Alguns gostam de poesia – um poema de Wislawa Szymborska

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A aventura polaca que há dias aqui contei fez-me ir à poesia de Wislawa Szymborska (1923) poetisa de Cracóvia e Prémio Nobel da Literatura em 1996, para com ela referir o que permanece uma surpresa de todos os dias:

 Alguns gostam de poesia

Alguns –

quer dizer nem todos.

Nem a maioria de todos, mas a minoria.

Excluindo escolas, onde se deve

e os próprios poetas,

serão talvez dois em mil.


Gostam –

mas também se gosta de canja de massa,

gosta-se da lisonja e da cor azul,

gosta-se de um velho cachecol,

gosta-se de levar a sua avante,

gosta-se de fazer festas a um cão.


De poesia –

mas o que é a poesia?

Algumas respostas vagas

já foram dadas,

mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro

como a um corrimão providencial.


A tradução é assinada por Elizbieta Milewska e Sérgio das Neves e foi publicada na Antologia Alguns gostam de poesia em edição da Cavalo de Ferro, 2004.

María la portuguesa: Carlos Cano, Amália e um poema de Manuel Machado

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Enquanto nas terras do sul, embalo-me no espirito e memória do lugar. Vai mar, vai comida, vai paisagem. E poesia em castelhano.

Aproveito para discretear um pouco e partilhar com os leitores o que em Portugal é provavelmente segredo conhecido apenas de alguns: as canções de Carlos Cano (1946 – 2000).

Passaram em Dezembro último 10 anos sobre a morte deste Filho Predilecto de Andaluzia, Carlos Cano, cantautor como dizem os espanhóis, e poeta. Voltou a dar vida a géneros populares se não esquecidos, pelo menos desprezados, tal a copla andaluza.

Da copla escrevia Manuel Machado a Jorge Guillen:

Procura tú que tus coplas / vayan al pueblo a parar e também: y cuando las canta el pueblo, / ya nadie sabe el autor.

Cantou Carlos Cano em El rey Al-Mutamid le dice adiós a Sevilla, o poeta-rei de Sevilha Al-Mutamid, nascido em Beja e governador em Silves, e de quem já aqui deixei poesia. Musicou os poemas de Lorca de Diván del Tamarit, entre uma vasta colecção de fandangos, tangos, boleros, rumbas e outros géneros populares.

María la portuguesa, canção de homenagem a Amália, é uma comovente simbiose do canto andaluz com o fado que aqui podereis ouvir por Carlos Cano sozinho e em dueto com Amália Rodrigues.

Carlos Cano – Maria La Portuguesa

 

Carlos Cano – María la portuguesa – com Amália

 

Para não perder o gosto deixo um poema de Manuel Machado (1874-1947), irmão de António Machado, de cuja poesia já me aproximei aqui no blog.

 O poema, singelo, apenas recomenda a humildade da Poesia perante o povo e as suas tradições:

Que, al fundir el corazón /en el alma popular, / lo que se pierde de nombre / se gana de eternidad.

Agora o poema:

La Copla

Hasta que el pueblo las canta,
las coplas, coplas no son,
y cuando las canta el pueblo,
ya nadie sabe el autor.

Tal es la gloria, Guillén,
de los que escriben cantares:
oír decir a la gente
que no los ha escrito nadie.

Procura tú que tus coplas
vayan al pueblo a parar,
aunque dejen de ser tuyas
para ser de los demás.

Que, al fundir el corazón
en el alma popular,
lo que se pierde de nombre
se gana de eternidad.

Enjoy enquanto a poesia não regressa ao blog com a erudição do costume. Tempo de férias é tempo de preguiçar.

Aí fica esta mão cheia de cancões de Carlos Cano.

El Rey Al-Mutamid dice adios a Sevilla

La rumba del pai pai

Habaneras de la Habana

Cueca de los querubines

Sevillanas de Chamberi

Me llaman sudaca

As Caricias e Separação – 2 poemas de Manuel Altolaguirre

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Num remanso de nadar e ler entretenho estes dias de sol e mar.  O tempo sobra e a vontade de escrever recrudesce com consequência directa aqui. Surgem em catadupa os artigos e muito mais fica pelo caminho, pois a reserva de poesia que trouxe comigo não cobre a variedade do que me acorre ao espirito.

Fruto do que me propus ler neste tempo, têm sido sobretudo os poetas espanhóis do século XX os contemplados nas escolhas. Não sendo conhecedor profundo da obra de todos eles, dispenso-me do enquadramento dos poemas no conjunto do que produziram, e que outros referem talvez com propriedade, e associo-os apenas aos acidentes de quotidiano que me levam a considerá-los, tal os dois poemas de Manuel Altolaguirre (1905-1959) que hoje escolho.

São poemas que referem o calendário de uma afeição:

Quando no tempo de sedução e paixão, lê-se em Las Caricias:

Qué música del tacto / Las caricias contigo!

Que música do tacto / As caricias contigo

Vejamos o inicio da coisa pelos caminhos do corpo:

Las Caricias

Qué música del tacto

Las caricias contigo!

Qué acordes tan profundos!

Qué escalas de ternuras,

De durezas, de goces!

Nuestro amor silencioso

y oscuro nos eleva

a las eternas boches

que separam altíssimas

los astros más distantes.

Qué música del tacto

las caricias contigo!

Chegada a Separação encontramos:

 

Minhas venturas de outrora / com a dor de hoje ali contrastam.

Allí mis pasadas dichas / con mi pena de hoy contrastan.

 

Que juntos os dois estávamos! / Quem o corpo?Quem a alma?

Qué juntos los dos estábamos! / Quién el cuerpo? Quién el alma?

 

Numa linguagem de pudor somos levados do calor da paixão à desolação do afastamento:

 

Nossa ultima despedida, / que morte foi tão amarga!

Nuestra separación última, / qué muerte fue tan amarga!

 

Leiamos o poema completo:

 

SEPARACIÓN

Mi soleded llevo dentro,

torre de ciegas ventanas.

Cuando mis brazos extiendo

abro sus puertas de entrada

e doy camino alfombrado

al que quiera visitarla.

Pintó el recuerdo los cuadros

que decoran sus estancias.

Allí mis pasadas dichas

con mi pena de hoy contrastan.

Qué juntos los dos estábamos!

Quién el cuerpo? Quién el alma?

Nuestra separación última,

qué muerte fue tan amarga!

Ahora dentro de mí llevo

mi alta soledad delgada.

E agora a sua tradução por José Bento

 

Separação

Levo em mim a solidão,

torre de cegas janelas.

Quando meus braços estendo

abro suas portas de entrada

e dou caminho macio

a quem quiser visitá-la.

Pintou a lembrança os quadros

que enfeitam as suas salas.

Minhas venturas de outrora

com a dor de hoje ali contrastam.

Que juntos os dois estávamos!

Quem o corpo?Quem a alma?

Nossa ultima despedida,

que morte foi tão amarga!

Dentro de mim levo agora

a solidão alta e delgada.

Manuel Altolaguirre, poeta integrado pela critica no grupo da geração de 27, foi editor, argumentista do filme de Luis Bunuel, Subida al Cielo, e realizador do que chamou cine-poema sobre El Cantar de los Cantares na versão de Frei Luis de Leon.

Fausto, pretexto para dar a cara.

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São múltiplos os pretextos porque regresso ao Fausto de Goethe.  Aproxima-me o fim de mais um ano biológico e com ele o involuntário balanço eivado de alguma melancolia, E apossa-se de mim uma olvidada/ Saudade desse reino calmo e grave / Dos Espíritos.

E é no poema Dedicatória  com que abre Fausto  que me revejo, a mim e à minha circunstância:

Surgis de novo, figuras fugidias / … / Trazeis imagens de outra felicidade,/ E ressurge muita sombra querida; / Voltam primeiro amores, velha amizade,/ Como uma antiga lenda, meio perdida; / Renasce a dor, a mágoa insiste e invade / A errância labiríntica da vida,

 

Eis o poema:

Dedicatória

Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vós reter agora?
Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.


Trazeis imagens de outra felicidade,
E ressurge muita sombra querida;
Voltam primeiro amores, velha amizade,
Como uma antiga lenda, meio perdida;
Renasce a dor, a mágoa insiste e invade
A errância labiríntica da vida,
E nomeia os amigos que a má sorte
Privou de gozos e entregou cedo à morte.


Não ouvem os meus cantos de agora
As almas para quem primeiro cantei;
Disperso o grupo da primeira hora,
Mudos os ecos que então despertei.
A turba ignota o meu canto devora,
E nem com seu aplauso me alegrei;
E os que os meus versos amaram a fundo,
Se ainda vivem erram por esse mundo.


E apossa-se de mim uma olvidada
Saudade desse reino calmo e grave
Dos Espíritos, e a minha ciciada
Canção, eólia harpa, é voo de ave;
Estremeço, ao pranto a lagrima ajuntada
O peito austero torna leve e suave:
O que possuo dilui-se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

É uma dívida que os portugueses nunca pagarão, a que têm para com João Barrento,  e a sua actividade como tradutor, sobretudo a sublime tradução de Fausto de Goethe. Deixo-lhe aqui o meu enorme obrigado.

Noticia bibliográfica: Esta tradução do poema consta da edição de Fausto de Johann W. Goethe publicada por Relógio d’Água, em 1999, sendo a tradução, introdução e glossário de João Barrento.

Pandémica e Celeste – um poema de Jaime Gil de Biedma

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Neste balanço ligeiro e grave com que vou preenchendo o blog, procuro seguir uma verdade interior acompanhando as oscilações do quotidiano, pois todos os dias comemos, todos os dias defecamos, nem todos os dias fodemos, mas todos os dias alguém ou alguma coisa nos fode o juízo.
No lidar com os dias há  uma tentativa sempre renovada de recriar uma espécie de harmonia do mundo primordial, onde a presença da mulher, real ou imaginada, é uma constante.
A vida levou-me a acreditar que o melhor que pode acontecer a um homem é a presença de uma mulher sexualmente satisfeita. Tê-la assim a nosso lado traz uma beleza ao universo para além de quaisquer considerações de cultura, fazendo de cada um de nós um príncipe sem rival. Acreditem ou não, vale a pena procurá-lá e conservá-lá.

Ocorreu-me tudo isto ontem quando, estendido na espreguiçadeira na praia, um pouco afastado, um casal a caminho dos setenta anos, muito provavelmente, repousava, lendo. A certa altura a senhora pousou a revista e num gesto de impulso estendeu a mão e acaricou a cabeça e o pescoço do homem que ao lado lia na intimidade do silencio de ambos.

Pensei de novo como a morte não é senão o fim do sonho de envelhecer juntos.

É de alguma forma do mesmo que fala Jaime Gil de Biedma (1929-1990) no poema Pandémica e Celeste que aqui deixo na versão de José Bento.

Imagina agora que eu e tu
muito tarde na noite
falamos de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!


Porque não é a impaciência do buscador de orgasmo
quem me atira do corpo para outros corpos
jovens, se possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e que alegre a minha cama ao despertar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!


Para saber de amor, para aprendê-ló,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que os seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
Mas um corpo é o livro onde se lêem.


E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões…
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.


Ou aquele entardecer perto do rio
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuíno.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites de hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis aos vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la languer goutée à cê mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como festa a meio da semana –
as experiências de promiscuidade.


Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
íntegra imagem da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.


Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anónimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de ir para a cama.


Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.


Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que uma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

A tradução foi publicada na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, em 1985, em edição de Assírio & Alvim, com organização e tradução de José Bento.

Ainda que a tradução pouco se afaste do original, transcreveria o original em castelhano não fora a sua extensão, tornando o artigo de proporções ilegíveis no blog.

Inventário de lugares propicios ao amor – poema de Ángel González (1925-2008)

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Com os cenários das descobertas eróticas da adolescência por perto, ocorre-me o poema de Ángel González, Itinerário de lugares propícios ao amor, na certeza de que alguns lugares sonhados são de todo inadequados. Por exemplo fazer amor na praia à beira-mar é tudo menos recomendável, mesmo dispondo de larga toalha. As voltas e reviravoltas da coisa acabam por trazer a areia para onde não deve e pode deitar tudo a perder quando o entusiasmo quer fazer esquecer tudo o resto. Pode ainda suceder um qualquer barco de pesca de beira-costa, andar por perto e ainda que estejamos numa praia deserta, surge súbito do mar para observar os inusitados movimentos entrevistos ao longe, como certa vez me aconteceu.

Há também em todos nós, julgo, ou pelo menos entre os que já experimentaram o prazer sublime de nadar nu no mar, o desejo de cópula marinha. Esqueçam. Ainda que o desejo exista e a erecção se mantenha, a lavagem constante da água do mar põe fim a qualquer lubrificação natural ou artificial tornando a expectativa de prazer em algo inalcansável, a menos que tenhais entrado no mar com considerável fornecimento de manteiga, o que nunca experimentei.

Feita esta pequena digressão deixo-vos com o poema Inventário de lugares propicios ao amor de Ángel González (1925-2008) na tradução de José Bento.

INVENTARIO DE LUGARES PROPÍCIOS AO AMOR

São poucos.

A primavera tem muito prestígio, mas

é melhor o verão.

E também essas fendas que o outono

forma ao interceder com os domingos

em algumas cidades

amarelas já por si como bananas.

O inverno elimina muitos sítios

gonzos de portas voltadas para o norte,

margens de rios,

bancos públicos.

Os contrafortes exteriores

das antigas igrejas

deixam às vezes vãos

utilizáveis, mesmo se cai neve.

Mas desenganemo-nos: as baixas

 temperaturas e os ventos húmidos

dificultam tudo.

As leis, além disso, proíbem

a carícia (com isenções

para determinadas zonas epidérmicas

– sem interesse nenhum –

em crianças, cães e outros animais)

e o “não tocar, perigo de ignomínia”

pode ler-se em milhares de olhares.

Então, para onde fugir?

Por toda a parte olhos vesgos,

córneas torturadas,

pupilas implacáveis,

retinas reticentes,

vigiam, desconfiam , ameaçam.

Resta talvez o recurso de andar só,

de esvaziar a alma de ternura

e enchê-la de tédio e indiferença,

neste tempo hostil, propício ao ódio.



O poema foi publicado na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea editada por Assírio & Alvim em 1985.

À hora do chá

Sou um inveterado bebedor de chá, bebo-o aos litros. Não desses chás de fantasia que invadem os cardápios dos lounge cafés da moda, mas o acre, forte e intensamente cheiroso chá preto  vindo do Ceilão/Sri Lanka. Não é fácil encontrá-lo e bebê-lo em locais públicos. Para minha enorme felicidade, nas proximidades do atelier existe uma casa que vende chás, incluindo desta qualidade, o que me faz lá ir quase todas as tardes aviar um bule de chá preparado com qualidade e profissionalismo. Ao quase fenómeno, acrescenta a loja um pátio nas traseiras, paredes meias com uma plantação de couve portuguesa, onde com o bom tempo são oferecidas mesas à sombra para longamente saborear a excelsa bebida. A conotação elitista de beber chá ao lanche e a localização da casa, faz com que muitos dos frequentadores sejam mulheres a quem a terceira idade há muito deixou para trás:

Lembram uvas-passa,

secas, mirradas, às vezes tão doces.

Levantam-se tarde, arranjam-se com vagar

comem uma torrada, um leite, uma papa

e fazem horas para sair

ir ao café, encontrar as amigas

se não chover, talvez olhar um pouco as montras, comprar qualquer coisa.

Chegam com cautelas no andar, passinhos curtos, vacilando,

olham em redor e sentam-se.

Entre longos silêncios conversam de mesa para mesa.

Às vezes, com o adiantar da tarde, juntam-se.

Normalmente apenas tagarelam.

Comentam os políticos, as noticias, a televisão,

distraem-se com os achaques da idade

referem pequenos nadas,

ao fim e ao cabo o que lhes enche os dias.

Vem à memória sobretudo a infância.

Recordam da meninice,

os pais, as brincadeiras, alguma aventura.

Se a conversa se torna intima as recordações saltam e iluminam as faces.

Tempos felizes.

Um vestido, uma cara, uma viagem,

algo que volte à lembrança traz um frémito de novo.

Ainda que seja só vida já vivida não importa,

enche a tarde e ajuda o dia a passar.

A vida deixou-as algures.

O marido morreu, os filhos desertaram,

gente sem tempo, vão-se tornando uma recordação difusa.

Ficou a casa, enorme, vazia.

Sobram recordações

e fazem por se convencer não estar apenas à espera da morte.

Carlos Mendonça Lopes 

 

 

A fotografia de Jack Delano

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É possivel que a fortuna mediática e critica de Jack Delano (1914-1997) esteja a mudar. Há poucos meses fui surpreendido com uma sua fotografia, que guardo entre as fotos que admiro sobremaneira, na capa de uma edição paperbacck de Coração, Solitário Caçador, de Carson McCullers. O acerto da escolha é notável tendo em conta o assunto do livro e a foto é daquelas que faz apetecer comprar o livro para a ver. É esta.

A obra de Jack Delano conhecida é-o, sobretudo, através do trabalho para a FSA (Farm Security Administation Photography program) programa fotográfico da iniciativa do governo dos Estados Unidos na década de 30 do século XX, para documentar os efeitos da Grande Depressão. Trabalharam neste programa quase todos os fotógrafos que fizeram a glória da fotografia americana, incluindo Dorothea Lange, fotógrafa daquela mãe migrante que permanece como ícon da fotografia do século XX.

No final da década  de 30 e inicio doa anos 40, Jack Delano, ainda no âmbito da FSA, fez as primeiras experiências com cor em fotografia, e é desse espólio, cujos negativos são disponibilizados pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano, que editei o conjunto de fotos deste artigo. São de minha responsabilidade os balanços de cor, não tendo tocado nos enquadramentos.

Enquanto nos retratos individuais impressiona a forma como a dignidade dos fotografados foi captada  nas infra-humanas condições de vida que experimentavam, nas fotos de grupo em trabalho há uma espécie de bailado no enquadranmento de gentes e ferramentas transmitindo a possibilidade da beleza mesmo nas mais duras condições, sem mascarar a natureza documental do trabalho fotográfico.

Nestas primeiras tentativas com a cor em fotografia, vale a pena atentar no cuidado da composição cromática contribuindo para o equilibrio da imagem, resultando em todas as fotos numa enorme originalidade, com destaque para as primeira e última foto do artigo.

Todas e cada uma das fotos merecem uma análise detalhada para além dos limites e propósitos do blog.

Tenha o artigo chamado a atenção para um fotógrafo maior com obra pouco conhecida e sinto-me recompensado.

A página da Wikipédia sobre Delano dá noticia sucinta sobre a biografia e a obra do fotógrafo de origem ucraniana, que foi também compositor.

Um poema de Blas de Otero (1916-1979)

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Andando com as leituras poéticas por territórios do castelhano, aproveito para trazer ao blog o poema En el principio de Blas de Otero (1916-1979), admirável síntese onde se destaca o poder da palavra para lá das vicissitudes da vida e do tempo.

En el principio

Si he perdido la vida, el tiempo, todo
Lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
Me queda la palabra.

Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.

Si abri los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abri los labios hasta desgarrármelos,
me queda lá palabra.

O poema foi traduzido por José Bento na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, que a seguir transcrevo.

No Principio

Se perdi minha vida, o tempo, tudo
O que atirei, como um anel, à agua,
Se entre o joio perdi a minha voz,
Resta-me a palavra.

Se suportei a sede, a fome, tudo
O que era meu e redundou em nada,
se ceifei as sombras em silêncio,
Resta-me a palavra.

Se abri os lábios para ver o rosto
puro e terrível de minha pátria,
se abri os lábios até os rasgar,
Resta-me a palavra.