que igual não fôr.

Que mais desejas? /Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta / de puro afecto, /de pundonor.

 

VII

Marília, de que te queixas? / De que te roube Dirceu

O sincero coração? / Não te deu também o seu?

E tu, Marília, primeiro / Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Em torno das castas pombas / Não rulam ternos pombinhos?

E rulam, Marília, em vão? / Não se afagam os biquinhos?

E a provas de mais ternura / Não os arrasta a paixão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Já viste, minha Marília, / Avezinhas que não façam

Os seus ninhos no verão? / Aquelas, com quem se enlaçam,

Não vão cantei-lhes defronte / Do mole pouso, em que estão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Se os peixes, Marília, geram / Nos bravos mares e rios,

Tudo efeitos de amor são. / Amam os brutos ímpios,

A serpente venenosa, / A onça, o tigre, o leão.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

As grandes deusas do céu / Sentem a seta tirana

Da amorosa inclinação / Diana, por ser Diana,

Não se abrasa, não suspira / Pelo amor de Endimião?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Desiste, Marília bela, / De uma queixa sustentada

Só na altiva opinião. / Esta chama é inspirada

Pelo céu, pois nela assenta / A nossa conservação.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

A prisão

Num pungente canto, assistimos ao desfilar dos terrores da prisão a que o amor por Marília oferece o conforto e a esperança.

O poema termina de forma admirável com a exclamação:  Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

 

VIII

Se o vasto mar se encapela / e na rocha em flor rebenta,

grossa nau, que não tem leme, / em vão sustentar-se intenta;

até que naufraga e corre / à discrição da tormenta.

 

Quem não tem uma beleza, / em que ponha o seu cuidado,

se o céu se cobre de nuvens, / e se assopra o vento irado,

não tem forças que resistam / ao impulso do seu fado.

 

Nesta sombria masmorra, / aonde, Marília, vivo,

encosto na mão o rosto, / fico ás vezes pensativo.

Ah! Que imagens tão funestas / me finge o pesar activo!

 

Parece que vejo a honra, / Marília, toda enlutada;

a face de um pai, rugosa, / num mar de pranto banhada;

os amigos macilentos, / e a familia consternada.

 

Quero voltar os meus olhos / para outro diverso lado:

vejo numa grande praça / um teatro levantado;

vejo as cruzes, vejo os potros, / vejo o alfange afiado.

 

Um frio suor me cobre, / lassam-me os membros, suspiro;

busco alívio às minhas ânsias, / não o descubro, deliro.

Já, meu bem, já me parece, / que nas mãos da morte expiro.

 

Vem-me então ao pensamento / a tua testa nevada,

os teus meigos, vivos olhos, / a tua face rosada,

os teus dentes cristalinos, / a tua boca engraçada.

 

Qual, Marília, a estrela d’alva, / que a negra noite afugenta;

qual o sol, que a névoa espalha, / apenas a terra aquenta;

ou qual íris, que o céu limpa, / quando se vê na tormenta.

 

Assim, Marília, desterro / triste ilusão e demência;

faz de novo o seu oficio / a razão e a prudência;

e firmo esperanças doces / sobre a cândida inocência.

 

Restauro as forças perdidas, / sobe a viva cor ao rosto,

gira o sangue pela veia / e bate o pulso, composto.

Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

Lida hoje, a sinceridade do sentimento expresso e a forma singela despida de arrebiques, faz nosso contemporâneo este poeta e esta poesia. Quem alguma vez amou reconhece a cada passo  as dúvidas, os anseios, a hipérbole da admiração e a esperança de redenção a que o amor conduz.

 

Noticia biográfica e bibliográfica

 

Tomás António Gonzaga (1744-1810) nascido no Porto, passou a adolescência no Brasil de onde voltou com 17 anos, em 1761, para se matricular na Universidade em Coimbra no ano seguinte, estudar leis, e de onde saiu graduado em 1768, aos 24 anos.

Tendo exercido cargos públicos como Juiz em Portugal, foi nomeado em 1782 Ouvidor de Vila Rica no Brasil, para onde partiu nesse ano e nunca mais regressou a Portugal.

Vila Rica era a capital de Minas Gerais, por onde ao tempo passavam ouro e diamantes com destino a Portugal.

Integrado na sociedade local, conheceu Maria Doroteia, menina da boa sociedade, na altura com cerca de 17 anos. Linda, a ajuizar por testemunhos da época, deu a volta à cabeça do nosso poeta, a entrar nos 40.

O namoro pegou, e foi esta Maria Doroteia a Marília cantada por Gonzaga, que a si atribuiu o nome de Dirceu.

O namoro prosseguiu por entre as complicações politicas em torno do Ouvidor e em meados de 1787 o casamento estava assente.

 

Entre as complicações em torno do homem que para a obra do poeta nos interessam, esteve a publicação das Cartas Chilenas, sátira veemente aos desmandos e tiranias do Governador de Minas, escritas na clareza de linguagem que caracteriza o poeta e ás vezes de uma ironia pungente. Estas Cartas Chilenas circularam sem nome de autor.

Foi por esta altura, 1788, que o depois famoso “Tiradentes”, alferes Joaquim José da Silva Xavier, concebeu a ideia de um levantamento armado que proclamasse a indepêndencia de Minas Gerais em relação à coroa portuguesa.

Os maiores amigos de Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa, ambos poetas notáveis, brasileiros de nascimento, envolveram-se na conspiração. Aparentemente o nosso poeta tinha na conspiração um pé dentro e outro fora.

Um dos visados nas Cartas Chilenas, Joaquim Silvério dos Reis, foi quem denunciou a conjura junto do Governador e apontou Gonzaga como chefe da conspiração.

A 21 de Maio de 1789 o Governador ordenou a prisão de Gonzaga, e em vésperas do casamento o poeta foi enviado para o Rio de Janeiro e encarcerado na Fortaleza da Ilha das Cobras.

Após 3 anos de prisão Gonzaga, foi condenado a 10 anos de degredo em Moçambique, e a 23 de Maio de 1792 partiu para Africa com mais seis réus do que ficou conhecido como Inconfidência.

Não voltaria a ver Marília.

 

Do resto da vida passada em Moçambique, onde morreu em 1810, dá conta com abundantes detalhes, Manuel Rodrigues Lapa na edição crítica das Poesias e Cartas Chilenas, publicada no Rio de Janeiro em 1957 pelo Instituto Nacional do Livro, e de cujo prefácio me socorri para as informações que acima deixei.

 

Sob o título “Marília de Dirceu e outras poesias”, foi a poesia amorosa de Tomás António Gonzaga publicada na colecção Clássicos Sá da Costa, onde conheceu ampla divulgação. A edição foi de M. Rodrigues Lapa, e anterior à edição crítica que acima referi. Segundo o editor, ás condições da edição em plena 2ª Guerra Mundial, em 1942, se devem algumas insuficiências da edição Sá da Costa, colmatadas na edição crítica de 1957 feita no Brasil.

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A verdade de um rosto – O retrato triplo do Cardeal Richelieu

06 Sábado Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Philippe de Champaigne

CHAMPAIGNE, Philippe de - retrato triplo de Richelieu - 1640

Para os amantes leitores de Alexandre Dumas e da sua saga inventada sobre os 3 Mosqueteiros, o Cardeal Richelieu era a alma danada que pretendia revelar a paixão da rainha de França pelo nobre inglês, duque de Buckingham, num tempo em que a luta religiosa fazia das duas potencias inimigos e o poder tinha contornos acentuados de luta pessoal.

Richelieu, senhor de um poder absoluto, quase conseguia impedir a recuperação do pingente em diamante, numa hora de paixão oferecido pela rainha ao inglês.

A história é arqui-conhecida, e quem não a leu pode agora aproveitar o pretexto e embarcar nesta aventura de todas as adolescências.

Bom, mas o que segue, é que nós, leitores, ficamos sempre com uma imagem pouco precisa do homem, não sendo frequentes os seus retratos.

Preencho esse vazio mostrando o retrato tirado por Philippe de Champaigne (1602-1674), com o inusitado de poder permitir olhar o maligno personagem no romance em 3 posições onde o rosto se revela.

A objectividade da história devolve ao ministro de Luis XIII o lugar de estadista que lutou por estabelecer a grandeza da França e na sua luta contra os espanhóis apoiou os revoltosos portugueses de 1640.

O pano de fundo histórico no romance de Dumas é a Guerra dos 30 Anos e prende-se com o facto de Ana de Áustria, a rainha esposa de Luis XIII, ser espanhola, da casa de Habsburgo, e a França ter, a certa altura, declarado guerra a Espanha. O envolvimento de Inglaterra nesta guerra que devastou o continente foi atravessado pelas lutas contra o rei Carlos I, que viria a ser decapitado, e pela existência temporária da república de Cromwell.

O retrato de Richelieu dá-nos a ver um homem melífluo, de olhar vivo e expressão dissimulada, a ajuizar pelas comisuras da boca, preocupado com a aparência como se adivinha da cuidada toilette de barba e bigode, acentuando um rosto triangular, e escondendo a falta de frontalidade e firmeza que um queixo robusto e quadrado costuma revelar, e nele não existe.

Enfim, considerações sem propósito outro que entreter os leitores, quais nesta noite de sábado escolham o blog como passatempo.

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Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia)

05 Sexta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Maya Plisetskaya, Sophia de Mello Breyner Andresen, Yousuf Karsh

Yousuf Karsh - Maya Plisetskaya

Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia de Mello Breyner Andresen a quem parecia ser S a letra adequada para dar à palavra o movimento do seu significado) parece um contra-senso – imobilizar algo que só existe em movimento.

Nesta foto de Yousuf Karsh (1908-2002) surge uma aproximação convincente à dansa fotografada, onde a lenda do ballet clássico, Maya Plisetskaya (1925), morre como cisne no ballet de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes.

Tudo me é uma dança em que procuro

A posição ideal,

Seguindo o fio dum sonhar obscuro

Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar

Tantos gestos perdidos

Mas a alma, dispersa nos sentidos,

Sobe os degraus do ar…

Sophia de Mello Breyner Andresen

in POESIA, 1944

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Os beijos – poema ultra-romântico

04 Quinta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António José de Sousa Almada, Poesia Ultra-romântica, William Holman Hunt

William Holman Hunt 1827-1910 - The awakening Conscience 1853 TateEm maré de beijos poéticos, venho com um poema do ultra-romantismo assinado António José de Sousa Almada e escrito em Lisboa, em 1848.

O poema apenas nos mostra, uma vez mais, a constância da palpitação erótica através das épocas e o impulso para a sua formulação poética.

Ao contrario de Catulo e dos seus beijos mil, o nosso jovem (suponho) clama da falta deles:

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!

…
E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,
…

E o nosso jovem(?) dando-se ares de inocente escreve:

…
Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio
Pois mo têm vindo contar;
…

Bom, com a conversa daqui a pouco esquartejo todo o poema, pelo que fico-me por mais esta citação:

…
E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.
…

Passam os séculos mas chegada a idade certa, a conversa é sempre a mesma.

Eis o poema, retirado do pó de mais de 150 anos.

Os Beijos

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!

E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,
Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio!
Pois mo têm vindo contar:
Há beijo, que tira a cor,
Há beijo… que faz corar!

O beijo que tira a cor,
É beijo dado com medo;
Que sobressalta, e descora
A quem lhe guarda o segredo.

O beijo que faz corar,
É quase sempre o primeiro;
Murmúrio d’alma da virgem,
Que assoma aos lábios fagueiro.

Os beijos que são pedidos,
Pousa-os na face a vontade:
É o amor a dilatar-se
No perfume da amizade!

Mas os beijos que são dados
À vista de muita gente,
Desmerecem no apreço
E arrefecem de repente.

E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.

Eu cá por mim, — nada sei,
Mas acho que estes são
Mistérios que não se explicam,
Segredos do coração!

Não sei: — nem mesmo se o beijo,
Revela às vezes, pousando,
Mística voz lá do céu
Que a boca não diz, falando!

E se inexacto julgarem
Os beijos que descrevi;
Mostrem-me as Damas o erro
Dando-me um beijo a mi!…

Que os beijos que por aí vão,
Perdidos,… que nem eu sei.
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei.

Lisboa, 1848

Nota final

O poema vem publicado no Tomo IV de Lísia Poética, colectânea de poesia romântica e ultra-romântica publicada no Rio de Janeiro em 1849 por José Ferreira Monteiro.

A pintura que abre o artigo, denominada O despertar da consciência, 1853, é obra do pintor Pré-Rafaelista William Holman Hunt (1827-1910).

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Beijos mil – o poema V de Catulo

03 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Catulo, Klimt, Rodin

Rodin - O beijo - terracota

Permanece no imaginário de quem o leu como forma superior de dizer do amor e da sua paixão o Carme V de Catulo (Gaius Valerius Catullus, 87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.), ad Lesbiam.

O eterno do desejo e a sua urgência ganha forma poética neste acontecer de beijos dados e desejados, sucedendo-se pela vida e para além dela.

Objecto de variadas traduções ao longo dos tempos, encontrou na recente tradução de José Pedro Moreira e André Simões um comovedor equilíbrio entre fidelidade textual e poesia.

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que quantos beijos demos.

Antes desta versão, dera-nos Jorge de Sena a leitura com que por décadas vivemos o poema:

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Também Maria Helena da Rocha Pereira, com a probidade da sua oficina, o traduziu:

Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios ds velhos mais severos
dêmos-lhes a todos o valor de um cêntimo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que tantos foram os beijos.

Termino com o original latino do poema.

V. ad Lesbiam

VIVAMUS mea Lesbia, atque amemus,

rumoresque senum seueriorum

omnes unius aestimemus assis!

soles occidere et redire possunt:

nobis cum semel occidit breuis lux,

nox est perpetua una dormienda.

da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

dein, cum milia multa fecerimus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.

Klimt_Gustav-The_Kiss

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O Edital, poema de Augusto Gil

02 Terça-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Augusto Gil

MASTER of the Duke of Bedford - Construindo a Torre de babel 1423

Pessoa amiga sugeria-me que hoje, a pretexto do dia do livro infantil, aqui trouxesse a poesia que mais me tocou na infância. Ela já está algures no blog: foi o poema popular Nau Catrineta.

Nesta pausa da Páscoa passeava em Tavira, minha cidade natal, e reencontrei um condiscípulo de escola primária, básica chama-se hoje, que nunca mais vira, e em verdade, não consigo trazer à memória qualquer recordação que o relacione. Foi um encontro gratificante e, simultaneamente, embaraçoso, pelo carácter admirativo de que se revestiu, e tenho pudor de contar.

Como já aqui rememorei, aprendi a ler, escrever e contar aos 3 anos, e chegado à escola oficial com seis anos, encontrei cerca de trinta rapazes com sete anos e mais, para quem este mundo de ler e escrever era uma novidade absoluta. Foi fácil ganhar um ascendente e uma aura de prodígio, que já esquecera, e agora reencontrei.

Saber ler é um poder considerável do qual hoje não há, felizmente, vestígios. A generalização da aprendizagem disso se encarregou. Não foi sempre assim, e no Portugal até 1974 o analfabetismo era uma terrível realidade.

É dessa realidade que fala o poema O Edital de Augusto Gil (1873-1929) que acabei por escolher para de algum modo sinalizar este dia do livro infantil.

O Edital

Manuel era um petiz de palmo e meio
(ou pouco mais teria na verdade),
de rosto moreninho e olhar cheio
de inteligente e enérgica bondade.

Orgulhava-se dele o professor…
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor,
fazia contas que nem um banqueiro…

Ora uma vez ia o Manuel passando
junto ao adro da igreja. Aproximou-se
e viu à porta principal um bando
de homens a olhar o quer que fosse.

Empurravam-se todos em tropel,
ansiosos por saberem, cada qual,
o que vinha a dizer certo papel
pregado com obreias no portal…

“Mais contribuições!” – supunha um.
“É pràs sortes, talvez” … outro volvia.
Quantas suposições! Porém, nenhum
sabia ao certo o que o papel dizia.

Nenhum (e eram vinte os assistentes)
sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens e talvez inteligentes,
mas todos – que tristeza analfabetos!…

Furou Manuel por entre aquela gente
ansiosa, comprimida, amalgamada,
como uma formiguinha diligente
por um maciço de erva emaranhada.

Furou, e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
mas o edital estava tão distante,
lá tanto em cima, que o não pôde ler.

Um dos do bando agarrou-o então
e levantou-o com as mãos possantes
e calejadas de cavarem pão…
Houve um silêncio entre os circunstantes.

E numa clara voz melodiosa
a alegre e insinuante criancinha
pôs-se a dizer àquela gente ansiosa
correntemente o que o edital continha.

Regressava o abade do passal
a caminho da sua moradia.
Como era já idoso e via mal,
acercou-se para ver o que haveria…

E deparou com esse quadro lindo
duma criança a ler a homens feitos,
dum pequenino cérebro espargindo
luz naqueles cérebros imperfeitos…

Transpareceu no rosto ao bom abade
um doce e espiritual contentamento,
e a sua boca, fonte de verdade,
disse estas frases com um brando acento:

Olhai, amigos, quanto pode o ensino…
Alguns de vós são pais, outros avós,
pois só por saber ler, este menino
— É já maior do que nenhum de vós!

O poema integra o livro VERSOS, publicado em 1898. Transcrevi a versão da 5ª edição,

Ilustra o artigo uma iluminura da construção da Torre de Babel, de Mestre do Duque de Bedford, c. 1423.

“E era toda a terra de uma mesma língua, e de uma mesma fala” Génesis 11:1

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No 1º de Abril, uma noticia sensacional!

01 Segunda-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Fra Carnevale

A cidade ideal - possivelmente de Fra Carnevale (1425–1484)

Tive noticia que um investidor, entusiasmado com o sucesso deste blog, decidiu abrir um gigantesco centro livreiro onde se propõe reunir, editar, e por à venda, toda a poesia alguma vez criada pela humanidade.

A ideia de marketing é a de que, cada vez mais, as pessoas querem poesia nas suas vidas. O slogan de lançamento será:

Viva a vida com poesia

A cidade escolhida para a instalação de tão fabuloso centro comercial foi Lisboa, por um lado conhecida por abrigar os maiores centros comerciais de qualquer tipo na Europa, e por outro, pelo facto de todos os dias os leitores de poesia surgirem na cidade nascidos das pedras da calçada.

Para que o resto do mundo não fique fora desta iniciativa, será construído um portal para venda mundial on-line de todas estas publicações.

Está em estudo o projecto de arquitectura para o centro, e ele será decalcado de uma das cidades ideais de pintor anónimo (talvez Fra Carnevale 1425-1484) de que vos mostro a abrir e a fechar, reproduções.

A localização está a ser discutida com a Câmara Municipal e, parece certo, será anunciada na abertura da campanha eleitoral que se avizinha.

Esfreguem as mãos, leitores, a poesia vai invadir-vos a vida.

A cidade ideal - Città_ideale_di_berlino_2

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