Algumas fotos de Ansel Adams

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Ansel Adams (1902-1984), mestre absoluto da fotografia de paisagem em preto e branco, quaisquer novas considerações sobre as suas fotos são pura redundância.

Olhemos apenas, uma vez e outra, a infinita gama de cinzentos que cada paisagem pode esconder. E de caminho deslumbrarmo-nos com os enquadramentos, fazendo de cada rectangulo fotografado um exemplar de equilibrio plastico na captação de volumes, a que a luz confere uma voluptuosa profundidade.

Estas são escolhas quase ao acaso de um acervo deslumbrante para qualquer amante da fotografia de paisagem.

O olhar é um pensamento. Poema de Herberto Helder com dois olhares sobre a mulher

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O olhar é um pensamento.

Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.

O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,

a luz cambaleia,

a beleza é ameaçadora.

– Não posso escrever mais alto.

Transmitem-se, interiores, as formas.

 

Divido-me, no fascínio de olhar, entre a pintura e a fotografia, cativando-me sobremaneira a mulher imaginada pelos caminhos da arte.

Trago hoje ao blog dois exemplos maiores e antitéticos desse olhar a mulher através da arte.

Primeiro uma visão da mulher na fantasia de Joan Miró (1893-1983)

Esta mulher-cloaca de Miró, carnívora e chifruda, representa quanto recusamos ver na mulher enquanto ideal, mas que algumas vezes lá está.

No espantoso poder de síntese da arte mostra-se o indizível, tantas vezes sentido,  e quanto nessa medida sabemos existir.

É o lado animal, a fêmea, o que aqui se dá a ver, e sempre procuramos na mulher, ainda que gostemos de o encontra envolvido nas roupagens da feminilidade e da graça.

Segue uma fotografia ecoando o orfismo de Robert Delaunay (1885-1947) pela fotógrafa bielorussa – Julia Nikonchuk.

Na foto de Júlia Nikonchuk é o arco-íris das possibilidades da beleza que se mostra. Há a harmonia da forma, a elegância do gesto e a impenetrabilidade do rosto escondido, fazendo apenas supor o sentimento que, em acordo com a beleza entrevista, talvez lá esteja.

Mas a fêmea não está ausente, e as pinturas corporais, tal como o gesto, remetem-nos, apesar da sofisticação, para decorações do corpo entre alguns povos da África Negra, em rituais propiciadores da fecundidade.

Complemento esta breve mostra com uma pintura de Robert Delaunay (1885-1947) que tem a ver connosco, portugueses, e se chama precisamente Mulher Portuguesa. Serve como exemplo do caminho cruzado com o orfismo enquanto corrente estética derivada do cubismo.

Nesta Mulher Portuguesa de Robert Delaunay, é o encanto das cores primarias a sobressair sobre a trivialidade e superficial abordagem do humano. A mulher existe apenas nas vestes, embora na atitude ligeiramente curvada da figura  algum peso do quotidiano difícil ali se mostre.

Vestidas de pintura, a mulher fotografada e a portuguesa de Delaunay, são antiteticas imagens, também elas, da mulher imaginada que os autores nos dão a ver. À sensualidade da fotografia opõe-se uma espécie de manequim vestido de cores vivas, o que de alguma forma recorda o trabalho maior de Sonia Delaunay no desenho de padrões para tecidos de moda. Houve no casal Sonia/Robert uma simbiose de inspiração e semelhança de técnica, visível na obra de ambos.

Robert Delaunay foi amigo de Amadeo de Souza-Cardoso, e com a mulher, Sonia Delaunay, estiveram em Portugal parte do tempo que durou a 1ªguerra mundial, altura provável para recolher a inspiração  que ditou a pintura. Vivendo em Amarante, e passeando pelas terras do norte de Portugal, são as cores dos trajes minhotos e dos seus barros pintados, que a pintura evoca.

Noticia bibliográfica:

Poema de HERBERTO HELDER (1930) incluido no livro DO MUNDO, na versão publicada em OU O POEMA CONTÍNUO em 2004 por Assírio & Alvim.

A Ventura e uma canção dos Rolling Stones

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A  VENTURA

 Olha, meu anjo, esta vida,

Que passa despercebida,

É de gozos tão despida,

Que nos não custa morrer;

Mas já que a sorte persiste,

E que a existência resiste

Aos baldões da triste sorte,

Não nos lembremos da morte,

Vamos buscar o prazer.

 

Mas este, bela inocente,

Não consiste no luzente

Doirado metal que a gente

Anda tanto a procurar;

Não consiste na grandeza,

Que p’ra muitos é riqueza;

Não consiste nas vaidosas

Honrarias mentirosas,

Que te possam tributar.

 

Muito embora a fantasia,

Cada noite, e cada dia,

Em mil sonhos se sorria

De mentiroso prazer;

Embora tenhas alfaias,

Escudeiros, muitas aias,

Ricos trens, muitos enfeites,

São tudo falsos deleites

D’um fantástico viver.

 

A ventura, virgem bela,

É formosa, viva estrela,

Que cá na terra à donzela

Lhe conquista o sumo bem;

A ventura é ser amada

Ser no mundo idolatrada,

Mais que lá no oriente,

Sendo amadas loucamente,

O são as belas no harém.

 

A ventura é ter um seio,

A que o nosso sem receio,

A pender por doce enleio,

Revele as mágoas e a dor;

A ventura é ter desejos

E matá-los com mil beijos,

A ventura é ter a vida

Ao doce afecto rendida;

A ventura é ter amor.

 

Corre pois, dá-me os teus braços,

Apertemos nossos laços,

Porque os dias são escassos

Para quem sabe viver,

E se a dita é ser amada,

Se sem amor não há nada

Que te faça venturosa,

Ninguém neste mundo goza,

Mais ventura ou mais prazer.

 Coimbra, Abril de 1848

Lia este poema e pensava que tive a ventura de viver a adolescência e juventude num tempo em que a poesia como meio de sedução e convite ao amor estava fora de moda. O poema foi composto por A. X.  R.  Cordeiro (1819 – 1896) tinha o poeta 19 anos e estudava na Universidade de Coimbra. Foi publicado em O Trovador. e é o convite possível ao sexo naquele meado do século XIX, onde as convenções de sociedade eram espartilho para o amor.

Na verdade nos meus vinte anos e mesmo antes, era tudo muito mais fácil. Pensar em compor loas aos olhos da menina ou às sedutoras formas escondidas sob as sete saias da moda extinguiria, no burilar do verso, qualquer fogo em que o corpo ardesse. O recurso à prostituição como iniciação sexual era história passada e remota, de, pelo menos, o tempo dos pais. As formas e profundidade dos relacionamentos davam conta da liberdade de costumes que se insinuava nas nossas vidas, apesar de numa forma mais lenta que nas vizinhas sociedades ocidentais.

A música anglo-americana de final nos anos sessenta e década de setenta reflectiu isso mesmo. Os temas e as abordagens cobrem virtualmente as situações vividas por cada um de nós. Não é hoje que vos conto detalhes pessoais destes tempos mas recordo dos Rolling Stones, Let’s spend the night together, cuja letra é paradigmática do tempo que refiro.

Let’s spend the night together

My, My, My, My
Don’t you worry ‘bout what’s on your mind (Oh my)
I’m in no hurry I can take my time (Oh my)
I’m going red and my tongue’s getting tied (tongues’s getting tied)
I’m off my head and my mouth’s getting dry.
I’m high, But I try, try, try (Oh my)
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together now

I feel so strong that I can’t disguise (oh my)
Let’s spend the night together
But I just can’t apologize (oh no)
Let’s spend the night together
Don’t hang me up and don’t let me down (don’t let me down)
We could have fun just groovin’ around around and around
Oh my, my
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together

Let’s spend the night together
Now I need you more than ever

You know I’m smiling baby
You need some guiding baby
I’m just deciding baby; now-
I need you more than ever
Let’s spend the night together
Let’s spend the night together now

This doesn’t happen to me ev’ryday (oh my)
Let’s spend the night together
No excuses offered anyway (oh my)
Let’s spend the night together
I’ll satisfy your every need (every need)
And I now know you will satisfy me
Oh my, my, my, my, my
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together now

A Maior Dor Humana e o grito contido de Camilo Castelo Branco

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Quando aqui deixei poesia de Ângelo de Lima (1872-1921), destaquei o poema A MEU PAI, no qual o poeta dá conta da dor pela ausência do pai.

Olhando de outra perspectiva a ligação entre pais e filhos, é a dor paternal que trago hoje, através do grito contido de Camilo Castelo Branco (1825-1890):

Aqui estou quase cego, paralytico; ao lado de um filho querido e mentecapto que já tentou matar-me. Haverá grandes desgraçados, que comparados commigo, se considerem quasi felizes”.

Vem este desabafo numa carta a João de Deus (1830-1896) a propósito do livro de condolências “A Maior Dor Humana” por este organizado na sequência da morte quase simultânea dos dois filhos adolescentes de Teófilo Braga (1843-1924).

Camilo faz acompanhar a carta com o soneto que abre o livro e lhe dá o título:

A Maior Dor Humana

Que immensas agonias se formaram

Sob os olhos de Deus! Sinistra hora

Em que o homem surgiu! Que negra aurora,

Que amargas condições o escravisaram!


As mãos, que um filho amado amortalharam,

Erguidas buscam Deus. A Fé implora.

E o céo que respondeu? As mãos baixaram

Para abraçar a filha morta agora.


Depois, um pai que em trevas vai sonhando,

E apalpa as sombras d’elles onde os viu

Nascer, florir, morrer!…

Desastre infando!


Ao teu abysmo, pai, não vão confortos,

És coração que a dor impedreniu,

Sepulchro vivo de dois filhos mortos.

S. Miguel de Seide , 27 de junho de 1887.

O soneto, despido de sentimentalismos vãos, traça na sua secura, a compreensão masculina do amor paternal “Ao teu abysmo, pai, não vão confortos, / És coração que a dor impedreniu,”.

Não temos afagos nem recordações de ternuras ou graças, apenas, na aflição, as mãos que “Erguidas buscam Deus. A Fé implora.

Camilo à data tinha já conhecido de perto a morte do filho Manuel Plácido aos 19 anos. Sabia sobre o que escrevia. Jorge, o filho mentecapto referido na carta, tinha nesta altura 21 anos. Acompanhamos na correspondência de Camilo a experiência do pai com este filho, a quem se referiu sempre com a ternura seca dos seus modos.

É este A Maior Dor Humana um livro onde se condensa, não a dor do pai pelos filhos mortos, mas a visão social e pessoal da paternidade no final do século XIX.

O livro, hoje uma raridade bibliográfica, contém poemas, entre os quais  Poesia da Morta de Gomes Leal (1848-1921), é do melhor que o poeta produziu, e recolhe relatos de imprensa sobre as exéquias. Constitui no seu todo um documento sociológico notável.

Esta relação pai/filho não é a mesma dos nossos dias. Hoje os homens sentem-se socialmente autorizados a mostrar o amor pelos filhos através de manifestações de carinho e afecto, vedados em épocas passadas, e vistos inclusive como sinais de menor masculinidade.

Referência bibliográfica e iconográfica:

A Maior dor Humana – Coroa de saudades offerecida a Theophilo Braga e sua Esposa para a Sepultura de seus Filhos por João de Deus e entretecida pela piedade de …, dada à estampa pela piedade de Anselmo de Morais, 1889.

A pintura que encima o artigo é de Max Ernst (1891-1976) titulada Pietá.

Regresso a Kurt Schwitters

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Tenho assitido ao sucesso do artigo sobre Kurt Schwitters (1887-1948) no blog com a dúvida sobre se tal sucesso se deve ao poema A Ana Flor, à Ursonata, ou à esplendorosa Kate Moss despida de noiva na foto que acompanha o artigo. Por via das dúvidas, regresso a Kurt Schwitters para deixar alguns exemplos da sua obra plástica, nomeadamente colagens e “assemblages” feitas depois de 1919, a partir de materiais recolhidos no lixo das ruas de Hannover e a que chamou Merzbilder.

Podemos traduzir Merzbilder por quadros ou imagens Merz.

Nas palavras do artista a palavra Merz transmite sobretudo a combinação, com propósitos artísticos, de todos os materiais concebíveis, e, tecnicamente, o principio de equivalente valor plástico na aplicação de cada material de per si. … Algodão proveniente de ambulatório, redes, cordas ou lã, são elementos com os mesmos direitos que a pintura.

De alguma forma o artista via nestas criações uma nova e frágil beleza saída dos escombros da cultura alemã naquele dealbar da República de Weimer surgida da derrota alemã na primeira guerra mundial.

Tendo integrado o movimento DADA alemão, foi posteriormente marginalizado e acusado de esteticismo e formalismo. Merz acabou sendo o movimento e a filosofia de apenas um homem, Kurt Schwitters.

Eis algumas das suas obras.

Sonho e memória a propósito da moda hoje

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Apenas o botão de desligar nos afasta do que a televisão considera importante trazer-nos a casa. Uma vez ligada, a nossa atenção acaba por ser levada para acontecimentos que desapareceriam sem que a nossa vida desse por isso. Talvez não seja o caso dessa Moda Lisboa que me entrou na sala e de cuja existência acabei por saber.

 Vi e ouvi o que quiseram mostrar na TV. Olhei as fotos de Edward S. Curtis e sem mais comentários escolhi algumas que aqui deixei ontem. Quão proxima a maneira de vestir destes fotografados está da moda hoje. Por exemplo, e pondo de lado piercings, as tranças da menina na última foto escolhida.

Estas férias, passeando à noite entre a multidão veraneante, as filas formavam-se junto aos fazedores de tranças destas. Observando quem deambulava, constatei o meu absoluto desconhecimento sobre aquele mundo que desfrutava a beira-mar e onde sobressaía uma generalizada degradação do gosto na forma de vestir.

Ainda recordo na minha primeira adolescência o cuidado que se punha no vestir para sair à noite a passear nas férias de verão. Pois este verão esplendiam ancas, mamas e gorduras sob malhas apertadas, de onde espreitavam alças de soutiens, numa moda decorada de vidros e lantejoulas, de todo surpreendente.

O deleite com que estas multidões se acotovelavam nas tendas e lojas de quinquilharia chinesa ou cigana plantadas à beira-mar, sem distinção de idade e condição, deixou-me as maiores interrogações. Súbito do escuro da escadaria de acesso à praia surgem quatro mulheres, altas, nos seus 40 anos, saltos altos, nuas, completamente nuas, como que saídas de uma foto de Helmut Newton (1920-2004). No pasmo da surpresa, a multidão calou-se e afastou-se para as deixar passar.

Passada a visão, sonho meu, direi quanto sou decididamente adversário do nivelamento por baixo sem ter no entanto a vaidade ou arrogância de pretender impor aos outros a minha opinião. Contam-me que uma das minhas tias-avós, já não sei exactamente por que via de parentesco, no período de dificuldades vivido entre as duas guerras, deixou de sair à rua por só ter um chapéu e não poder, por isso, variar a toalete com a qualidade que gostaria. Deste extremo à situação actual vai um abismo, ainda que a vaidade no vestir continue a mesma. Desapareceu apenas o gosto pela qualidade. Agora, a qualidade chinesa dá a tudo um perfume bastante diferente. Não é nem pior nem melhor, é apenas sinal dos tempos.

Certo dia, dando voz a estas perplexidades junto a uma amiga da minha idade, perguntei-lhe:

– Nas mulheres o que é que mudou nos últimos anos? e respondeu-me:

– O paradigma. As mulheres deixaram de querer parecer chic, para querer parecer sexy.

Será? pergunto eu.

Sou um esteta. Assumo-o sem preconceitos. Gosto da beleza e gosto de desfrutar da beleza em todas as suas manifestações e circunstâncias. Sei num saber de experiência feito que aprender a desfrutar o belo é consequência do conhecimento e cultura. Acontece que nem um nem outra fazem os homens melhores. São apenas aquisições que proporcionam prazeres e oportunidades inacessíveis a quem os não possui. Mas no carácter não mexem. Aí são os valores em que cada um cresceu que fixam de forma quase definitiva o adulto que seremos, embora a vida às vezes se encarregue de acertar alguns pormenores.

Nota: As duas fotos são de Helmut Newton e datam de 1981.Tituladas “Elas vêm aí”, mostram as mesmas modelos vestidas e nuas, numa assunção da condição de mulher que inclui o seu corpo. Vestidas ou nuas, a elegância permanece, e o prazer de ver renova-se a cada olhar.

A D. Joaninha da farmácia

Embora escreva todos os dias, nem sempre a conjuntura (dos astros, será?), se mostra favorável a um resultado convincente. E assim esta D. Joaninha permaneceu em tosco mais de quatro anos até que um destes domingos de manhã se esclareceu.
Deixo à imaginação do leitor o detalhe da vida da D. Joaninha, quem era aquele homem, pai da D. Maria, e a D. Maria até que ponto percebia ou não o que se passava com as conversas de que nos fala.

Eventualmente talvez outro domingo traga a iluminação de tão candente assunto.

Aí tendes, pois, uma pequena amostra da história da D. Joaninha da farmácia.

Levantou-se e desceu com alguma dificuldade da cama alta. Franzina, cabelo grisalho claro, pegou no robe e vestiu-o. Aproximou-se da janela.

– Ah! Finalmente um dia bonito, disse, dirigindo-se a ninguém em particular mas olhando para as camas em frente:

– As senhoras entraram durante a noite com certeza, perguntou:

– Sim, a senhora dormia, e esta senhora aqui ao lado entrou mais tarde, respondeu uma das doentes acamadas.

Era uma manhã fria e límpida de um domingo de Janeiro. Lá fora começavam a chegar os visitantes. Famílias, crianças, pessoas sozinhas, juntavam-se à entrada aguardando a hora do inicio das visitas.

Olhando pela janela e perscrutando a pequena multidão que se aglomerava junto à entrada do pavilhão do hospital, num misto de ansiedade e alegria, disse para si a meia voz:

– Não vejo ainda a minha sobrinha. Mas certamente virá!

Virando-se para a cama em frente e observando atentamente a doente ali deitada:

– As feições da senhora não me são estranhas mas não tenho nenhuma ideia de a conhecer.

– Sou de Vila Real.

-Ah! Eu sou de S.Brás, então devo estar a fazer confusão.

Afastou-se da janela e junto à cama pegou numa maleta e dirigiu-se para a casa de banho.

Teria à volta de noventa anos. Muito direita, seca de carnes, tentava manter o porte ao caminhar, arrastando ligeiramente os pés.

– Precisa de ajuda para se arranjar? Perguntou a empregada que entretanto entrou.

– Não obrigado. Consigo desenvencilhar-me sozinha.

– Nem parece ter a idade que tem. Todos estes dias esteve sempre bem disposta e simpática, comentou a empregada dirigindo-se para uma das camas ocupadas.

Virando-se na cama e falando para o lado, com alguma surpresa e estupefação na voz, a D. Maria comentou:

– Quando ela disse que a minha cara não lhe era estranha e era de S. Brás andei para trás mais de sessenta anos. E não contendo a impaciência começou a contar:

– Éramos nós pequenas e saiamos ao domingo, a minha irmã e eu, depois do almoço, a  passear de carro com o pai. A avó, com quem vivíamos, nunca ía. Agoniava ao andar de automóvel, dizia. Invariavelmente, durante muito tempo, fomos a S. Brás. Brincávamos no jardim público. O pai deixava-nos a brincar, atravessava a rua, entrava na farmácia e ficava lá a tarde inteira. Às vezes uma de nós corria, e entrava na farmácia. Só raramente é que lá estava, atrás do balcão, o pai da D. Joaninha, o farmacêutico, com uns bigodões de fazer fugir. Normalmente estava nos fundos, no laboratório cheio de frascos esquisitos de onde nem nos podiamos aproximar. Sentados lado a lado, num canto a seguir à montra, o pai e a D. Joaninha, esta senhora, conversavam. Ao ver uma de nós dizia:

– Olá  menina que crescida está. Quer um rebuçado de mentol? É bom para a garganta.

Levantava a tampa de enorme frasco de vidro pousado sobre a mesa entre os dois, tirava uma mão cheia de rebuçados enrolados em prata e dava-nos:

– Tome lá menina. É para si e para a mana.

Quando entardecia o pai saía da farmácia, a D. Joaninha vinha até à porta, o pai despedia-se com um aceno da D. Joaninha e voltávamos para casa.

Até ir para o liceu estes foram os passeios de domingo. Depois, nós já crescidas, eu e a mana, éramos gémeas, passávamos os domingos de outra maneira e não mais soubemos desta senhora.

Há já muitos anos alguém em conversa, falando do filho que se tinha mudado para S. Brás e lá vivia, por acaso comentou que a D. Joaninha continuava na farmácia tão bonita quanto em rapariga e nunca tinha casado.

Voltou da casa de banho. Toalete feita, cabelo penteado, um rasto de perfume. Com um ar prazenteiro disse para as senhoras em frente:

– Hoje espero ter alta. Vim fazer um exame à vesícula e já cá estou há oito dias.

– As senhoras que aqui estão entraram esta noite com o mesmo problema respondeu-lhe a empregada, e continuou:

– suponho que o médico já assinou a alta da senhora, foi o que me pareceu ouvir a senhora enfermeira dizer há pouco.

Tocou o telemóvel.

– Estou! Ah és tu Luisinha.

-….

– Sim, devo ter alta hoje.

– …

– Sim, e não te esquecas, traz-me a saia azul e a blusa vermelha.

E desligou.

Algumas fotos de Edward S. Curtis

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É sempre com alguma perplexidade que olho as fotos de retrato de nativos norte-americanos feitas por Edward S. Curtis (1868-1952) entre finais do século XIX e inicio do século XX.

Mostram uma humanidade tão estranha à que conheci ou me foi próxima que as perguntas surgem em catadupa ao olhar aqueles rostos.

Que pensavam sobre o mundo, sobre si próprios, sobre a sociedade em que viviam, sobre as questões ontológicas da existência, sobre as relações familiares e entre sexos?

Tudo perguntas que ficam por responder. Mas a forma de trajar, as decorações capilares, enfeites e adornos na face, algo dirão a quem tenha a chave para os perceber.

À época das fotos ou pouco depois, Marcel Proust escrevia Em Busca do Tempo Perdido e em Viena, por exemplo, fervilhavam as vanguardas artísticas, e as descobertas de Freud faziam furor. Que aproxima estas duas humanidades, a humanidade que protagoniza a saga de certa burguesia francesa ou austríaca, e estas pessoas, dignitários nas respectivas sociedades, dispondo de outros meios materiais de sobrevivência, mas sobretudo nos antípodas das aquisições culturais destas sociedades europeias suas contemporâneas.

As mulheres são belas quando jovens, envelhecem como toda a humanidade à época, e os homens apresentam a firmeza de olhar que se espera de quem tem responsabilidades. E no entanto, olhamo-los e não os sentimos iguais a nós. É a pergunta que me faço ao vê-las.

Escolhi algumas fotos entre as que mais me impressionam para dar conta desta minha perplexidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois desta viagem, deixo a quem a fez, a liberdade de apreciar quantas das opções de moda destes personagens estão hoje integrados no visual original das nossas sociedades.

As fotos foram calibradas por mim, em alguns casos, a partir dos negativos digitalizados disponibilizados pela Bibliteca do Congresso Norte-Americano

Escherichia – uma declaração de amor de Vitorino Nemésio

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Alguns poetas relataram dolorosas experiências de hospital, e estou a lembrar-me (e não por acaso) de Manuel António Pina, assim também Vitorino Nemésio (1901-1978).

Em Limite de Idade, livro atípico na obra do poeta, onde sarcasmo e non-sense se namoram, encontramos uma declaração de amor à bactéria que o atormenta Escherichia Coli de seu nome.

Parodiando notáveis poemas de amor, de Dante a Álvaro de Campos, passando por Antero de Quental, temos uma bem disposta reflexão sobre os males do corpo e como olhá-los com bonomia. A idade do poeta terá contribuído para tão serena e bem-humorada reflexão, primeiro em torno da Escherichia e depois à roda da Keratina.

Aí ficam os poemas. Noutra oportunidade iremos a outras zonas desta fascinante e diversificada obra poética.

Escherichia

I
Mandei fazer o electrocardiograma
À minha “Beatriz de mão gelada”:
Mas fui eu, fui eu só que fui à cama,
Eu, claro! não Beatriz, nem Dante, eu nada!


“Mas única Beatriz consoladora”
Então não era a Morte reservada
A quem tem coração pela vida fora
E por ele sobe em hélice aminada?


Em gráfico de sismo a sina veio
Nessa foto cardíaca: – “Receio
Que morra, Daisy!” Não:”Que morra, Dolly!”


Pois eu não sou o Fernando Pessoa
Ou Antero, nem em inglês seu nome soa,
Que minha Musa é Escherichia Coli.

II
Escherichia ou Beatriz, que importa o nome
Se ambos me soam igualmente belos?
A prometida morte nos consome
Como flor prometida nos carpelos.


Assim tu, Escherichia, és meu tormento
E nocturno tremor, Beatriz funérea!
Quem nasceu para casto fingimento
Afinal pode amar uma bactéria.

III
Pego em Escherichia ao colo,
Musa micrónica, etérea,
Mas não já de éter sulfúrico
Senão feminil bactéria.
Por ela todo estremeço
Em suor e ácido úrico!

 

KERATINA

Não há projecto no dejecto
E o castelo de moscas o assimila!
Em horas, uma dúzia de ovos
Dá milhares de asas verdes:
Assim a keratina da menina,
Além das unhas róseas
Dá-lhe uma touca de oiro.
Eu amo, não a Rosa
– Cabeleira ou Corina –
Mas o lento caminho aminoácido,
A molécula plástica e feminina
Que não me engana ou perde.
Eu amo a mosca verde
E – mais precisamente – a keratina.

Embora a minha vontade fosse continuar a transcrição de mais saborosos exercícios poéticos, termino com a séria reflexão em forma brincada sobre aquela ante-câmara da morte que a anestesia pode ser:

CA-DÁ-VER

Estendo-me na morte,
Ainda em lençóis de vida:
As enzimas alerta,
A catálise certa
Na carne arrependida.
Preparo-me sangrando
Só na circulação:
Bate a ritmo brando
Meu áspero coração.
E assim, como um adeus,
Os neurones cintilam
Como a luz interior
De que meus olhos brilham.
Saberei no disperso
Do ácido aminado
Que a rima do meu verso
Diz amor
Acabado:


Ca-dá-ver …
Até ver
Se sou ressuscitado.

1.5.71

A duquesa de Alba pintada por Goya (1746-1828)

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Hoje que estou em maré de quotidiano, desvio-me para matéria de noticiário. Com algum escândalo contido na voz, ontem, um locutor anunciava na TV o casamento da actual duquesa de Alba aos 85 anos. Abençoados 85 anos que ainda a levam para o sonho das delicias conjugais. Mostraram algumas imagens da senhora em traje da cerimónia e surpreendi-me ao constatar a semelhança física com a sua antepassada pintada por Goya, de quem as crónicas só levemente deixam transparecer a voluntariedade de comportamento. Arquivo no blog a imagem dessa pintura assinalando tão auspicioso evento e proporcionando a quem não conhece a pintura de Goya, alguns exemplos felizes.

A duquesa de Alba

e um detalhe do rosto.

Antes de avançar pergunto-me se esta pintura conhecida por Leocadia terá algo a ver com a duquesa. Terá?

Depois da duquesa de Alba deixo-vos, primeiro com duas garbosas mulheres, e a seguir poderão ver os estragos do tempo no belo sexo quando ainda não existiam operações plásticas.

E finalmente algumas cenas de ar livre, a verdadeira revolução operada por Goya na pintura ocidental

E terminemos com a Maja vestida e a Maja nua. Embora tenha sido aventado durante algum tempo que a modelo destas duas pinturas foi a 13ª duquesa de Alba mostrada acima, com quem Goya teve envolvimento amoroso, ao que se disse, modernamente aceita-se que o retrato (pelo menos da face) é um compósito de vários rostos.