Exercício de longevidade com mestres da arte fotográfica

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Alfred Stieglitz - Portrait of R (Rebecca Strand)Foto de Alfred Stieglitz – Portrait of R (Rebecca Strand)

Há tempos, um qualquer estudo académico divulgou pelo mundo os aprazíveis resultados de uma investigação, os quais davam conta de como olhar os seios de mulher, numa actividade diária, tem o efeito nos homens de lhes aumentar a longevidade.

No seu sábio equilíbrio, a natureza encontrou uma forma de nos permitir, a nós homens, contrariar as estatísticas onde se lê que os homens morrem mais cedo.

Para atingir este efeito biológico não sei qual a forma mais eficaz de contemplação: se ao natural, se por imagem. Aceitemos por momentos que se equivalem e quando o prazer do vivo está ausente, juntemos a imaginação à contemplação das imagens que aqui arquivo com propósitos de salubridade.

São fotos de mestres da arte fotográfica, que provavelmente intuíram, antes do mencionado estudo, o efeito de tão bela contemplação.

Erwin Blumenfeld 1937Foto de Erwin Blumenfeld 1937

Horst P. Horst Nude 07Foto de Horst P. Horst

Man Ray Nu cerca de 1929Foto de Man Ray

Man Ray - Sem Título 1928Foto de Man Ray

E termino como abri, com Alfred Stieglitz, mas agora a obra-prima de 1919: Georgia O’Keeffe  A Portrait

Georgia O’Keeffe  A Portrait (2) 18,4x22,9 1919a

Da Antologia Palatina, O beijo

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porto-ramos-pintoÉ a Antologia Palatina, compilação de poesia grega antiga onde, como referi ontem, se reúnem poesias que se encontravam dispersas em livros de epigramas amorosos, morais, cómicos, etc…, de poetas de quem em geral pouco se sabe, que vou buscar este inebriante beijo escrito por alguém que até nós chegou anónimo.

Uma jovem beijou-me à tarde com seus lábios húmidos.
Era um néctar o seu beijo, pois a boca exalava néctar.
E fiquei ébrio com este beijo, por ter bebido a largos tragos o amor.

Anónimo

Tradução de Albano Martins, Antologia da Poesia Grega Clássica

Que o Carnaval em começo vos permita beber a largos tragos o amor.

Não vos maço mais com poesia. Escondo-me na pele do homem da capa negra e parto a gozar o Carnaval. Se algum leitor me encontrar venha de lá o cumprimento.

Sandeman anuncio original 1928

Ó Noite, ó desejo de Heliodora – Meleagro de Gádaros

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Matisse_Henri-Satyr_and_NymphMeleagro de Gádaros (séc. I a. C.) foi o organizador da que é hoje conhecida como Antologia Palatina, compilação de poesia grega antiga onde se reunem poesias  dispersas em livros de epigramas amorosos, votivos, funerários, morais, cómicos, etc…, de poetas de quem em geral pouco se sabe.

Atenho-me, no entanto, a um dos belos poemas de Meleagro de Gádaros (séc. I a. C.) dedicados à mulher amada, Heliodora.

Ó Noite, ó desejo de Heliodora que me tem acordado,
e vós, ó ancas travessas cuja lembrança penetrante
me solta as lágrimas, dizei-me: guarda ela
na lembrança uma fria imagem
do calor dos meus beijos? Tem ela no leito,
como eu, as lágrimas por companheiras
e beija e aperta contra o peito
o meu fantasma que lhe cativa a alma?
Ou ela tem um novo amor?
Ó lâmpada, não ilumines essas novas folias
e guarda apenas para mim
aquela que te confiei.

(in Antologia Palatina)

Tradução de Albano Martins

Com Páladas, A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer

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Matisse_Henri-Luxe_calme_et_voluptePerco-me muitas vezes nos livros de antiga poesia grega. Não conheço o grego e por isso leio em traduções disponíveis, o que são sempre aproximações limitadas pelos preconceitos dos tradutores e do seu tempo, sobretudo nas matérias em que o sexo espreita. Tomada em conta esta realidade, sobra a felicidade com que o tradutor conseguiu criar na língua de chegada qualquer coisa parecida com poesia, e às vezes acontece.

Acontece frequentemente com o poeta Alberto Martins no seu labor de tradução de poesia grega antiga, um verso ficar preso à memória e a uma segunda e terceira leitura permanecer o encanto.

Para hoje escolho, dentre as suas traduções, alguns poemas de Páladas, gramático da Caldeia, estabelecido em Alexandria no século IV e cuja poesia foi recolhida na Antologia organizada por Agátias, o Escolástico, no século VI, vivendo na corte de Justiniano.

O primeiro poema remete-nos com enorme acutilância para a vida dos gregos, hoje:

A vida é um sonho

Acaso morremos e só na aparência estamos vivos,
nós, os gregos, caídos em desgraça,
imaginando que a vida é um sonho?
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

A realidade vivida na Grécia hoje, de que vamos tendo noticia, cola-se como uma luva a esta reflexão.

Concluo com dois poemas onde se retoma a perspectiva da fugacidade da vida já reflectida por Horácio na Ode a Leucónoe, que antes deixei, e apologiando Carpe Diem, agora na formula:

Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

A vida

A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer. Longe de nós os cuidados.
A existência humana é curta. Venham depressa o vinho,
depressa as danças e as coroas de flores, depressa as mulheres.
Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

Terminemos com o convite do poeta: chorai a rapidez do tempo!

O fim

Ó breves prazeres da vida,
chorai a rapidez do tempo!
Estamos sentados e dormimos,
Trabalhando ou gozando o prazer.
Mas o tempo corre, corre para nós,
míseros mortais, pondo fim
à vida de cada um.

Camões – reflexões poéticas sobre o desconcerto do mundo

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Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_Death_detailNum tempo que em Portugal é de horizontes bloqueados, quando o agravar de dificuldades atinge muitos, alguns há a quem a mofina não toca.

Vivem-se tempos de grande incerteza, onde a par das desigualdades o desejo de Justiça permanece,  gerando entre as gentes, se não revolta, pelo menos a perplexidade da sua existência.

Há uma espécie de desacerto nesta injustiça flagrante, como se o mundo não fizesse sentido. Isto mesmo nos diz Camões em relação ao seu tempo, na redondilha Ao desconcerto do mundo, e que hoje surge como que saída do nosso quotidiano:

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O poeta aborda ainda o assunto nas oitavas a dom António de Noronha, sobre o desconcerto do mundo, e interroga-se a abrir:

Quem pode ser do mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão experimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com publico efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem há que veja aquele que vivia
De latrocínios, mortes e adultérios,
Que ao juízo das gentes merecia
Perpétua pena, imensos vitupérios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
Em alteza de estados triunfante,
Que, por livre que seja não se espante?

Quem há que veja aquele que tão clara
Teve a vida que em tudo por perfeito
O próprio Momo às gentes o julgara,
Ainda que lhe vira aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bem somente avara,
O reprime e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja experimentado?

Num longo relato de perplexidades e juízos morais, expostos na forma interrogada, se desenvolve o poema ao longo de vinte e nove oitavas, ora interpelando o mundo ora interrogando a sua circunstância pessoal, e finalmente encaminhando o poema para os assuntos do amor com que termina:

Mas para onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia
Que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado
Que não pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, co’o Amor se conjurou
Contra mim, porque mais me magoasse:
Amor a um vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna me negasse.
A este estado o tempo me achegou,
E nele quis que a vida se acabasse;
Se há em mim acabar-se, que eu não creio;
Que até da muita vida me receio.

Ilustra o artigo um detalhe de O triunfo da morte, de 1562, pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), eventualmente contemporânea dos poemas, e que incluí no artigo anterior com poesia de Kurt Heynicke.

A dor da guerra em três poemas de Kurt Heynicke

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Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_DeathEscritos em 1917/18, quando a primeira guerra mundial caminhava para o fim, estes poemas  de Kurt Heynicke (1891-1985) dão conta, de forma pungente, da devastação em redor.

Para além das circunstâncias de tempo e lugar, são poemas que falam da dor ao olhar o mundo. E infelizmente, sabemos todos, a guerra é nossa vizinha e visita-mo-la diariamente com a televisão.

Canção sombria

Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.

Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.
(1918)

Posto de observação

Pelos meus olhos perpassam as colinas,
a floresta pariu a rubra lua-guarda.
Uma metralhadora patinha por detrás das estrelas.
Eu sou uma hora no silêncio.
Dos túmulos
saiu tacteando a manhã.
Um amen
goteja nos meus pensamentos.
(1917)

Despedida

O silencio fala.
Cansados entram os olhares florestas adentro pela noite
e sobre a nossa janela
morre a luz.
Mansamente
todas as sombras deslizam para os longes.
O teu cabelo murcha na minha mão.
Agora
erra o meu tactear em busca do bastão
e da luz do último vapor do rio.
(1917)

Traduções de João Barrento

Ilustra o artigo a pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), O triunfo da morte, de 1562.

 

Carpe diem, Odes, Livro 1, 11, de Horácio, no 500º artigo do blog

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Picasso_Pablo-Figures_on_a_BeachPublico hoje o quingentésimo artigo no blog. Longe de veleidades de especialista, e apenas como homem comum que encontra prazer nas matérias do intelecto e do corpo, tenho preenchido o blog com artigos ao sabor do que ao espírito me ocorre, flanando nos acasos de leituras e acontecimentos.

No propósito de atribuir um significado especial a este artigo, de alguma maneira simbólico deste escrever, escolhi a Ode a Leucónoe de Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), ode nº11 do Livro 1 das Odes, conhecida pelo seu último verso:

carpe diem, quam minimum credula postero.

Esta ode tem, ao longo dos séculos, despedaçado os esforços daqueles que defendem uma vida de sacrifício em prol de um além de maravilhas. E a ode dirigida a uma mulher, Leucónoe, diz tão só: não sabemos que vida nos espera para além da morte, os deuses sabem o que nos convém ainda que o não entendamos, por isso, aproveita o dia que passa.

Isto é dito na concisão do latim, numa forma poética que não cessa de encantar gerações e a que as traduções apenas trazem uma pálida aproximação.

Antes de passar às traduções, e para o leitor poder saborear o verso, aqui fica o original em latim:

1 Tu ne quaesieris — scire nefas — quem mihi, quem tibi
2 finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
3 temptaris numeros. Ut melius, quidquid erit, pati,
4 seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam,

5 quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
6 Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
7 spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit invida
8 aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Começo uma volta pelas traduções que conheço, com um fragmento da ode inserido em Literatura de Roma Antiga.

Não indagues — sacrílego é sabê-lo — que fim nos tenham, a mim e a ti, destinado os deuses

melhor será suportar o que vier

sê sábia, coa o vinho e encerra em curto espaço a longa esperança.
Ainda estamos a falar, e já o tempo malfazejo nos terá escapado:
colhe o hoje e preocupa-te o menos possível com o amanhã

Continuemos neste percurso com a versão, poeticamente conseguida, de David Mourão-Ferreira:

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

Sigo com duas traduções a que chamaria, talvez, filológicas, pela sua tentativa de devolver em português o significado literal das expressões do poema original.

Primeiro, a mais antiga, da ilustre e operosa professora Maria Helena da Rocha Pereira:

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

Agora a recente tradução de Pedro Braga Falcão substancialmente devedora da anterior, sobretudo nos versos 6 e 7:

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

Colhendo a lição das traduções anteriores, termino a propor uma minha versão para tão intemporal poema:

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

(*) nec Babylonios traduzível por cálculos babilónicos ou babilónios, refere-se à arte da astrologia desenvolvida na Babilónia, e muito em voga entre os romanos à época, daí a versão que preferi.

Noticia bibliográfica

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia I, Revista Colóquio Letras, nº163

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira in ROMANA, 6ªedição aumentada, Guimarães, 2010

Tradução de Pedro Braga Falcão in Horácio, Odes, Livros Cotovia, 2008

Fragmento in Literatura de Roma Antiga, Direcção de Mario Citroni, FCG, 2006. A revisão da tradução da obra é de Walter de Sousa Medeiros

Duas notas sobre a ilustração do artigo

Só podiam ser obras de Picasso dando conta do prazer de viver, as ilustrações para o artigo. Pela obra do artista, uma permanente alegoria desse prazer, e pelo meu gosto pessoal, que nesta obra encontro fonte de recorrente felicidade. E nela, o hedonismo da praia, o mar, o corpo ao sol, afinal o prazer do hoje, na sedução do beijo da amada que abre o artigo, e a inocente brincadeira familiar com que o fecho.

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Três imagens icónicas do século XX

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MBDCIKA EC019Hoje arquivo no blog duas imagens icónicas do poder e do sexo, os pólos em que a humanidade se move, produzidas pelo cinema.

Na foto acima, do filme Citizen Kane, O mundo a seus pés em português, até há pouco o melhor filme de sempre para alguma critica, Orson Welles, o actor e realizador, com o peso da sua figura sobredimensionada pela visão obliqua a partir de cima, olha-nos na ironia suficiente dos poderosos, pisando o mundo, imageticamente contido nas notícias dos jornais, que na historia do filme o homem domina e manipula. Retrato simbólico do poder nos nossos dias, onde dinheiro e comunicação social se combinam no controle insidioso do pensar e vontade das gentes.

la dolce vita2

Aqui, no filme de Federico Fellini, La Dolce Vita, Anita Ekberg esplende, de perfil, oferecendo a cara e o corpo à água que da Fontana Trevi cai, e sobre ela corre.

Na complexidade simbólica da fotografia, é a imagem conceptual da mulher como fonte de prazer o que instantaneamente lemos: cabelos longos, opulência de curvas e seios abundantes, sobrepõem-se ao contexto arquitectónico-escultural do enquadramento. Mas aí também a apreensão do olhar encontra alimento. Na fusão da carne esplêndida da mulher viva com as esculturas de pedra escorrendo água, é todo um mundo inanimado que subitamente, ao olhar, palpita fremente do desejo.
A água correndo sobre o corpo é o elemento indutor de toda esta atmosfera, na convocação instantânea da memória do prazer que o banho provoca em cada um de nós. Talvez o leitor esteja lembrado dos conselhos do Bispo de Sevilha à irmã sobre o banho como fonte de pecado, que em tempos aqui deixei.

Herman Leonard  Dexter gordon

Termino com outra foto icónica, mas desta vez dos prazeres da música e do vicio.

Dexter Gordon, nesta foto de Herman Leonard, na pose displicente, saxofone pousado, envolvido pelo fumo do cigarro, conta dos prazeres o que mil palavras não dizem e ao olhar se oferece.
Quando penso em jazz e no prazer da música é esta foto que à memória me ocorre.

Da explicitação dos prazeres do vicio deixo ao leitor a sua concretização.

O azul na obra de Van Gogh

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Van_Gogh_Vincent-Prisoners_Exercising_after_DoreSão infinitas as abordagens à pintura de Van Gogh (1853-1890). No misto da violência da pincelada e da harmonia do colorido, o olhar perde-se na contemplação e a imaginação plana na pura magia da imagem.

Como há algum tempo não visitava esta pintura no blog, reuni um conjunto de reproduções que permite apreciar como o pintor trabalhou o azul na paisagem, no retrato e na natureza-morta, géneros onde Van Gogh foi maior entre os grandes.

Do diáfano ao trágico, a combinação da tonalidade com uma paleta em tons afins ou complementares, cria a atmosfera de cada pintura, onde a espessura e geometria da pincelada conduzem ao impacto profundo de cada obra junto do observador. Uma vez vistas, estas pinturas acompanham-nos pela vida, construindo um universo onde o belo caminha lado a lado com a dolorosa experiência do mundo.

Abro com as vistas de Paris a partir do quarto do pintor na rue Lepic em 1887.

Van_Gogh_Vincent-View_of_Paris_from_Vincents_Room_in_the_Rue_Lepic-1887_Spring-II

View of Paris from Vincent's Room in the Rue Lepic 1887

Passemos agora a dois dos fabulosos auto-retratos de 1887.

Van_Gogh_Vincent-Self-Portrait_with_Felt_Hat

Van_Gogh_Vincent-Self-Portrait-1887-IVNa pintura de flores há mais além dos famosíssimos girassóis. Uma amostra com castanheiro em flor, e um pomar florido em Arles em 1889. A pintura de amendoeira em flor com fundo azul já se encontra algures no blog.

Blossoming Chestnut Branches in a Vase 1890

Orchard in Blossom with View of Arles 1889

Voltemos à paisagem agora com montanha e campo.

Van_Gogh_Vincent-Ravine

Van_Gogh_Vincent-Plain_near_Auvers

E de novo o retrato com dois deserdados da vida.

Van_Gogh_Vincent-Sorrowful_Old_Man

Van_Gogh_Vincent-The_Man_is_at_Sea_after_Demont-Breton

Regresso à cidade com um quadro onde uma paleta reduzida a azul com pequenas quantidades de amarelo banha de serenidade um quotidiano a que o desenho e a composição espacial dão todo o impacto.

Van_Gogh_Vincent-The_Trinquetaille_Bridge

Termino com um dos retratos do Doutor Gachet e o retrato do Carteiro Joseph Roul1n nos quais, à penetração psicológica do desenho se acrescenta a mestria de pintor no uso da cor.

Portrait of Doctor Gachet 1

Van_Gogh_Vincent-Postman_Joseph_Roulin

A pintura de abertura do artigo é um dos quadros feitos no Asilo de Saint-Rémy entre Maio de 1889 e Maio de 1890, a partir de obras de outros pintores ou ilustradores. No caso é uma representação de prisioneiros em exercicio a partir de Doré.

Pintura (II) Mestre da Abadia de Afflighem

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MASTER of the Joseph SequenceDo pintor flamengo conhecido como Mestre da Abadia de Afflighem, trabalhando no final do século XV, chegam-nos estes espantosos retratos supostamente de Filipe o Bom e da Joana a Louca, que me deixam embevecido a olhá-los.

É sobretudo o desacerto que preenche as pinturas, o que me encanta.

Por um lado a escala dá ao primeiro olhar a medida da irrealidade representada. Depois, a placidez do cenário com o improvável guerreiro Filipe o Bom em primeiro plano, segurando a espada em instável equilíbrio, e com os membros tolhidos na magnifica capa que o envolve, acabam por consolidar o fascínio, e levam-me longamente perscrutar a tela.

Do outro lado, Joana a Louca, grávida, com ar de menina surpreendida com a barriga a crescer, apalpa-a tentando perceber o que ali está.

Finalmente a luz que banha as pinturas, em suaves verdes e cores de terra, ajuda à placidez que no seu conjunto as pinturas transmitem.

Fazem-nos pressentir um mundo sem sobressaltos, mas também sem alegrias. Apenas a aceitação da respectiva condição ali se revela.