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O que conhecemos, o que sabemos, o que sentimos, é sempre singular e diverso na sua apreensão pessoal, como diversa é a forma de o transmitir; mas o instrumento de excelência dessa comunicação é a palavra.
É a palavra que nos permite ter a consciência detalhada do mundo que nos envolve, ou como diz o poeta de hoje [preencher o] vácuo espaço entre mim e o mundo, e dessa apreensão dar aos outros conhecimento. Seja discurso, conversa, ou poesia, o propósito é sempre igual: dar voz a um conhecimento, e consciência dele, que importa ou apetece transmitir. E o instrumento é sempre o mesmo: a palavra.


Em dois poemas de Gottfried Benn (1886-1956) que a seguir transcrevo é exactamente sobre esse propósito essencial que o poeta reflecte. Outras linguagens que não a palavra existem, todos o sabemos, mas nenhuma outra reúne a capacidade do detalhe e variação de perspectiva que a palavra, através do discurso articulado, permite.

 

 

Um Homem Fala

 

Aqui não há consolo. Vê, como a terra
acorda também de suas febres.
Mal brilham ainda algumas dálias. Está devastada
como depois de uma batalha a cavalo.
Oiço a abalada no meu sangue.
Tu — meus olhos bebem já
os azuis das colinas distantes.
Algo toca de leve as minhas fontes.

 

Tradução de Vasco Graça Moura
in Gottfried Benn, 50 Poemas, Relógio d’Água, Lisboa, 1998.

 

 

 

Ein wort…

 

Uma palavra vem — dos signos brota
apercebida vida, abrupto senso,
o sol detêm-se, esferas são silentes,
e tudo se concentra à sua volta.

 

Uma palavra — brilho, voo, fogo,
língua de chama, estrela cadente
— e a treva monstruosa que regressa
no vácuo espaço entre mim e o mundo.

 

 

Tradução de Jorge de Sena
in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

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