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O bardo, Shakespeare (1564-1616), chega ao blog com a meditação de Hamlet na 1ªcena do 3º acto da tragédia com o seu nome: Ser ou não ser …, [To be or not to be…], numa rara e belíssima tradução de Luiz Cardim.

Bibliotecas de comentários tem suscitado esta fala teatral. Poesia no mais elevado sentido que a humanidade conheceu, nela se dá conta da dúvida sobre o que fazer perante o sofrimento que o viver nos inflige: se terminá-lo com a morte voluntária, se vivê-lo no receio do desconhecido para além dela.

“Ser ou não ser…” Fala de Hamlet, acto 3, cena 1

Ser, ou não ser, – eis a questão: se acaso
é mais nobre sofrer d’ânimo firme
os pelouros e dardos da má sorte,
ou terçar armas contra um mar de agruras
e findá-las de vez? Morrer…,dormir …,
mais nada…; e com um sono desfazer-nos
da angustia, e mil embates naturais
de que é herdeira a carne, — alguém deseja
um término melhor? Morrer…, dormir…
dormir… talvez sonhar… Sonhar?! Ah, não:
pois no sono da morte, quando formos
do terreal tumulto já libertos,
que sonhos podem vir — basta essa ideia
para fazermos pausa; ela e só ela
gera às calamidades longa vida.
Quem sofreria os golpes e sarcasmos
do mundo, as iniquidades dos tiranos,
as prosápias do orgulho, as dores acerbas
do amor menosprezado, as dilações
do foro, a brusquidão da famulagem,
e as sevicias que ao mérito paciente
a nulidade inflige, — se pudera
ele próprio de tudo redimir-se
co’a ponta dum punhal? Ou quem os fardos
da canseirosa vida suportava
a suar e gemer, senão pungido
pelo ansioso pavor de qualquer coisa
depois da morte — esse país ignoto
das fronteiras do qual ninguém regressa —
que mareia a vontade, e nos coage
a preferir os males deste mundo
àqueles que nos são desconhecidos?
A consciência nos torna assim cobardes,
a todos nós, e assim a cor nativa
da decisão, desmaia e desfalece
sob a pálida luz do pensamento;
de tal sorte que empresas de grão vulto
se apartam dos seus fins, e vão perdendo
todo o nome de acção…

“To Be Or Not To Be…” Fala de Hamlet, Act 3 Scene 1

To be, or not to be: that is the question: –
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? – To die, – to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, -’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, – to sleep; –
To sleep! perchance to dream: -ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despis’d love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death, –
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, – puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought;
And enterprises of great pith and moment
With this regard, their currents turn awry,
And lose the name of action…

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