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Apenas o botão de desligar nos afasta do que a televisão considera importante trazer-nos a casa. Uma vez ligada, a nossa atenção acaba por ser levada para acontecimentos que desapareceriam sem que a nossa vida desse por isso. Talvez não seja o caso dessa Moda Lisboa que me entrou na sala e de cuja existência acabei por saber.

 Vi e ouvi o que quiseram mostrar na TV. Olhei as fotos de Edward S. Curtis e sem mais comentários escolhi algumas que aqui deixei ontem. Quão proxima a maneira de vestir destes fotografados está da moda hoje. Por exemplo, e pondo de lado piercings, as tranças da menina na última foto escolhida.

Estas férias, passeando à noite entre a multidão veraneante, as filas formavam-se junto aos fazedores de tranças destas. Observando quem deambulava, constatei o meu absoluto desconhecimento sobre aquele mundo que desfrutava a beira-mar e onde sobressaía uma generalizada degradação do gosto na forma de vestir.

Ainda recordo na minha primeira adolescência o cuidado que se punha no vestir para sair à noite a passear nas férias de verão. Pois este verão esplendiam ancas, mamas e gorduras sob malhas apertadas, de onde espreitavam alças de soutiens, numa moda decorada de vidros e lantejoulas, de todo surpreendente.

O deleite com que estas multidões se acotovelavam nas tendas e lojas de quinquilharia chinesa ou cigana plantadas à beira-mar, sem distinção de idade e condição, deixou-me as maiores interrogações. Súbito do escuro da escadaria de acesso à praia surgem quatro mulheres, altas, nos seus 40 anos, saltos altos, nuas, completamente nuas, como que saídas de uma foto de Helmut Newton (1920-2004). No pasmo da surpresa, a multidão calou-se e afastou-se para as deixar passar.

Passada a visão, sonho meu, direi quanto sou decididamente adversário do nivelamento por baixo sem ter no entanto a vaidade ou arrogância de pretender impor aos outros a minha opinião. Contam-me que uma das minhas tias-avós, já não sei exactamente por que via de parentesco, no período de dificuldades vivido entre as duas guerras, deixou de sair à rua por só ter um chapéu e não poder, por isso, variar a toalete com a qualidade que gostaria. Deste extremo à situação actual vai um abismo, ainda que a vaidade no vestir continue a mesma. Desapareceu apenas o gosto pela qualidade. Agora, a qualidade chinesa dá a tudo um perfume bastante diferente. Não é nem pior nem melhor, é apenas sinal dos tempos.

Certo dia, dando voz a estas perplexidades junto a uma amiga da minha idade, perguntei-lhe:

– Nas mulheres o que é que mudou nos últimos anos? e respondeu-me:

– O paradigma. As mulheres deixaram de querer parecer chic, para querer parecer sexy.

Será? pergunto eu.

Sou um esteta. Assumo-o sem preconceitos. Gosto da beleza e gosto de desfrutar da beleza em todas as suas manifestações e circunstâncias. Sei num saber de experiência feito que aprender a desfrutar o belo é consequência do conhecimento e cultura. Acontece que nem um nem outra fazem os homens melhores. São apenas aquisições que proporcionam prazeres e oportunidades inacessíveis a quem os não possui. Mas no carácter não mexem. Aí são os valores em que cada um cresceu que fixam de forma quase definitiva o adulto que seremos, embora a vida às vezes se encarregue de acertar alguns pormenores.

Nota: As duas fotos são de Helmut Newton e datam de 1981.Tituladas “Elas vêm aí”, mostram as mesmas modelos vestidas e nuas, numa assunção da condição de mulher que inclui o seu corpo. Vestidas ou nuas, a elegância permanece, e o prazer de ver renova-se a cada olhar.

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