Lesebuch (Livro de leitura) de J. W. Goethe

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O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros;
Apartamento faz uma secção,
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami ! – mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.

De Divan Ocidental-Oriental (West-Östlichen Divan (1814-1836)) de J. W. Goethe (1749-1832) vem esta síntese dos efeitos do amor na vida de cada um, retomando as admiráveis lições de Rumi e Omar Khayyam, de condensar supremos ensinamentos nos versos de um pequeno poema.

Reflexão de maturidade sobre o amor, este Divan de Goethe dá conta de como viver o amor nos muda o mundo:

Que maravilha é ver
Que maravilha é ver todo este mundo!
Mais belo que nenhum é o mundo dos poetas:
Variegados, claros ou prateados, ao fundo,
Os campos, dia e noite, têm luzes a brilhar.
Tudo me é belo, hoje; pudesse assim ficar!
Para ver hoje assim, o Amor me deu lunetas.

Remetendo directamente para a poesia de Omar Khayyam, vem este

Se estou sozinho

Se estou sozinho,
Que melhor cantinho?
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me põe impedimentos,
E  tenho os meus próprios pensamentos.

Ao falar em Omar Khayyam a propósito deste poema de Goethe, poderia recordar tantos dos seus ruba’iyat, mas retenho este ruba’i em especial:

Dizem-me: “Não bebas mais, Kayam!”
Eu respondo: “Ao beber
ouço o que me dizem as rosas   as tulipas e os jasmins
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer”

Não sei se seria o caso com Goethe e Marianne von Willemer, que, quando afastado dela lhe aconteceria:
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer

Foi para esta Marianne von Willemer que o poeta escreveu em 15 de Setembro de 1815 a metáfora da fusão de dois amantes simbolizada na folha de Gingko Biloba:
Será um ser vivo apenas / Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram / E nós julgamos num unidos?

Gingko Biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Para responder às perguntas
tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

Deixo-vos com o que suponho ser o fac-simile do poema:

Noticia bibliográfica
As traduções dos poemas de Goethe são de Paulo Quintela, e constam da 2ªedição corrigida de Poemas publicada em 1958 Por Ordem da Universidade de Coimbra.

A poesia de Omar Khayyam consta da antologia O vinho e as Rosas – Antologia de poemas sobre a embriaguês organizada por Jorge Sousa Braga e luxuosamente editada por Assírio & Alvim em 1995.

Para o nome deste poeta não encontrei grafia normalizada, e surge nas edições em livro tanto Omar Kayam ou Khayyam, como Umar-i Kahayyam, ou em espanhol, Omar Jayyam.

 

Nota Final

Este artigo foi antes publicado no blog em Junho de 2012.

Um epigrama de D. João d’Azevedo

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D. João d’Azevedo, poeta, prosador, jornalista, etc, activo em meados do século XIX, está hoje completamente esquecido. É um epigrama de afiada verve publicado em O Trovador que me faz recordá-lo.


Sendo virtualmente impossível encontrar informação on-line sobre o homem, socorro-me de Camilo Castelo-Branco para deixar aos leitores um retrato do autor, e simultaneamente fruir a fina ironia da escrita de Camilo.


O fragmento que a seguir transcrevo encontra-se no livro No Bom Jesus do Monte, volume que além de ser todo ele de leitura apetecível para quem tiver curiosidade sobre a vida na província minhota por essa época, descreve outras peripécias com o nosso autor de hoje, além das citadas a seguir:

 

 

Em Braga, naquele tempo [1850], entre os sujeitos de nascimento ilustre e dotes de alta inteligência primava D. João de Azevedo, poeta e prosador, jornalista, romancista e dramaturgo. Eu tinha-o visto no Porto, hospedado em casa de Rodrigo Nogueira Soares, embrulhado na coberta da cama, de cócoras entre os cobertores, às duas horas da tarde, falando das delícias bucólicas duma madrugada. D. João adivinhava admiravelmente a formosura duma aurora de Julho, que ele nunca tinha visto. As suas alvoradas não lhas anunciava o regorgeio dos passarinhos: era o tilintar dos talheres na mesa de jantar.
Desmentia ele triunfantemente os que dizem que as cabeças dos dorminhocos, cerradas de vapores, carecem da lucidez da ideia e fluência da palavra. D. João d’Azevedo, com as pálpebras ainda quebradas do langor do sono, e a preguiça a estirar-lhe a inércia dos músculos, encadeava frases com suma elegância, elegância de ironia, de sátira,
descaridosa com as fragilidades humanas; mas, de fora parte a maledicência, perdoável a ouvidos de rapazes, que lhe desculpavam os seus bons quarenta anos, era  sedutor!

 

in Camilo Castelo-Branco, No Bom Jesus do Monte, 1864, pg. 26-27.
Modernizei a ortografia.

 

 

 

Epigrama

O homem chora mal nasce,
Adulto chora também;
Curvado já sobre a campa,
Mais dor no peito inda tem

 

Aos vinte chora porque ama,
Aos trinta ver-se iludido;
E quando desce ao sepulcro,
Até por ter existido.

 

 

in O Trovador,  colecção de poesias contemporâneas redigidas por uma sociedade d’académicos, Coimbra, 1848, pg. 303.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Cézanne (1839-1906), Homem fumando cachimbo de 1892.

Pareceu-me adequado ao espírito do poema o ar meditativo do homem pintado por Cézanne.

Um Homem Fala — Gottfried Benn

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O que conhecemos, o que sabemos, o que sentimos, é sempre singular e diverso na sua apreensão pessoal, como diversa é a forma de o transmitir; mas o instrumento de excelência dessa comunicação é a palavra.
É a palavra que nos permite ter a consciência detalhada do mundo que nos envolve, ou como diz o poeta de hoje, Gottfried Benn, vácuo espaço entre mim e o mundo, e dessa apreensão dar aos outros conhecimento. Seja discurso, conversa, ou poesia, o propósito é sempre igual: dar voz a um conhecimento, e consciência dele, que importa ou apetece transmitir. E o instrumento é sempre o mesmo: a palavra.


Em dois poemas de Gottfried Benn (1886-1956) que a seguir transcrevo, é exactamente sobre esse propósito essencial que o poeta reflecte. Outras linguagens que não a palavra existem, todos o sabemos, mas nenhuma outra reúne a capacidade do detalhe e variação de perspectiva que a palavra, através do discurso articulado, permite.

 

 

Um Homem Fala

 

Aqui não há consolo. Vê, como a terra
acorda também de suas febres.
Mal brilham ainda algumas dálias. Está devastada
como depois de uma batalha a cavalo.
Oiço a abalada no meu sangue.
Tu — meus olhos bebem já
os azuis das colinas distantes.
Algo toca de leve as minhas fontes.

 

Tradução de Vasco Graça Moura
in Gottfried Benn, 50 Poemas, Relógio d’Água, Lisboa, 1998.

 

 

 

Ein wort…

 

Uma palavra vem — dos signos brota
apercebida vida, abrupto senso,
o sol detêm-se, esferas são silentes,
e tudo se concentra à sua volta.

 

Uma palavra — brilho, voo, fogo,
língua de chama, estrela cadente
— e a treva monstruosa que regressa
no vácuo espaço entre mim e o mundo.

 

 

Tradução de Jorge de Sena
in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

D Elvira e D Ramiro — poema de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós

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É talvez surpresa para alguns leitores saber que o pai de Eça de Queirós, José Maria de Almeida Teixeira de Queirós (1820-1901), quando jovem poetou. Da meia dúzia de poemas que dele encontrei, todos merecem o esquecimento a que estão votados. Abro uma excepção para este D. Elvira e D. Ramiro pela fluência narrativa e correcção métrica das quadras, as quais são acompanhadas de uma rima abcb não repetitiva e variada.

O assunto do poema D Elvira e D Ramiro faz parte do grupo de histórias da época da formação da nacionalidade uma vez e outra repetidas e que, contadas em ritmo de balada, fizeram as delícias de leitores na primeira metade do século XIX. Foram um assunto privilegiado pelos poetas românticos que por volta dos anos 40 do século XIX deram vida aos heróis medievais e suas aventuras.

Em D Elvira e D Ramiro encontramos uma história de amor e separação por razões de dever, rematada numa parte pela fidelidade na distância, e na outra pelo esquecimento que a distância induz, conduzindo ao encontro de novos amores. É uma história intemporal, aqui contada com contida emoção.

 

D Elvira e D Ramiro

I
Nobre donzel D. Ramiro
Herói, formoso, infanção,
Partira de longes terras
Sobre um valente Alazão.

Ía por longas veredas,
Longa viseira calada,
Pousado o braço valente
Na aguda, pendente espada.

Seus longos cabelos loiros
Cobria um elmo doirado;
Embraçava largo escudo,
D’aço mui fino temp’rado.

Sobre a coiraça de bronze
Um peito d’aço vestia,
Onde tinha em campo d’oiro
Letreiro que assim dizia:

Se é meu corpo agigantado,
É-lhe igual minha ternura.
Minha lança espada e vida
Voto a Deus e à formosura.

Pelo silêncio da noite
Sem descansar caminhou;
Pelo alvor da madrugada
Num Paço d’armas entrou.

 

II
Estava a liça adornada
De jovens mantenedores,
Que defendiam, donosos,
O seu Deus e os seus amores.

Arautos dentro do circo,
Sem armas de cavaleiro,
Gritavam de espaço a espaço
Depois do tanger guerreiro:

Amor às Damas formosas!
Honra e glória aos Infanções!
Respeito eterno aos valentes,
Morte honrosa aos campeões!

Gentis, formosas donzelas,
De ricas jóias ornadas,
Estavam vendo o torneio
N’altos palanques sentadas.

Qual delas será na justa
Bela princesa d’amor?
Qual dará ao mais valente
O prémio de seu valor?

Oh! que a todas se avantaja
Dona Elvira em gentileza!
Que encantos de formosura
Herdara da natureza!

Seus longos, loiros cabelos
Nos largos ombros caíam;
No gentil nevado peito
Castos pomos encobriam.

Um só volver de seus olhos
Acendeu vivas paixões!
Oh! — que era alfim Dona Elvira
Conjunto de perfeições!

Ao ver-se entrar D. Ramiro
Airosamente montado,
A lança posta no recto,
Brônzeo elmo derrubado,

Manter-se sobre os estribos
Com tal garbo e gentileza,
Causou a todos na liça
Estranha e geral surpresa.

Tocou com a ponta da lança
Um brônzeo escudo doirado,
Сom força tanta que ouviu-se
Um rouco som prolongado.

Quer que um dos dois neste encontro
Dê mostras de galhardia,
Quer combate a todo o transe,
Sem armas de cortesia.

Deram d’esporas, partiram
E a terra fogo feriu;
Com força tal se encontraram,
Que nenhum dos dois se viu,

As lanças feitas em rachas
Ao fogo aéreo subiram:
Que pouco depois em brazas
Dentro da liça cairam.

Meteram mãos às espadas,
Travaram briga de morte.
Ao infanção Dom Ramiro
Foi entâo propícia a sorte.

Nenhum dos mais cavaleiros
Resistiu ao seu valor,
Foi alfim neste torneio
Dom Ramiro o vencedor.

Correu em roda da liça
Airosamente na sela:
la escolher pra princesa
Desta justa uma donzela.

Uma corava sorrindo,
Outra afectava vaidade;
Esta mostrava-lhe o rosto
No verdor da mocidade;

Aquela que não podia
Mostrar garbo e gentileza,
Chorava como saudosa
Da já passada beleza.

Loucas vaidades do mundo!
Encantos da formosura!
Tudo se acaba com o tempo!
Tudo é pó na sepultura!

Parou alfim D. Ramiro,
Baixando a lança famosa,
E proclamou D. Elvira
Das belas a mais formosa.

 

III
Num velho antigo castelo
Passeava um trovador:
Era o donzel D. Ramiro
Do torneio o vencedor.

Trovas d’amor o infanção
Cantava em doce harmonia:
Fé, constância, a D. Elvira,
E eterno amor prometia.

De repente além das serras,
Que ainda ninguém povoou,
Entre o silêncio da noite
Guerreira tuba soou.

Na alta torre do castelo
A meia noite já deu:
Ave, que a morte adivinha,
As negras asas bateu.

Logo depois um tropel
Junto ao castelo parou;
E roucamente de novo
A brônzea tuba soou.

Eram alguns cavaleiros
De ricas armas ornados;
Montavam fortes ginetes
Ricamente acobertados.

Caminhavam para o Oriente
Para as guerras da santidade
Vinham buscar D. Ramiro
Como herói da cristandade.

Soara a tuba guerreira,
O sinal para a partida.
Quanto custa a D. Ramiro
Este adeus na despedida.

Alfim do velho castelo
Vestido d’armas saiu:
Montou no forte alazão,
Para a Palestina partiu.

 

IV
Passavam já largos anos;
D. Ramiro não voltava.
Dona Elvira a malfadada
Chorando a vida passava.

Contava as horas por anos,
Entre angústias suspirando:
Saudades raiavam-lhe a alma;
Passava a vida penando.

Um lenitivo sequer
Nâo tinha nesta amargura:
É só remédio à dor
Bonança da sepultura.

Vindo uma noite um mendigo
No castelo a pernoitar,
Cativou-a a maviosa
Toada do seu cantar.

As conchas da sua murça
O seu comprido bordão,
Fizeram crer-lhe que ele era
Um peregrino cristão.

Mendigo, diz Dona Elvira,
Que vindes lá do oriente,
Dai novas de D. Ramiro
Desse guerreiro valente.

— Esse guerreiro de Cristo,
O peregrino tornou,
A uma donzela formosa
Coração e alma entregou.

Agora na Palestina
Vive contente com ela:
Que não há cá no ocidente
Dama tão linda e tão bela.

Disse o triste, e após instantes
Do castelo se ausentou;
Dura sentença de morte,
Nesta resposta agoirou!

Resposta tâo inocente
Com tanta força feriu
O peito de Dona Elvira,
Que desmaiada caiu.

Desde então sempre o seu rosto
Cobriu tristeza sombria:
As horas passou chorando;
Nunca mais teve alegria.

Entre tormentos da vida
Amargos anos passou,
Té que alfim na flor da idade
Entre angústias se finou.

 

Poema publicado pela primeira vez na Chronica litteraria da nova academia dramatica 1840  no nº6 de 4 de Abril 1840.

Abre o artigo um pormenor de uma iluminura medieval.

Um Devoto de Baccho — Anónimo do século XIX

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O consumo do vinho é desde tempos ancestrais companhia para ocasiões festivas, conduzindo sem dificuldade da euforia à embriaguês ligeira, e motivo de celebração poética  desde a longínqua China à Europa.

A dependência do álcool e os comportamentos a ela associados são muito menos frequentes na poesia, e encontram-se na poesia portuguesa quando esta adoptou um ponto de vista realista, acompanhado de um julgamento moral, por finais do século XIX. É dessa época o poema anónimo que no final transcrevo.

No poema lemos, não a alegria eufórica de uma embriaguês pontual, mas o recurso ao vinho como forma de evasão à dureza do quotidiano:

Com uma garrafa do fino,

Faço frente ao meu destino,

E o mundo… deixo-o correr!…

 

Surge depois a descolagem da responsabilidade pessoal induzida por uma total dependência do álcool:

E eu… no chão, mesmo, deitado,

Durmo… e não me dá cuidado

O que vai… nem e que veml…

 

Narrado na primeira pessoa, se por um lado é a ligeireza eufórica da embriaguês que no seu ritmo a linguagem do poema reflecte, por outro, no desenvolvimento narrativo  do poema passamos das dificuldades da vida à forma como o vinho as dilui: Sofri muito… mas embora… / Graças ao bom vinho, agora / Já p’ra mim não há paixões! / …, fazendo parecer que estas desaparecem. E à medida que a alcoolização se consolida lemos a entrega total à depêndencia:

Dinheiro… tendo-o p’ra vinho,

Tenho tudo… e sou feliz!

Nunca mais me vi faminto!

 

O julgamento moral do homem surge quando o poeta refere a situação familiar do protagonista e o seu alheamento em relação à responsabilidade da sua causa, no que foi um estereótipo à época, provavelmente ancorado numa realidade frequente:

 

Quando a mulher se consome,

Vendo os filhos a chorar…

Coitados… porque têm fome,

E não há pão p’ra lhes dar;

Eu bebo… e, depois de quente,

Vejo-me alegre e contente,

Julgo que tudo vai bem!

 

 

 

Poema

 

Um Devoto de Baccho

 

Oh vinho!… Licor famoso!

A ventura devo-a a ti!

Quanto hoje no mundo gozo,

Quanto outrora padeci!

Na mais afanosa lida,

Creio, só, que, em toda a vida,

Nunca tive indigestões!…

Fomes… sedes… chuvas… frios…

Tudo atacava os meus brios,

E andei sempre aos trambolhões!

Sofri muito… mas embora…

Graças ao bom vinho, agora

Já p’ra mim não há paixões!

 

Já não sou pobre e mesquinho…

– Do meu rosto a cor o diz –

Dinheiro… tendo-o p’ra vinho,

Tenho tudo… e sou feliz!

Nunca mais me vi faminto!

Chuva… se cai… não a sinto…

Nem tornei a arrefecer!

Sem chorar a minha sorte,

Contra os revezes sou forte,

Nenhum me pode abater!

Com uma garrafa do fino,

Faço frente ao meu destino,

E o mundo… deixo-o correr!…

 

Quando a mulher se consome,

Vendo os filhos a chorar…

Coitados… porque têm fome,

E não há pão p’ra lhes dar;

Eu bebo… e, depois de quente,

Vejo-me alegre e contente,

Julgo que tudo vai bem!

Dizem que o dinheiro é raro,

Que o milho corre tão caro,

Que lhe não chega ninguém…

E eu… no chão, mesmo, deitado,

Durmo… e não me dá cuidado

O que vai… nem e que veml…

 

Transcrito de uma Folha Volante sem data nem autor, presumivelmente de final do séc XIX, atendendo à ortografia.

Transcrição com ortografia modernizada.

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma pintura de David Teniers o Jovem (1610-1690) – Três fumadores e bebedores no interior de uma taberna de meados do século XVII.

 

Em torno ao Livro de Rute

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Não sou conhecedor da Bíblia e muito menos um seu exegeta. Passeio por lá a espaços como por um livro de sabedoria. Paro muitas vezes no Livro de Rute, a história de uma mulher, ou antes uma história da mulher.

No Livro de Rute conta-se a história de Rute, estrangeira, viúva em terra do marido que morreu. Fez-se à vida, encontrou os homens, encontrou o homem a quem se entregou, e de quem recebeu o que procurava. É essa a história no seu essencial. Sendo embora uma história com valores, o bem e o mal surgem um pouco esbatidos, e quando o questionamento se coloca, são muitas as perguntas embaraçosas para a moral dos nossos dias.

Calo-me agora e deixo-vos com o que aconteceu, numa versão poética da sua parte final :

Agora não se diga mais entre nós “deixa-me”,
e nenhum dos nossos corações se afaste.
Eu irei para onde fores
e da tua morada faço também a minha.
Os teus irmãos e companheiros hoje recebo como meus,
o Deus da tua juventude, eu o amo profundamente.
E quando por fim a morte nos visitar
quero morrer na terra em que morreres
e ser sepultada perto de ti

O Senhor sabe: a vida me tratará com tristes rigores
se outra coisa que não a morte
esconda de meus olhos a graça do teu rosto
tão amado.
Tradução de José Tolentino de Almeida

O de Rute, é um destino de controvérsia há séculos, tal como contado neste livro de exemplos.

A peculiar forma como o casamento aqui é tratado, exigindo piruetas de interpretação para a fazer caber na indissolubilidade dos laços conjugais prosseguido pela igreja católica, não ajudou à sua leitura pacífica nas sociedades que a seguem, como a nossa.

Conta para a peculiaridade do Livro de Rute o exemplo de maternidade protagonizada pela sogra de Rute, Naomi, que a acolhe quando viúva, a aconselha sobre os homens, e mais tarde recebe como de sua família o filho de Rute e do novo marido, Boaz.

Temos em Rute o exemplo de uma Mulher que não se resigna à crueldade do destino, faz-se à vida e encontra de novo o homem com quem seguirá o resto do caminho.

Esta é uma história de integração social depois de ser uma história de integração familiar. A estrangeira, além do mais já “maculada” por um casamento, integra-se num clã onde é respeitada como igual. Como estamos afastados de praticas hindus em que a viúva era condenada a morrer com o marido na pira funerária.

É esta inclusão espelho de igual dignidade entre humanos. O caminho para integrar na nossa vida a dignidade humana tem sido longo, e o mais preocupante é não ser um valor adquirido pela humanidade, essa dignidade. A barbárie, a ganância, espreitam na esquina de qualquer distracção.

Esta simbólica mulher, Rute, tocou a imaginação poética de alguns e aqui vos deixo, primeiro um poema de Gabriela Mistral (1889-1957), no original em espanhol, onde se relata o encontro de Rute no caminho para a sua nova vida.

Ruth

I
Ruth moabita a espigar va a las eras,
aunque no tiene ni un campo mezquino.
Piensa que es Dios dueño de las praderas
y que ella espiga en un predio divino.

El sol caldeo su espalda acuchilla,
baña terrible su dorso inclinado;
arde de fiebre su leve mejilla,
y la fatiga le rinde el costado.

Booz se ha sentado en la parva abundosa.
El trigal es una onda infinita,
desde la sierra hasta donde él reposa,

que la abundancia ha cegado el camino…
Y en la onda de oro la Ruth moabita
viene, espigando, a encontrar su destino.

II
Booz miró a Ruth, y a los recolectores.
Dijo: “Dejad que recoja confiada”…
Y sonriendo los espigadores,
viendo del viejo la absorta Mirada…

Eran sus barbas dos sendas de flores,
su ojo dulzura, reposo el semblante;
su voz pasaba de alcor en alcores,
pero podía dormir a un infante…

Ruth lo miró de la planta a la frente,
y fue sus ojos saciados bajando,
como el que bebe en inmensa corriente…

Al regressar a la aldea, los mozos
que ella encontró la miraron temblando.
Pero en su sueño Booz fue su esposo…

III
Y aquella noche el patriarca en la era
viendo los astros que laten de anhelo,
recordó aquello que a Abraham prometiera
Jeová: más hijos que estrellas dio al cielo.

Y suspiró por su lecho baldío,
rezó llorando, e hizo sitio en la almohada
para la que, como baja el rocío,
hacia él vendría en la noche callada.

Ruth vio en los astros los ojos con llanto
de Booz llamándola, y estremecida,
dejó su lecho, y se fue por el campo…

Dormía el justo, hecho paz e belleza.
Ruth, más callada que espiga vencida,
puso en el pecho de Booz su cabeza.

Segue-se, para terminar, uma das baladas hebraicas de Else Lasker-Schüler (1869-1945) sobre Rute,3, em tradução de João Barrento.

Rute

E tu vens procurar-me às sebes
Oiço o soluçar dos teus passos
E os meus olhos são pesadas gotas escuras.

Na minha alma nascem as flores doces
Do teu olhar e ele enche-se
Quando os meus olhos se exilam para o sono.

Na minha terra,
Junto ao poço está um anjo:
Canta a canção do meu amor,
Canta a canção de Rute.

Estes poemas, ainda que muito belos, não esgotam de forma alguma os quatro capítulos do Livro de Rute, que integra o Antigo Testamento, e é, todo ele, um poema a justificar visita recorrente.

Para os leitores com curiosidade pela leitura do Livro de Rute, sugiro que procurem uma edição da Biblia, em tradução directa do hebraico, em detrimento da versão traduzida a partir da Vulgata Latina, e muito menos uma comentada versão por quaisquer padres da Igreja.

Nota Final

Este artigo foi inicialmente publicado aqui no blog em 23 de Outubro de 2012 e agora trazido outra vez ao encontro de novos leitores,

Comigo me desavim… e mais poesia de Francisco Sá de Miranda

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Francisco Sá de Miranda (1481-1558) gozou em vida do apreço dos contemporâneos simultaneamente como homem e como poeta. Frequentemente voz austera contra os desmandos dos poderosos do mundo, e as suas sátiras em forma de carta com destinatário são o testemunho eloquente, foi, para a poesia que hoje nos toca, um penetrante observador das complexidades do eu no que aos afectos respeita. É famoso e permanece na memória de quem o leu, o verso:

Comigo me desavim

 

Tomara muitos poetas deixar para as gerações tão só um verso desta penetração reflexiva na economia da sua expressão, dando conta dos conflitos que tão frequentemente nos assaltam.

Faço agora uma curta visita a esta poesia. Com o propósito de aclarar algumas expressões antigas ou o sentido de algum verso, acompanho os poemas de uma que outra nota.

Sá de Miranda foi o introdutor em Portugal da forma poética soneto, depois duma demorada viagem por Itália com cuja produção se familiarizou.
Comecemos, pois, esta viagem com aquele que será, porventura, o seu soneto mais conhecido, e obra-prima da poesia portuguesa, O sol é grande, caem co’ a calma as aves.
Reflexão densa sobre as mudanças da vida tal como as mudanças do tempo. Só que, com estas, pelo seu carácter cíclico tudo se renova, mas na vida o envelhecimento é sem retorno.

 

Soneto

O sol é grande(1), caem co’ a calma(2) as aves
Do tempo em tal sazão(3) que soi(4) ser fria:
Esta água, que d’alto cai(5), acordar-me-ia
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais, que ao vento as naves!(6)

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas e vi fontes e vi verdura,
As aves vi cantar todas d’amores.

Mudo e seco é já tudo e de mistura:
Também fazendo m’eu fui doutras cores(7)
E tudo o mais renova, isto é sem cura.

(1) Era Outono e a temperatura elevada
(2) Calor
(3) Estação do ano
(4) Costuma
(5) Perto de casa de Sá de Miranda existia uma cascata
(6) Como ao vento os navios
(7) Constata o próprio envelhecimento

 

Este soneto é a provável fonte de inspiração directa do famoso soneto de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, …

Seguem-se, para concluir a visita, trovas à maneira antiga, ou seja à maneira da poesia recolhida no Cancioneiro de Garcia de Resende.

Comecemos com uma comovente reflexão sobre as saudades de quem se ama: Todos estes campos cheios / são de saudade e pesar, /.
Quando a distância, por maior que seja não permite esquecer, — até quão longe se estende / o vosso poder em mim! — não há beleza em redor que se sobreponha à tristeza desse afastamento.
Estas reflexões vivem na Cantiga feita nos grandes campos de Roma a seguir transcrita:

 

Cantiga feita nos grandes campos de Roma

Por estes campos sem fim,
onde a vista assim se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende (1)?

Todos estes campos cheios
são de saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheios.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meio e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!

(1) se me defende – me é proibido

 

Na segunda trova reflecte o poeta sobre a vida despreocupada e as suas consequências: Tornou-se-me tudo em vento, / após tormento e tormento, / que eu passei cuidando em al(1);
Nela realça, com elegante concisão, como as suas consequências chegam bem antes da interiorização das más escolhas: enfim veo cedo o mal / e tarde o conhecimento.
Mas tem mais o poema: depois de olhar para si, o poeta olha em redor e diz: Vejo vir males maiores. / O tempo a que sou chegado!

 

**
Tornou-se-me tudo em vento,
após tormento e tormento,
que eu passei cuidando em al(1);
enfim veo cedo o mal
e tarde o conhecimento.
Eu assi desenganado,
Vejo vir males maiores.
O tempo a que sou chegado!
— que posso doer às dores,
e dar cuidado ao cuidado!

(1) outra coisa

 

Nesta outra trova, o poeta, desiludido do mundo e entregue à dor pessoal, contas feitas com a vida, apenas espera a morte: Em vão cá e lá cansei, / tudo me é tomado já; / agora descansarei, / ou me este mal matará; / se não… eu me matarei.

 

***
Mal, de que me eu contentei,
contas, rematadas já,
agora descansarei,
esta dor me matará;
se não… eu me matarei.

Nas cousas que não é meo (1)
é escusado cansar mais,
ir de receo em receo
e de sinais em sinais.
Em vão cá e lá cansei,
tudo me é tomado já;
agora descansarei,
ou me este mal matará;
se não… eu me matarei.

(1) Nas cousas que não podemos ultrapassar.

 

E finalmente a reflexão intemporal da luta consigo próprio e com a vida, obrigando a viver com as consequências das escolhas que pela vida fora se fazem.

 

****
Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo(1) espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo (2) de mim?

(1) mais
(2) inimigo

 

Abre o artigo um fragmento de uma pintura de Pietro Perugino (1450-1523), O combate entre amor e castidade.

Um poema de Vladimir Holan

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Quando a “dor não é de tamanho natural, / é sempre maior que o homem / e no entanto, deve alojar-se no seu coração“, estamos perante tempos muito duros.
Frequentemente, o optimismo que impregna a natureza humana, mesmo com a mais negra realidade, faz emergir a esperança. Não é assim no poema de Vladimir Holan (1905-1980), Mas, que à frente mostro, escrito nos anos negros do pós-WWII na Checoslováquia. Tempo absolutamente sem esperança o que o poeta viveu, afinal, como tudo, também teve o seu fim, embora o poeta não tenha chegado a conhecer a liberdade pós-1989. Liberdade que possuímos hoje na Europa Ocidental, ainda que seja frequentemente ameaçada pelo terror. Mas feito o luto, a vontade de a viver tem sido sempre mais forte. É preciso que assim continue, e que a alegria de viver não seja nunca “uma ténue memória que ecoa em nós.“.

 

 

 

Mas

O deus do canto e do riso há muito
fechou as portas da eternidade atrás de si.
Desde então apenas de vez enquando
uma ténue memória ecoa em nós.
E desde então só a dor
não é de tamanho natural,
é sempre maior que o homem
e no entanto, deve alojar-se no seu coração.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir da tradução inglesa.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), The red list, de 1970.

Odor di femina — soneto de Gonçalves Crespo

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Apenas aos curiosos são concedidas as alegrias do inesperado. Mas cuidado! Como é sabido, a curiosidade pode matar. Era de alguma forma o que estava na essência do romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa: folhear o livro proibido envenena o corpo, além da alma.

O romantismo deu-nos uma imagem da idade média que a custo desde a segunda metade do século XX os historiadores têm tentado desmistificar. Uma dessa as imagens teve a ver com a forma como a mulher era olhada e integrada na sociedade: Evas que levavam o homem ao pecado e o condenavam ao inferno pela eternidade.

Na verdade, livros e interditos têm uma história entrelaçada, e no seu exagero lapidar, o soneto de Gonçalves Crespo (1846-1883) que à frente transcrevo, Odor di femina, dá disso mesmo conta. Através de um livro, não do seu texto mas do seu conteúdo, o poema ironiza sobre o fantasma diabólico da mulher, embora sem remeter directamente para a idade média, mas fazendo do protagonista do soneto, um frade, santo homem, e por isso mesmo educado nessa visão da mulher como transmissora de pecado mortal até ao último cabelo.
Simultaneamente, o título do poema remete o conhecedor para uma famosa fala de D. Giovanni no primeiro acto da ópera de Mozart do mesmo nome. E aqui temos, na sua multiplicidade de leituras, a memória do galã sedutor a quem nenhuma mulher escapa, e nada faria morrer a não ser a sua recusa ao arrependimento por matar, sem escrúpulos, alguém que se intrometeu na sua conquista feminil. Mas essa é história que outro dia virá. Agora deixo-vos com o fatal destino do santo frade apanhado na armadilha dos livros.

 

Odor di femina

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguém ma disse, explique-a quem puder.

Conste que um bibliófilo comprara
O livro estranho, e que ao abri-lo achara
Uns dourados cabelos de mulher…

 

in Obras Completas, Tavares Cardoso & Irmão Editores, Lisboa, 1897.

 

Nota final

O soneto integra a escolha de Fidelino de Figueiredo, Os Melhores Sonetos da Língua Portuguesa desde Sá de Miranda, ed 1907.

Abre o artigo um fragmento de uma pintura de Hans Baldung (1480-1545), As sete idades da mulher.
Com efeito, nunca saberemos se seria nova, velha, ou de meia idade, a possuidora do cabelo que matou o desprevenido frade. Por outro lado, sabemos que a D. Giovanni, a idade das mulheres, para o interessarem, nunca foi relevante…

O Viandante — poema de Carlos de Oliveira

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Há uma precisão cirúrgica na poesia de Carlos de Oliveira (1921-1981). As palavras cortam como estilete afiado, dilacerando o leitor com a realidade que devolvem. São frequentemente poemas onde o verso, na sua medida exacta, transmite o mais lídimo conceito de poesia, qual seja este poema O Viandante, que a seguir transcrevo.

 

O Viandante

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

 

Se, felizmente, a realidade próxima, raíz deste poema, um certo Portugal até finais dos anos 50, desapareceu, esta miséria extrema de que o poema pungentemente fala, grassas pelo mundo, sobretudo em África, sem que os países desenvolvidos consigam contribuir para uma solução que a extinga.

No entanto, como em toda a poesia intemporal, multiplas são situações em que sentimos em nós o que o poeta refere a concluir o poema:

Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Florian Maiorescu – People IV 2008, de colecção particular.