Vida doméstica na pintura de Pieter de Hooch

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Na pintura de género holandesa produzida no século XVII, o espectador de hoje tem a ilusão de ter acesso aos diferentes aspectos da vida quotidiana da época graças a uma especial técnica de composição das pinturas, onde ao rigor da perspectiva se associa uma espécie de espontaneidade do gesto, captando em flagrante determinada actividade, embora a pintura seja tudo menos tirada do natural, como fizeram mais tarde os impressionistas, mas cuidadosamente organizada na arrumação da cena por forma a que a iluminação natural chegasse aos personagens, oferecendo a imagem pretendida ao assunto da pintura. Tal como nas cenas de taberna em que a moralidade se extrai da atitude dos personagens (e a elas irei em próximo post) assim também na pintura onde a exaltação das virtudes domésticas se pretende mostrar.

Escrevi no artigo anterior que os clientes desta pintura procuraram nela rever as suas vidas e como escreveu Hegel “eles querem encontrar nos seus quadros a limpeza das suas cidades e o gozo da sua paz doméstica”. Espero que o conjunto de obras de Pieter de Hooch (1629-1684) que hoje aqui trago, dê conta do que afirmei.

À família reunida para a posteridade acrescentam-se os episódios de um dia-a-dia na serenidade de vidas sem angustia, fruindo do bem estar material que o detalhe dos adereços evidencia.

O quarto

O aleitamento de um recém-nascido.

Cena doméstica com criança e cão.

Cena doméstica com criada e criança.

Cena doméstica – descascar maçãs.

Cena doméstica no pátio com senhora e criada.

Cena doméstica no pátio: mãe, filha e criada, talvez preparando-se para sair.

 Acrescentam-se a estas cenas tranquilas do viver doméstico, os momentos de lazer bebendo um vinho e conversando à mesa, onde tanto os casais como jovens namorando podem figurar.

Fiquemos por aqui na viagem a este mundo imaginado e que talvez tenha existido tal como o pintaram.

Passear nestas pinturas, fruindo o detalhe da composição, a iluminação da cena e o recorte dos personagens em conversação eterna, permite ao apreciador de pintura um prazer sem fim.

Para o leitor a quem este mudo holandês do século XVII desperte a curiosidade, sugiro a leitura do romance de Agustina Bessa-Luís – O bicho da terra, onde a pretexto de recriar a biografia do filósofo Uriel da Costa, o génio da escritora nos faz passear por este mundo perdido.

A urbe na pintura holandesa do século XVII

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Pieter Jansz SAENREDAM (1597-1665) – 1657

É o poder económico da burguesia holandesa, associado à religião que dispensa a iconografia sagrada, o determinante na alteração dos temas na pintura holandesa a partir de final do século XVI.
Surgem por esta época as cenas de domesticidade e quotidiano, atribuindo uma dignidade à vida de todos os dias e à gente burguesa e humilde, até aí recusadas como matéria digna de ser pintada, e que nos países católicos permaneceu até ao século XVIII.
É nesta pintura, comummente conhecida por pintura de género, que encontro muitos dos quadros que fazem a minha delicia. Pedindo de empréstimo a Tzvetan Todorov o titulo de um seu ensaio famoso, é do elogio do quotidiano que esta pintura trata.
Os clientes procuraram na pintura rever as suas vidas e como escreveu Hegel “eles querem encontrar nos seus quadros a limpeza das suas cidades e o gozo da sua paz doméstica”.
Se para a paz doméstica são arqui-conhecidas as pinturas de Vermeer, embora Pieter de Hooch não lhe fique atrás, os pintores que nos deram a atmosfera das cidades referida por Hegel têm uma visibilidade, hoje, muito menor.
Reuni algumas destas vistas urbanas holandesas, dando conta de uma arrumação e limpeza em consonância com a imagem que as suas populações pretendiam perpetuar. Para um engenheiro civil os detalhes da arquitectura acrescentam um sabor especial a cada quadro.

Pieter Jansz SAENREDAM (1597-1665) – 1662

Jan van der HEYDEN (1637-1712) Delft

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

  Cornelis de MAN (1621-1706) – Delft

Robert Burns – alguns poemas

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Deixemos de lado as soturnidades por onde tenho andado no blog e passemos ao erotismo viril da poesia de Robert Burns (1758-1796).
Nascido na Escócia foi, nas palavras de Jorge de SenaUm dos maiores líricos da poesia universal“.

Embora com poesia ainda publicada em vida, a obra poética coligida em 1801 foi, e regresso às palavras de Jorge de Sena, “um dos maiores fermentos do Romantismo, a cujos ideais de licença erótica na poesia e na vida se pode dizer que ele sacrificara a sua. Pela liberdade apaixonada, o erotismo desenfreado, a pungência dorida, a malícia viril, o domínio absoluto de uma linguagem que é menos dialectal do que fabricada por ele com dialecto e inglês literário, a arte consumada de uma musicalidade perfeita, a sua grandeza de lírico é extraordinária. Mas nem a simplicidade aparente, nem o tom popular, excluem uma aguda perspicácia e uma culta desenvoltura, que tudo absorviam e tornavam em original poesia que foi uma rajada de ar fresco nos convencionalismos poéticos do século XVIII. Sátira violenta e revolucionarismo libertário igualmente estão presentes nesta poesia desavergonhadamente autobiográfica. “.

Apresentado que está o poeta pela voz autorizada de um mestre, vamos a alguma da sua poesia.

ANA (tradução de Jorge de Sena)

Aí vinho que ontem bebi
‘scondido numa choupana
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu lá no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!

Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.

Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.

E segue-se o original, do qual Jorge de Sena não traduziu o postscript.

THE BANKS OF BANNA (original)
Yestreen I had a pint o wine,
A place where body saw na;
Yestreen lay on this breast o’ mine
The gowden locks of Anna.
The hungry Jew in wilderness
Rejoicing o’er his manna
Was naething to my hiney bliss
Upon the lips of Anna.

Ye Monarchs take the East and West
Frae Indus to Savannah:
Gie me within my straining grasp
The melting form of Anna!
There I’ll despise Imperial charms,
While dying raptures in her arms,
I give an take wi Anna!

Awa, thou flaunting God of Day!
Awa, thou pale Diana!
Ilk Star, gae hide thy twinkling ray,
When I’m to meet my Anna!
Come, in thy raven plumage, Night
(Sun, Moon, and Stars, withdrawn a’,)
And bring an Angel-pen to write
My transports with my Anna!

POSTSCRIPT
The Kirk an State may join, an tell
To do sic things I maunna:
The Kirk an State may gae to Hell,
And I’ll gae to my Anna.
She is the sunshine o’ my e’e,
To live but her I canna:
Had I on earth but wishes three,
The first should be my Anna.

O poema encontra-se na colecção de poemas licenciosos The Merry Muses, publicada em 1799. É dela também a balada Roger e Molly, que segue.
O postscript entende-se melhor se se souber que o poeta foi primeiramente condenado pela igreja fundada por John Knox [conhecida entre os escoceses por Kirk] a abstinência sexual com a namorada Betsy, com quem teve a  primeira filha, por terem tido relações sexuais sem serem casados. A reacção do poeta a esta primeira condenação lemo-la em THE FORNICATOR, que transcrevo no final, onde as relações sexuais são qualificadas como as bem-aventuradas alegrias dos amantes [The blissful joys of lovers].

ROGER E MOLLY (tradução de Jorge de Sena)

à sombra do chorão, que se alongava,
Molly, tão bela, de amor suspirava,
Seu gado era em redor,
Ora fazendo meia, ora cantando,
o mesmo pensamento ia soltando:
“Quão fundo é meu amor”.

O jovem Roger que por lá passava
ouviu quanto de amor’s Molly cantava
com que magoado ardor.
Saltando a sebe, aproximou-se dela,
veio estender-se ao pé de Molly bela:
“Quão fundo é meu amor”.

Molly corou de um breve susto inquieto:
“Que graça a tua, agora fica quieto”.
E os olha num langor…
“Quebra-se a agulha, a meia me desfazes…
Cantava, e não pensava nos rapazes,
“Quão fundo é meu amor”.

Bruto! Oh, beijos não… Tira! Sou tua…
Agora, agora… pára… continua…
Aí que eu grito de dor!
Que estás tu a fazer, patife imundo?”
E el’ arquejante como um moribundo:
“Quão fundo é meu amor”.

I LOVE MY JEAN (tradução de Luiz Cardim)

Anda alegria no vento
sempre que vem do sol-pôr:
lá donde vive a serrana
que me enfeitiçou d’amor…
Lá nos montes, pelas fontes,
pelos pinhais, vai sozinha…
A cada momento, o vento
me faz lembrar — Joaninha!

Vejo-a nas florinhas tenras,
que dá graça de as olhar;
ouço-a no trilo das aves
que põe bruxedo no ar:
a papoila que floresce
por entre a messe, ou a vinha,
o rouxinol que gorjeia,
só me dizem — Joaninha!

I LOVE MY JEAN (original)

Of all the airts the wind can blaw
I dearly like the west
For there the bonnie Lassie lives
The Lassie I love best
There’s wild-woods grow, and rivers row
And mony a hill between
But day and night my fancy’s flight
Is ever way my Jean

I see her in the Dewy flowers
I see her sweet and fair
I hear her in the tuneful birds
I hear her charm the air
There’s not a bonnie flower, that springs
By a fountain, shaw, or green
There’s not a bonnie bird that sings
But minds me o‚ my Jean

MY HEART IS SAKE FOR SOMEBODY… (tradução de Luiz Cardim)

Trago inquieto o coração
por alguém, que nem eu sei…
Quisera perder as noites
a pensar em alguém,
por amor dalguém,
aí, por amor dalguém!
Ir-me por todo esse mundo
por amor dalguém!

Santos ao amor fagueiros,
sorri docemente a alguém!
Livrai-o de todo o p’rigo;
e dai-me esse alguém,
trazei-me esse alguém
aí, trazei-me esse alguém!
Que eu… — que não farei eu
por amor dalguém?

MY HEART IS SAKE FOR SOMEBODY… (original)

My heart is sair, I dare na tell,
My heart is sair for Somebody;
I could wake a winter night
For the sake o’ Somebody.
Oh-hon! for Somebody!
Oh-hey! for Somebody!
I could range the world around,
For the sake o’ Somebody!

Ye Powers that smile on virtuous love,
O, sweetly smile on Somebody!
Frae ilka danger keep him free,
And send me safe my Somebody.
Oh-hon! for Somebody!
Oh-hey! for Somebody!
I wad do – what wad I not?
For the sake o’ Somebody!

MARY MORISON (tradução de Luiz Cardim)

Maria, assoma à janela:
chegou por fim o momento!
O teu sorriso empobrece
os oiros do avarento…
Até me fazia escravo
a moirejar noite e dia,
se como prémio tivesse
a minha doce Maria!

Ontem, ao som das violas,
a aldeia inteira bailava;
só eu, sem ouvir nem ver,
para ti, meu bem, voava…
Fossem loiras ou morenas,
nenhuma ali te vencia…
Eu, então, só me queixava
Não sois a minha Maria!

A quem por ti dera a vida,
vais, Maria, enlouquecer?
Ou rasgar-lhe o coração
sem culpa de bem-querer?
Se amor por amor não dás,
pena tem desta agonia…
Mal ficava ser cruel
à minha doce Maria!

MARY MORISON (original)

O Mary, at thy window be,
It is the wish’d, the trysted hour!
Those smiles and glances let me see,
That makes the miser’s treasure poor:
How blythely wad I bide the stoure,
A weary slave frae sun to sun,
Could I the rich reward secure,
The lovely Mary Morison.

Yestreen when to the trembling string
The dance gaed thro’ the lighted ha’
To thee my fancy took its wing,
I sat, but neither heard nor saw:
Tho’ this was fair, and that was braw,
And yon the toast of a’ the town,
I sigh’d, and said amang them a’,
“Ye are na Mary Morison.”

O Mary, canst thou wreck his peace,
Wha for thy sake wad gladly die?
Or canst thou break that heart of his,
Whase only faut is loving thee?
If love for love thou wilt na gie
At least be pity to me shown:
A thought ungentle canna be
The thought o’ Mary Morison.

E agora o prometido THE FORNICATOR para o qual não encontrei tradução em português. Talvez algum dos eruditos leitores do blog nos venha a propor uma tradução. Tenhamos esperança!

THE FORNICATOR (original)

Ye jovial boys, who love the joys,
The blissful joys of lovers,
And dare avow wi’ dauntless brow,
Whate’er the lass discovers;
I pray draw near, and you shall hear,
And welcome in a frater,
I’ve lately been in quarantine,
A proven fornicator.
Before the congregation wide
I pass’d the muster fairly,
My handsome Betsy by my side,
We gat our ditty rarely.
My downcast eye, by chance did spy
What made my mouth to water,
Those limbs so clean, where I between,
Commenced a fornicator.
Wi’ ruefu’ face, and signs o’ grace,
I paid the buttock hire;
The night was dark, and thro’ the park,
I couldna but convoy her.
A parting kiss, what could I less ;
My vows began to scatter,
Sweet Betsy fell, fal, lal, de ral,
And I’m a fornicator.
But by the sun and moon I swear,
And I’ll fulfill ilk hair o’t,
That while I own a single crown,
She’s welcome to a share o’t.
My roguish boy, his mother’s joy,
And darling of his pater,
I for his sake, the name will take,
A hardened fornicator.

Abri o artigo com a visão de um encontro possivel entre protagonistas dos poemas, termino com um desenho mais em linha com o que acabámos de ler.

Zbigniew Herbert — Poemas do Senhor Cogito

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Apresento hoje aos leitores do blog que os não conheçam, alguns poemas do Senhor Cogito.

Criatura peculiar, segundo alguns altar ego do poeta Zbigniew Herbert (1924-1998), os seus poemas faiscam. Ao lê-los, muitas vezes o mundo organiza-se dando coerência ao puzzle quotidiano.

Embora a poesia de Zbigniew Herbert (1924-1998) seja mais que os poemas do Senhor Cogito, bastariam estes para nos fazer guardar-lhe a obra e o nome.

Trabalhador do pensamento, o Senhor Cogito imagina, pensa, reflecte, e nós com ele caminhamos pelo mundo substancialmente mais despertos. Ora vejam:

O SENHOR COGITO E A IMAGINAÇÃO

1

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialéctica

as selvas de quadros compulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é um pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha recta
a atracção exercida pela terra

2

o Senhor Cogito será arrumado
na categoria minores

acolherá com indiferença o veredito
dos homens de letras

utilizava a imaginação
para outros fins
queria fazer dela
um instrumento de compaixão

desejava compreender a fundo

– a noite de Pascal
– a natureza do diamante
– a melancolia dos profetas
– a cólera de Aquiles
– a loucura dos assassinos em massa
– os sonhos de maria Stuart
– o medo neandertaliano
– o desespero dos últimos Aztecas
– a longa agonia de Nietzsche
– a alegria do pintor de Lascaux
– a ascensão e a queda do carvalho
– a ascensão e a queda de Roma

de forma a ressuscitar os mortos
e a manter a aliança

a imaginação do Senhor Cogito
segue um movimento pendular

passa com precisão
de sofrimento para sofrimento

não tem lugar
para fogos de artificio poético

o Senhor Cogito quer permanecer fiel
a uma incerta claridade

O SENHOR COGITO E O PENSAMENTO PURO

O Senhor Cogito esforça-se
por atingir o pensamento puro
ao menos antes de adormecer

mas o esforço
é o início do fracasso

com efeito mal chega
a um estado onde o pensamento é como a água
uma grande água pura
de uma praia impassível

a água de repente encrespa-se
e a onda traz
latas
madeira
uma madeixa de cabelos

na verdade o Senhor Cogito
não está inteiramente imaculado
não podia arrancar
o seu olho interior
da caixa de correio
tinha nas narinas o odor do mar
os grilos acariciavam a sua orelha
e debaixo do cinto sentia a mão ausente

era mediano como outros
pensamentos dotados
a pele da mão tocando os braços da poltrona
uma ruga de sensibilidade
no rosto

um dia
um dia qualquer
logo que arrefecer
atingirá o satori

e será como aconselham os mestres
vazio e
surpreendente

Olhando o fascinante fervilhar de ideias que cruza a nossa sociedade em todas as direcções: politicas, económicas, culturais, ocorre-me a influência nesse movimento da experiência do Senhor Cogito:

e andam em círculos
à procura de um grão

não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

O SENHOR COGITO E O MOVIMENTO DAS IDEIAS

As ideias passam pela cabeça
diz uma expressão corrente

a expressão corrente
sobrestima a circulação de ideias

a maior parte delas
permanece imóvel
no meio de uma paisagem pesada
de outeiros ermos
e árvores ressequidas

por vezes atingem
a corrente rápida de outro pensamento
acampam na margem
sobre um só pé
como as garças famintas

com tristeza
recordam-se das nascentes secas

e andam em círculos
à procura de um grão

não atravessam
porque não chegariam a nenhum lado

não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

permanecem empoleiradas nas pedras
torcendo as mãos

debaixo do céu
pesado
e baixo
do crânio

Como o mundo não podia ser perfeito, o Senhor Cogito tem um problema com a sua alma:

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

mas nos dois poemas que seguem conheceremos não só a evolução do problema como o seu estado actual.

A ALMA DO SENHOR COGITO

Diz-nos a história
que ela abandona o corpo
quando o coração pára de bater

com o último suspiro
parte calmamente
para as pastagens celestiais

a alma do Senhor Cogito
comporta-se de maneira diferente

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

evita contactos
não escreve uma carta

não se sabe quando regressará
pode ser que tenha partido para sempre

o Senhor Cogito quer superar
os seus ciúmes primitivos

pensa bem da sua alma
pensa nela com ternura

ela deve poder viver
em outros corpos

não há almas suficientes
para toda a humanidade

o Senhor Cogito aceita o seu destino
sabe que não tem alternativa

nem tenta dizer
– a minha alma

pensa na sua alma com afecto
com uma terna solicitude

e quando ela de repente
regressa
não diz
– ainda bem que estás de volta

olha apenas através do canto do olho
como ela se senta ao espelho
e penteia o cabelo
– emaranhado e cinzento

A POSIÇÃO ACTUAL DA ALMA DO SENHOR COGITO

desde há algum tempo
que o Senhor Cogito
traz a alma
no braço

quer dizer
pronta para voar

colocar
a alma no braço
é uma operação delicada
deve ser feita
sem pressas febris
ou cenas familiares
de guerras
evacuações
cidades sitiadas

a alma gosta de assumir
varias formas
agora é uma pedra
crava as suas garras
no braço esquerdo do Senhor Cogito
e fica à espera

pode abandonar
o corpo do Senhor Cogito
enquanto ele dorme
ou pode partir
à luz do dia
em completa consciência
breve como o assobio
de um espelho quebrado

por agora
senta-se no seu braço
pronta para voar

E voemos nós com ela neste mundo onde o nonsense nos permite alguma alegria.

Nota final

Não sei que significado terá pretendido atribuir o poeta ao nome do seu altar ego, mas agrada-me pensar que o sentido do nome decorre directamente do significado do verbo latino:

cogito, as, are, avi, atum – pensar, reflectir, remoer no espírito.

Versões dos poemas por Jorge Sousa Braga a partir das versões em inglês de Czeslaw Miloz, publicadas em Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas antologia poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2009.

Paul Gauguin — pintura para um mundo em Estado de Graça

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Deixo-vos uma escolha pessoal entre a pintura de Paul Gaugin (1848-1903), sobre a qual as considerações de escola cruzadas com a biografia abundam. Importa-me mais o estado de felicidade absoluta que esta pintura transmite, na entrega ao prazer de simplesmente existir oferecida pelas modelos hawaianas dos seus quadros. É verdadeiramente uma pintura para um mundo em estado de graça.

 

Shakespeare — Ser ou não ser… a meditação de Hamlet

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O bardo, Shakespeare (1564-1616), chega ao blog com a meditação de Hamlet na 1ªcena do 3º acto da tragédia com o seu nome: Ser ou não ser …, [To be or not to be…], numa rara e belíssima tradução de Luiz Cardim.

Bibliotecas de comentários tem suscitado esta fala teatral. Poesia no mais elevado sentido que a humanidade conheceu, nela se dá conta da dúvida sobre o que fazer perante o sofrimento que o viver nos inflige: se terminá-lo com a morte voluntária, se vivê-lo no receio do desconhecido para além dela.

“Ser ou não ser…” Fala de Hamlet, acto 3, cena 1

Ser, ou não ser, – eis a questão: se acaso
é mais nobre sofrer d’ânimo firme
os pelouros e dardos da má sorte,
ou terçar armas contra um mar de agruras
e findá-las de vez? Morrer…,dormir …,
mais nada…; e com um sono desfazer-nos
da angustia, e mil embates naturais
de que é herdeira a carne, — alguém deseja
um término melhor? Morrer…, dormir…
dormir… talvez sonhar… Sonhar?! Ah, não:
pois no sono da morte, quando formos
do terreal tumulto já libertos,
que sonhos podem vir — basta essa ideia
para fazermos pausa; ela e só ela
gera às calamidades longa vida.
Quem sofreria os golpes e sarcasmos
do mundo, as iniquidades dos tiranos,
as prosápias do orgulho, as dores acerbas
do amor menosprezado, as dilações
do foro, a brusquidão da famulagem,
e as sevicias que ao mérito paciente
a nulidade inflige, — se pudera
ele próprio de tudo redimir-se
co’a ponta dum punhal? Ou quem os fardos
da canseirosa vida suportava
a suar e gemer, senão pungido
pelo ansioso pavor de qualquer coisa
depois da morte — esse país ignoto
das fronteiras do qual ninguém regressa —
que mareia a vontade, e nos coage
a preferir os males deste mundo
àqueles que nos são desconhecidos?
A consciência nos torna assim cobardes,
a todos nós, e assim a cor nativa
da decisão, desmaia e desfalece
sob a pálida luz do pensamento;
de tal sorte que empresas de grão vulto
se apartam dos seus fins, e vão perdendo
todo o nome de acção…

“To Be Or Not To Be…” Fala de Hamlet, Act 3 Scene 1

To be, or not to be: that is the question: –
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? – To die, – to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, -’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, – to sleep; –
To sleep! perchance to dream: -ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despis’d love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death, –
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, – puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought;
And enterprises of great pith and moment
With this regard, their currents turn awry,
And lose the name of action…

Elogio (ou Louvor) da Dialéctica por Bertolt Brecht

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Fará por estes dias quarenta anos. Sei-o, pois era o tempo em que punha nos livros a data da compra, mas era sobretudo, e é o que importa, o tempo das descobertas de formação.
Tinha, havia pouco, encontrado a poesia de Herberto Helder e a sua estranheza para um rapaz nos dezoito anos familiarizado com a poesia das selectas do liceu, lida como cânone poético. E foi aí que a poesia de Bertolt Brecht (1898-1956) irrompeu, na novidade dos seus assuntos e na violência da sua mensagem política.
Lê-la hoje, em Portugal, na conjuntura de guerra social surda que atravessamos, devolve-lhe uma acutilância que os tempos de prosperidade do passado recente tinham empurrado para o esquecimento.

A verdade de Elogio (ou Louvor) da Dialéctica, que a seguir transcrevo, não se gasta com a história, embora o esquecimento dela muitas vezes se instale. É um poema de esperança contra a adversidade:

O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.

ou noutra versão

O certo não é certo.
Assim como está, não fica

e de incentivo a cada um tomar o destino nas próprias mãos:

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.

ou noutra versão

De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.

Deixo-vos com a versão de Arnaldo Saraiva, que primeiro conheci, e que nos tempos da revolução de Abril foi famosa dita por Mário Viegas, e segue-se-lhe a versão de Paulo Quintela publicada posteriormente, em 1975.

Simultaneamente com o desafio reflexivo que o poema convoca, é também à analise da problemática da tradução de poesia que mais uma vez desafio os leitores do blog ao propor-lhes duas versões do mesmo poema fieis ao original e tão dissemelhantes no resultado poético em português.

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque s vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

Tradução de Arnaldo Saraiva

Louvor da Dialéctica

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz da dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim como está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!

Tradução de Paulo Quintela

George Grosz, expoente do expressionismo alemão

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O expressionismo alemão que floresceu nos anos de Weimar, enquanto movimento nas artes plásticas, permanece na tradição da arte ocidental da pintura um caso singular. Provavelmente fruto de circunstâncias históricas únicas -desenvolveu-se numa sociedade a viver o rescaldo de uma derrota devastadora na primeira guerra mundial, de que fora a principal responsável – dá-nos conta de um horror normalizado, instalado no quotidiano, onde muitas vezes a agressividade da paleta grita a sua desolação. Entrelaçada esta paleta no contraste de um desenho deformado, temos como resultado umas vezes pungente, outras estarrecedor, uma pintura que nao permite esqueçer o mundo que a viu nascer.

Exemplo maior deste universo é a obra pictórica de George Grosz (1893-1959) realizada na Alemanha, nestes anos.

Regresso à sua obra no blog para vos deixar com algumas pinturas dos anos 1918-1928.

Otto Dix — alguns retratos

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A humanidade pintada por Otto Dix (1891-1969), no grotesco da sua representação, é uma humanidade que dói. Talvez tenha existido, talvez até existam hoje, sob a capa da trivialidade doméstica, aqueles seres.

Não nos reconhecemos neles, ou antes, não me reconheço neles, mas a existirem, são por si só a representação visual da crueldade do mundo.
Aqui ficam alguns.

 

 

 

Algumas capas modernistas para LP’s

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Terminei o artigo anterior fazendo a ligação entre as artes gráficas preocupadas em comunicar uma mensagem comercial e as vanguardas artísticas que desde os anos 20 do século XX tiveram uma presença dominante no desenvolvimento dos mecanismos do gosto, tendo chegado a sua influência até nós nos padrões com que lemos a modernidade estética.

Nos anos 50, as capas do recém-descoberto disco de vinil de longa duração, LP, que girava a 33 rotações por minuto, foram objecto de cuidadoso trabalho gráfico. Pelo seu custo e conteúdo, dirigiam-se a uma camada média-alta da população, com elevada sofisticação no gosto, a que estas capas procuravam responder.

A companhia discográfica DECCA, pioneira neste mercado em muitos aspectos técnicos, também o foi no cuidado gráfico da embalagem.

Mostro-vos um conjunto de capas para o reportório de musica clássica, assinadas por Eric Nitsche onde a influência estética do modernismo dos anos 20/30 é eloquente.